suharto vai pro inferno

Suharto morreu. Sem ser julgado.

Mais um ditador truculento que escapa da justiça.

Vai se juntar a Pinochet, Stroessner, Médici, Hitler, Milosevic

Já vai tarde.

uma campanha mentirosa

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Quem tem TV a cabo sabe o que estou dizendo.

No meio da programação, um rapaz levemente calvo com ar grave e tom ameaçador diz que se um tal projeto de lei for aprovado haverá uma hecatombe na TV a cabo. Não poderemos mais escolher o que assistimos, pois “eles” escolherão pra gente. A liberdade vai acabar. Oh!!!

Uma pinóia!

A discussão gira em torno do projeto de lei 29/2007, que – entre outras coisas – define cotas de programação nacional na TV por assinatura. O anúncio da Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA) é super apelativo (veja aqui). O tom é apocalíptico. E mentiroso, sejamos claros.

Afinal, não é o telespectador quem define o que assiste. Se fosse assim, na minha casa, não teria os canais Canção Nova, Shoptime, Mercado Persa, Canal do Boi, TV Turfe, e por aí vai. A gente escolhe o pacote e a operadora, e olhe lá. Então, os caras vêm fazer beicinho porque alguns parlamentares querem instituir uma reservinha de mercado para os produtores nacionais (o que gera emprego e renda AQUI, promove a cultura regional, a diversidade de conteúdos, coisas sem importância, né?)…

Os caras são tão manipuladores que, no alto do site da campanha, acima do contador, eles colocam “Até agora são …. pessoas participando”. Como se quem passasse por ali estivesse engajado numa batalha.

Ora, faça-me o favor!

Para saber mais, veja o site da campanha da ABTA ou leia a resposta do deputado Jorge Bittar ao ataque.

Em tempo: O projeto de lei prevê cota de 50% para canais pagos brasileiros , mais 10% de programação nacional nos canais estrangeiros – que hoje somam 75% da programação da TV por assinatura no Brasil.

house na livraria

O infectologista foi às compras. Não porque quisesse algo para si. Quem tem toda a ironia do mundo precisa de mais o quê?

Mas o doutor House foi atrás de um livro para uma amiga. Não teve uma recaída não. Só precisava de uma segunda opinião num diagnóstico, e o presente era a melhor forma de voltar a procurar a médica nesses tempos bicudos de dezembro. Na época de Natal, todos amolecem, e House chegaria com um pacotinho na mão, um meio sorriso e o prontuário médico no sovaco.

Acontece que as livrarias são, hoje, um dos círculos infernais de Dante. Têm de tudo, menos atendentes com dois neurônios. Esperar que conheçam este ou aquele autor é uma utopia vã. Digitam de forma errada os nomes dos autores nos terminais e as buscas nunca são frutíferas. Confundem o Espinosa, de García Roza, com o Spinosa da ética aos geômetras; confudem Sócrates, de Estagira, com o meio campo que veio de Ribeirão Preto…

House arrasta a perna de livraria em livraria. Pergunta por um título, soletra o nome do autor, ministra uma pequena aula sobre a diferença entre as edições lançadas, mas nada.

“Podemos encomendar, senhor…”

“Mas eu não quero encomendar. É pro Natal…”

“Mas todo ano tem Natal, senhor…”

“Humpf! Quanto tempo demora pra chegar?”

“Dez dias úteis, senhor”

“Dez dias?”

“Sim, dependemos da distribuidora”

“Vocês não têm internet, não? Já ouviu falar de Amazon?”

“Temos internet, sim. O senhor quer usar o cibercafé?”

“Você sabe o que acontece em dez dias?”

“O ano novo, senhor”

“Não… eu perguntei se você sabe o que se passa em dez dias. É muito tempo. Se alguém morre, em dez dias, a quantidade de microorganismos em seu corpo é capaz de…”

“Senhor, vai querer encomendar o livro?”

“Você já ouviu falar de Amazon, rapaz?”

“É nome ou sobrenome? O senhor sabe me dizer algum título que ele tenha escrito? Neste terminal, acho qualquer coisa…”

“Não, deixa pra lá. Pode me conseguir uma senha pro cibercafé?”

“Claro, senhor”

House apoiou a bengala na mesinha, entrou no site da Amazon e, do cibercafé da livraria, fez o seu pedido. “É por isso que eu prefiro diagnóstico à distância”, resmungou.

dá nojo, viu!

Outro dia, o Luciano Huck fez beicinho por ter sido assaltado e perder o seu relógio caríssimo.

Mês passado, a Hebe e o João Dória Jr. faziam cara de indignados, cantando o Virundum em seu protesto-chique.

Dia desses, vi que Sergio Malandro, Gretchen, Léo Áquila e Rita Cadilac filiaram-se a partidos e devem disputar eleições municipais ano que vem.

Dias atrás, passei pelo programa do Amaury Jr e o vi abraçado com Orestes Quércia, gargalhando no rol do Jóquei Clube de São Paulo.

Soube ainda que Boninho e Narcisa Tamborindengui atiram coisas contra pobres de suas confortáveis sacadas.

Semanas atrás, Aloisio Mercadante defendeu Renan Calheiros, enquanto Ideli Salvati se aliava a José Sarney para a mesma manobra.

Estamos bem. Nossos artistas, nossos modelos de conduta, nossas autoridades mostram – a cada dia – que é possível se superar.

sobre querer ficar

Durante quatro meses, o Brasil inteiro assistiu à fritura do presidente do Senado e sua insistente autodefesa. Os indícios, as provas, os testemunhos apontavam para uma série de irregularidades, de improbidades e de imoralidades. O lógico apontaria para a cassação do mandato, para o afastamento da presidência, enfim, para a retirada de Renan Calheiros do posto.

Ele bateu o pé, pois não queria sair. Fora eleito para aquilo. Representava a vontade e o interesse de eleitores alagoanos, e depois, representava a vontade do governo e seus aliados para presidir o Senado Federal.

Não queria sair, e não saiu.

Agora, mas não é de agora, assisitimos a outra fritura: a do presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), Milton Zuanazzi. Ele também não quer sair. Bate o pé, faz beicinho e manda recado pela assessoria: ninguém tira ele de lá pois tem mandato pra cumprir.

Sabe, eu não votei no Zuanazzi. Nem no Renan. Eu não indiquei nenhum deles. Mas vi estupefato que não fizeram muito nem pelo Senado, nem pelo país, nem pela aviação. Eles não transformaram as suas áreas em campos de excelência. Não mudaram o panorama de suas áreas. Mas querem se manter em seus postos, em seus empregos.

A justificativa é a legimitidade de processos eleitorais. Ok, estamos numa democracia, mas a democracia não prevê apenas a escolha de quem nos representa, mas também a alternância de poder e regras para destituir aqueles que ferem as regras básicas do exercício de suas funções. Zuanazzi não foi eleito, mas indicado. Renan foi escolhido, mas quebrou o decoro.

Não votei em Renan. Não indiquei Zuanazzi. 

Como cidadão brasileiro, não reconheço esses dois servidores públicos investidos nessas funções. Se estivessem na iniciativa privada, já teriam sido punidos ou desligados. No serviço público, escamoteam-se em regras ardilosas pretensamente democráticas. O serviço público deveria ser mais moralizante e exemplar. E se assim o fosse, nem mais lembraríamos os nomes dessas pessoas. 

senadores catarinas e renan

Só pra constar. O G1 trouxe matéria em que 46 senadores teriam votado contra Renan ontem. Isso mesmo 46, mas o placar só mostrou 35… epa… se não fossem senadores, eu até poderia acusá-los de estar mentindo…

Como os senadores por Santa Catarina votaram?

Raimundo Colombro (DEM) afirmou ter votado pela cassação.

Neuto de Conto (PMDB) não abriu o voto.

Ideli Salvati (PT) não divulgou o voto.

Nem precisa. Ideli respondeu aos repórteres que a decisão foi “soberana”.
Neuto é do mesmo partido que Renan.

brasília é uma festa!

Um minuto após sair o resultado no painel do Senado, minha esposa chamou no celular. Com voz desanimado, deu a absolvição de Renan Calheiros. Eu andava pelo campus, indo de um prédio a outro, e deixei escapar uma risadinha. “Com esse placar, alguém roeu a corda. Esses seis aí é que decidiram”, eu disse.

A análise não é nem um pouco brilhante ou profunda. Mas a frase me saiu como um soluço. E o fato é que – mais uma vez – quem venceu, quem deu as cartas foi o baixo clero, os parlamentares menos decididos ou não suficientemente convencidos de um relatório que antes fora acachapante: 11 a 4 no Conselho de Ética.

Como na eleição de Severino Cavalcanti, os menos-midiáticos, os mais-apáticos mostraram que a engenharia das urnas é complexa, como os intestinos da nação.

Cheguei em casa, minutos depois da ligação, e corri pra ver o que Noblat dava em seu blog. Um repórter secreto, infiltrado na sessão, mandava informes e o blogueiro reproduzia. Os portais ficaram a reboque. As emissoras, perdidinhas, já que a decisão de manter a sessão secreta atou-lhe as mãos.

Agora há pouco, zapeando pelos diversos telejornais, vi e ouvi uma montanha de mentiras e frase de efeito que – de tão pretensiosas – não chegarão vivas até o domingo. “O Senado morreu!”. “Este é o pior dia da política brasileira”. “Oposição e situação terão que trabalhar juntas para restituir a credibilidade do senado”. Mentiras, cinismo, pantomimas.

Quem está preocupado com isso? Ideli Salvati? Mercadante? Renan? Demóstenes Torres? Gabeira? Eu? Você?

Um amigo está de malas prontas para o Planalto. Vai assumir a assessoria de imprensa de um órgão federal. Antes de ir a um boteco em Santana para fazer seu bota-fora e ver o jogo da seleção, ele prometeu: “Se tiver oportunidade, empurro o Renan na rampa!”