escola base: um novo capítulo

Reproduzo matéria do Portal Imprensa:

Grupo Folha da Manhã é condenado a indenizar garoto envolvido no caso Escola Base

28/05/2008 |
Redação
Portal Imprensa

O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) condenou, 14 anos depois, o Grupo Folha da Manhã no caso da Escola Base. Para o TJ, o jornal usou uma manchete escandalosa e sensacionalista que extrapolou a liberdade de informar, e não resguardou a honra moral de uma criança de quatro anos.

Em março de 1994, o jornal Folha da Tarde, assim como outros veículos de comunicação, afirmou – com informações repassadas pelo delegado que conduzia o inquérito policial, a partir dos depoimentos de duas mães de alunos – que seis pessoas estavam envolvidas no abuso sexual de crianças numa escola de educação infantil, localizada no bairro da Aclimação.

O jornal saiu com a chamada de primeira página: “Perua escolar carregava as crianças para a orgia”. A empresa terá de pagar indenização de R$ 200 mil para o garoto R.F.N, que hoje tem 18 anos. Ele foi apontado pelo jornal como vítima de abuso sexual dos próprios pais.

A empresa Folha da Manhã sustentou que a manchete se limitou a reproduzir as informações oficiais, tomando todo o cuidado para evitar pré-julgamentos ou especulações de ordem subjetiva, e que não existiria prova de dano moral. Mas a Justiça entendeu de forma contrária.

Outras empresas de comunicação já sofreram condenação pelas notícias divulgadas na época, que resultaram no fechamento da escola, na prisão e no julgamento público de inocentes. A Folha de S.Paulo e o Estado de S.Paulo foram condenados a pagar R$ 750 mil, a Rede Globo R$ 1,35 milhão, e a Editora Três, responsável pela publicação da revista IstoÉ, R$ 360 mil.

Na área cível, várias ações foram propostas. A primeira delas, contra o Estado, para pedir indenização por danos morais e materiais. Em 1996, o juiz Luís Paulo Aliende mandou o governo paulista pagar cem salários mínimos – R$ 30 mil em valores atuais – ao casal proprietário da escola e ao motorista Maurício Alvarenga. O advogado Kalil Rocha Abdalla, considerou o valor baixo e recorreu ao TJ paulista reclamando 25 mil salários mínimos.

O TJ paulista julgou o recurso o fixou o valor de R$ 100 mil para cada um, por danos morais, e uma quantia a ser calculada para ressarcir os danos materiais. Pela decisão, a professora Maria Aparecida Shimada iria receber, ainda, uma pensão vitalícia por ter sido obrigada a abandonar a profissão.

já temos a “barriga” do ano!

No Observatório da Imprensa desta semana – que acaba de chegar à rede -, há vários textos comentando o erro jornalístico mais ruidoso da imprensa nacional em 2008. Isso mesmo! A suposta queda de um avião de passageiros da Pantanal sobre um prédio em São Paulo. Na verdade, tratava-se apenas de um incêndio. Mas a blogosfera reagiu mal à pressa dos jornalistas.

Para saber mais:

Sobre as contradições do jornalismo – texto de Venício A. Lima no Observatório da Imprensa

Noticiário de telejornal derruba avião – de Gilson Caroni Filho, também no OI

Avião atinge prédio, ou loja de colchões, ou de tapetes – de Urariano Mota, no OI

Guerra dos Mundos nas chamas de MoemaMauricio Pontes, no OI

GloboNews derruba avião da PantanalManuel Muñiz, no OI

Divulga-se primeiro, para se confirmar depoisAdriano Faria, também no OI

No blog do GJOL, há três links:

UOL derruba avião da Pantanal em cima de loja de colchões

Avião que Record, Globo e UOL derrubaram chega à Espanha e Alemanha

Como se derruba um avião: efeito dominó

Que barriga!

“em brasília, 19 horas”: uma leitura

Eugênio Bucci é hoje um dos mais atentos e criativos leitores da mídia nacional. Seus argumentos são equilibrados, seus comentários aprofundados e a clareza de seu discurso não só convence, como contagia.

Bucci publicou no início deste ano mais um livro, desta vez, um híbrido que mescla memórias, ensaio e prestação de contas. Presidente da Radiobrás durante o primeiro governo Lula, Bucci assumiu a frente da estatal com o claro propósito de resgatá-la do pântano chapa-branca em que sempre viveu e cresceu para um patamar de empresa pública de comunicação, orientada pelo interesse público e avessa ao patrimonialismo, aparelhamento e clientelismo endêmicos.

“Em Brasília, 19 horas” chegou ao mercado editorial com alguma surpresa. Afinal, não é à toda hora que um insider do governo vem à tona com livro desse porte. Algumas hienas devem ter tremido no Planalto; outros chacais rido nervosamente; as serpentes requebraram no cerrado do DF… Viriam daquelas páginas revelações, escândalos, indiscrições? Nada disso.

O livro de Bucci é, na sua quase integridade, um rigoroso relatório, dando contas de como quis imprimir seu projeto e fazer tomá-lo curso. Claro, há uns rompantes aqui, umas rusgas ali, mas o volume – na minha leitura muito personal – tem ao menos quatro bons motivos para ser lido:

1. O livro nos mostra uma Radiobrás que sempre esteve debaixo de nossos narizes e quase nunca nos interessou. Fale a verdade: a gente sempre pensou naquilo como um setor de Publicidade ou Relações Públicas de qualquer governo de plantão. Não se atrelava a estatal a um lugar onde se pudesse fazer jornalismo mesmo. Bucci relembra a experiência que liderou, comparando com outros momentos da empresa, o que é muito instrutivo.

2. O livro detalha como se pode conceber uma tarefa quase-impossível e como se conduz um projeto desses. Para quem vai assumir cargos semelhantes ou empreendimentos análogos, o livro já valeria como uma envolvente fonte de exemplos.

3. Bucci dá verdadeiras aulas sobre ética jornalística, princípios democráticos, valores republicanos e senso de civilidade. Quem conhece Bucci de outros carnavais ou leu outros livros seus, quem já viu isso sabe que não é só discurso da parte dele.

4. O livro dá dimensões muito precisas das distâncias entre os setores de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. Cada um tem a sua função e importância. Mas Bucci separa joio e trigo, aveia e centeio. Com isso, revigora as fronteiras entre um campo e outro da área da comunicação, fortalecendo cada qual com seu ethos, seu espírito, suas demandas. Não é pouco isso…

Se o tom do autor no livro é quase sempre relatorial, não há distanciamento. Afinal, ele estava lá, no centro da arena, dos confrontos. Nos últimos capítulos, Bucci fica nu, despe-se de qualquer pudor de falar de si e da sua história e se entrega para o final que prepara. Ele está prestes a deixar o governo e a presidência da Radiobrás e a longa agonia que o separa da porta de saída é contada na riqueza dos sentimentos e nas memórias mais latejantes. O final do livro, bem, o final é matador. Não deixe de ler.

2 links apressados: voltarei a isso

Porque é noite de feriado, e a semana será curta para tanta coisa.

Porque tenho um capítulo de livro para concluir e entregar amanhã.

Porque amanhã cedo tenho banca de uma das minhas orientandas do mestrado e ainda preciso me preparar.

Porque ainda costuro um projeto para mandar ao CNPq até depois de amanhã.

Só por isso, indico dois links que – à primeira vista – me parecem altamente relevantes, embora eu ainda não tenha mergulhado neles. Mas o farei…

1. The impact of the media on children and young people with a particular focus on computer games and the internet. Estudo liderado pelo renomado David Buckingham, do Instituto de Educação da University of London. Foi concluído em dezembro do ano passado e só agora está liberado na web. Em inglês, formato PDF e com 77 páginas.

2. Relatório Vigilância e Defesa da Liberdade de Imprensa na América Latina e Caribe. Documento em inglês ou espanhol, elaborado pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas e o Programa de Mídia do Open Society Institute (OSI) reunindo dados de quase 50 organizações dedicadas ao monitoramento e defesa da liberdade de imprensa nessas regiões. Em PDF, 46 páginas.

 

ética na web: chamada de textos

O International Journal of Internet Research Ethics está com chamadas abertas para colaborações.
O prazo para recebimento se esgota em 15 de abril.

Special Issue: Research Ethics, Policies, Law: International Perspectives
Call for Papers
This issue welcomes papers dealing with any aspect of international policy and internet research ethics. Specifically, we are interested in papers from researchers and scholars exploring data protection laws; policies and regulations; and ethical models of research protections. We seek practical, applied discussions – i.e., as informed by and focusing on one or more case studies or real-world examples – as well as theoretical papers. Suitable topics include: reviews of existing research protections laws and policies in specific countries or broader units of analysis such as Scandinavia, the European Union, Africa, South Asia, developing countries, and so forth; reviews of existing laws and policies vis-à-vis emerging technologies; cross-cultural analyses of research ethics and online research; specific analyses of related issues such as privacy, attribution, copyright, ownership, consent models; or discussions of online research in action, such as ethnographies, participant observations, research with/on minors, and discourse/content analyses.”

Mais informações: http://www.uwm.edu/Dept/SOIS/cipr/ijire/submit.html

uma revista de ética!

Esbarrei hoje na sala dos professores com um exemplar de Ética & Meios, revista editada pelo Espaço Ética.

A publicação está no seu primeiro número, que data de fevereiro de 2008, tem 24 páginas em papel couché, e se destina a pensar a mídia, assuntos que estão fora dela e ética em geral. Com o slogan “Por uma crítica construtiva da mídia”, a revista tem como publisher o professor Clóvis de Barros Filho, bastante conhecido nos meios acadêmicos por seus textos e pesquisas acerca do assunto Ética da Comunicação.

O lançamento – discretíssimo, diga-se de passagem – não chegou a essas bandas do sul, mas a iniciativa merece elogios. Afinal, alguém já ouviu falar de uma revista sobre ética no Brasil? Alguém aí já viu alguma publicação impressa sobre crítica de mídia circulando? Pois é…

Nesta edição, um perfil de Mario Vitor Santos (ex-ombudsman da Folha e atual do IG), uma pensata sobre a ética das coligações partidárias, uma reportagem sobre corrupção e outros textos.

A revista é agradável e importante, mas tem um porém: faltou ao leitor um expediente com dados de como assinar, como mandar sugestões e críticas…

dieta informativa de jornalistas

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Uma pesquisa norte-americana mostra que – cada vez mais – os jornalistas de lá vêm se abastecendo de informações de blogs e sites para fazer o seu trabalho. A informação é de Ramón Salaverría, que adverte que a pesquisa tem fragilidades metodológicas, mas que vale a pena ser observada.

Um resumo ilustrado da pesquisa pode ser visto aqui. Em inglês e em PDF.

PS – Chama a atenção também a frequência do uso de press-releases como fontes das matérias dos colegas. Nada contra usar um texto de assessoria para fazer uma reportagem, mas depender disso – conforme mostram os números das respostas – é perigosíssimo!!!

ética na edição de áudios

Mary McGuire, professora associada da Carleton University, do Canadá, compilou uma série de cuidados que jornalistas devem ter quando editam materiais em áudio. Me refiro a cuidados éticos no uso técnico de equipamentos, sistemas e conteúdos.

O guia de McGuire é sintético e está dividido em três partes basicamente:

  • Cuidados na edição de entrevistas
  • Cuidados na condução de entrevistas que serão posteriormente editadas
  • Cuidados na gravação e uso de sons em arquivos de áudio

O guia pode ser lido aqui

A página pessoal da professora na universidade está aqui.

Vale a pena ler o guia e não guardar. Isso mesmo. Leia e não guarde. Deixe sempre por perto, visível, pulsante…