ensino de jornalismo: o que esperar?

Acho que, aqui no Brasil, discutimos pouco o ensino de jornalismo. Acho não, tenho certeza.

Prova maior é a rara bibliografia que temos sobre o assunto, a escassez de eventos que se debrucem sobre essa problemática e a quase inexistência de canais para difundir debates e ideias.

Sim, há poucos livros sobre ensino de jornalismo em particular e de comunicação em geral. E isso reflete o fato de que temos pouca gente pesquisando e pensando mais detidamente isso. Sim, exceto pelos encontros do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo e por algumas iniciativas da Intercom, quase não vemos por aí eventos que discutam pedagogias, didáticas, materiais e estratégias de ensino. Sim, também são poucas as revistas científicas que tratam de ensino. A revista “Educação e Comunicação”, editada pela ECA/USP desde 1994, é uma das exceções raras. A “Revista Brasileira de Ensino de Jornalismo (Rebej)”, do FNPJ, por sua vez, não sai há anos e parece ter desaparecido antes mesmo de se tornar uma referência para a área.

Combinados, esses fatores contribuem para um preocupante marasmo no campo da Comunicação em geral e no Jornalismo em particular.

Para os desavisados, ingênuos e recém-chegados, a ilusão é de que está tudo bem com o ensino, e que nossas escolas são referências internacionais na formação dos profissionais. Diante da maravilha, só o paraíso.

Mas sabem professores e alunos, pesquisadores ou não, que o ensino da área carece ainda de muita discussão, de estudos aprofundados, da circulação de experiências bem sucedidas, do compartilhamento de práticas inovadoras, e da adoção de novos paradigmas que sustentem um ensino efetivo e transformador.

E como é que se convence a comunidade acadêmica a fazer isso?

Não sei.

Só sei que é necessário. E urgente. E vejo que outros países transformam a preocupação em ação. Esta semana, por exemplo, dois contundentes e relevantes textos circularam em sites norte-americanos. Seth C. Lewis se perguntou no Nieman JournalismLab, da Universidade de Harvard: “Pra que servem as escolas de jornalismo?” A questão de Lewis vem do Texas, mas vai além do Canal do Panamá e se espalha por toda a parte… Da Califórnia, Dan Gillmor se arrisca em responder, apontando para o que suas notas rascunham: “O futuro do ensino de jornalismo”.

É certo que as realidades brasileira e norte-americana são muito distintas, e seus sistemas de ensino mais ainda. Mas é interessante ver o que os professores de lá pensam, e como pensam suas escolas. Aqui, as interlocuções parecem ainda muito restritas e eu gostaria que fosse diferente. Isso porque meu palpite é de que teremos um jornalismo melhor quando estivermos abastecendo o mercado de trabalho com grandes contigentes de excelentes ex-alunos. Eles é que podem mudar nossas redações e nossa mídia, não posts angustiados como este…

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10 comentários sobre “ensino de jornalismo: o que esperar?

    • hehehehe… Marcelo, você é um provocador!
      Eu não disse que o ensino de jornalismo por aqui era melhor que o de lá. Só disse que discutimos pouco esse assunto, menos do que poderíamos e deveríamos….

  1. Tirando a parte que “diante da maravilha, só o paraíso”, o mesmo se aplica a Portugal. Pode ser que com o trabalho da recém-criada A3ES (Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior) isso aconteça.

    • Jerónimo, a criação de sistemas de avaliação do ensino é um passo importante, mas não se pode esperar que ele funcione por si mesmo. De qualquer maneira, tomara que a coisa melhore por aí.

      abraço transatlântico

      • É certamente um passo importante – obriga, no mínimo, os responsáveis pelos cursos a pararem e reflectirem sobre antes, durante e após graduação.

        A questão é que muitos cursos não têm, infelizmente, um plano estratégico (a acção da A3ES, numa primeira fase, será “ao de leve”, isto é, penalizar aqueles que são manifestamente maus, para o ano vair começar a doer mais). Não sou profundo conhecedor, mas tenho feito algumas leituras e estado minimamente atento ao fenómeno.

        Aproveito para sugerir o “European Journalism Education” (Terzis, Georgios – Org., 2009), lançado em Novembro, que conta com um capítulo sobre Portugal. Enfim, mais um elemento para esta temática, sobre a qual também irei escrever no jornalices.com.

        CiberCumprimentos de Portugal

  2. A começar pela falta de uma política de mapeamento da demanda do mercado por parte da CAPES e do MEC e posterior distribuição de instituições de ensino e, sobretudo, de professores pelo país em todos os cursos de Comunicação, além da exigência insana de doutorado em todo e qualquer concurso, o própro Governo Federal e a mentalidade de seleção dos próprios pares pelos coordenadores de cursos acabam contribuindo para a preservação da seleção pela escassez, mantendo um modelo excludente.

    Ao mesmo tempo, não há intercâmbio PEDAGÓGICO nem disciplinas de Pedagogia na maioria dos PPGs em Comunicação. Essa é uma lacuna que faz muita falta – sobretudo para aqueles PPGs que pleiteiam obter um 6 na próxima avaliação da CAPES.

    Falo sobre isso em função da dificuldade que encontro para me colocar:

    http://heliopaz.com/2009/08/28/apelo-a-mec-capes-cnpq-ppgs-em-comunicacao-e-universidades-em-geral/

    []‘s,
    Hélio

    • Hélio, você enumera outros fatores que tornam a situação mais aguda ainda.
      Tá vendo como a solução não é fácil?

      abs

  3. Pingback: Jerónimo's Blog | multiMedia Things

  4. Pingback: O que esperar sobre o ensino de jornalismo? :: Luneta Digital :: Uma outra visão sobre comunicação digital – Cursos, ferramentas, palestras e muito mais

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