volver a mirar

Até que demorei a ver Volver, de Almodovar.

No filme, Penelope Cruz é Raimunda, uma espécie de Erin Brokovich espanhola, chorona, cheia de garra e transbordando drama. No melhor estilo do diretor de Kika e Ata-me, Volver traz dramalhões, roteiro com reviravoltas de lombriga e uma história lotada de mulheres fortes e verdadeiras.

Para mim, Almodovar é o cineasta mais autoral do mundo. Em dois minutos, a gente identifica se um filme é dele ou não. Seja pela estética, pelo roteiro, pelas personagens, pelas mulheres.

Por falar em estética e mulheres, Penelope Cruz está linda, apaixonante, encantadora. Até quando chora. A atriz esbanja o charme que só as mulheres com mais de trinta podem ter.

alegria

Ontem mesmo, devorei A alegria, livrinho editado pela Publifolha que reúne catorze ficções e um ensaio. Tudo sobre ela, ou o que dela sobrou. Isso porque as curtas histórias – por uma exceção ou outra – tratam a alegria num tempo passado, na memória, no seu rastro. Raro é quando a gente enxerga no presente, no momento da contação da história.

Sinal dos tempos? Talvez.

Talvez a alegria seja mesmo uma coisa velha, inchada de cupins. Que ela é efêmera, isso fica evidente nos textos de Fernando Bonassi, Milton Hatoum, Moacir Scliar, João Gilberto Noll, Luiz Vilela e outros.

Mas note que eu disse “alegria” e não “felicidade”. Não confunda as duas. São parentes, mas não são a mesma. (Como a sua irmã e a sua prima. Basta dançar com as duas para saber a diferença).

Sabe que eu ganhei A alegria numa noite triste de sábado? Ela fora comprada a R$ 9,90 nas Lojas Americanas, nesses milagres que só o capitalismo oferece: conseguir a alegria a preço de liqüidação.

Mas sabe que ler o livro me arrancou uns risinhos marotos…

desenvolvimento da linguagem e uma experiência pessoal

No final dos anos 90, quando fazia mestrado em Lingüística na UFSC, ouvia maravilhado o relato de um debate entre Noam Chomsky e Jean Piaget. O lingüista e queridinho da esquerda norte-americana contestava a tese do suíço de que as crianças imitavam seus pais e por isso, desenvolviam seus sistemas de linguagem. Piaget batia o pé. Chomsky, isso nos anos 60, batia também. No final das contas, Chomsky pareceu ter vencido com uma espetacular pergunta que desconcertou o papa da educação. Foi mais ou menos assim:

“Ok. Então, mister Piaget, me explique uma coisa. Se as crianças aprendem imitando os pais, por que elas dizem ‘eu sabo’ ou ‘eu fazo’? Ora, não conheço pai ou mãe nenhuns que dizem isso? A quem as crianças estão imitando?”

A explicação de Chomsky era de que as crianças traziam em sua cabecinha as regras de uma gramática universal e, a partir de um determinado momento em suas vidas, passavam a aplicar essas regras, mesmo que elas fossem “incorretas gramaticalmente”. Assim, se a criança ouviu “Ele sabia”, é natural pensar que o correto seja “Eu sabo”…

Esta semana, me deliciei com meu filho de quase três anos. Ele insiste em dizer “ponhar” ao invés de “pôr”.

A mãe dele o corrige. Eu não. Hihihi

pós-humanismo

Dois links para quem se interessa sobre o que vem depois do que conhecemos por Humano.

1. Francisco Rüdiger publicou recentemente um artigo que faz uma boa revisão do termo pós-humanismo e das teorias que o sustentam. Me pareceu um bom começo. Pelo menos minha parte humana aprendeu muito com ele.

2. A revista Reconstruction editou em 2004 uma edição especial sobre o pós-humanismo.

(Conheça antes da extinção)

chamada de textos

O Observatório Mídia&Política (www.midiaepolitica.unb.br) organiza para o início do mês de julho de 2007, uma edição especial sobre o governo FHC na mídia.  

Os interessados em colaborar com o site podem enviar artigos de até 1.000 palavras para os editores do site.

Veja:

Luiz Gonzaga Motta: luizmottaunb@yahoo.com.br

Thaïs de Mendonça Jorge: thaisdemendonca@uol.com.br

Fábio Pereira : fabiop@gmail.com

dois filmes

Esta semana, vi o filme que deve representar o Brasil no Oscar 2007: Cinema, aspirinas e urubus. Vi em DVD, o que me deixou ir e voltar em algumas cenas e perceber detalhes que nos escapam no frenesi da telona.

Os cem minutos de duração parecem uma eternidade: o tempo parado no meio do sertão nordestino, no meio do nada, no meio da Segunda Guerra Mundial que chacoalha a Europa em 1942. A luz estourada lembra ao Cinema Novo. A paisagem paupérrima lembra à estética da fome. O choque cultural entre o alemão-que-cruza-o-país-vendendo-aspirinas e o sertanejo-esperto-malemolente-pedro-malazarte lembra a tantos outros filmes étnicos…

É bom? É ótimo. Mas não gostei. Não é que tenha desgostado, mas é que não me pegou. E olha que sou devoto de são Glauber Rocha…

***

Vi hoje o Homem Aranha 3. Foi no cinema, e com meu filho de quase-três-anos e minha mulher.

Não se comparam os dois filmes, afinal são dois planetas diferentes. Mas a trama deste terceiro é melhor que as anteriores. Os efeitos são primorosos, e a gente até chega a torcer pro herói. É bom? Num certo sentido, é. Gostei? Num certo sentido, me diverti. Mas Homem Aranha 3 é menos cinema que Cinema, aspirinas e urubus.

***

Entre o que é bom e o que a gente gosta há uma boa distância.

Entre o que é bom e o que nos diverte, há outra.

***