Marcado: confessionais

o que fica de um mestre?

Escrevo este post sob a frieza de uma notícia triste: morreu em Penápolis, no interior de São Paulo, o professor José Fulanetti de Nadai. Fulanetti foi professor dos cursos de Comunicação na Unesp, em Bauru, no início da década de 1990, e tive o privilégio de ser seu aluno.

Apesar de não ter tido nenhuma intimidade com ele, não erro em dizer que ele era admirável. Dele me vêm à memória três momentos, três partículas do que ele era, ao menos para mim. Um homem sincero, simples e inspirador.

Uma vez, ele dava aulas numa daquelas imensas salas do campus que mais pareciam auditórios. Ele estava numa espécie de tablado de concreto, próximo à lousa. Eu na primeira fila, à direita. Ele fumava sem parar, separando as frases bem pesadas entre as tragadas. Com impressionante propriedade, flanava entre Walter Benjamin e os funcionalistas. Eu, na altura dos 19 anos, sabedor de meus direitos e doutor em boas maneiras, exibi para ele uma página de caderno com uma mensagem escrita a caneta: “por favor, não fume”. Mesmo na fila do gargarejo, eu estava a uns três metros dele e as baforadas se esvaneciam completamente antes de chegar até mim. Mesmo assim, insisti na picuinha. Ele parou de falar, perguntou se eu tinha alergia ou qualquer coisa do tipo. Respondi com essa empáfia que a gente tem na adolescência: “Não, é que eu preferia que o senhor não fumasse”. Ele sorriu e disse: “Eu gostaria de fumar, você não. Temos um problema aqui”. Sorriu de novo, tragou e apagou o cigarro para não mais fumar naquela turma. À época, senti idiotamente uma nesga de orgulho pela minha “atitude”. Só depois fui entender que quem me ensinou com aquilo tudo foi ele, me mostrando um respeito ao pensamento diferente que pouco se vê por aí.

Noutra vez, ele dava aulas de reposição por conta das constantes greves da Unesp naqueles tempos. Era sábado de manhã, havia sol e a turma estava simplesmente hipnotizada com a sua verve, com a facilidade com que pulava de um assunto a outro, todos muito eruditos para nós. De repente, ele para de falar, e um lindo passarinho amarelo pousa na entrada da sala. O bichinho volta a cabeça ao Fulanetti e solta um pio, como se o cumprimentasse. Ele sorri, todos ficam estupefatos, e continua a falar. O passarinho assistiu mais um pouquinho da aula e logo foi embora. Fulanetti era mesmo encantador.

Pouco depois, ele deixou os cursos de Comunicação da Unesp para voltar a lecionar no ensino médio e fundamental em outra cidade. Simples assim. Deixou os píncaros da glória do ensino superior para ensinar na base, onde as pessoas estão sendo inicialmente formadas. O Fulanetti era assim: desprendido e jamais vaidoso.

Câncer no pulmão, enfisema e outras complicações tiraram o Fulanetti das salas de aula. Eu nunca tive a oportunidade de dizer a ele o quanto o admirava e o quanto ele serve de modelo para alguns dos meus gestos. A vida é curta demais e nem sempre a gente diz tudo o que sente. Sou professor há catorze anos e devo ficar nesse negócio por mais uns tempos. Um dia quero ser como o Fulanetti. Um dia quero poder espalhar essas sementes que ele tão bem guardava no bolsa da camisa, junto ao maço de cigarros.

urano vai ao sesc

Não assistiu ao espetáculo Urano Quer Mudar? Pois é, não tem mais desculpas…

Se ainda não tinha visto porque as apresentações tinham ingressos limitados, alegre-se: agora, há mais lugares!

Se ainda não tinha conferido porque as sessões foram no Campeche e você mora longe, rejubile-se: agora, é no centro!

Se ainda não tinha assistido porque estava sem dinheiro, seus problemas acabaram: é de graça!

Então, vá ver!

Urano Quer Mudar terá apresentações hoje (sábado,13) e amanhã (domingo, 14) às 20 horas no Sesc-Prainha, bem no centro de Florianópolis. Os ingressos são gratuitos e devem ser retirados uma hora antes no local. No elenco, os ótimos Margarida Baird e José Ronaldo Faleiro, do Círculo Artístico Teodora; na direção, Brigida Miranda, com assistência de Fábio Yokomizo; canções de Ana Laux; direção de arte de Paulo Henrique Wolf; iluminação de Ivo Godois; produção executiva de Claudia Venturi; e texto deste blogueiro…

O enredo? Um casal de atores prepara a mudança de casa, e redescobre o texto de um espetáculo que nunca chegaram a montar. Envolvidos nas lembranças de mais de cinquenta anos de palcos, eles passam a viver a história de um amor improvável que se passa em um cemitério. Memória ou invenção? Vida ou morte? Mudança ou destino? Quem se atreve a responder antes do caminhão de frete chegar?

Se você já viu a peça e gostou, vá ver novamente, e indique aos amigos.Se não gostou, já sabe: indique aos inimigos…

lá se foi o marinho…

Sou bem antigo para algumas coisas. Só corto cabelo em barbeiro, por exemplo. E escolho a dedo aquele que vai empunhar uma navalha pra aparar minhas costeletas. Machismo declarado, e no bom sentido. Aquele em que se espalha pelo chão do salão como as madeixas dos clientes… No barbeiro, viceja um ambiente cru e rude, mas fraterno e amigável. Os homens não vão ao barbeiro por vã vaidade, mas por higiene e… todos os assuntos que se pode ter num salão de barbeiro…

Em Florianópolis, corto os (poucos) cabelos no mesmo lugar desde o final dos anos 90… Mas em outras cidades onde vivi também frequentava barbeiros. Em Itajaí, por exemplo, eu ia no Marinho, que ficava bem próximo à praça da catedral. O ambiente era antigo, não tão limpo, mas autêntico. Marinho tinha cabelos brancos penteados pra trás, olhos claros e o rosto vincado. Não era alto, e falava muito baixo. Na verdade, quase nunca falava, embora eu tentasse puxar conversa. Ele resmungava alguma coisa e continuava o tique-tique-tique da tesoura. Era caprichosíssimo, mas caladão. Um dia, apareci por lá e ele estava de cabelos pintados de acaju. Manguei com ele. O que ele disse? Nada. Me olhou com aquela cara fechada. Desviei o olhar para a tesoura na mão dele e temi que ele se descuidasse. Mas o Marinho nunca se descuidava.

O salão tinha uma freguesia cativa, que ia de gente muito simples a figurões que estacionavam suas caminhonetes na frente da barbearia. Chovesse ou fizesse sol, o salão estava sintonizado numa rádio popular, em altos decibéis. Marinho, às vezes, aspergia um refrão sertanejo ou um scatch de funk. Isso mesmo! Marinho sabia das coisas.

Por um corte de cabelo masculino – ele só atendia clientes deste sexo! -, cobrava míseros cinco reais, quando a concorrência colocava seu preço quatro vezes mais. Marinho não ligava. Uma vez, levantei da cadeira tão satisfeito que dei uma nota de vinte e disse que estava certo. Ele me olhou com uma cara de jagunço-matador e me deu o troco sem dizer nada. Desviei o olhar para a tesoura que estava na outra mão dele, temendo por algum descuido. Mas o Marinho nunca se descuidava. Tanto é que morreu no início da semana, conforme me contou o amigo Carlos Praxedes. Morreu dormindo. Esticou a soneca. São Pedro e os anjos lá no céu estão com sorte…

perdi três amigos

A vida apronta cada uma pra gente, viu?

Hoje, de forma melancólica, acabei perdendo três queridos amigos. Eles eram muito, muito próximos a mim. Tínhamos uma relação desde a adolescência e posso dizer que crescemos juntos. Eram duros, mas discretos. E o que é pior: ultimamente formou-se uma verdadeira campanha de difamação contra eles. Diziam que não serviam pra mais nada e que o melhor mesmo seria… vocês sabem…

Foi assim – com hora marcada e de uma forma atroz – que o dentista veio e extraiu três dos meus sisos. Já sinto a falta deles, e é uma dor nada metafórica…

é da lata!

Se você tem mais de trinta vai se lembrar do “verão da lata”, né? Até saiu livro outro dia, contando o caso de milhares de latas de maconha prensada que “invadiram” o Rio de Janeiro, trazendo preocupação às autoridades e alegria para outras camadas sociais…

Pois não é que o imaginário popular ainda tem sérias desconfianças com latas? Ontem, retornando de viagem, fui abordado de forma muito simpática pela segurança do aeroporto de Congonhas. A moça – que mais parecia o Maguila por sua docilidade e porte atlético – rosnou logo que minha mochila passou pelo raio-X: “De quem é essa aqui?” Ergui o dedinho e murmurei: “É minha, moça!” Com as mãozinhas na cintura, ela rugiu: “É que tem uma lata aí dentro”. “É, tem”. “Que é que tem dentro da lata?!”, berrou, abalando uma pilastra do terminal. Um segundo é muito tempo e pensei em três respostas para a agente de segurança: 1) “Tem 800 gramas de cocaína, bruaca!”; 2) “É Nescau, dona, sou traficante de Nescau!”; 3) “Vaselina, doçura. A lata está cheia de vaselina e você sabe pra quê…”. Mas sou um cara educado e soltei um cândido: “Doce de leite, moça! Tô vindo de Minas”.

doce_pequeno_medalhaAntes de me encostar contra a parede e dar uma geral, a segurança disse de forma amável: “Vai ter que abrir!” Sorri amarelo, abri a mochila, e exibi com um misto de vergonha – tinha uma fila atrás de mim – e orgulho a lata. Era um exemplar do mundialmente famoso Doce de Leite de Viçosa, premiado no mercado, adorado por multidões, quase canonizado pela diocese local. Um segundo é muito tempo e me imaginei levantando a lata como Cafu fez em 2002, chuva de papel picado, flashs, We are the champion, urros de alegria… mas voltei à realidade.

Com os caninos à mostra, a segurança pareceu ter se convencido. Mas hesitou. Um segundo é tempo demais, e temi que ela fosse confiscar minha desejada lata e eu voltaria para casa apenas com o queijo meia-cura que comprara em Mariana. Mas voltei à realidade, guardei a lata e segui pelo saguão driblando a segurança, meia dúzia de turistas polacos, um cara de turbante e um anão de barbicha loira. Só saí do meu transe quando uma senhora disse de lado: “Preconceito ca lata, né mes?!”, disse em bom mineirês. Sorri amarelo, me dei conta do ocorrido e deixei escapar um pensamento político: Os mineiros deveriam se insurgir com coisas do tipo. Viu o que os cariocas fizeram com os royalties do petróleo?

e o amor, hein?

Outro dia, em Congonhas, na banca de revistas, passo por um rapaz com uma mochila nas costas. Percebo o zíper aberto, e reconheço o sujeito: “Criolo, sua bolsa está aberta!”. Ele se volta sorridente: “Obrigado, meu querido!”.

Eu o chamei de “Criolo”, e ele de “meu querido”. Contei o episódio à minha esposa, e ela se escandalizou com a minha forma de tratamento. Expliquei quem ele era, e tudo terminou bem. “Ele te conhecia?”, ela perguntou. Eu sorri balançando a cabeça. “Ele só foi gentil”. Alguém já falou que gentileza é um outro nome para o amor. Um tipo dele. Aliás, é o próprio Criolo quem já fez um belo apelo para mais amor… Vale!

a semana morta

Não, esse título é ambíguo. Parece que nada aconteceu nesses dias, que tudo estava parado. Mas parece também que a semana estava ligada à morte, ao fim. E é isso o que eu queria ter escrito, sei lá. Só sei que este post me escapa pelos poros, sem muito raciocinar, e a plenos pulmões. A plenos pulmões, com a espinha eriçada, já que um arrepio percore o corpo. Tudo porque assisto à semana passar e ela, coalhada de mortes. coalhada.

Na segunda, soube pelo Facebook que a mãe de 82 anos de uma amiga deixara de respirar. Minutos depois, numa lista eletrônica, sou informado de que é o pai de um amigo que também havia desembarcado do mundo. No final da noite, um telefonema revira a minha programação, e saio às pressas para o velório da mãe de outro querido amigo. Ela tinha 92 anos, e eu fiquei quase quatro horas ali, pensando na vida e na morte. Três amigos, três mortes de seus parentes.

Ontem, os telejornais nos chacoalharam com o fim da agonia de Hugo Chávez; e hoje, somos acordados pela mídia com a morte esquisita de Chorão. Que semana de acontecimentos tétricos! Que semana de saídas de cena!

É claro que a morte é inexorável, implacável e impiedosa. Basta estar vivo para morrer, diz a minha mãe. É uma certeza que a gente vai embora algum dia, mas sempre somos sacudidos por ela. Como se quiséssemos sepultar essa certeza; como se quiséssemos enterrar essa verdade. Que semana morta! E ela nem terminou… Quanto de ironia e ambiguidade há nisso tudo…