sarkozy despeja dinheiro sobre a mídia

Outro dia, escrevi aqui que camadas organizadas da sociedade francesa manifestaram publicamente sua preocupação sobre a qualidade da mídia local. Pois bem, não é apenas o povo quem coça as rugas da testa com o assunto. Já desde o final do ano passado, o governo também. Na semana que passou, o recado foi público e polpudo: o presidente Nicolas Sarkozy anunciou um pacote de 600 milhões de euros para o setor nos próximos três anos.

Em tempos bicudos como os nossos – quando Bush abre a torneira de 700 bilhões de dólares para bancos e financeiras, e quando Lula reduz impostos para impulsionar a indústria automobilística -, o presidente francês acena com um plano para salvar a imprensa escrita, como deixou claro no Palácio dos Champs Elisées. A operação atende pelo nome de États Généraux de la Presse, ou Estados Gerais da Imprensa. O desafio é melhorar a rentabilidade dos jornais, aumentar suas tiragens, aliviar os custos das empresas do setor e impulsionar os meios online.

Ainda é cedo para medir a temperatura e dizer qual repercussão o anúncio trouxe ao mercado francês, e por extensão à mídia européia.

O Le Monde foi bastante contido, como sempre. Em editorial, ponderou as medidas, salientando a sabedoria da presidência da República em deixar que editores e jornalistas dêem os devidos encaminhamentos à solução da crise que asfixia o setor. O jornal não comemora abertamente, mas o editorial ressalta que a mídia é também uma indústria, o que a legitimaria a receber auxílios financeiros, pode-se ler nas entrelinhas.

Já Le Figaro trouxe editorial do seu diretor de redação Étienne Mougeotte reconhecendo o “ceticismo francês” que acompanhou o setor à mesa de negociação com o governo. Mas sauda a iniciativa. Entretanto, Mougeotte não se fez de rogado: reforçou que o norte do jornal é o leitor e para quem ele trabalha. A preocupação do experiente jornalista é com a credibilidade do veículo, mas não só ele. Um comunicado da AQIT, Associação pela Qualidade da Informação, convocava esta semana jornalistas e editores a conjugar esforços para a formalização de um Conselho de Imprensa. Segundo a AQIT, um novo código deontológico e uma instância que aglutinasse produtores e usuários do sistema seriam condições essenciais para um resgate da confiança ao setor.

Os movimentos são muitos e em direções não necessariamente opostas. Os franceses estão mesmo preocupados com o assunto e tudo leva a crer que arragaçaram as mangas para enfrentar a(s) crise(s) da mídia. No Brasil, já passamos perto disso. No final da década de 90 e começo desta, a revista Carta Capital martelou em várias edições um tal plano do BNDES para salvar a mídia, notadamente a Rede Globo. A revista bateu forte, e o plano de ajuda acabou não saindo. Não porque a revista fosse tão influente assim. Mas a revista também não estava fazendo aquilo por patriotismo, mas por isonomia…

O fato é que as torneiras mantiveram-se fechadas pro setor. Pouco ou quase nada entrou de dinheiro estrangeiro por aqui, mesmo após mudarem a Constituição em 2002. Os jornalistas revisaram seu código deontológico em 2007. Mas ficamos nisso. Talvez porque a crise nas bancas esteja anestesiada pelo sucesso de jornais a preços populares ou ainda porque as redações acreditam contar com a confiança dos seus leitores.

Será mesmo?

ATUALIZAÇÃO: Alberto Dines tratou do assunto, trazendo muito mais detalhes. Vale a pena ler.

são paulo faz aniversário, mas o assunto continua o mesmo

Você vai a São Paulo e não consegue deixar de perguntar. Você mora em São Paulo e não consegue não pensar nisso. Você nunca foi a São Paulo, mas já ouviu falar disso. Ora, qual é mesmo o assunto predileto dos paulistanos ou de quem se remete à cidade de São Paulo? O Trânsito, sim, ele mesmo e com letra maiúscula.

Hoje, no aniversário de 455 anos da cidade, o tema continua em pauta.

Se chove, dá trânsito. Se faz sol, o pessoal sai antes pro happy hour e aí formam-se as filas. Se é dia normal, a lentidão é de trocentos quilômetros, se é tempo de férias escolares, o assunto é a facilidade do fluxo. São Paulo não consegue deixar de pensar e viver o seu trânsito. A maior cidade do país tem a maior frota de veículos e sistemas de transporte coletivo que não dão conta dessa demanda toda. São pouco mais de 61 quilômetros de metrô, um terço da malha que serve a Cidade do México, por exemplo, ou um quarto da extensão das linhas em Tóquio.

Se não dá pra ir por baixo, vamos por cima, e aí pára tudo.

Para ajudar, emissoras de rádio locais usam helicópteros para observar os pontos mais críticos e alertar os ouvintes. Além disso, indicam melhores saídas, calhas de escoamento. Mas até aí, normal. O que vem me chamando ultimamente é uma outra iniciativa, recente, que ainda nem completou dois anos e já faz uma diferença! É a Rádio Sulamérica Trânsito, que opera no 92,1 FM, e é especializada no assunto.

A emissora é resultado da parceria do Grupo Bandeirantes de Jornalismo e da Sulamérica Seguros. Então, a emissora espalha repórteres pela cidade que se ocupam de ficar rodando e rodando e dando as informações em tempo real de como estão as principais vias. O público também participa, e manda torpedos para a rádio perguntando melhores rotas ou alertando sobre o aumento da lentidão em alguns entrocamentos. Com celulares em punho, os jornalistas da Rádio Sulamérica Trânsito caçam os lugares que gente normal quer evitar. De forma ágil, o serviço hoje é essencial pra muita gente.

A iniciativa me chamou a atenção pela sua originalidade, eficiência e inovação. A emissora aposta num produto caro ao público – como deslocar melhor pela selva de pedra paulistana; a Sulamérica Seguros marca um gol ao vincular sua marca com algo positivo, a prestação de um serviço muito útil (e não só aquela situação chata de sinistro em que a gente aciona o seguro…); a rádio lida muito bem com o público, incentiva a participação e foca a sua atuação para o diálogo, para a busca coletiva de soluções. E sabe de uma coisa? Quando o trânsito está baixo, fluindo mesmo, os locutores até suspendem o serviço momentaneamente e passam uma musiquinha. Na verdade, das 22 às 6 horas, rola música na rádio…

É ou não é a cara de São Paulo???

franceses preocupados com a qualidade do jornalismo

Foi anunciada ontem – dia 20 de janeiro – uma declaração contendo 14 proposições voltadas a garantir a qualidade de informação para qualquer cidadão francês. O documento foi gerado em Paris, por meio de um conjunto de jornalistas e usuários do sistema da mídia – Assises Internationales du Journalisme.

O documento não ignora a crise econômica que afeta o setor, mas reforça a necessidade de fazer valer o direito do público a ter noticiário de qualidade. Os 14 pontos elencados são considerados prioritários neste esforço. São eles:

  • Inserir na Constituição o direito do público a uma informação honesta e de qualidade;
  • Promover a mediação;
  • Incluir na convenção coletiva nacional dos profissionais do jornalismo um código deontológico unificado;
  • Criar uma instância nacional confiável para atuar como observatório das mídias;
  • Dotar as redações jornalísticas de um estatuto jurídico que possa ampará-las e protegê-las;
  • Reforçar a figura do jornalista profissional;
  • Flexibilizar os direitos autorais dos jornalistas;
  • Incentivar a pesquisa para a evolução do jornalismo;
  • Garantir uma formação inicial mínima para a prática jornalística;
  • Buscar a formação em escolas reconhecidas;
  • Atentar para o cada vez mais numeroso e variado contingente de estudantes de jornalismo;
  • Assegurar que as escolas dêem acesso a estudantes com diversidade social e cultural;
  • Combater a precarização da profissão;
  • Lutar contra a informação de baixo custo, que geralmente resulta em má qualidade jornalística.

Listei acima de maneira muito rápida, mas se quiser conhecer a declaração na íntegra, acesse aqui.

Todos sabemos que documentos como este não modificam o panorama real da situação, já que a problemática da qualidade, do direito do público e da presença da mídia na vida social é muito complexa. Entretanto, essas manifestações servem ao menos como um recado: o de que parte da sociedade se interessa pelo tema da mídia, e se preocupa com o que fazem dela.