cartola, 100!

Hoje, Cartola faz cem anos.
Um século de lirismo, de poesia, de romantismo, de samba e romance.
Nas composições dele, o coração é um latifúndio, a mulher amada, uma deusa, a dor de amor, a dor maior.

Com Cartola, a letra do samba ganha contornos de verso poético. Com Cartola, a vida no morro até parece bonita e redentora. Com Cartola, sofrer apaixonado não é um mau negócio.

Para quem conhece, para matar a saudade. Para quem nunca ouviu dizer, amostras…

Tive sim

Peito vazio

Alvorada

As rosas não falam

Sala de recepção (a minha favorita!)

sobre videogames e sobre filhos

Outro dia, li uma matéria na BBC Brasil que me chamou muito a atenção. Em linhas gerais, ela trazia informações sobre um estudo do Pew Internet and American Life Project sobre a influência dos videogames entre os jovens norte-americanos. O estudo, de setembro passado, mostrava que – ao contrário do que muita gente pensa – os games ajudam a melhorar a vida social dos adolescentes.

A pesquisa foi feita com 1,1 mil sujeitos de 12 a 17 anos e trouxe dados sobre a sociabilidade que os games proporcionam. Isto é, a maioria dos adolescentes considera que jogar é uma atividade socializadora e que essas experiências são importantíssimas para suas convivências. A pesquisa vai além. Mostra ainda que a frequência com que os jovens jogam não afeta suas vidas sociais, o que desmente aquela velha história de que os games “isolam as pessoas”.

Os games são um assunto que me interessa em particular, e por vários motivos: 1. Pesquiso educação; 2. Estudo tecnologia; 3. Gosto de games; 4. Tenho um filho de quatro anos. Combinadas, essas razões me fazem pensar, jogar e observar muito quem se dedica a enfrentar zumbis, matar demônios, despedaçar inimigos e cumprir missões.

Me irritam muito as falas de que videogames influenciam pessimamente jovens e crianças. “Games são violentos!”. “Games viciam”. “Games ensinam péssimos valores”. “Jogar videogames por muitas horas faz mal pra vista!”

É relativamente fácil derrubar cada uma dessas críticas, e por um motivo único: elas não estão apoiadas em dados comprovados cientificamente, mas sim em preconceitos e ignorância.

Como disse, tenho um filho. Ele tem quatro anos. É uma criança como qualquer outra: é saudável, feliz e animada. É também doce e frágil. Como a própria idade denuncia, está em formação. Ele frequenta a escola, brinca com os amiguinhos e se diverte com TV e com revistinhas de pintar. Além disso, ele também gosta de games. Há cerca de um ano, ele se delicia com alguns jogos de PlayStation 2. Joga em noites alternadas, por algumas horas e sempre comigo ou com a mãe dele. Nessas noites, ele destroça espaçonaves, arremessa robôs, salva reféns, enfrenta monstros e outros desafios. Claro que eu o observo quando joga. Ele fica elétrico, vibra com o joystick, requebra e solta gritos e urros. Ele entra na brincadeira e se satisfaz a cada missão vencida, a cada vez que o jogo pede para salvar o progresso alcançado.

Em algumas ocasiões, demonstra irritação porque não consegue ir além. Ele pede para desistir, eu o incentivo a ir além, vencer o desafio para seguir e vencer. Ele se recompõe, reúne forças e segue. Quando vence, me olha com satisfação, afinal ultrapassou um limite seu. Taí a grande sacada dos games: eles nos impõem desafios e exigem de cada jogador uma performance mínima de qualidade que, se não alcançada, não oferece a recompensa.

Este sistema de recompensas está na medula do negócio dos games. É isso, entre outras coisas, que ajuda a materializar uma experiência única entre as demais mídias. Isso não é novidade. Steven Johnson já disse isso em outras ocasiões, principalmente em “Everything bad is good for you”.

O cinema, a literatura, a TV, cada um a seu modo, nos oferecem experiências imaginativas, recreativas ou instrutivas. Os games exigem que interajamos, que entremos na história e tomemos as rédeas da coisa. Ninguém fará para nós. A experiência dos games não é melhor, nem pior que as de outras mídias. Só é diferente. E menos passiva.

No meu caso particular, acompanho sempre meu filho nos jogos. Faço daqueles momentos um tempo nosso, de convívio, de vitórias (e derrotas) conjuntas. Ele joga por horas, mas controladas, supervisionadas. Estabelecemos a rotina de noites alternadas, de modo a criar limites e disciplina. Os games são violentos? Alguns são sim, mas sobre a violência dos games quero dedicar outro post. Mas já aviso: vou bater de frente contra o discurso de que os games incentivam a violência dos pequenos.

um video-livro…

Ana Laux, do Gaveta do Autor, produziu essa semana um material bem interessante para quem gosta de música pop e da vida de celebridades: um video-livro com trechos da autobiografia de Eric Clapton.

Vale a pena!

tristeza e solidão (baden e vinicius)

Sou da linha de umbanda
Vou no babalaô
Para pedir pra ela voltar pra mim
Porque assim eu sei que vou morrer de dor

Ela não sabe
Quanta tristeza cabe numa solidão
Eu sei que ela não pensa
Quanto a indiferença
Dói num coração
Se ela soubesse
O que acontece quando estou sozinho assim
Mas ela me condena
Ela não tem pena
Não tem dó de mim

dia dos pais: uma crônica

Em julho de 2004, escrevi o texto abaixo, que foi publicado no site de um amigo meu.
É divertido ler agora… parece que um século me separa daquele tempo.

 

Faz duas semanas que me tornei pai. Claro, isso não é lá grande novidade já que quase toda a fauna de homens no mundo passa por isso em algum momento da sua vida. Mas é a minha primeira vez, e ainda não percebi a coisa toda… Vasculhando minha agenda essa tarde, em busca de qualquer outra coisa, esbarrei num bilhetinho que escrevi para mim mesmo na capa do caderno. Nem me lembrava mais que havia feito aquilo, mas agora me recordo nitidamente que rascunhei algumas frases no meio da madrugada: minha mulher descansava do parto, o bebê dormia sem culpa nem nada, e eu ainda me refazia de tudo aquilo. É claro que acompanhei a cirurgia, que tirei fotos, que anunciei o nascimento pelo celular, que monitorei cada respiração daquele menino naquela noite. Medo bobo. Medo de pai novo…

No silêncio do quarto, a clínica praticamente vazia, fiquei ali, só assistindo os dois dormirem. Quis gritar, quis dançar, mas me detive: seria ridículo; incompreensível para qualquer enfermeira que ali entrasse de repente. Cocei a mão e apanhei a agenda. Com uma letra miúda, fui deixando escoar uma ou outra palavra, como num conta-gotas. Não que eu pesasse as palavras, mas porque não queria acordá-los. Fui imprensando palavra com palavra, sem pressa, com cuidado na pontuação, fazendo a madrugada só minha.

Tornei-me pai há poucas horas e ainda estou tomado por uma imensa sensação de paz. Não chorei no parto; não fiquei nervoso; só fui sorriso. Não esperava reagir assim, mas acho mesmo que já estava esperando tudo isso. Ser pai me preencheu com tanta força, serenidade e delicadeza que quase nem me reconheço.

A força, eu roubo dos dedinhos dele, que apertam minha mão; a serenidade, eu vejo no soninho leve e contagiante dele; a delicadeza mora nos movimentos suaves dos lábios, quando balbucia historinhas incompreensíveis.

Como será daqui pra frente? Como o mundo vai tratar esse novo passageiro da vida? Eu não sei. Também não quero me preocupar agora com isso. Deixa o mundo girar que eu quero mesmo é velar por esse soninho gostoso.

Se fosse essa noite, escreveria outra mensagem. Talvez mais serena, mais amena. Já mudei bastante desde aquela madrugada. Não é responsabilidade ou o peso da idade. Não é medo, nem coragem. É uma sensação diferente, que me preenche, que me acalma, que me renova. É uma paz imensa, espalhada, inebriante. Só. Nessas duas semanas, a vida mudou bastante. Comi menos, sorri mais. Dormi menos do que o normal, é bem verdade. Mas não foi apenas para amainar algum chorinho sem-causa. Perdi o sono para sonhar com ele crescido, correndo pela praia, chutando a espuma da onda que lambe a areia. Não perdi o sono. Ganhei sonhando acordado.

 

asilo arkham, uma adaptação

Existe um lugar sombrio, tenebroso, assustador. É escuro, úmido e com criaturas repugnantes. Gemidos e gritos histéricos são ouvidos. Nada funciona direito. As paredes parecem ter olhos e ouvidos. E aquilo lá está lotado de gente insana, perdidamente insana.

O Asilo Arkham é assim. Um lugar para não esquecer. E pra gente se arrepiar quando dele se lembrar.

É diferente das pirotecnias cinematográficas que vêm recheando os filmes do Batman. Talvez caiba nesses filmes apenas em parte, apenas como uma referência do depósito de vilões-loucos que alguns queriam transformá-lo. Mas o Asilo Arkham é um pouco o que Conrad escreveu: é o coração das trevas, onde o horror sussurra no seu ouvido, onde você se volta pra trás após sentir um arrepio estranho na espinha.

Os anos 80 e 90 foram realmente gloriosos para os quadrinhos, principalmente por conta de um formato novo para os brasileiros: a graphic novel, que nada mais era do que quadrinhos com temáticas mais adultas, com revisões de personagens, com inovações gráficas e com altíssima voltagem de ação. Um dos melhores títulos a circular no país foi Asilo Arkham, escrito por Grant Morrison e ilustrado por Dave McKean. Aterrador. Quem leu, tremeu ao conhecer esse lugar que é o próprio inferno.

No vídeo abaixo – que vi primeiro no Nota 7 -, há uma adaptação literal, quase quadro-a-quadro do original dos quadrinhos. Sente, veja, ouça e veja para onde os filmes do Batman poderiam caminhar.

porque é domingo: haja o que houver

Um dia parado, sereno, em que os minutos se esgueiram bem esquecidos no funil da ampulheta.

Um dia em que a gente se permite sentir saudades.

A saudade e a certeza do reencontro na poesia fina de Pedro Ayres Magalhães, na voz de Teresa Salgueiro e nos violões cuidadosos de Madredeus.

“Haja o que houver
Eu estou aqui
Haja o que houver
espero por ti

Volta no vento ô meu amor
Volta depressa por favor
Há quanto tempo, já esqueci
Porque fiquei, longe de ti
Cada momento é pior
Volta no vento por favor…

Eu sei quem és
pra mim
Haja, o que houver
espero por ti…

Há quanto tempo, já esqueci
Porque fiquei, longe de ti
Cada momento é pior
Volta no vento por favor

Eu sei quem és
pra mim
Haja, o que houver
espero por ti…”

 

 

 

para terminar bem o domingo

De repente, me deu uma saudade mineira…

Beto Guedes em vídeo com Wagner Tiso: Amor de índio

Beto GuedesSol de Primavera

férias (4): dois clipes

Jamie Cullum é descolado, talentoso, jovem, pulsante e mal começou a botar pra quebrar.

Porque os dias têm sido lindos por aqui, ofereço dois clipes legaizinhos. 

Everlasting lover

Get your way

meme-anamnese

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Quando você vai ao médico, o cara do jaleco branco faz umas perguntinhas, não faz?
A gente chama isso de entrevista, os médicos de anamnese.

O palavrão vem do grego e quer dizer trazer à memória, fazer lembrar.

Então, vamos começar 2008 com um meme-anamnese.

Cinco perguntas.

1. Quem já fez a sua cabeça?

2. Quem corta os seus cabelos?

3. Quem te enche os olhos?

4. Quem enche o seu saco?

5. Quem não sai da sua cabeça?

Respondo as cinco agora, mas mando o bumerangue para mais cinco blogueiros, que devem fazer o mesmo: Danilo Azevedo, Adriamaral, Raquel Recuero, Pedro Serra e Dani Bertocchi.

Minhas respostas, doutor.

1. Stan Lee, Nietzsche, Peter Greenaway, Miles Davis, Bill Sienckiewicz, Frank Miller, Mark Knopfler, Renato Russo, Jerry Lewis, Gilberto Dimenstein

2. Marinho, um barbeiro das antigas que atende num salão perdido no tempo.

3. Vini

4. Palermas, folgados e puxa-sacos

5. Ana

2008: três desejos pessoais

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1. Voltar a escrever para teatro

2. Ter mais dias de cigarra que de formiga

3. Viajar mais. Com a família

around the world

Meus amigos são ciganos.

Rodrigo de Fáveri está desde novembro fazendo parte de seu doutorado em Tel-Aviv, Israel. De lá, conta detalhadamente seus passos por Israel.

Avery Verissimo foi fazer comprinhas na Guiana.

Do Porto, Monica Delicato espera o retorno da internet.

Marcia Benetti se maravilha com mandalas, caleidoscópios e configurações do imaginário, da memória e da realidade. De Porto Alegre.

Em Curitiba, Adriana Amaral xinga Ruy Castro e brinca com Baudelaire e Hannibal Lecter

ponto final

Agora sim, posso ter Natal e Reveillon.

Terminei o livro que prometi a uma editora.

Este foi um ano de trabalho, muito trabalho. De plantio, de semeadura.

Vou dormir esta noite com a esperança mais sincera de que os dias de 2008 amanheçam com o tempo de colher.

ho ho ho, hehehe

“Jingle bells, jingle bells, acabou o papel…”

Que o Natal seja só um pretexto para pessoas de todas as formas, cores, humores, sabores se olharem nos olhos e deixarem seus corações saírem pela boca. Que se ouça mais, que se use os braços para mais abraços e que a vida seja mais generosa.

Feliz pretexto!

a saudade em páginas. ou em bits

Marcelo Träsel anuncia o lançamento de um livro alusivo a um ano de ausência de Gabriel Pillar, seu amigo. A ação vem dos mais íntimos, que reuniram textos e fotos do rapaz que morreu trágica e inesperadamente em 2006.

Não, eu não conheci o Gabriel. Não posso dizer que conheça também o Träsel, só por blog ou por textos. Aliás, quem pode dizer que conhece alguém mesmo?… De qualquer forma, o livro é belíssimo, bem editado, caprichosamente gerado. Oferece retratos de Gabriel Pillar, um cara antenado, sensível, amado e admirado por muitos. A nice guy. Cool and smart. Deu vontade de conhecê-lo.

É a saudade dos amigos e parentes em papel, numa tiragem exclusivíssima de quinhentos exemplares. E como os organizadores sabem que Gabriel tinha mais amigos do que isso, quem quiser – como eu -, pode baixar a saudade na forma de bits.

Viva a saudade. Viva a amizade.