O tempo de confinamento deste ano me levou a mergulhar em leituras. Nunca li tanto e eu me deparei com tanta coisa boa!

Para além de teses, dissertações, livros e artigos – que são material de trabalho, e às vezes até prazeroso -, passei por ficção científica, terror, suspense, quadrinhos, política, direito e um ou outro clássico. Viver numa casa grande, lotada de livros, foi um privilégio infinito, e muitas vezes, imaginei estar dentro de um bunker. Com centenas de CDs e HQs e dezenas de DVDs, eu teria diversão e conhecimento para umas duas vidas…

Para este leitor, 2020 foi um ano bom, e os meus cinco melhores momentos neste tempo foram:

O escultor – Scott McCloud
Sabe quando você compra um livro e esquece ele na estante? Aí, redescobre anos depois, lê e inebria? Foi assim com essa graphic novel de Scott McCloud, que não só explora a linguagem dos quadrinhos como poucos como também aquece seu coração com uma sensível discussão sobre vida, morte e arte. É profundo e impecável esteticamente, e acredite: o artista faz isso com uma econômica paleta de azuis…

A resistência – Julian Fuks
Estava muito curioso para conhecer a literatura dele, mas confesso que uma suposta autoficção de um autor branco, classe média, hétero, na casa dos 30/40, me fazia torcer o nariz. Não vá por aí. Fuks tem um timbre de voz envolvente neste drama familiar que trata de exílios geográficos e afetivos. É um olhar distinto sobre a fraternidade, sobre o amor que se herda dos pais aos irmãos, e dos silêncios que preenchem as distâncias que nos separamos deles. Gostei tanto que engatei a leitura de A Ocupação, que também é muito bom, mas levemente disperso nas três histórias que ele entrelaça…

Falso Espelho – Jia Tolentino
De vez em quando me assombro com alguns autores, e foi assim com ela, uma colunista norte-americana jovem e com um olhar potente e distinto. Mesclando experiências pessoais de quem viveu os hypes internéticos e de celebridades, Jia faz uma crítica social moderna, pulsante, certeira, sem as longas e sonolentas citações que muitos usam como muletas. O leitor atravessa os ensaios do livro e fica, ao final, com uma grande vontade de encontrar com a autora num café descompromissado de esquina. Apenas para ouvir suas impressões sobre as manchetes dos portais, as cenas da cidade e a fauna que nos cerca.

A hora da estrela – Clarice Lispector
Esta moça que fez 100 anos este ano não me é uma completa estranha, mas não é que toda vez ela me dá uma rasteira? Com elegância dissimulada, Clarice provoca em mim um efeito muito necessário sempre: ela congela o tempo e o ansioso aqui passa a olhar as coisas com mais cuidado e atenção. Como ela retira tanto literatura de um nada? Como ela torna alguém tão insípida uma personagem tão interessante e hipnotizante? Eu já conheci algumas Macabéas nesta vida, mas nenhuma Clarice…

O fim da infância – Arthur C. Clarke
No meio da pandemia, eu quis morar nesta história em que fazemos contatos com seres alienígenas. Era uma história do passado – anos 50? -, mas era uma história de futuro também, dessas que a gente quer e não quer realizar. Depois de Asimov e de Bradbury, reservo pouco espaço no meu lobo cerebral dedicado aos futuros, pois desconheço quem tão bem os esculpa. Mas O fim da infância cavou uma cratera aqui, minha gente…

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