Uma pesquisa sobre jornalismo e transparência

Estou desenvolvendo uma pesquisa sobre transparência no jornalismo. Se você é jornalista, que tal responder algumas perguntas sobre este tema? É rápido e, no final, te presenteio com uma surpresinha.

A pesquisa tem patrocínio do CNPq e ela foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da minha instituição, a UFSC. Todos os detalhes técnicos e burocráticos estão aqui.

Para participar, precisa ser jornalista em atividade no mercado. O questionário está aqui

Obrigado por participar e por compartilhar com seus colegas.

Em nome da “liberdade”, meios desinformam em Santa Catarina

(Publicado originalmente no S.O.S. Imprensa)

A pandemia da covid-19 tem produzido estatísticas aterradoras, cenários dramáticos e grandes acrobacias discursivas. Governos se esforçam para nublar sua incapacidade de evitar mortes, e autoridades justificam porque não precisam usar máscaras em lugares públicos, como mandam os decretos. Não bastassem mais de 105 mil mortes no país e uma quantidade incontável de sofrimento, estamos também sob forte bombardeio de informações falsas, duvidosas ou simplesmente falaciosas. Em Santa Catarina, por exemplo, há veículos de imprensa que, sob o pretexto de defender liberdades, estão contribuindo com a epidemia de desinformação. É o caso do Grupo ND, que levantou a bandeira da “liberdade de tratamento”.

Em um polêmico editorial em seu jornal impresso, reproduzido também no portal de notícias e na emissora de TV (retransmissora da Rede Record), o Grupo ND vociferou que não era mais possível “aceitar a tutela do Estado” no combate à doença, e que cabia a doentes e médicos decidirem a melhor cura. O desprezo às recomendações de autoridades sanitárias internacionais veio no meio de julho, justamente o momento em que Santa Catarina começou a flexibilizar suas medidas de biossegurança. Foi quando o governador lavou as mãos, repassando a responsabilidade aos prefeitos. O relaxamento fez os números de casos e mortos triplicarem em semanas, ao mesmo tempo em que um prefeito de formação médica propalava o uso de cloroquina, ivermectina e até aplicações retais de ozônio.

Sob o pretexto de defender uma liberdade, a de se tratar, o conglomerado simplesmente renunciou à responsabilidade dos meios que abriga: informar com precisão e atrelado aos fatos. Sem estudos clínicos que comprovem sua eficácia, os tratamentos experimentais acabaram ganhando o mesmo status de importância e espaço no noticiário, o que contribui para a confusão popular. Com sua bandeira libertária, o ND vem alimentando um ecossistema de desinformação que pode matar. Assim, ganha força o discurso anti-científico, o negacionismo e o curandeirismo.

O que é preciso dizer é que a postura do Grupo ND é tão verdadeira quanto o efeito salvador desses medicamentos. Sua argumentação é sofismática porque ninguém acredita que o conglomerado esteja mesmo preocupado com a liberdade de tratamento das pessoas. Se assim estivesse, teria incluído em seu editorial o uso medicinal de canabidiol, por exemplo. No fundo, o que o grupo empresarial defende é a redução de supostas interferências estatais na vida social. Em recente entrevista, o empresário Marcello Petrelli fez saber sua visão de Estado mínimo, e de como não enxerga seu conglomerado de mídia entre as elites que comandam Santa Catarina. Em um discurso ambíguo, reconhece os governos, mas tenta se desvencilhar deles, históricos aliados.

Igualmente contraditória é a postura que desdenha de cientistas e autoridades sanitárias, mas relega a médicos a prerrogativa de decidir a melhor prescrição à covid-19. Isto é, o Grupo ND só reconhece a autoridade que lhe convém, seja um Estado que não melindra seus negócios ou uma política pública de saúde errática e frágil.

Mas uma empresa de comunicação não pode marcar posição sobre esses temas? Claro que pode, é um direito opinar e debater temas importantes. Mas os interesses de grupos privados não podem prevalecer sobre os interesses coletivos e a lei. A saúde e a vida são de interesse de todos, e grupos de comunicação precisam dar especial atenção a assuntos delicados que podem causar mortes. Não é ético nem moralmente defensável que um conglomerado jornalístico desinforme, confunda e desoriente seu público, a pretexto de defender liberdade de escolha. A mídia precisa ter responsabilidade sobre o que divulga, pois isso pode afetar decisivamente a vida individual e em sociedade. Sem essa preocupação, o jornalismo abandona sua finalidade pública: servir a população, provendo a coletividade de informação confiável, verdadeira e de qualidade.

Se a opinião do Grupo ND ficasse restrita a um editorial, poderíamos conter melhor os estragos. Mas não foi um gesto isolado. Faz parte de uma questionável convicção e de um perigoso projeto editorial. Em 14 de agosto, o ND celebrou um remodelado projeto gráfico de seu jornal e as novas estratégias de “sinergia” entre suas redações. Relembrou as bandeiras que defendeu em catorze anos de atuação em Santa Catarina, e mais uma vez soltou o grito de independência de tratamento. No alto da página e ao longo do texto, reproduziu fotos de divulgação do sulfato de hidroxicloroquina…

Live do sindicato discute pós-graduação em jornalismo

O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina promove amanhã, quinta-feira (06/08), às 20h, o debate “Mestrado e doutorado em jornalismo: ajuda ou atrapalha?”. O evento é a quarta live da série “Sindicato Ao Vivo”. Participo do debate junto com os jornalistas Amanda de Souza Miranda, Maurício Frighetto e Magali Moser.

O debate tem mediação da jornalista Cristina De Marco.

Para acompanhar a live, basta acessar Facebook do SJSC.

SBPJor promove debate sobre ética e desinformação

Acontece hoje (8) à tarde, a partir das 16 horas, um debate promovido pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) sobre ética jornalística e desinformação. O evento faz parte do ciclo “A pesquisa em Jornalismo em tempos de Covid-19”, e é o segundo debate da série.

Estarei com a Silvia Moretzsohn falando sobre o assunto, com mediação do Rafael Bellan.

Para acompanhar e fazer perguntas, basta “sintonizar” nos perfis oficiais da SBPJor no Youtube e no Facebook.

Poder, emoção e desinformação: um evento

O Labcom da Universidade da Beira Interior, Portugal, vai realizar sua terceira edição das Jornadas Internacionais “Patologias e Disfunções da Democracia em Contexto Mediático”, que tem como tema “Poder, Emoção e Desinformação”. O evento acontece em 7 e 8 de maio, na UBI.

Os organizadores recebem até dia 30 de março resumos de artigos para apresentação e posterior publicação. Se interessou?

Mais detalhes…

 

O tema

“Poder, Emoção e Desinformação” é o tema selecionado para esta edição, que pretende reunir os investigadores de Ciências da Comunicação, Ciências Sociais e Humanidades (Ciência Política, Teoria Política, Filosofia Política, Sociologia Política, Psicologia, Economia) e Artes (Design, Media Artes e Cinema), sem minimizar e, antes, estimular a abertura a áreas como Engenharia Informática e as Ciências da Computação.

Chamada de resumos

As 3ªs Jornadas Internacionais “Patologias e Disfunções da Democracia em Contexto Mediático” centram-se em três temas, que serão abordados em três painéis plenários e em três conjuntos de sessões paralelas:

  1. Desinformação e “fake news”. Por um lado, pretende-se avaliar fenómenos de visibilidade / invisibilidade, silenciamento e ocultação nos processos de informação jornalística.  Por outro lado, pretende-se identificar a intervenção de agentes de comunicação política especializados (assessores, spin doctors, influenciadores, agências de comunicação estratégica e outras formas de intervenção ligadas aos poderes fácticos).
  2. Datificação do espaço publico. Neste item pretende-se refletir sobre a dimensão tecnológica da manipulação. Entre as múltiplas possibilidades que os  interessados e participantes podem percorrer, contam-se  a identificação de perfis e preferências de utilizadores; a utilização maciça de dados e a sua transferência para contextos manipulativos de diversos níveis; as possibilidades abertas de concretização de simulacros e de simulações tornados possíveis pela realidade virtual; a realidade aumentada  e outras tecnologias digitais; a manipulação de emoções e de desejos através do conhecimento das características da audiência, o uso de algoritmos e as suas consequências.
  3. Pós-verdade. Em torno desta palavra-chave, pretende-se descrever, analisar e proceder à indagação dos motivos que possibilitam teses negacionistas, de revisionismo histórico, e particularmente, de descrença na ciência e nas conquistas da mesma, manifestos em fenómenos como o regresso do criacionismo, a discussão em torno das vacinas, a negação da esfericidade da terra ou, pior, a negação obsessiva das alterações climatéricas.

 

Cada um destes três temas dará origem a uma conferência ou mesa redonda, seguida de três sessões paralelas, de quatro pessoas cada (total de 36 intervenções).

Modalidades de participação

Privilegiam-se trabalhos empíricos e teóricos que envolvam debates em contexto mediático e comunicacional relativamente recentes em qualquer uma destas vertentes.

Serão bem-vindas abordagem empíricas e de estudos e de caso, bem como as abordagens teóricas complementadas com exemplos. As análises e as reflexões podem incidir em processos comunicacionais online ou offline, ou complementares.

Resumos

Os resumos devem ter um máximo de 400 palavras (excluindo tabelas, figuras e referências), incluir 3 a 5 palavras palavras-chave, devendo ser escritos em português, espanhol e Inglês – as línguas consideradas nas 3ªs Jornadas Internacionais “Patologias e Disfunções da Democracia em Contexto Mediático”. A submissão deve ocorrer até 30 de março.

Devem descrever o tópico da pesquisa e a abordagem teórica e metodológica. Imagens / tabelas / gráficos são permitidos no resumo, mas não são contabilizados na contagem de palavras. Todos os resumos serão submetidos a uma revisão por pares.

Os resumos devem ser anexados ao email, sem referências ao(s) autor(es). Os detalhes do autor (nome, afiliação e detalhes de contato) devem ser incluídos no corpo do email, a submeter para os endereços jcorreia@ubi.pt, agradim@ubi.pt, ricardo.morais@labcom.ubi.pt e pj@ubi.pt.

A apresentação final pode ser feita numa das línguas consideradas, isto é, português, inglês ou espanhol, mas acompanhadas de dispositivos (ppt) e com resumos e tópicos essenciais escritos em inglês.

Mais informações serão publicadas brevemente na página do evento ou podem ser obtidas através dos endereços de email indicados.

Inscrição

1ª fase – até 15 de abril (registro antecipado)

1 – Professores de instituições de ensino superior: 100 euros

2 – Estudantes e bolseiros de investigação das instituições de ensino superior: 60 euros

2ª fase – entre 15 de abril e 2 de maio

1 – Professores de instituições de ensino superior: 150 euros

2 – Estudantes e bolseiros de investigação das instituições de ensino superior: 110 euros

ISENÇÕES DA TAXA DE INSCRIÇÃO

Professores, pesquisadores e estudantes da Universidade da Beira Interior, bem como qualquer membro do Comitê Científico com uma proposta aceita, estão isentos de pagamento, mas ainda devem formalizar sua inscrição, enviando as informações solicitadas.

PROCEDIMENTOS DE PAGAMENTO

Transferência bancária para a Universidade da Beira Interior

BANCO: Santander

NIB: 0018 0003 2322 0304 0208 9

IBAN: PT50 0018 0003 2322 0304 0208 9

CÓDIGO SWIFT: TOTAPTPL

No caso de despesas significativas devido a transferência bancária internacional, o pagamento será possível no momento da chegada, se essa modalidade for solicitada pelo participante por email endereçado à organização. No entanto, o participante deve enviar, em qualquer caso, o email de inscrição para os endereços referidos com a identificação do autor e com a indicação expressa de que o pagamento será processado na receção da conferência.

Crise do jornalismo: caminhos

Se você se afoga em números que mostram que o jornalismo sofre de uma crise terrível e cujo horizonte de sobrevivência está mais longe do que nunca, calma. Você não está sozinho. Eu também me nutro desse necessário veneno. Mas nem tudo são gráficos em vermelho, e há quem formule e pense soluções (sim, eu também).

O Laboratorio de Periodismo da Fundación Luca de Tena, da Espanha, listou esta semana três mudanças básicas que podem ajudar a recuperar a confiança nos meios de comunicação:

  1. Transparência radical: Ok, concordo. Todos concordam, mas quem se dispõe? A questão da transparência esbarra em muitas travas de caráter financeiro (ela gera despesas extras e pode comprometer fontes de ganhos), político (pois estremece focos de poder dentro das instituições) e culturais (jornalistas são tradicionalmente impermeáveis a mostrar e reconhecer erros e falhas). É um tema do momento e não pode ser considerado uma preocupação vã ou passageira…
  2. Ser confiável e ser coerente: Ok, ótimo. Mas há uma questão a ser resolvida: se se espera que um veículo seja plural e diverso, quanto de coerência se pode esperar dele? Superar esse impasse ajuda a definir uma espécie de lugar de fala do veículo, o que tem a ver com a próxima mudança…
  3. Ser “um dos nossos”: Ok, excelente! E esta dimensão tem a ver com prioridades editoriais e a necessidade de refazer pactos com os públicos, tendo diálogos mais abertos, constantes e horizontalizados. Requer disposição de quem dirige os meios e de quem os opera. Alguns jornalistas mais jovens demonstram menos resistência a essas trocas, mas sabem que – no dia a dia – elas implicam em mais trabalho e eventualmente mais desgaste público. É uma questão complexa, mas igualmente inadiável…

 

Da Inglaterra, David Caswell lista para o BBC Labs outras cinco ideias para ajudar a inovar no jornalismo em 2020:

  1. Proporcionar aos públicos produtos jornalísticos com valor único diante do que é oferecido. Só assim, os meios podem conseguir alguma vantagem competitiva no mercado da atenção…
  2. Romper com a dependência das plataformas digitais para construir relações diretas com seus públicos. Acho sensacional e urgente isso. Escapar das garras das Big Techs é um fator de sobrevivência imediata do jornalismo.
  3. Entregar notícias que correspondam às necessidades reais dos públicos. É óbvio, mas ironicamente tem sido cada vez mais difícil e raro…
  4. Restabelecer a confiança com os leitores entediados e que, aparentemente, abriram mão do jornalismo. Sim, é uma espécie de resgate, pois esse público é crescente.
  5. Preservar os valores do jornalismo e manter a perspectiva editorial humana. Também parece óbvio, mas não custa repetir.