sobre entrevistas e jornalistas 2

Los Hermanos têm um karma com repórteres “bem preparados” para entrevistas.

Veja como a repórter da Globo de Brasília troca o nome do vocalista (Marcelo Camelo vira Marcelo Campelo) e veja como não sabe nada de música (para ela, o grupo fez parcerias com Elis Regina!!).
Por fim, note que Rodrigo Amarante sacaneia com a moça, repetindo o “Campelo”…

Nesta, a performance dos repórteres do Ceará é aterradora. Trocam o nome do entrevistado, confundem “boca a boca” com “bate boca”, não sabem quem compôs o quê…

Isso que é profissionalismo!!

mais código de ética

A Carta de Vitória, documento resultante da Congresso Nacional Extraordinário dos Jornalistas, não foi divulgada ainda porque passa por revisões e formatação. Mas Fernando Paulino, da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas de Brasília, me repassa texto do vice-presidente da entidade, Antonio Carlos Queiroz, dando uma geral no novo Código de Ética, aprovado no final de semana.

Reproduzo…

 

Aprovado o novo Código de Ética dos Jornalistas

Reunido nesse final de semana em Vitória, Espírito Santo, o Congresso Nacional Extraordinário dos Jornalistas reformou o Código de Ética da categoria, em vigor há 22 anos.

O novo texto incorpora princípios da Constituição de 1988 e obrigações definidas em estatutos e códigos de direitos especiais, como o dos consumidores, dos idosos, das crianças e dos adolescentes, e de minorias.

O novo Código de Ética também leva em conta os avanços das novas tecnologias.

Um exemplo de mudança foi a inserção no documento do artigo segundo o qual “a presunção da inocência é um dos fundamentos básicos da atividade jornalística”. Como este é um princípio constitucional, sua incorporação pode parecer redundante à primeira vista. Na verdade, reflete a preocupação política de lembrar aos jornalistas que eles não são cidadãos melhores do que os outros, nem estão acima da lei. O desafio é combater a atual disposição de certos meios de comunicação que se arvoram em polícia, promotoria e juizado ao mesmo tempo, denunciando, julgando e punindo pessoas com a execração pública, muitas vezes sem elementos de prova e sem conceder-lhes o direito de resposta.

Outro avanço foi a adoção da cláusula de consciência, prevista em códigos de ética de jornalistas de vários países, e já reconhecida, por exemplo, pela Justiça de São Paulo. De acordo com a cláusula, o jornalista poderá se recusar a executar pauta que se choquem com os princípios do Código ou que agridam as suas convicções. Para evitar distorções ou abusos, ressalvou-se que essa disposição não pode ser usada como argumento, motivo ou desculpa para o profissional deixar de ouvir pessoas com opiniões contrárias às suas.

Entre outras disposições, o novo Código de Ética prescreve a obrigação do jornalista de informar claramente à sociedade quando seu trabalho tiver caráter publicitário ou quando utiliza recursos que modifiquem as imagens originais, como a fotomontagem. E determina que o profissional não pode divulgar informações obtidas de maneira inadequada, como o uso de identidades falsas, câmeras escondidas ou microfones ocultos, salvo se houver a exigência de esclarecimento de informações de relevante interesse público, e desde que esgotadas todas as possibilidades convencionais.

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) deverá divulgar massivamente o novo Código de Ética dos Jornalistas nas próximas semanas, assim que a comissão de redação final, eleita pelo Congresso Extraordinário de Vitória, terminar seu trabalho. Da comissão participam dois representantes do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal: o vice-presidente, Antônio Carlos Queiroz, e o membro da Comissão de Ética, Fernando Paulino.

(do NR-Internet)

sobre fotos de acidentes e crimes

Menos de uma semana após a queda do Airbus da TAM em Congonhas, fotos dos destroços da aeronave e de algumas vítimas já circulavam pela internet. Nem é preciso dizer o horror das imagens de corpos mutilados, total ou pacialmente carbonizados, contorcidos. Depois do choque, a gente se pergunta: de onde veio isso? quem tirou essas fotos? será que os próprios peritos, policiais ou bombeiros fizeram vazar essas imagens? em nome do quê? e o que ganham com isso?

Em Santa Catarina, no final de julho, um crime brutal teve circunstâncias semelhantes. Um garoto de 12 anos foi brutalmente assassinado, violentado sexualmente e teve suas pernas decepadas. O suspeito é um coleguinha de 16. O motivo alegado: briga por conta de videogame. Poucos dias após a brutalidade, fotos igualmente terríveis circularam por email e movimentaram chats e comunidades virtuais. Mais uma vez, a gente se pergunta: como isso foi acontecer (o crime e a disseminação das imagens) ? por que acontece? como? em proveito de quem?

Claro que não é a primeira vez que isso acontece. Nos anos 90, quando do acidente que matou os integrantes do grupo Mamonas Assassinas, fotos do local do desastre também foram distribuídas pela grande rede. Imagens dantescas, inomináveis, repugnantes.

“Se algumas pessoas divulgam essas imagens é porque outras querem ver”, explica uma psicóloga em reportagem de hoje do Diário Catarinense. Aliás, o DC traz uma página praticamente sobre o vazamento das imagens do violento crime citado acima. A psicologia arrisca explicações sobre a compulsão de mostrar atrocidades e a vontade quase incontrolável de querer consumi-las. Existe muita coisa envolvida em situações como essa: exploração da dor alheia, desrespeito às vítimas e a seus familiares, crime por vazamento de informações em investigação, ética, direito de imagem, direitos e garantias fundamentais das pessoas, sensacionalismo na mídia, ética jornalística (ou a falta dela), honra à memória dos mortos

Por outro lado, se tanta coisa é mostrada, outras tantas deixam de ser. Marcos Palacios relata uma experiência que fez: buscou no Google palavras-chave associadas ao acidente da TAM e não chegou a encontrar nenhum resultado, embora o evento tenha sido amplamente coberto pela mídia. O que teria acontecido?, pergunta-se Palacios.

um novo código de ética

Começa depois de amanhã, dia 3, o Congresso Extraordinário dos Jornalistas, evento que vai discutir e definir um novo Código de Ética para a profissão. O encontro vai até o dia 5, e acontece no Hotel Bristol, bem em frente à Praia de Camburi, em Vitória. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) anuncia que delegações de vinte estados brasileiros estarão presentes, e esse alarde não é mera propaganda. O próprio Código de Ética em vigência estabelece que reformas ao documento só podem acontecer em congressos nacionais da categoria, na presença de ao menos dez delegações (art. 27).

Participei menos do que gostaria do processo de discussão do novo Código. Como leciono a matéria e como pesquiso na área, sempre me dispus a discutir a questão. Em fevereiro do ano passado, elaborei uma proposta de novo código e enviei à comissão que sistematizava as sugestões. Em maio, fui a Londrina para o 1º Seminário de Ética no Jornalismo, mas me frustrei á época porque pensei que discutiríamos a coisa por lá. Qual nada. Foi tirada uma comissão para ordenar o material e encaminhar as mudanças, apresentando as minutas do código à categoria.

Dei uma olhada na proposta e não vejo muitas mudanças. Veja você também.

Me organizei para ir a Vitória para o Congresso Extraordinário, mas as aulas e os compromissos me impedem. Vou passar.

De qualquer forma, acredito que um novo código de ética para o jornalista brasileiro é uma questão imperativa. Mas é preciso ter em conta uma coisa. Não basta que se tenha um excelente código se não forem fortalecidas as comissões de ética da Fenaj e dos sindicatos, pois são elas que recebem as denúncias, que encaminham os processos e aplicam possíveis sanções. Já escrevi isso em Jornalismo em Perspectiva (Ed. UFSC, 2005), e em Monitores de Mídia (Ed.UFSC-Univali, 2003). Então, é um processo lento, de educação da categoria, de convencimento da sociedade de que se pode ter um bom código e de que ele é eficaz, eficiente e serve à coletividade e não apenas aos profissionais.

Volto a esse assunto depois.

ética antes e depois da rede

Em Infotendências, Pere Masip cita Jane Singer, da Universidade de Iowa, que reafirma os mesmos preceitos da ética jornalística antes da web para a conduta em rede. Isto é, nada muda. Os valores se mantêm. Muda apenas o suporte, mas não a relação humana.

Este assunto me interessa por completo, já que é muito fácil cair na tentação de se querer inventar a roda a cada atualização do Windows, por exemplo, ou a cada traquitana da moda na web.

Para discutir mais sobre o tema, dou outros dois links:

http://www.mediachannel.org/wordpress/2007/04/20/new-media-culture-challenges-limits-of-journalism-ethics

http://www.ojr.org/ojr/wiki/ethics

sobre o top-top e o direito de imagem (2)

Outro leitor deste blog, Celio Penteado, discorda do que escrevi sobre o fato de jornalistas terem desrespeitado o direito de imagem dos assessores do governo ao gravarem suas reações. Ele escreve: “Que bobagem essa história de autorização do uso da imagem. Se for assim não se poderia documentar um seqüestro. Deveríamos pedir primeiro, e por escrito, a autorização do seqüestrador. Se quisesse manter a privacidade, deixasse a cortina fechada”.

Também concordo em partes. Começo pelo final. Claro! Se o governo quer privacidade, que construa as condições para tal. No episódio, era fácil. Basta fechar as cortinas. Basta zelar pela confidencialidade. Não se expor. Como fez o presidente: não apareceu. Só o fez 72 horas depois. (Que agilidade! Onde estava Franklin Martins, que poderia aconselhar melhor o presidente?) Já disse aqui: quem faz a foto é o modelo, quem zela pela pose é o fotografado. E em tempos de regime das imagens, todo cuidado é mínimo.

Entretanto, a questão do direito de imagem vai mais além. Segundo o direito, a coisa é assim: todas as pessoas têm direito sobre as suas imagens e não podem abdicar delas. O que podem é autorizar a exploração e o uso delas. Todas as pessoas, inclusive os famosos, têm esse direito.

Neste sentido, a Justiça entende que há dois tipos de imagem: imagem-retrato e imagem-atributo. A primeira se refere ao físico, ao visual, à projeção visível e apreensível de alguém, como um retrato da pessoa. A segunda tem relação com sua reputação, decoro, imagem pública, honra, etc. Por que os juristas dividem? Porque, na verdade, a exposição de alguém fazendo algo pode não constituir em danos para essa mesma pessoa e só o fará quando for violada a imagem-atributo. Explico: se sou fotografado numa praia da Espanha conversando com a Daniella Cicarelli, não posso argumentar que sofri algum dano com essa exposição. Agora, se estiver na mesma praia me esfregando em Marco Aurélio Garcia (em pleno ato de traição à minha esposa e em flagrante atentado ao pudor), posso argumentar que a veiculação das imagens foi nociva a minha pessoa. Foi nociva porque constrangeu a mim e aos que me cercam, e porque me vinculou a alguém com quem eu não gostaria de ser visto.

Nesse episódio, eu poderia processar o fotógrafo? Sim. Mas eu teria legitimidade? Aí, já são outros quinhentos. Primeiro, a coisa aconteceu fora do país e lá as leis são outras. É necessário observar se a coisa se aplica. Segundo, podem argumentar que eu estava fazendo duas coisas erradas (adultério e atentado ao pudor, tipificados em nosso Código Penal) e meus delitos são maiores que os danos que sofri com a violação de minha imagem. E é justamente aí que as coisas emperram no escritório do advogado: quando o causídico vê a coisa nesse impasse, orienta – na maioria dos casos – a não entrar na Justiça para não fazer mais alarde ao caso, e porque a causa tem altos riscos de ser perdida.

É claro que o meu exemplo é canhestro. Mas as condições de análise podem ser plenamente transpostas ao episódio do top-top. Marco Aurélio e seu assessor tiveram sim seu direito à imagem desrespeitado pelos jornalistas que os flagraram vendo o Jornal Nacional. Mas não têm força, legitimidade ou – no popular – moral para contestarem as imagens veiculadas, cujo significado simbólico é mais arrasador que a gravação das cenas. 

sobre o top-top e o direito de imagem (1)

No momento em que você lê este post, é muito provável que este assunto nem mais seja pauta na mídia, que os meios de comunicação tenham voltado suas cabeças para outro “Ouro do Brasil” ou ao “deslizamento de parte da encosta de Congonhas”. Mas quero retomar o tema, até motivado por alguns dos comentários que recebi neste blog.

De Portugal, Cadeiradopoder releva os gestos dos assessores do governo brasileiro que trouxeram indignação em meio ao acidente aéreo de Congonhas na semana que passou. Para quem não se lembra, basta voltar ao meu post anterior. “Penso que os gestos dos assessores não têm assunto nenhum. Pode-se criticar outras acções ou falta delas por parte do Governo, agora dar importância a um gesto (igual ou menos mau do que o que o jornalista que captou as imagens deve ter feito) não acrescenta nada à informação”, diz Cadeiradopoder.

Concordo em partes. As imagens do top-top não trazem informação adicional às causas do acidente ou às condições dos aeroportos brasileiros, ou à crise aérea como um todo. Mas, por outro lado, revelam de forma clara e acintosa o que muitos de nós não sabia. Se foi um gesto de “alívio” – como se defendeu Marco Aurélio Garcia – ou de “comemoração indevida” – como alfinetou a oposição -, pouco importa. O que importa é que nenhum de nós esperava AQUELA REAÇÃO, que em nenhum contexto é respeitosa, serena ou preocupada diante das novas informações que traziam a reportagem do Jornal Nacional, assistida pelos assessores, cuja reação foi flagrada pela própria Globo.

Marcia Benetti Machado rechaça a resposta de Marco Aurélio Garcia, e reconhece na sua fala uma contradição dilacerante: ele disse ter tido aquela reação em um momento privado. Ora, ele tem uma ética privada e outra pública, indaga sagazmente Marcia. E é neste ponto que a coisa me interessa primeiro: quem está no governo, quem representa outrem, quem ocupa um cargo de representação não pode argumentar condutas personais quando está no exercício destas qualidades. Como aconteceu com Rubens Ricupero em 1994, lembra? Não dá. Não pode, porque a massa – no caso, os patrões, aqueles que pagam impostos e alimentam o Leviatã – porque a massa não tolera, indigna-se, cobra postura.

E faltou isso mesmo: postura, pudicícia, humildade, respeito aos fatos. Se foi um desabafo ou não, o fato é que Marco Aurélio e o outro assessor deixaram escapar que o governo tratava do assunto na arena da disputa, da política, da atribuição de culpas e responsabilidades. Não era o caso. Não deveria ser assim. Não poderia… O governo não tratou como um problema que fere a Nação, que vitima os nossos, que ceifa vidas de brasileiros, como Rudolph Giuliani e o governo Bush fizeram em setembro de 2001. Tanto que o governo não apareceu em pessoa nas determinantes horas seguintes à tragédia.

Resumindo. Pensando em ética pública, em ética geral, num ambiente democrático, numa atmosfera republicana – não é assim que Tarso Genro gosta de dizer? -, o governo agiu mal de cima a baixo. A indignação nos meios de comunicação e do público expõem esse descolamento moral que assistimos.