De partida para o espaço sideral, Cooper dá um relógio para a filha Murphy, de 10 anos, e sincroniza com o que está em seu pulso. Para onde eu vou, o tempo passa muito devagar. Quando eu voltar, talvez a gente tenha a mesma idade, ele diz.

Muitos anos depois, Murphy manda uma mensagem para a nave do pai. Agora eu já tenho a sua idade, e talvez seja o momento de você voltar, diz aos prantos.

As cenas são de Interestelar, filme de 2014, dirigido por Christopher Nolan. Elas exploram elementos de física teórica sobre a relatividade do tempo em situações singulares. É um filme sci-fi de grande carga emotiva e dramática, e gosto de vê-lo com meu filho.

Meu pai morreu aos 48 anos, e eu cheguei a essa mesma idade na semana passada. Há um ano atrás, fiquei aflito de não conseguir alcançá-lo. Fiz exames, mudei hábitos, sempre com a esperança de que isso garantisse encontrá-lo em uma esquina do tempo. As mudanças ajudaram, claro, mas sabemos que não asseguram por completo. A vida é misteriosa e cheguei até aqui por mil outros motivos.

Meu pai morreu com 48 anos e 17 dias. O plano agora é ultrapassá-lo. Falta pouco, mas nunca se sabe.

De repente, me lembrei de Valter Hugo Mãe que oferece ao próprio pai o seu A máquina de fazer espanhóis. Ele dedica o livro àquele que “não viveu a terceira idade”.

Sem o relógio de Murphy, fico aqui pensando: Quantas idades vou completar?

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