A morte torna os clichês tão banais, mas absolutamente necessários no seu uso.
Por isso, dizer que “a morte de Paulo Autran é uma grande perda” é – ao mesmo tempo – um lugar-comum e uma verdade difícil de contornar. O desaparecimento dele deixa uma ferida aberta no teatro brasileiro, e nas artes da interpretação de um modo geral. Ele, que dizia que “o teatro é a arte do ator; o cinema, a arte do diretor; e a TV, a arte do anunciante”, era sim um monstro sagrado, expressão desgastada pelo mau uso, pelo exagero espetaculoso de alguns.
Precisamos reconhecer. Nós, brasileiros, não temos ou tivemos ainda um autor do quilate de um Shakespeare; ou um pintor do naipe de um Van Gogh. Mas já tivemos compositores maiúsculos (como Vila-Lobos e Tom Jobim), que não devem nada a Chopin e Gershwin. E tivemos um ator que estava no mesmo patamar (ou melhor dizendo, tablado) de um Lawrence Olivier, só pra citar um emblemático. Ele era o Paulo Autran.
Alguém que viveu 85 anos, começou tarde na profissão, fez uns 20 filmes, umas quatro ou cinco novelas e noventa (isso mesmo!), noventa peças de teatro. E fez de tudo: da comédia aos clássicos, do moderno ao trágico, encarnando alguns dos personagens mais insondáveis. Basta pensar na galeria mítica de Shakespeare e escolher um grande caracter. Pensou? Pois, Paulo Autran passou por Shakespeare, Moliére, Tennessee Williams, Sófocles, Millôr Fernandes, Pirandello, Sartre, Beckett, Bernard Shaw, Arthur Miller, Flavio Rangel, Mauro Rasi, João Cabral de Mello Neto, Vianinha, Harold Pinter, Ibsen, Brecht, Maria Adelaide Amaral, e tantos mais.
Foi dirigido por dezenas. Contracenou com várias gerações. Foi premiado e homenageado, e tornou-se uma espécie de símbolo do teatro brasileiro, como outros foram em seus países.
Faz uns quatro anos, eu o vi em “Variações Enigmáticas”, ótimo texto de Eric-Emmanuel Schmitt. Autran dividia o palco com Cécil Thiré, filho de sua parceira em outras tantas produções (Tonia Carrero). Paulo Autran esbanjava. Ocupava a cena com grande facilidade e familiaridade, como se conhecesse cada centímetro do palco. Dava os textos como se pensasse aquelas frases e não apenas as decorasse. Sentia os diálogos e – mais importante para os atores – ouvia os colegas, jogava. Ele já tinha mais de oitenta anos e se mostrava mais em forma que Thiré. Jovial sempre, Paulo Autran morreu num dia da criança.