Fux, Hübner Mendes e uma lição para jornalistas

O extenso e acrobático voto do ministro Luiz Fux no julgamento mais importante da democracia brasileira traz lições sobre política, retórica, psicologia e até doutrina jurídica. Se nós – os mortais que nada sabemos de Direito – ficaremos semanas discutindo isso, imagine quem entende do assunto… mas um efeito direto da performance de Fux me chamou mais a atenção, e ela funciona como uma aula de jornalismo.

Estou falando da coluna do professor Conrado Hübner Mendes na Folha de S.Paulo: Já ganhei aposta com Fux

O autor é um conhecido crítico de regalias, privilégios e desvios das cortes brasileiras, e ele sabe o que diz porque é da área. Já até escreveu livro reunindo textos sobre o tema. Mas a coluna do dia em que Fux falou por mais de 13 horas ajuda tanto a entender traços da mentalidade do ministro quanto a como exercer uma crítica contundente, elegante e segura. Lançando mão do que parecem ser elogios, o colunista vai mostrando ao leitor detalhes da conduta pessoal do ministro que não são motivos de orgulho. Enfileirando atitudes que parecem positivas, o colunista revela que generosidade e seriedade esfarelam diante de uma leitura mais ampla da cena.

Leia com calma o texto de Hübner Mendes. Perceba como suas frases lustram o busto de Fux e expõem trincas no mármore. Se precisar, leia em voz alta para perceber o jogo de palavras e sentidos, o encadeamento de ideias e a clareza do raciocínio. Note como ele exerce a crítica de forma dura, mas não apela para xingamentos ou desaforos. E perceba ainda que ele faz sem subir o tom, sem desafinar a voz ou irritar nossos ouvidos. Sobra pouco ou quase nada para a fúria pretensiosa dos advogados do ministro.

Há mais de 25 anos dou aulas de jornalismo, e em todos os semestres tento convencer os alunos dos limites éticos e jurídicos da profissão. E nesse tempo todo aprendi que é difícil para qualquer pessoa equilibrar liberdade e responsabilidade, e para jovens que nasceram no caldo das redes sociais, mais ainda. Parece que lá tudo pode. Mas a realidade se impõe, e logo eles percebem como é difícil denunciar sem acusar, relatar sem distorcer, descrever sem exagerar, criticar sem xingar. Há sempre um fantasma na redação: o processo judicial. Ninguém com uma dose moderada de juízo quer ser processado pelo que escreve…

Costumo dedicar uma aula inteira com orientações para fazer jornalismo desviando-se dessas ameaças e caso elas apareçam, o que se deve fazer. Gasto muito tempo e energia para mostrar alguns caminhos possíveis, e nem sempre me faço entender ou sou ouvido. Sempre conto com o auxílio de alguns colegas. Sem saber, desta vez, o professor Hübner Mendes me ajudou muito nesta tarefa.