um golpe contra a lei de imprensa

O Supremo Tribunal Federal concedeu liminar contra artigos essenciais da Lei de Imprensa. Com a medida – provisória até que o STF julgue o mérito da ação -, ficam suspensas penas de prisão por calúnia, injúria e difamação que tiveram como base a Lei de Imprensa (5250/67). O Código Penal já trata da matéria.

O STF deu liminar com base em ação do PDT, que – capitaneado pelo deputado, jornalista e ex-ministro das Comunicações Miro Teixeira – quer derrubar a lei como um todo. Segundo argumenta o PDT, a 5250 é inconstitucional.

(Para ler matéria do G1 sobre isso, clique aqui ou da Folha de S.Paulo, aqui)

(Para saber da medida, tim-tim por tim-tim, vá ao Consultor Jurídico)

(Quer ler a liminar? Leia aqui em pdf)

A lei é inconstitucional? É sim, em diversas partes, ainda mais quando trata da censura de espetáculos e diversões (um dos trechos atingidos pela liminar). A lei é de 1967, e é tida como um dos entulhos autoritários, aquela legislação que restou após a queda da ditadura militar em janeiro de 1985.

Diversos países não têm lei de imprensa, e em alguns – como nos Estados Unidos – é inclusive proibido legislar sobre a mídia, de forma a constrangê-la ou impedir o seu trabalho. Quem garante isso é a tal Primeira Emenda, que os americanos tanto arrotam nos filmes.

De qualquer forma, a liminar não é uma surpresa por três motivos:

1. Miro Teixeira e o PDT fizeram alarde no Congresso reunindo assinaturas para um pedido de revogação da 5250/67.

2. A lei é flagrantemente obsoleta, inconstitucional e inóqua, já que muitos juristas e cortes já nem mais a levavam a sério. Para processos do tipo, recorriam ao Código Penal, mais forte e sem contestação jurídica.

3. Nem a mídia, nem a sociedade defendiam mais a lei, o que abre largos flancos para a sua derrota.

Há décadas, tramitam no Congresso diversos substitutivos da 5250. O mais avançado – para se ter uma idéia é de 1992.

A liminar do STF vem num momento oportuníssimo de discussões acirradas na mídia brasileira. Dois embates de grandes proporções estão em campo: um que envolve a Igreja Universal do Reino de Deus e a Rede Record contra Folha de S.Paulo, Extra e A Tarde; e outro que mobiliza o jornalista Luís Nassif contra a poderosa Veja (aqui o estopim da história, um resumo do Código Aberto, e sua sequência, aqui).

O ano já começou, senhores!

mídia, adolescência e deficiência

Um estudo inédito observou como adolescentes com deficiência se relacionam com a TV no Brasil, Argentina e Paraguai. A pesquisa foi divulgada hoje pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância, ANDI.

Uma prévia: os adolescentes não se consideram retratados na mídia desses países.

“Garotas e garotos com deficiência pouco se reconhecem na programação de tevê, nos jornais e nas revistas. É o que revela o estudo ‘Mais Janela que Espelho: a percepção dos adolescentes com deficiência sobre os meios de comunicação na Argentina, no Brasil e no Paraguai’, lançado hoje (11/02) pela ANDI, Rede ANDI América Latina e Save the Children Suécia.  A pesquisa ouviu 67 adolescentes, a maioria na faixa dos 11 a 13 anos, com deficiência, de diferentes classes sociais, em três países latino-americanos – Brasil, Argentina e Paraguai – divididos em oito grupos focais nas cidades de São Paulo, Salvador, Buenos Aires e Assunção. A maioria esmagadora deles não se recordou de nenhuma notícia ou personagem televisivo que abordavam essa condição. ‘Apenas depois de diretamente questionados eles lembravam de algo e falavam no assunto’, conta Guilherme Canela, coordenador de Relações Acadêmicas da ANDI e do estudo”.

Conheço a pesquisa e os dados que ela traz nos ajudam muito a (re) pensar essas relações entre adolescentes, pessoas com deficiência e meios de comunicação.

Para ter acesso ao PDF com 41 páginas, clique aqui.

A Folha de S.Paulo deu uma nota no sábado, dia 2. Veja aqui.

buckingham mastigadinho

Alexandra Bujokas explica nos mínimos detalhes o que David Buckingham (eu disse Buckingham e não Beckham) escreveu no capítulo Infância e novas mídias, do seu Media education: literacy, learning and contemporary culture (editado em 2003). Faço questão de mencionar a “tradução” de Bujokas porque muita gente confunde alhos com bugalhos.

credibilidade da mídia: mais um capítulo

Reproduzo excelente texto de Venício A. Lima no Observatório da Imprensa.

A (des)confiança na mídia

Telespectadores da edição de terça-feira (22/1) do Jornal da Globo e leitores do jornal O Globo (24 e 25/1) foram surpreendidos com a informação de que “brasileiros confiam mais na mídia” e que “o governo ficou em último lugar” (entre as instituições mais confiáveis), segundo pesquisa realizada por uma empresa de nome Edelman. Surpreendidos porque outros resultados divulgados recentemente indicam tendência exatamente oposta.O que justificaria mudança tão repentina na opinião dos brasileiros?Um estudo mundial sobre a credibilidade das instituições, contratado pela BBC, a Reuters e o The Media Center, realizado em março de 2006, revelou que, no Brasil, mais da metade dos entrevistados – ou 55% – declarou que não confiava nas informações obtidas através da mídia. Entre todos os países pesquisados, esse percentual era igual ao da Coréia do Sul e só não era maior do que o obtido na Alemanha (57%). Além disso, a pesquisa revelou que, comparativamente, o Brasil era o país onde os entrevistados estavam mais descontentes com a sua própria mídia: 80% disseram que a mídia exagera na cobertura das notícias ruins; 64% concordam que raramente encontram na grande mídia as informações que gostariam de obter; 45% não concordam que a cobertura da grande mídia seja acurada; e 44% declaram ter trocado de fonte de informação nos 12 meses anteriores por terem perdido a confiança [ver, neste Observatório, “Pesquisa revela a (des)confiança na mídia“].

Parte da elite

Por outro lado, além das sucessivas pesquisas de opinião realizadas pelos principais institutos brasileiros (Ibope, DataFolha, Sensus, Vox Populi) indicarem índices positivos de avaliação do governo, o LatinoBarômetro 2007 divulgado em novembro de 2007 mostrava que o presidente do Brasil foi o mais bem avaliado da América Latina (ver aqui).

Ao contrário, a notícia publicada no jornal O Globo (25/1, A-8), com o título “Brasileiros confiam mais na mídia” e subtítulo “Pesquisa mostra que imprensa tem credibilidade para 64%; governo, para 22%” afirma que:

“Pesquisa realizada pela multinacional de relações públicas Edelman mostrou que 64% dos brasileiros consideram a mídia a mais confiável das instituições. Conforme informou ontem a coluna Ancelmo Gois, no Globo, o governo é a instituição de menos credibilidade para os brasileiros – apenas 22% das pessoas ouvidas disseram ter confiança” [ver abaixo texto integral da matéria].

Um leitor atento, no entanto, que não se inclua entre os brasileiros entrevistados e não confie tanto assim na mídia, poderá, ele próprio, visitar o site da Edelman – a maior empresa de relações públicas do planeta, com sede em New York/Chicago e escritórios em 46 cidades de 23 países dos 5 continentes, inclusive São Paulo – e obter informações fundamentais que não encontrará na matéria de O Globo sobre a tal pesquisa.

O “2008 Edelman Trust Barometer” foi realizado nos meses de outubro e novembro de 2007 e os 150 (isso mesmo, cento e cinqüenta) entrevistados, por telefone, no Brasil, são considerados (por quais critérios?) “líderes de opinião” – 50 deles entre 25 e 34 anos e 100 entre 35 e 64 anos. Eles têm curso superior, pertencem aos 25% detentores do maior nível de renda por domicílio e têm grande interesse em assuntos relacionados à mídia, à economia e aos negócios públicos.

Trata-se, portanto, de uma amostra de parte da elite brasileira, sem qualquer representatividade do conjunto da população.

Amostras representativas

Lendo e relendo os textos das matérias de O Globo e do Jornal da Globo, fica-se com a impressão de que eles foram escritos deliberadamente para passar a impressão (falsa) de que a maioria dos brasileiros confia mais na mídia do que no governo. As matérias, ao não contextualizarem a informação e omitirem dados essenciais sobre a pesquisa da Edelman, acabam por contar uma meia verdade que esconde uma inverdade.

Não é sem razão que a credibilidade da mídia, revelada por pesquisas feitas com amostras estatisticamente representativas do conjunto da população, é – ao contrário do que diz O Globo – cada vez menor entre os brasileiros.

credibilidade avança na internet

digitalcenter.gif

 O Centro para o Futuro Digital da USC Annenberg School publicou a pesquisa Digital Future Report, com aspectos mirando 2008. O estudo é seriado, está na sétima edição, e permite uma visão histórica, evolutiva, das tendências na relação entre usuários norte-americanos e sistemas midiáticos.

Luís Santos, do Atrium, destaca quatro aspectos do documento:

1. A Internet é cada vez mais um espaço considerado prioritário para a busca de informação – 80 por cento dos questionados com mais de 17 anos de idade (contra 66 por cento em 2006);

2. A informação online é cada vez mais credível – válido para 46 por cento dos utilizadores da web e para 43 por cento dos não-utilizadores;

3. As páginas web dos orgãos de comunicação estabelecidos são consideradas muito fiáveis como fonte de informação – cerca de 80 por cento dos questionados afirma confiar na informação disponibilizada em espaços como o NYTimes ou a CNN (contra 77 por cento em 2006)

4.Would you miss the print edition of your newspaper?” – 52 por cento dizem que sim mas 27 por cento dizem já que não.”

 

Dei uma olhada no paper da pesquisa, e o que me chamou mesmo a atenção foi a seção sobre credibilidade na web, uma preocupação científica minha há alguns aninhos…

A pesquisa da Annenberg School pode ser comprada na íntegra, mas o site disponibiliza um resumo executivo. O documento tem dez páginas em formato PDF e traz dados telegráficos sobre os seguintes pontos:

  • A internet nos Estados Unidos
  • Não-usuários de internet
  • Uso midiático e confiança
  • Comportamento do consumidor
  • Padrões de comunicação
  • Efeitos sociais
  • As crianças e a internet
  • Poder político e influência

mídia, poder e democracia: o documento

Reproduzo o documento tirado do evento…

Estudiosos, professores, estudantes, profissionais, políticos e militantes da sociedade civil reunidos em Salvador nos dias 12, 13 e 14 de novembro de 2007 no Fórum Internacional: Mídia, Poder e Democracia resolvem manifestar publicamente as seguintes posições:

  1. O sistema de comunicações vigente no país é altamente concentrador, monopolizado, oligárquico e antidemocrático;
  2. O tema da democratização das comunicações no mundo e no Brasil contemporâneos apresenta-se como fundamental. A democratização das mídias é indispensável para que a democracia se amplie e se aprofunde em uma sociedade cada vez mais estruturada e ambientada pelas comunicações;
  3. A realização da Conferência Nacional de Comunicações, ampla, representativa e democrática é uma exigência dos processos de democratização e de mudança em curso na sociedade brasileira. A Conferência é uma reivindicação histórica de amplos setores da sociedade brasileira para redefinir democraticamente os marcos das comunicações no país;
  4. O país necessita com urgência um novo ordenamento jurídico expresso em uma lei geral das comunicações, contemporânea e democrática, que, entre outros itens, estabeleça novos critérios para as concessões de rádios e televisões;
  5. É vital a construção e implantação do novo Sistema Público de Comunicação, que inclua televisão, rádio, Internet e outros meios, e que se paute pela ampla participação da sociedade; por uma rica diversidade de conteúdos e formatos e por modos de gestão cada vez mais democráticos e participativos;
  6. A implantação de uma Rede Pública de Televisão é um momento fundamental da democratização das comunicações no Brasil. Ele deve privilegiar a democracia e a diversidade cultural;
  7. Os critérios de utilização dos canais criados pela televisão digital devem ser revistos abrindo espaço para novas concessionárias, privilegiando-se entre eles: organizações da sociedade civil e instituições públicas, como as universidades;
  8. O tratamento das rádios e televisões comunitárias deve ser imediatamente modificado, assegurando sua regularização e funcionamento, visando ampliar a pluralidade de visões e opiniões na atualidade brasileira;
  9. Especial atenção deve ser dada à ampliação das redes informáticas; à ampliação do acesso à Internet e à utilização criativa e democrática das novas tecnologias;
  10. A criação de Observatórios de Mídia e sua articulação em redes devem ser estimuladas, objetivando acompanhar e fiscalizar democraticamente as atividades da mídia no país;
  11. O estado brasileiro deve ter também como critério de alocação de recursos de sua publicidade o estímulo e a manutenção da diversidade cultural, apoiando com políticas públicas a existência de um largo complexo de mídias alternativas:
  12. Governo e Sociedade devem colocar o tema das políticas públicas e democráticas para as comunicações no Brasil como prioritário na agenda pública.
  13.  Preocupação especial deve ser dada à formação de cidadãos capazes de desenvolver uma relação crítica e criativa com as mídias.

balanço do fórum de salvador

Promessa é dívida. Vou cumprir a minha com este post, fazendo um balanço (muito pessoal) do Fórum Internacional Mídia, Poder e Democracia, que aconteceu na capital baiana de 12 a 14 de novembro.

 

Organização

O evento foi bem organizado, salvos os ligeiros atrasos na programação, praticamente regulamentares no Brasil. Aliás, o programa do fórum teve uma particularidade: havia apenas mesas redondas pela manhã e à noite. As tardes eram livres. Um participante que não quis se identificar matou a charada: “Baiano faz assim para ter tempo para uma descansadinha depois do almoço”. Brincadeiras à parte, soube da organização que estavam previstas oficinas para o período vespertino, mas os próprios realizadores desistiram do intento, prevendo pouca participação.

 

Qualidade das discussões

Os três dias de debates foram bem recheados. Tanto na quantidade, quanto na densidade. Em algumas mesas, entretanto, a análise deu lugar à militância, dando ao evento um tom bastante político. Não poderia ser diferente dados os temas abordados pelo encontro. Mas em certas mesas, as apresentações alcançaram uma tonalidade completamente ideológica, partidária e até mesmo governista. Temas como a relação tempestuosa de Hugo Chávez e a mídia, e a estrutura do sistema comunicacional brasileiro praticamente foram tratados num único timbre, quase sem dissonâncias. Uma pena para o debate. Mesmo não concordando com tudo, mantive algumas angústias no bolso. Não pretendia ser linchado.

 

Concluindo…

Penso que o evento também poderia ser mais propositivo, objetivando o estabelecimento de alguma agenda mais concreta de estudos, reflexões, ou mesmo ações na sociedade. Entendo que não é fácil fazer convergir esforços para isso, mas a oportunidade era muito boa para isso. Ao menos foi sinalizada a intenção de realização em 2008 de um fórum que reúna observatórios de meios de todo o mundo, quem sabe em Belém, funcionando como um “esquenta” do Fórum Social Mundial que acontece na capital paraense em 2009.

De qualquer forma, é preciso dizer que o Fórum Internacional Mídia, Poder e Democracia foi uma excelente oportunidade para que diversos atores discutissem comunicação e política num patamar elevado e interessante para toda a sociedade. Ficam reafirmadas cada vez mais a necessidade e a urgência de dispositivos, instrumentos e sistemas – como os observatórios de meios – para que a sociedade lute e exija uma comunicação mais transparente, mais democrática, mais legítima e plural.

américa latina, eleições e mídia

latin.png

Acompanhe agora a mesa-redonda “Mídia e Eleições na América Latina”, com Camilo Tamayo (Colômbia), Maria O’Donnell (Argentina)  e Renato Rovai (Revista Fórum).

Aqui

fórum mídia, poder e democracia: agora!

Acompanhe o debate pela webtv da Carta Maior

mídia, poder e cidadania: começo de transmissão

Cheguei a Bahia com quase duas horas de atraso. Segundo o comandante Bittencourt, do vôo 3178, a aeronave sofreu com panes nos radares de Natal. Com isso, demorou a chegar a Cumbica. Como era um airbuss A-320 (isso mesmo! Semelhante ao da tragédia em Congonhas…), e como tem grande capacidade de passageiros, custou a colocar todos a bordo e seguir de volta para o nordeste.

Você sabe quando chega a Bahia quando é contagiado por um clima de festa. Daniela Mercury veio no mesmo vôo. No salão de embarque – em São Paulo -, nenhuma cena de tietagem ou descompostura do público. No hall de desembarque no aeroporto internacional Luiz Eduardo Magalhães, um grupinho de meia dúzia cercou a cantora. Todos tinham camisas pretas idênticas e balões brancos nas mãos. Os balões estouraram em jogral e os receptivos passaram a cantar músicas de Daniela que escancarou um sorriso nem sonhado há duas horas. Todos passaram a cantar e dançar juntos. Coisa de fã. Festa na Bahia…

***

Perguntei ontem a um funcionário do Tropical Bahia o que teria acontecido para que a transmissão do evento sofresse atrasos e interrupções. Sorrindo, o funcionário soltou: “O senhor está na Bahia. Aqui, é assim mesmo…” Bobagem, os próprios baianos alimentam o mito da preguiça e da malemolência. Prova disso foi o motorista que me apanhou no aeroporto e me trouxe ao hotel. Era o autêntico The Flash, cortando ruas e avenidas a uma média de 90 km. Também sorridente, deu das suas: “O senhor não está com pressa não, está?”

***

Descobri que a internet mais cara do mundo é aqui. No meu quarto de hotel, não havia. Solicitei a instalação ou a troca de habitação. Me mandaram para outro andar e trouxeram um modenzinho cinza. A internet chegou, mas a passos de cágado. A brincadeira é que irão me cobrar 22 reais por diária pelo serviço. A conexão é mais instável que arame de equilibrista. Agora às 6 da manhã, pedi suporte técnico. Que nada! “O moço só chega depois das 8”. Mandei cancelar o serviço e vou atrás de outras soluções. Estes posts foram escritos off-line… Por isso que meu sonho é um mundo wirelless: sem fios e totalmente conectado.

mídia, poder e democracia: o vídeo

Veja o vídeo de divulgação do evento:

O Fórum Internacional Mídia, Poder e Democracia acontece de 12 a 14 de novembro em Salvador.
Cobertura pelos sites: CULT , Prodeb Cultura e Pensamento  e Irdeb.

Acompanhe por aqui também!