Vou de cinema.
Adoro e vejo tudo o que Beto Brant produz. Pra mim, é um dos cineastas mais conscientes do cinema nacional. Seus filmes são enxutos, dizem a que vem, não se apóiam em grandes estrelas e medalhões, mas sempre se sustentam em excelentes roteiros e ótimos atores e atrizes. Bem, coloque a frase anterior no passado.
Isso porque acabo de assistir a Crime Delicado, o filme mais recente dele, que é de 2005. Sim, estou atrasado. Pra variar. Peguei na locadora, mas a vida corrida me impediu de ver duas vezes. Vi então agora, num naco de noite que me sobrou.
E me decepcionei.
A coisa muda por completa. Se em Matadores, Ação Entre Amigos e O Invasor, o ritmo é frenético, constante, cadenciado; agora, o velocímetro cai abruptamente; as cenas se alongam e as falas se estendem por milhas e milhas.
Brant abandona a violência explícita de antes e agora se dedica ao amor, à paixão louca, a práticas esquisitonas como a do pintor velho que se despe e posa junto com a modelo para retratar trepadas… como o crime delicado do título: o estupro de uma mulher com uma perna amputada. (Eu sei, parece David Cronenberg de tão outsider…). A perneta é a modelo das pinturas… E o acusado de estupro não é o pintor, mas um solitário crítico de teatro que se envolve com a moça, que é atriz também…
O cineasta investe para uma narrativa que mescla o cinema, artes plásticas, teatro e literatura. Assim, o cinema tenta dar conta do mergulho nas pinturas que colorem a trama (na segunda parte), perpassa longas cenas de ensaios teatrais e ainda se baseia no livro de mesmo nome de Sérgio Sant´Anna. Tem no elenco Marco Ricca, Lilian Taublib e Felipe Ehrenberg. Sem contar boas participações de Adriano Stuart, Matheus Nachtergaele, entre outros. Até mesmo o roteirista Marçal Aquino faz uma figuração.
Mas nada disso me satisfez. Brant experimenta mais desta vez. Nas linguagens. Mas a sua narrativa se perde nos rococós, nas esquinas, num ritmo que faz tudo menos envolver.
Continuo fã dele. Até porque se o artista tem que fazer uma coisa é errar. O artista é sempre errante.
