Marcado: ética e deontologia

Congresso de ética nos países lusófonos amplia prazo

Os organizadores do Colóquio Internacional Ética e Deontologia do Jornalismo no Espaço Lusófono que acontecerá na Universidade de Coimbra (Portugal) decidiram alargar a sua chamada de trabalhos. Agora, quem deseja enviar seu resumo de comunicação científica deve fazê-lo até o dia 30 de setembro.

O evento acontece nos dias 13 e 14 de novembro próximos e faz parte do 5º Congresso Internacional de Comunicação. Mais informações aqui.

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Quatro eventos internacionais sobre ética da comunicação

Agende-se porque as dicas abaixo valem muito a pena:

# 5º Congresso Internacional de Comunicação: Ética e Deontologia do Jornalismo no Espaço Lusófono
13 e 14 de novembro de 2018, em Coimbra, Portugal.
Deadline: 10 de setembro
Veja a chamada: aqui

# 5ª International Conference On Media Ethics
28 e 29 de março de 2019, em Sevilha, Espanha.
Deadline: 28 de fevereiro
Veja a chamada: aqui

# International Conference of Center for Journalism Ethics: Gender, Ethics, Journalism
29 de abril de 2019, em Madison, EUA
Mais informações em breve: aqui

# 20ª Annual Convention of the Media Ecology Association: Media Ethics – Human Ecology in a Connected World
27 a 30 de junho de 2019, em Toronto, Canadá.
Deadline: 1 de dezembro
Veja a chamada: aqui

Ética jornalística, uma edição especial

 

cover_issue_249_pt_PTA revista portuguesa Media & Jornalismo, editada pela Universidade Nova de Lisboa, acaba de publicar uma edição com um dossiê sobre ética jornalística, novos e velhos dilemas. O número foi editado por Carla Baptista e Alberto Arons de Carvalho e tem um sumário muito variado:

Reconstructing journalism ethics: disrupt, invent, collaborate – Stephen J. A. Ward
Novas responsabilidades do jornalismo face à liquidificação da profissão: fundamentos normativos, valores, formação – Carlos Camponez
Regulação participada e regulação em parceria como resposta aos desafios da profissão – João Miranda
Direito e proteção à privacidade em códigos deontológicos de jornalismo – Rogério Christofoletti, Giulia Oliveira Gaia
A liberdade de consciência do jornalista precisa de proteção especifica a bem da independência no seu trabalho, do pluralismo e da democracia? – Otília Leitão
O lucro social e financeiro do jornalismo de investigação – Pedro Coelho, Marisa Torres da Silva
Tendências do jornalismo de investigação televisivo a partir do estudo de caso da reportagem da TVI “Segredo dos Deuses” – Carla Baptista
Debates da história: a evolução do conceito de objetividade em Umberto Eco – Marco Gomes
Jornalistas brasileiros no banco dos réus: enquadramentos de sentenças judiciais em ações de dano moral – Caetano Machado, Carlos Locatelli
O ethos do jornal O Globo e a campanha contra as fake news – Vivian Augustin Eichler, Janaína Kalsing, Ana Gruszynski
Fake news nas redes sociais online: propagação e reações à desinformação em busca de cliques – Caroline Delmazo, Jonas C. L. Valente
Journalism at the crossroads of the algorithmic turn – Francisco Rui Cádima
O jornalismo no contexto da Web Semântica – Bruno Viana
Dissimulacro-ressimulação: ensejos da cultura do ódio na era do Brasil pós-verdade – Paulo Quadros
Resenha do livro Radical Media Ethics, de Stephen J. Ward – Dairan Paul

Para baixar os artigos gratuitamente (ou a edição completa), vá por aqui: http://impactum-journals.uc.pt/mj/issue/view/249

Seminário de crítica de mídia em BH

Começa amanhã na PUC-Minas o Seminário de Crítica de Mídia, evento que vai até o dia 26. O seminário é promovido e realizado pelo Centro de Crítica de Mídia e a programação está carregada de bons temas e debates.

Darei uma passadinha por lá porque me encarregaram de palestrar sobre ética e crítica de mídia. Estou bastante ansioso para conversar com os colegas mineiros sobre o tema. Uma pena eu não poder ficar por mais tempo. Se você estiver por lá, não perca. Veja a programação:

Dia 24 de abril:
8h50: Conferência de abertura – Cinema e Sociedade, Diálogos Críticos, com Pablo Villaça
10h40: Conferência 2 – Crítica da Mídia: Cobertura do Futebol, com Cândido Henrique e Marcelo Carvalho
15h20: Conferência 3 – Ética e Crítica da Mídia, com Rogério Chistofoletti
17h10: Conferência 4 – Observatórios e Grupos de Pesquisa: Experiências de Crítica Midiática, com  Ercio Sena (CCM), Paula Simões (GRISLAB) e Daniela Lopes (MID)

Dia 25 de abril:
8h50: Conferência 5 – Luta por Reconhecimento e Crítica da Mídia, com Francisco Bosco
10h40: Conferência 6 – Rituais de Consumo Midiatizado, com Bruno Pompeu
15h20: Conferência 7 – Reflexividade no Cinema, com Alice Riff
17h10: Conferência 8 – Música e Memória: Construções Biográficas no Cinema e na Mídia, com Bruna Santos, Graziela Cruz e Mozahir Salomão Bruck

Dia 26 de abril:
8h50: Conferência 9 – Memória, consumo e práticas lúdicas: Cosplay, Medievalismo e Steampunk, com Mônica Ferrari
10h40: Conferência 10 – Semiótica Aplicada à Publicidade, com Clotilde Perez
15h20: Conferência 11 – Dinâmicas Identitárias nas Redes Sociais, com Beatriz Polivanov
17h10: Conferência 12 – Políticas do Streaming: Algoritmos e Curadoria Musical, com Rodrigo Fonseca

Mais informações:
http://ccm.fca.pucminas.br
https://www.facebook.com/ccmpucminas/
https://www.facebook.com/events/169104453789932/

Sobre transparência no jornalismo: um exemplo

Quantos repórteres falam de suas relações com as fontes?
Quantos jornalistas avisam ao público de algum eventual conflito de interesses?
Transparência ainda é um tabu para muitos de nós…
Em um contundente texto para The Intercept Brasil, Glenn Greenwald mostra que esta não é só uma medida de coragem, mas de caráter.

Ética Jornalística, um curso

Começo hoje um curso para alunos de mestrado e doutorado sobre estudos avançados em ética jornalística. Esta é uma disciplina eletiva do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC, e nas próximas 15 semanas, pretendo  enfrentar com meus companheiros de aula algumas questões que me parecem cruciais para se pensar a profissão atualmente: ética das redações e ética hacker; verdade, credibilidade e fake news; robôs, algoritmos e automação do jornalismo; privacidade, vigilância e transparência; direito ao esquecimento e vazamentos… esses são alguns dos tópicos que vamos perseguir com uma extensa bibliografia, e é claro que outros podem surgir inadvertidamente.

A turma já está fechada e estarei em excelente companhia. Como talvez o assunto interesse a você, leitor, deixo aqui o plano de ensino na esperança de atrair novos interlocutores. Se não de forma presencial e em sala de aula, que o diálogo se dê pelas muitas vias tecnológicas que temos hoje.

A mídia e a morte do reitor da UFSC

A morte trágica do reitor da UFSC Luiz Carlos Cancellier de Olivo, que aconteceu em 2 de outubro passado, me levou a escrever dois textos, ambos publicados no Observatório da Ética Jornalística (objETHOS):

Recomendo que se leia ainda Qual a responsabilidade dos repórteres no suicídio do reitor da UFSC?, do experiente e competente Carlos Wagner, e Anatomia de uma reputação midiática: um espetáculo de horror na televisão, de Maura Martins.

Precisamos debater os métodos das polícias, os critérios da justiça, os procedimentos do jornalismo e a sanha justiceira da sociedade…

Um seminário aberto de jornalismo

screenshot-2017-05-14-08-12-37Participo amanhã da abertura da sexta edição do Seminário Aberto de Jornalismo, promovido pela linha de pesquisa Linguagens e Práticas Jornalísticas do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos.

Divido a mesa com a professora Roselyne Ringoot, da Universidade de Grenoble (França). Vou tratar de crise do jornalismo e ética profissional. Mais informações aqui.

Jornalismo, hackers, cypherpunks e Wikileaks: um debate

Já está disponível a íntegra do debate “A reconfiguração do jornalismo investigativo e a Influência do Hacktivismo, do Movimento Cypherpunks, e do Wikileaks”, que aconteceu no finalzinho de agosto em Recife. O evento foi uma promoção do Núcleo de Pesquisas em Tecnologia, Lei e Sociedade do Centro de Informática da UFPE. Foi muito bom discutir e refletir com a professora Carolina Dantas de Figueiredo (UFPE) e com o professor e jornalista Luiz Carlos Pinto (Unicap e Coletivo Marco Zero Conteúdo). Tivemos a mediação do professor Ruy de Queiroz (CIn/UFPE).

Ética jornalística, uma entrevista

Há anos, a Rádio Univali FM mantém um interessante programa de entrevistas na sua programação: o Viva Voz. Sempre comandado pela jornalista e professora Liza Lopes Correia e por um estudante de jornalismo, o programa aborda diversos temas da vida social. Em maio estive na universidade para uma palestra e passei pelos estúdios da rádio. A conversa, que teve ainda o acadêmico Lucas Rosa, tratou de ética no jornalismo e cobertura da crise política. Confira!

O fator confiança

Screenshot 2015-02-27 03.07.27A Ethical Journalism Network acaba de lançar um estudo com dados de 16 países sobre como jornalistas monitoram seus erros e os corrigem. O Brasil está no relatório, e a seção a ele dedicada é assinada pelo jornalista Marcelo Moreira, que já presidiu a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

No geral, o estudo é bastante genérico, mas de alguma forma contribui e estimula os debates sobre auto-regulação no setor, um tabu por essas bandas.

O diretor da rede, Aidan White, considerou surpreendentes os resultados da pesquisa que apontou – à exceção da Noruega, um modelo para a auto-regulação – que na grande maioria das vezes, jornalistas e editores se digladiam com controles legais, interferência política e corrupção. Um mundo nada fácil…

Organizada pelo próprio White, a publicação – intitulada The Trust Factor (O fator confiança) – tem 80 páginas, em inglês e formato PDF.

Para baixar o estudo (arquivo de 7 Mb), vá por aqui.

Congresso de Ética na Mídia prorroga prazo

(reproduzindo o informe dos organizadores)

Ampliado el plazo hasta el día 8 de febrero de 2015 para enviar propuestas de comunicaciones (abstracts) al III International Conference on Media Ethics (http://congreso.us.es/mediaethics/index.php/es/), que tendrá lugar en Sevilla los días 24, 25 y 26 del próximo mes de marzo. El plazo máximo para la entrega del texto completo será el 28 de febrero.

Atendiendo a la petición de algunos investigadores, se aceptaran comunicaciones para ser presentadas a través de internet (por skype o programas similares). Se dedicarán algunas de las sesiones del congreso a estas comunicaciones no presenciales en horarios que tendrán en cuenta la diferencia horaria entre Europa y Latinoamérica.

En esta III edición del Congreso contaremos entre otros ponentes con los profesores John Peters (University of Standford), Basilio Monteiro (Universidad St. Johns – Nueva York-) o  José Manuel de Pablos (Universidad La Laguna). Esta edición, está concebida como un espacio para intercambiar ideas de nuevos proyectos y la búsqueda de socios internacionales. También se ofrecen actividades prácticas para la mejora y calidad de la investigación científica, como una mesa redonda sobre revistas científicas patrocinada por la Revista Latina de Comunicación Social.

Dado el carácter internacional del congreso y los horarios europeos, el congreso se desarrollará en dos sesiones: mañana (9’30h -14’30h) y tarde (16’00h-18’00h), dejando así más tiempo a los congresistas para establecer relaciones con otros colegas o disfrutar de la ciudad si así lo desean. La organización ofrecerá diversas actividades sociales complementarías para quienes deseen prolongar las sesiones académicas con sesiones de trabajo en un contexto más personal y ameno.

Las comunicaciones seleccionadas para su publicación formarán parte de en un libro de actas electrónico publicado por la editorial Dykinson S.L, de Madrid, con su correspondiente ISBN, y un comité científico que avale dicha publicación. En los propios días del congreso se ofrecerá el link desde el cual se podrán descargar los congresistas sus contribuciones.

El primer día, 24 de marzo, las sesiones del congreso serán sólo en español, y en los días sucesivos, 25 y 26, serán tanto en español como en inglés.

Le agradecemos que distribuya esta información entre vuestras redes de contactos.

Más información o cualquier gestión: 3mediaethics@gmail.com

um clássico renovado

capa karamO professor Francisco José Castilhos Karam, um dos coordenadores do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) está lançando a 4ª edição revista e ampliada de “Jornalismo, Ética e Liberdade”.

Editado pela Summus, o livro foi publicado originalmente em 1997 e se tornou uma leitura obrigatória para pesquisadores, jornalistas e estudantes interessados nos dilemas éticos jornalísticos. Nesta reedição, a editora apresenta novo tratamento gráfico, capítulos completamente revistos e novas seções.

O autor leciona no Departamento de Jornalismo da UFSC desde 1984, já publicou “A ética jornalística e o interesse público” e atualmente é o coordenador do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (POSJOR).

(reproduzido de objETHOS)

é depois de amanhã: donsbach na ufsc

Qual a relação do Jornalismo com o Conhecimento? Em uma época marcada pelas megafusões midiáticas, pelo infoentretenimento, pelo império das audiências, pelo marketing do poder político e econômico que embala a informação, haveria ainda sentido acreditar que o Jornalismo esteja ressurgindo com sua força de contrapoder, de investigação dos poderes públicos e privados quando estes impactam na vida social? Quando alguns autores e profissionais acreditam que o jornalismo dos sonhos foi sepultado, haveria sentido defender que o jornalismo tem ainda grande contribuição para manter a vitalidade democrática e disseminar controvérsias e possibilitar escolhas lúcidas?

O trecho acima é do comentário da semana no objETHOS, assinado pelo professor Francisco José Castilhos Karam. Ele aborda as relações entre jornalismo, conhecimento e ethos profissional, e saúda a vinda de Wolfgang Donsbach depois de amanhã – dia 17! – na conferência de abertura do semestre no POSJOR/UFSC.

Para ler a íntegra, clique aqui.

ética na comunicação, um dossiê

 

cover_issue_148_pt_PTA revista Comunicação e Sociedade, publicada pela Universidade do Minho (Portugal), acaba de chegar à web com um dossiê sobre ética na comunicação.

Ajudei a editar o número com o professor Joaquim Fidalgo, e o sumário dá uma amostra da variedade e atualidade das pesquisas sobre o tema no amplo arco da área da comunicação:

  • Panorâmica da ética dos media no plano internacional  – Clifford G. Christians
  • Sem medo do futuro: ética do jornalismo, inovação e um apelo à flexibilidade – Jane B. Singer
  • Novos desafios para uma deontologia jornalística duradoura: o modelo de negócio dos media face às exigências éticas e à participação cidadã – Carlos Maciá-Barber
  • Entre verdade e respeito – por uma ética do cuidado no jornalismo – Carlos Camponês
  • Ética e teorias da comunicação: poder, interações e cultura participativa – Luis Mauro Sá Martino e Ângela Cristina Salgueiro Marques
  • O respeito pela privacidade começa na recolha de informação – Paulo Martins
  • Credibilidade das redes sociais online: aos olhos dos jornalistas profissionais finlandeses – Mohammad Ofiul Hasnat
  • A (não) regulação da blogosfera: a ética da discussão online – Elsa Costa e Silva
  • Preocupações éticas no jornalismo feito por não-jornalistas – Rogério Christofoletti
  • Para além da propaganda e da Internet: a ética do jornalismo – J. Paulo Serra
  • Agendamento em publicidade: compreender os dilemas éticos de um ponto de vista comunicativo – Marius-Adrian Hazaparu
  • A prioridade ética da retórica publicitária – Paulo Barroso

Editada em português e inglês, a revista pode ser acessada em:
http://www.lasics.uminho.pt/ojs/index.php/comsoc/issue/current/showToc

 

conteúdo gerado pelo usuário, um estudo

Screenshot 2014-06-04 02.47.20O Town Center for Digital Journalism, da Escola de Jornalismo de Columbia, acaba de disponibilizar ao grande público um estudo global sobre como sites, blogs e emissoras de TV usam e aproveitam os materiais enviados por suas audiências, os chamados Conteúdos Gerados pelos Usuários (CGU).

A pesquisa pode ser acessada aqui (em PDF, inglês, 153 páginas num arquivo de 2,8 megas).

Entre as conclusões, convém destacar que:

  • Os meios não sabem dar os devidos créditos nos casos de fotos e vídeos;
  • Esses materiais são utilizados todos os dias pela mídia!
  • Na pesquisa, 40% do CGU analisado estava relacionada à guerra civil síria, o que demonstra que os meios geralmente usam a colaboração amadora quando não têm acesso ou condições para fazer seu trabalho profissional;
  • As agências de notícia quase nunca conseguem verificar ou checar as informações embutidas nesses conteúdos, uma brecha perigosa para o jornalismo…
  • Os staffs editoriais não estão capacitados para lidar com os conteúdos dos colaboradores;
  • Nas redações, perdura um grande medo de que o uso de CGU gere ações judiciais, por violação de direitos autorais, de imagem, entre outros…

quem pode ser jornalista?

A resposta polêmica e incômoda de Jean-François Fogel é “qualquer um”. Pois quem decide é o público!

A declaração foi dada num evento recente no México e arrepiou a nuca de muita gente. Para um bom resumo da abordagem de Fogel, leia “No ambiente da nova mídia, o público decide quem é jornalista”, artigo de James Breiner.

Para ouvir as palavras do próprio Fogel, assista ao videozinho abaixo:

Você concorda?

gmail espiona os seus emails…

Se você tinha aquela pulga atrás da orelha, agora já pode ter certeza.

Não é mais segredo, pois o próprio Google admitiu: ele dá uma olhadinha nos emails que você manda para criar publicidades dirigidas!

O Google se explica em sua política de privacidade:

Nossos sistemas automatizados analisam seu conteúdo (incluindo e-mails) para oferecer a você ferramentas relevantes, como resultados de buscas personalizados, anúncios direcionados e detecção de spam e malware. Essa análise ocorre enquanto o conteúdo é enviado, recebido e quando é armazenado

Mais uma pá de cal sobre aquilo que conhecíamos como privacidade…

erros e mais erros…

Os erros jornalísticos têm sido um assunto recorrente em minhas pesquisas. Em 2005, junto com um inquieto aluno de graduação, abordei o erro como um problema que afetava a qualidade no produto jornalístico. Nós nos debruçamos sobre três diários locais e observamos como eles lidavam com as próprias falhas, se as reconheciam, se as explicitavam, se as corrigiam…

Tempos depois, o assunto voltou à carga, e uma rigorosa e atenta aluna de mestrado me procurou para levarmos adiante um outro estudo, mais focado nas versões online de importantes jornais brasileiros. Esta mestranda não só fez um intenso monitoramento de como as empresas jornalísticas erram, como propôs uma tipologia de erros e as bases para uma política de gestão de identificação de erros e qualidade editorial. O resultado é a dissertação “Parâmetros éticos para uma política de correção de erros no jornalismo online”, que Lívia de Souza Vieira defende publicamente na próxima sexta-feira, 11 de abril, no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (POSJOR/UFSC).

Um segundo orientando também se envolveu com esse assunto e está lustrando seu projeto de dissertação, para ser defendida em 2015. Enquanto isso, ele mergulha no tema, lendo, discutindo e escrevendo sobre erros jornalísticos. Na segunda-feira passada – ontem! -, ele assinou um artigo na seção Comentário da Semana do site Observatório da Ética Jornalística (objETHOS). Sob o título “O alargamento do espaço de reverberação e suas consequências, o caso Ipea”, o artigo de Thiago Amorim Caminada merece leitura, e comentários… Como se pode perceber, o autor tratou da derrapada de um dos institutos de pesquisa mais influentes do país e de como a mídia embarcou nessa história.

Como se pode perceber rapidamente, os erros jornalísticos são assuntos palpitantes, instigantes e muito férteis para debates profissionais e acadêmicos. Se o leitor se resigna e acredita que isso é mais que natural e que errar é humano, sugiro que olhe ao redor e perceba que o equívoco não é só das órbitas humanas. Robôs também erram, e robôs jornalísticos o fazem sem qualquer dor na consciência. Nicholas Diakopoulos mostra isso em seu artigo “Bots on the Beat”, publicado no Slate, com uma versão brasileira assinada por Fernanda Lizardo e Leticia Nunes, no Observatório da Imprensa.

Essa coisa de robôs fazendo notícias malucas me lembrou uma história recente. Em 2008, tropas russas invadiram a Geórgia, em mais um daqueles embates separatistas da região que já foi uma união de repúblicas soviéticas.  Acontece que os robôs do GoogleNews “montaram” relatos da ação e ilustraram as matérias com um mapa do estado norte-americano da Geórgia e não o país vizinho russo… Os mais afobados ficaram muito preocupados: os russos estão atacando os Estados Unidos… pura barbeiragem dos robôs!

 

a mídia e o cuidado como obrigação

David Putnam teve uma longa carreira como produtor de filmes premiados. Depois, cansou, largou tudo e passou a atuar com educação e ativismo social. Chegou a ser o homem forte da Unicef no Reino Unido. No video abaixo – uma intervenção no mundialmente aclamado TED – , ele traz questões bastantes interessantes sobre a mídia. Afinal, ela não deveria ter a obrigação de ser mais cuidadosa?

Para ver e pensar.

jornalismo-drone: questões éticas

O Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) retoma suas atualizações semanais hoje com um comentário que fiz sobre o uso de drones por organizações jornalísticas. Os drones são aqueles aviões-robôs, veículos aéreos não tripulados, criados com objetivos militares, mas já devidamente apropriados para outros fins, inclusive os jornalísticos. Meu comentário (que você pode ler na íntegra aqui) aborda cinco questões éticas para o jornalismo…

7 questões éticas para o jornalismo digital

Andrés Azocar, diretor de Meios Digitais do grupo midiático chileno Copesa, perguntou no Webinário de hoje à tarde na Red Ética Segura de Fundación de Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI):

  • Os critérios éticos do jornalismo convencional servem para a web?
  • Deve-se aceitar o erro como forma de evolução?
  • De quem são os cliques: dos meios ou dos agregadores?
  • O que é melhor: opinar ou informar?
  • O que fazer: ser o primeiro ou ser o melhor?
  • Editar ou censurar os comentários?
  • Qual a ética da tecnologia?

Questões muito, muito importantes…

padrões éticos para o jornalismo online

Os jornalistas britânicos andam bastante preocupados com o nível de seu jornalismo, afinal não está fácil pra ninguém, né? Grampos do News of the World… Relatório Leveson… as últimas denúncias de abusos sexuais de apresentadores da BCC…

Comentei no objETHOS sobre um evento que discutiu padrões éticos para o jornalismo online. O News:Rewired acaba de publicar um vídeo com um painel dessa discussão. Vale ver…

links para um domingo à noite

Fiz uma faxina nos links recolhidos na semana e destaco cinco cliques:

  • Práticas Jornalísticas é o blog do projeto de pesquisa O controle discursivo que toma forma e circula nas práticas jornalísticas, coordenado pela Beatriz Marocco, professora e pesquisadora da Unisinos. Vale conferir as entrevistas com jornalistas brasileiros falando de seus métodos de trabalho.
  • De olho na cobertura das explosões na Maratona de Boston, o blog Chat Girl fez um resumão dos erros jornalísticos pela mídia, por causa da pressa, da checagem de informações mal feita…
  • Por falar na montanha dos erros, o colunista da Reuters Jack Shafer aborda as muitas repercussões do tema, e a importância da audiência em apontar as derrapadas dos jornalistas.
  • Conheça o Manual de Periodismo de Datos, resultado de um curso em 2011 do European Journalism Centre e a Open Knowledge Foundation em Londres. A versão está em espanhol e em contínua atualização.
  • Adivinhem quem é o campeão mundial em pedidos para retirada de conteúdos online? Segundo um relatório de transparência do Google, é o Brasil…

com criança pode?

Só hoje assisti ao vídeo em que José Genoino “fala” ao CQC, transmitido na segunda passada, 25. E confesso: pensei três, quatro vezes se escreveria sobre isso. Na verdade, me fez mal o que vi. Fiquei incomodado. Não com o cerco que os personagens do programa fazem aos políticos em Brasília, nem com a pegação de pé habitual com Genoino. Duas coisas me chamaram a atenção no vídeo: a gana do CQC Mauricio Meireles para humilhar o deputado e a cilada que armou para que Genoino respondesse ao programa.

Eu poderia descrever, mas é melhor ver com os próprios olhos:

Viu? Pois é, não vou discutir se Genoino é corrupto ou não. Fato é que ele foi condenado pelo STF pelo escândalo do Mensalão. Outro fato que também não pode ser ignorado é a sua biografia na vida política nacional. Mas, como disse, não vou entrar nessa polêmica. Só vou me prender aos dois aspectos que me causaram mal estar ao ver o vídeo. E para isso vou lançar perguntas ao léu, que você – leitor – pode se atrever a responder ou não…

– é correto ensaiar uma criança para repetir perguntas capciosas para alguém?

– é certo que o seu pai filme uma conversa em ambiente privado – um gabinete – para tentar “flagrar” algum deslize do político?

– a criança em questão sabia o que estava fazendo? se não sabia, de quem é a responsabilidade por aquilo?

– o homem que a acompanhava era mesmo seu pai?

– durante meses, o CQC tentou arrancar declarações de Genoíno e sempre em ambientes públicos. É legítimo que se valha de uma troca de palavras em ambiente privado para fazer tanto alarde?

– o CQC precisava usar uma criança para ter esse efeito?

– a frase de Genoíno – de que o PSDB tinha “lábia” e por isso não saía o julgamento do Mensalão tucano – era alguma confissão de culpa ou algo que o incriminasse?

– o CQC é um programa jornalístico ou humorístico?

– se o CQC for um programa jornalístico, quem é o diretor responsável que deveria responder por eventual uso indevido de um menor no vídeo?

– se for um programa jornalístico, o CQC se baseia em que princípios jornalísticos? E quais princípios éticos?

– se for um programa humorístico, o CQC deve ter limites? Quais?

– pode-se discutir limites de programas humorísticos sem despencarmos para a velha discussão sobre censura?

– programas humorísticos transmitidos pela TV aberta também se enquadram no que dizem a Constituição Federal, a legislação sobre radiodifusão pública e o Estatuto da Criança e do Adolescente?

– a declaração de Genoíno traz algo de novo (jornalisticamente falando) ao caso do Mensalão ou a qualquer outro?

– pegadinha é um recurso jornalístico?

– pegação no pé é uma técnica jornalística?

– usar uma criança para armar uma arapuca com alguém (quem quer que seja!) é engraçado?

– onde está a graça em humilhar e ofender as pessoas, mesmo as condenadas na justiça?

– até onde pode-se ir na tv brasileira?

Sim, isso tudo me embrulhou o estômago…

chyperpunks, criptojornalismo e assange

capa-cypherpunks-provisc3b3riaCoincidências, ah, as coincidências… Bem na semana em que começo a ler “Cypherpunks – liberdade e futuro da internet”, o novo livro de Julian Assange, tropeço em “Cryptoperiodismo – manual ilustrado para periodistas”, de nelson fernandes (assim mesmo, sem iniciais maiúsculas) e Pablo Mancini. O primeiro traz quase 170 páginas de diálogo do rosto à frente do Wikileaks com três importantes ativistas e programadores sobre quebra de privacidade na web, segurança, vigilância e outros temas relacionados. Jacob Appelbaum, Andy Müller-Maguhn e Jérémie Zimmermann dividem com Assange preocupações sobre a nossa convivência online no presente e além. De quebra, fortalecem o movimento dos chyperpunks, os criptopunks, que defendem privacidade para as pessoas comuns e transparência para os poderosos. Polêmico, instigante, atual.

“Cryptoperiodismo” não mergulha tanto, mas vai na mesma trilha: a necessidade de os jornalistas se resguardarem em ambientes virtuais, preservando identidade, fontes e informações. É um guia, em espanhol, e disponível no site do livro.

Se você é jornalista ou não, pouco importa. Mas se eu fosse você, não desviaria dos alertas que esses dois livros trazem. Na pior das hipóteses, fazem a gente pensar.

regulação de mídia no reino unido

Screenshot 2012-12-03 10.55.06Os britânicos levam a mídia muito a sério. Eles têm órgãos fortes que atuam nesse campo, têm regras rígidas e um sistema de comunicações que compreende a dimensão dos cidadãos na equação comunicativa. Mesmo com tudo isso acontecem algumas barbaridades por lá, e o caso mais evidente é o escândalo dos grampos do News of the World.

Recentemente, foi lançado um amplo relatório – com quase 2 mil páginas! – tratando de questões relativas à cultura, à sociedade, à política, à ética e aos meios de informação.

O aspecto mais forte é que há um entendimento de que a mídia precisa de uma nova regulação nas terras da rainha…

Você pode ler o Leveson Inquiry aqui, mas se quiser uma mãozinha, The Guardian te dá: veja um sumário visual do documento…

Já pensou um negócio desses por aqui?

duas questões éticas na semana

Dois episódios em latitudes distintas, envolvendo jornalistas, ajudam a fechar a semana com a cabeça fervilhante. São eventos provocantes, que nos levam a fazer sérios e oportunos questionamentos éticos:

No Reino Unido, a Press Complaints Comission julgou que usar fotos retiradas de páginas do Facebook não é uma violação ética. Que implicações isso pode ter em termos de privacidade e uso de materiais de terceiros?

No Brasil, um sequestro terminou após o apresentador de TV José Luiz Datena negociar a liberação dos reféns, ao vivo, pela TV. Felizmente, tudo terminou bem. Mas fica a pergunta: até onde o jornalista pode ir em casos delicados como este?

A pensar…

conferência sobre ética jornalística

A Faculdade de Comunicação da Universidade de Sevilha, na Espanha, está divulgando a chamada de textos para a segunda edição da Conferência Internacional sobre Ética Jornalística. O evento acontece em abril de 2013, e contribuições são aceitas até 15 de março.

Mais informações em: http://congreso.us.es/mediaethics/index.html

mudanças no jornalismo: um evento, uma pesquisa

Participo hoje do Seminário “Mudanças no Mundo do Trabalho dos Jornalistas” na ECA/USP, a convite da professora Rosely Fígaro. A atividade é uma iniciativa do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT) e está reunindo pesquisadores, profissionais e interessados para discutir transformações na área. Na semana passada, por exemplo, o convidado foi o jornalista Luciano Martins Costa, que tem larga experiência profissional e é um arguto analista da mídia com forte presença no Observatório da Imprensa. Na semana que vem, meu amigo Jacques Mick, professor do Departamento de Sociologia Política da UFSC, deve falar sobre a pesquisa que coordena para traçar um perfil do jornalista brasileiro.

Hoje, devo orientar minha fala para tratar da crise do jornalismo e da dimensão ética que perpassa esse cenário.

Acho muito importante a realização de eventos deste tipo, que juntam academia e mercado para debater soluções comuns para a atividade jornalística. O fosso que separa o setor produtivo da universidade interessa a quem, afinal?

Se você tem curiosidade sobre este assunto, pode acompanhar o debate de hoje à noite pelo IPTV-USP ao vivo. Basta clicar aqui.

Se quer participar da pesquisa que tenta recensear os jornalistas no Brasil, clique aqui.

mudanças no mundo do trabalho dos jornalistas

O Centro de Pesquisa Comunicação e Trabalho (CPCT) realizará o Ciclo de Seminários As Mudanças no Mundo do Trabalho dos Jornalistas para divulgar os resultados da pesquisa O perfil do jornalista e os discursos sobre o jornalismo. Um estudo das mudanças no mundo do trabalho do jornalista profissional em São Paulo, realizada entre 2009 e 2012 com apoio da FAPESP. Este Ciclo de Seminários propõe-se a discutir sobre o perfil dos jornalistas a partir do ponto de vista do profissional sobre o seu trabalho. Os dados sobre o perfil e as falas dos jornalistas profissionais foram coletados durante o desenvolvimento do projeto.

A pesquisa realizou o estudo proposto a partir do binômio comunicação e trabalho, o qual mobiliza o ponto de vista da atividade humana (ergológica) para entender as práticas profissionais no contexto da fusão de mídias e de relações de trabalho cada vez mais precárias. O projeto abordou o objeto empírico – amostra de jornalistas profissionais em São Paulo – a partir de métodos quantitativos e qualitativos, e os dados foram analisados por meio da Análise do Discurso.

Obtém-se como resultado um mapa do perfil do profissional de jornalismo e o ponto de vista deste profissional sobre seu trabalho, para que se possa entender qual o compromisso dele com o direito à informação, bem como poder traçar caminhos mais profícuos para a sua formação universitária. Neste Ciclo serão apresentados o desenvolvimento e os resultados da pesquisa, além de contar com a participação do jornalista Luciano Martins Costa no dia 08/10 e dos Professores Rogério Christofoletti (no dia 18/10) e Jacques Mick no dia 23. Nos três dias o evento contará com a presença dos professores Roseli Fígaro (ECA/USP, coordenadora do CPCT e da pesquisa), Maria Aparecida Baccega (vice-coordenadora do CPCT, ECA/USP e ESPM) e José Coelho Sobrinho (ECA/USP). Veja a programação completa:

Seminário O Mundo do Trabalho dos Jornalistas

Coordenadora:

Roseli Fígaro Profa. Livre-docente do Departamento de Comunicações e Artes da ECA/USP, coordenadora do CPCT.

Convidados:

Luciano Martins Costa: 8/10 (segunda-feira) no Centro Universitário Maria Antonia USP (Rua Maria Antonia, 258 e 294, Vila Buarque), SP

Rogério Christofoletti: 18/10 (quinta-feira) na ECA/USP – Auditório Lupe Cotrim (Av.Prof. Lucio Martins Rodrigues, 443, 2ºandar)

Jacques Mick: 23/10 (terça-feira) na ECA/USP – Auditório Lupe Cotrim (Av.Prof. Lucio Martins Rodrigues, 443, 2ºandar)

Debatedores (presentes a todos os eventos):

Maria Aparecida Baccega – Profa. Livre-docente, vice-coordenadora do CPCT da ECA-USP e orientadora no Programa de Mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM.

José Coelho Sobrinho (Prof. Titular e chefe do Depto de Jornalismo e Editoração da ECA-USP).

Inscrições: grátis. Enviar e-mail para comunicacaoetrabalho@gmail.com com nome completo, contato e instituição/vínculo até a véspera do evento.

(reproduzido do site do grupo de pesquisa)

30 códigos de ética juntos!

Não comentei aqui antes, mas faço agora. O Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) retomou suas atividades deste semestre na semana passada e lançou seu primeiro e-book, contendo trinta códigos de ética jornalística devidamente traduzidos para o português. A Coleção objETHOS de Códigos Deontológicos é gratuito, tem 151 páginas, e arquivo de 1,4 Mega em documento PDF.

Baixe aqui.

onde fica a consciência do jornalismo?

(Já que falei da 11ª Semana do Jornalismo, reproduzo abaixo um texto que publiquei na Semana Revista, a pedido dos organizadores)

Idealismo e parcialidade ajudam a consolidar uma imagem equivocada do jornalismo. Embora ele seja uma atividade de massa, altamente exposta e cada vez mais presente na vida social, nem sempre se sabe como ele funciona, o que chega a ser uma contradição. Como são cercadas por veículos de informação, as pessoas acham que estão íntimas do jornalismo e se acomodam com os conceitos que dele têm. Por conveniência e letargia, jornalistas e veículos também não se mobilizam muito para desmanchar mitos insustentáveis como os da objetividade, imparcialidade e verdade única. Este círculo vicioso mantém visões românticas e glamourosas do jornalismo.

Como isso interfere na vida do cidadão comum, que não frequenta uma redação nem se preocupa com os valores-notícia? Essa visão idílica distorce também os julgamentos sobre os produtos e serviços jornalísticos, fazendo com que as pessoas passem a julgar as coberturas de uma forma que não tem correspondência com o cotidiano das ruas. Trocando em miúdos: as pessoas vêem o noticiário e se escandalizam com o enfoque das reportagens, julgando que alguém ali está querendo enganá-las. Claro que isso pode acontecer, mas nem sempre é manipulação descarada, distorção deliberada ou um grande plano conspiratório. Pode haver uma série de razões que expliquem a diferença entre a expectativa do público e a narrativa apresentada. Este descolamento entre o desejo da audiência e o produto jornalístico causa frustração num primeiro momento, depois indignação e uma quase incontornável repulsa na sequência.

Em coberturas de casos polêmicos, a zona de tensão se amplia porque tendências ideológicas afloram com mais força e os limites editoriais também se impõem mais. Veja-se o Caso Pinheirinho. Em janeiro deste ano, a Polícia Militar de São Paulo expulsou com violência 1,6 mil famílias de moradores da comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos. Os soldados cumpriam uma decisão judicial de reintegração de posse do terreno, que pertencia à massa falida do grupo Selecta, do investidor Naji Nahas. A área contava com 1,3 milhão de metros quadrados, e o litígio opunha a ordem da justiça e milhares de favelados que ocuparam um terreno de um especulador que devia milhões de reais em impostos à prefeitura. Como a maior parte dos veículos de comunicação cobriu o assunto? Basicamente apoiada na legitimidade da ação policial em “desocupar” a área, sem questionar se a ordem era justa ou razoável, ao determinar desalojar milhares de pessoas para pagar dívidas tributárias.

O cidadão comum pode se queixar do tratamento dado ao caso pela mídia, enxergando ali a preferência de um lado em detrimento de outro, e – pior! – questionando a ética dos repórteres. Isso é legítimo? Sim, se o cidadão esperar que o relato jornalístico reflita o que o repórter sente e acredita. Mas nem sempre é assim.

O jornalismo é uma atividade complexa e coletiva. O resultado final, aquele que chega ao público, é produto de diversas etapas de apuração, checagem, recorte, seleção, adequação de formato, tradução de linguagem, embalagem e difusão. Claro que isso envolve mais gente, e que a visão do repórter pode se perder no meio de tudo, seja porque não é a que melhor retrata o fato, ou porque se corrompe ao longo do processo. As omissões no Caso Pinheirinho – sobre os abusos de poder da Polícia Militar e as violações de direitos humanos na ação -, a prevalência de um ângulo e a escolha da ênfase em algum aspecto podem sim contrariar preceitos da ética jornalística, expressa em códigos escritos ou em regras tácitas da categoria. O repórter “se vendeu” à visão do veículo que trabalha e por isso fez um “mau serviço”? Pode ser, mas é difícil afirmar com segurança. Sabe por quê? Porque existem mais fatores que ajudam a determinar a situação.

Nem sempre é o proprietário do meio de comunicação quem determina o viés da matéria. Muitas vezes, são os chefetes de plantão que atuam em nome de um jornalismo que insiste em conservar as coisas como elas estão. Eles fazem o serviço sujo, antecipando-se à sanha de um superior que supostamente gostaria de controlar todas as peças no tabuleiro. Em outras ocasiões, há o despreparo de quem sai às ruas para a cobertura, tanto técnico quanto cultural e cognitivo. Isso mesmo! Há repórteres que não se mostram capazes de “ler” uma cena, de compreender uma disputa, de perceber absurdos nas circunstâncias. Existem ainda os episódios em que tanto se mexe na matéria que ela se deforma, distanciando-se muito do seu sentido original. Note-se quantos fatores podem definir o resultado final de uma pauta!

Nem sempre é a consciência do repórter que determina e conduz a narrativa da reportagem. Valores-notícia, critérios editoriais do veículo, escolhas momentâneas de editores e decisores, consensos de redação também estão em campo. Afinal, onde fica a consciência no jornalismo? Fica em muitos lugares, mas precisa se orientar por um horizonte único: o interesse e a necessidade do público. Sem essa referência, qualquer bússola se desorienta.

revista traz dossiê sobre ética na comunicação

A edição deste semestre da revista Comunicação, Mídia e Consumo, da ESPM, traz um dossiê sobre Comunicação e Ética.

Veja o sumário do especial e acesse a edição:

Discurso e mobilização social no contexto das tecnologias interativas: a emergência de múltiplas esferas argumentativas – Edson Fernando Dalmonte

A liberdade de imprensa e a liberdade na publicidade – Eugenio Bucci, Silvio Nunes Augusto Junior

Política na hora do chá: ética e identidade no debate online sobre uma bebida – Luis Mauro Sá Martino, Ângela Cristina Salgueiro Marques

Ética jornalística na primeira década do século XXI: um mapeamento de ocorrências – Rogerio Christofoletti, Marianne Oliveira Ternes

viu a piada do dia? ah, você não pode perder…

Se você é sensível a fortes emoções, prepare-se para se escangalhar de rir com o editorial de hoje do jornal O Globo, defendendo a Veja… Pior que isso, comparando as ligações entre a revista e Carlinhos Cachoeira com o caso Watergate…

Vou te falar, viu? Isso é que é senso de humor!

 

o que fazer: clicar ou salvar?

Em 1993, o fotógrafo sul-africano Kevin Carter capturou uma cena que alarmou o mundo e causou muita polêmica: uma criança famélica agonizava no chão sendo espreitada por um abutre. A foto feita no Sudão era uma denúncia gritante da fome nos países pobres da África, mas o retrato revelou muito mais. Fez com que jornalistas e autoridades discutissem os limites éticos dos repórteres fotográficos: no caso da criança sudanesa, Carter deveria registrar a cena ou espantar um virtual predador?

Passados quase vinte anos, o tema poderia ser rediscutido a partir dos registros que um homem fez de sua mulher sendo atacada por guepardos num parque safári na África do Sul. Archbald D’Mello alega não ter percebido que os felinos atacavam a esposa, que estava justamente no local celebrando seu aniversário de 60 anos.

Tudo bem que os casos são bem distintos. Uma turista idosa e uma criança descansando antes de chegar a um centro de donativos são “objetos” diferentes. Carter era repórter fotográfico, D’Mello uma testemunha. Mas pergunto: o que há de semelhante e coincidente entre os casos? Quem está por trás da câmera deve ter a mesma reação diante do perigo? O que poderia justificar a opção por clicar a cena em vez de tentar um salvamento? É legítimo falar em interesse público nos dois casos?

O que você pensa disso? Deixe o seu comentário.

Essas perguntas martelam minha cabeça nesta manhã ensolarada de domingo.

cinco desafios para o jornalismo investigativo

(publicado originalmente no objETHOS)

O jornalismo investigativo é uma vertente em franca expansão no país. Aparentemente otimista, a afirmação pode encontrar eco na respeitável quantidade de reportagens a que o público vem tendo acesso nas últimas duas décadas. O jornalismo investigativo prospera à medida que a democracia se fortalece e faz emergir escândalos, esquemas e facínoras. Mas aumenta o otimismo em torno desse tipo de jornalismo também quando se percebe o crescimento do interesse pelo tema, seja na forma de lançamentos editoriais ou na realização de eventos que o discutam. A criação da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) há dez anos ilustra isso com muita evidência. Numa escala menor, a realização do 2º Seminário Brasil-Argentina de Pesquisa e Investigação em Jornalismo (Bapijor), nos dias 17 e 18 de abril, em Florianópolis, também reforça a cena.

O evento reuniu jornalistas e acadêmicos dos dois países para debater avanços na área, mas quero desatacar um punhado de aspectos que me inclino a pensar como desafios. Se o jornalismo investigativo tivesse uma agenda, penso que ela não poderia prescindir de enfrentar esses cinco desafios, colhidos a partir das falas de alguns convidados do Bapijor.

Terra sem lei

Num plano jurídico-institucional, duas condições são complicadoras do trabalho de profissionais e veículos: a ausência de alguns marcos regulatórios no setor da comunicação e a inexistência de sistemas garantidores para a atuação dos jornalistas. O professor Guillermo Mastrini, da Universidad Nacional de Quilmes, apresentou um levantamento de como os governos progressistas da América Latina vêm construindo formas de regulação da mídia em seus países. Na última década, Argentina e Venezuela têm se destacado em termos de política de comunicação, enquanto o Brasil demonstra pouca disposição para enfrentar o assunto. Perduram a concentração dos meios nas mãos de poucos controladores, a falta de transparência no sistema de concessões de radiodifusão, o vácuo jurídico criado com o fim da lei de imprensa e a total inexistência de uma lei geral de mídia eletrônica, entre outros impasses.

A diretora da Abraji, Luciana Kraemer, relatou que a Organização das Nações Unidas criou em março passado um plano de segurança para jornalistas, iniciativa que não contou com o voto da representação brasileira. A jornalista lembrou ainda da existência de um Sistema Internacional de Proteção aos Direitos Humanos, que abarcaria também violações à liberdade de expressão, dimensão diretamente ligada ao trabalho jornalístico. Em terras brasileiras, a alternativa para assegurar melhores condições seria a aprovação do Projeto de Lei nº 4575/2009, que prevê a crição de um programa de proteção dos defensores dos direitos humanos. Em tramitação no Congresso Nacional, a iniciativa já tem projetos semelhantes adotados em cinco estados: Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, Pernambuco e Pará. Mas enquanto o anteprojeto não é votado em plenário, o país fica sem oferecer um sistema nacional que proteja jornalistas, principalmente em investigações de casos que violem outros direitos humanos.

Empirismo e instinto

Em termos operacionais, outros três aspectos se colocam como desafios para o jornalismo investigativo: jornalistas precisam se aliar a profissionais da tecnologia; é necessário priorizar a sistematização de métodos de investigação; a mídia deve voltar a mira para si mesma.

Especializada em jornalismo em bases de dados, a jornalista Sandra Crucianelli é quase uma doutrinadora. Para ela, as condições atuais exigem que jornalistas adotem seus próprios meios de verificação de informação e se consorciem a programadores de sistema e especialistas em informática. Os repórteres precisam voltar a estudar matemática, disciplina de base para dar mais precisão e fidelidade aos relatos jornalísticos. Devem aprender linguagens computacionais, dominar ferramentas e aplicativos, aliar técnicas jornalísticas e tecnologia da informação, enfatiza.

Ao mesmo tempo em que Crucianelli abre o leque das possibilidades, acadêmicos e profissionais voltam seus olhares para o interior da atividade jornalística: na maioria das vezes, falta método e sobra intuição. A jornalista Daniela Arbex, uma das mais premiadas repórteres da sua geração, reconhece que impera o empirismo e o binômio tentativa e erro. Algumas técnicas de apuração são até compartilhadas, inclusive em cursos oferecidos pelos colegas de profissão, mas elas se restringem a um ou outro aspecto da investigação, completa o professor Samuel Lima, que pesquisa o assunto. Presumo até que, em se tratando de jornalismo investigativo, haja cuidados sobressalentes dos repórteres em dividir modus operandi que foram lapidados ao longo de suas carreiras e que se tornaram verdadeiros segredos da profissão. Preservar a técnica contribuiria para impedir avanços nos métodos na medida em que não se motiva sua discussão, nem se testa sua eficácia e alcance.

Do sigilo do repórter ao segredo das redações. Um último desafio para o jornalismo investigativo é voltar-se para a própria atividade profissional e levantar informações ocultadas para preservar situações particulares em detrimento do interesse público. No Brasil, vigora um acordo tácito que faz com que a mídia não cubra a mídia. Isto é, os meios de comunicação simplesmente preferem ignorar temas que tratem da política, economia, ecologia e cultura midiáticas, como se esses assuntos fossem de interesse restrito e não de caráter social. Evidentemente que a aplicação desses filtros alija o grande público de informações que podem impactar no seu imaginário e no seu cotidiano social. Se a mídia não cobre a mídia, que dirá investigá-la, questiona o jornalista Leandro Fortes.

Em tempos de CPI do Cachoeira, quando não só baluartes da moralidade são colocados na berlinda, mas a lama também parece atravessar a soleira de algumas redações jornalísticas, a ideia de contarmos com jornalistas investigando os negócios da própria mídia é muito atraente e oportuna. Uma agenda para o jornalismo investigativo não poderia prescindir de uma abordagem deste calibre sob pena de se esvaziar ética e moralmente.

abertas as inscrições para 2º bapijor

Novidade!

Já estão abertas as inscrições para o Seminário Brasil-Argentina de Pesquisa e Investigação em Jornalismo (Bapijor). O evento acontece nos dias 17 e 18 de abril no auditório da reitoria da UFSC, em Florianópolis. As vagas são limitadas a 200 inscritos. São três faixas de inscritos: alunos de graduação (R$ 10,00), alunos de pós-graduação (R$ 20,00) e jornalistas, professores e pesquisadores (R$ 40,00).

Os interessados devem acessar o site.

As inscrições vão até 10 de abril.

O Bapijor é uma iniciativa do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC (POSJOR) e do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), com patrocínio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação Tecnológica de Santa Catarina (Fapesc) e Pró-Reitoria de Assistência Estudantil (PRAE). O evento conta com apoio da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina (SJSC) e Fundação de Apoio à Pesquisa e Extensão Universitária (Fapeu).

Mais informações: http://www.bapijor.ufsc.br

jornalismo após wikileaks e news of the world

O World Press Freedom Committee e a Unesco promovem hoje e amanhã o seminário “A mídia mundial após o WikiLeaks e o News of the World”, evento que vai reunir jornalistas e experts de diversas partes do mundo para debaterem novos cenários para o jornalismo nos próximos anos. O seminário acontece nas dependências da Unesco em Paris, e é motivado pelos rebuliços provocados pelas ações do WikiLeaks e pelas escutas clandestinas que precipitaram o fechamento de um dos jornais mais tradicionais do Reino Unido.

Veja parte da programação:

Hoje, quinta, 16:
Painel 1 – Como os profissionais de mídia tratam o ambiente digital
Painel 2 – Profissionalismo e ética no ambiente de novas mídias depois do WikiLeaks e do News of the World
Painel 3 – Legislação internacional após WikiLeaks
Painel 4 – Relações entre governo e mídia depois do WikiLeaks

Amanhã, sexta, 17:
Painel 5 – Liberdade na internet após o WikiLeaks
Painel 6 – Jornalismo profissional e jornalismo cidadão trabalhando juntos após o WikiLeaks

Mais informações: http://www.unesco.org/new/en/communication-and-information/

Aaaahhhh!
Se você se interessa pelo tema, veja um livro sobre o WikiLeaks, um dossiê sobre o assunto e uma entrevista.

uma saída para a ética jornalística

Em tempos de transformações tão profundas nos modos de se fazer jornalismo, nos relacionamentos entre jornalistas, meios e audiências, e nas próprias regras éticas, há quem sinalize saídas igualmente drásticas. É o caso do professor Anton Harber, que dirige o Programa de Estudos de Jornalismo e Mídia da Wits University, na África do Sul.
Para ele, a saída está na adoção de uma transparência radical como valor para a prática jornalística. É de se pensar…

The way the media works has changed, and the way journalists operate has changed, but the ethical and professional rules have stayed largely the same. The old rules were based on building trust between journalists and their audience, on a notion that there was a single truth to be relayed; now it needs to be built on encouraging informed scepticism, so that an active, participatory audience can assess credibility and authority and choose which of many versions and viewpoints to follow and believe.

To cope with this, journalists need to do more than enforce ethical codes more strongly, but there is a need to update the rules and practices and make them appropriate to this new world of instant, constant and fragmented news.

Fortunately, new media also gives us the tools to do this, and encourage fairness, balance and accuracy in journalism. The way forward lies in a commitment to a radical transparency – giving the audience the tools to understand how news is processed and selected, and the information that empowers them to assess its validity and credibility.

Leia na íntegra, no blog do autor.

limites difusos para o telejornalismo

(publicado originalmente no objETHOS)

O jornalismo parece ser daquelas práticas humanas que necessitam frequentemente se olhar no espelho para reconhecer suas feições, admitir seus contornos. Com outras profissões, isso não é necessário. Os médicos sabem exatamente quando estão e quando não estão fazendo medicina. Os engenheiros também não padecem das dúvidas sobre a matéria e a natureza de suas atuações. Jornalistas não têm a mesma sorte e, volta e meia, discutem o que é fazer jornalismo e até onde isso vai. Talvez porque essa prática atravesse diversos outros campos, se mescle tanto socialmente que fique difícil discernir seus limites. Buscar se reconhecer é, então, um gesto permanente no jornalismo, o que, por um lado, auxilia o fortalecimento de uma convicção e, por outro, desestabiliza continuamente as certezas.

Críticos de mídia se ocupam de fazer esse debate, bem como pesquisadores da academia e observadores diversos. Mas quando os questionamentos partem das próprias redações, a dúvida emerge preenchida da legitimidade do empirismo, lembrando-nos a todo o momento do exercício prático da função. Foi assim esta semana quando se noticiou que alguns jornalistas da Rede Record estariam insatisfeitos com suas atuações na emissora. A informação foi dada por Mauricio Stycer em seu blog, inclusive com o anúncio de que o repórter Carlos Dorneles teria pedido demissão da Record por discordar de novas orientações do jornalismo. Dorneles negou sua saída em e-mail a Stycer, mas o foco do problema estaria numa suposta “crise” do jornalismo na Record por conta de interferências editoriais da Igreja Universal do Reino de Deus, proprietária da rede. Outro jornalista, não identificado por Stycer, teria dito “Não estou fazendo jornalismo, estou fazendo entretenimento”, e é esta fala em particular que me chama a atenção.

No âmago do jornalismo, esta distinção é histórica e tenta demarcar limites de atuação, bem como contornos do que significa reportar fatos. Uma tradição cultural se construiu ao longo das décadas de que jornalistas se ocupam da narração dos acontecimentos que interessem diretamente ao seu público, muitas vezes desagradando partes envolvidas e citadas, noutras contrariando até mesmo camadas da sua audiência. Quando opera dessa forma, o jornalismo se distancia do entretenimento na medida em que não conforma, não acomoda, não distrai. Corre o risco, portanto, de desagregar, de fomentar o dissenso, a crítica. Agindo assim, jornalistas – de forma incontornável – colecionam desafetos já que produzem dissabores. Parece simples e fácil, mas, na prática, manter essa direção requer pleno entendimento do exercício jornalístico, coragem, disciplina, atenção permanente e compromisso ético com um conjunto de valores que transcende a esfera do individual.

Sim, o jornalismo é dessas práticas que precisam frequentemente se olhar no espelho para reconhecer suas feições. Isso é saudável e necessário pois sua imagem é fugidia. Ainda mais num meio como a televisão, onde as fronteiras entre jornalismo e diversão ficam perigosamente embaçadas. A preocupação do jornalista anônimo chama a atenção, mais uma vez, da urgência de discutir, estabelecer e frisar os limites entre uma coisa e outra.

Esses limites não apenas determinam orientações para a conduta de profissionais e veículos, mas também auxiliam a enaltecer o que é prioritário, importante, essencial para a relação do jornalismo com a sociedade. Estou me referindo claramente a interesse público, aos critérios e processos de tomada de decisão que vão eleger o que deve ser narrado primeiro e melhor e o que deve ser simplesmente mencionado ou descartado. O anúncio das manchetes do Jornal Hoje, no último sábado (19), na Rede Globo, ajudam a ilustrar como é fácil perder o foco. A notícia que abriu a edição foi a execução do filho do coreógrafo Carlinhos de Jesus, Dudu, no Rio de Janeiro. O crime é bárbaro – oito tiros em alguém desarmado no meio da madrugada -, a perda de um filho é sempre um enredo dramático, mas o que parece ter influenciado definitivamente na decisão de escolher este acontecimento como o primeiro do telejornal foi a celebridade do pai-vítima. Tanto é que o nome de Carlinhos de Jesus é o anunciado na chamada e não de seu filho, menos conhecido.

Uma matéria como esta tem interesse público? Pode ter na medida em que se relaciona a um cenário mais amplo, de denúncia da violência urbana que ainda assusta aos moradores do Rio de Janeiro. Mas no frigir dos ovos, o fato é uma tragédia familiar, particular e não coletiva. Diferente de uma matéria que teve muito menos destaque na mesma edição do Jornal Hoje, de sábado: o desaparecimento de um cacique no Mato Grosso do Sul, que teria sido executado por fazendeiros da região. O filho adolescente da vítima exibe no próprio corpo marcas de balas de borracha e denuncia que o pai levou tiros na cabeça e pescoço, tendo sido levado por um bando de quarenta pistoleiros. Também neste caso, a ação é violenta e desproporcional, e o enredo é dramático. Três elementos diferenciam esta notícia da primeira: a inversão dos papeis das vítimas – agora, é o filho que sente a perda do pai -, a falta de notoriedade dos índios em comparação com o artista e a extensão do drama: a execução de um cacique atinge toda a sua comunidade e não apenas o seu núcleo familiar. Resumo da ópera: há mais interesse público e relevância jornalística no desaparecimento de um cacique numa área de litígio de terras do que a execução de um músico, filho de um conhecido coreógrafo.

A televisão dilui sutilmente os limites entre jornalismo e diversão, mesmo em casos graves como os citados. Foi mais determinante o star system que o caráter político de matérias sobre disputas agrárias. O jornalismo é feito de escolhas. Estas sinalizam limites. Em algumas situações, no espelho, o jornalismo entrevê sua imagem embaçada, tremida, desconfigurada. Precisamos de mais nitidez.

vem aí: jornalismo investigativo e pesquisa científica

A Editora Insular está lançando “Jornalismo Investigativo e Pesquisa Científica: Fronteiras”, primeiro livro do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) com o Mestrado em Jornalismo da UFSC (Posjor). A obra é organizada por Rogério Christofoletti e Francisco José Karam, e traz textos especialmente elaborados após o Seminário Brasil-Argentina de Pesquisa e Investigação em Jornalismo (Bapijor), que aconteceu em junho passado em Florianópolis.

O livro aproxima academia e mercado, jornalismo investigativo e pesquisa em comunicação, e as realidades brasileira e argentina. O objetivo é contribuir para os estudos na área e provocar debates nas redações, na busca por novos métodos de apuração, e no enfrentamento de desafios técnicos, políticos e éticos.

“Jornalismo Investigativo e Pesquisa Científica: Fronteiras” tem 184 páginas, e pode ser encontrado nas melhores livrarias do país. Pela internet, basta encomendar pelo site da editora.

Confira o sumário:

Apresentação: Fernando Rodrigues, Folha de S.Paulo e Abraji

Prefácio: Francisco José Karam

Parte 1 – Estratégias, métodos e fontes

Reportagem Assistida por Computador (RAC) e jornalismo investigativo – José Roberto de Toledo

Jornalismo, o prazer do ofício – Angelina Nunes

Cómo navegar extensos mares de un centímetro de profundidad – Rodolfo Barros

Uma aliança vital – Mauro César Silveira

Rosental e o novo modelo midiático – Claudio Julio Tognolli

Investigación? Revelación? Que pensam los periodistas? – Sebastián Lacunza

Límites y empobrecimiento de la investigación periodística en Argentina: indígnate (fácilmente) – Eduardo Blaustein

Parte 2 – Práticas, papeis e compromissos

Practica periodística y práctica científica – Martín Becerra

Diferenciações, aproximações e complicações entre a prática jornalística e a prática científica- Gislene Silva

Los compromisos del periodista y del investigador académico – Adriana Amado

Investigación, poder y política: una mirada desde el periodismo – Washington Uranga

Rascunhos de uma agenda positiva para redações e laboratórios – Rogério Christofoletti

Posfácio: Insuficiências teóricas e desafios – Samuel Lima

o pan olimpicamente ignorado

A menos de uma semana do início dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, o assunto é olimpicamente ignorado pelos veículos das Organizações Globo. O fato de a emissora de TV do Jardim Botânico não ter os direitos de transmissão da competição tem feito com que o evento seja simplesmente tratado como dispensável na pauta do seu noticiário.

Pior que não ter comprado os direitos de transmissão é ter perdido a exclusividade para o grupo de comunicação que mais vem “incomodando” com índices crescentes de audiência. Por isso, pelos lados da Record, o Pan 2011 é só festa e exaltação. São reportagens nos telejornais, chamadas a todo o momento, um batalhão de profissionais mobilizados e espaços generosos na programação da emissora. No R7, o site do grupo, há uma seção dedicada à cobertura da competição, fartamente ilustrada e constantemente abastecida. No G1 e no seu braço mais esportivo – SportTV – é gelo puro; idem no eBand, da concorrente que tem no esporte um dos carros-chefes de sua programação.

Alguém aí pode achar natural que não se coloque azeitona na empada alheia, já que estamos tratando de competidores em audiência e de rivalidade de mercado. Mas informação é um bem diferente de azeitonas em conserva ou empadas. Informação é uma mercadoria de alto valor agregado, que não se degrada com a sua difusão ou compartilhamento e que, muitas vezes, auxilia o seu portador a tomar decisões, escolher caminhos, reorientar-se no mundo. Isto é, informação é um bem de finalidade pública, embora seja cada vez mais frequente que empresas controladas por grupos privados a produzam e a façam circular. Independente disso, o produto carece de cuidados e atenções distintas.

Então, cobrir o Pan de Guadalajara é mais do que rechear a empada alheia. É garantir que o público tenha acesso a informações que julga relevantes e interessantes. Afinal, convenhamos, não se pode ignorar os Jogos Pan-Americanos. É uma competição tradicional – existe desde 1951 -, é importante – pois funciona como uma prévia regionalizada dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012 -, e é abrangente por ser continental e reunir 29 modalidades esportivas. Esses argumentos bastariam para colocar o evento na pauta de qualquer veículo de comunicação que se preze.

No caso das Organizações Globo, ignorar a efeméride é simplesmente deixar de lado seus recém-anunciados Princípios Editoriais. No documento, os veículos do grupo se comprometem a produzir um jornalismo calcado no que consideram ser os atributos da informação de qualidade: isenção, correção e agilidade. No item que trata de isenção, os princípios são bastante claros, e cito alguns trechos que colidem com o atual comportamento do grupo:

… “(d) Não pode haver assuntos tabus. Tudo aquilo que for de interesse público, tudo aquilo que for notícia, deve ser publicado, analisado, discutido”…

“(n) As Organizações Globo são entusiastas do Brasil, de sua diversidade, de sua cultura e de seu povo, tema principal de seus veículos”…

“p) É inadmissível que jornalistas das Organizações Globo façam reportagens em benefício próprio ou que deixem de fazer aquelas que prejudiquem seus interesses”

Este é um caso típico de descolamento entre o dito e o feito. Claro que as Organizações Globo podem estar preparando coberturas especiais sobre o evento ou correndo para apresentar um material diferenciado às suas audiências. Tomara. Mas se for assim, os veículos do conglomerado estarão atrasados, contrariando outra lei de ouro de seus Princípios Editoriais, a agilidade.