Marcado: Sevilla

Outras 3 coisas que aprendi ao mudar para a Espanha

O tempo voa e já se passaram 50 dias de nossa chegada a Sevilha. Estamos cada vez mais habituados e com os pés enterrados nesse solo arenoso amarelo que mais parece ouro em pó. O calor ainda frita os miolos de quem se atreve a desafiar o sol do meio da tarde. Já não estamos tão desavisados. E por isso, listo mais três coisinhas rápidas que aprendi nesse curto período (se você não viu, há outras 4 aqui).

1. A vida está nas ruas

Os espanhóis lotam os bares à noite, e sentam-se preferencialmente nas mesas e cadeiras das ruas. Estão em busca de brisa e de boa conversa. Famílias inteiras descem dos prédios e se espalham por todos os cantos. Falam alto, riem, brindam, entregam-se às tapas e às bebidas geladas. E ficam até altas horas da noite, já que chegam tarde também, depois das 21 horas, quando o sol se esconde. A vida é pulsante, e os sevilhanos parecem não ser exigentes em termos de local. Importa mais é a situação de convívio, a possibilidade de celebrar a vida. Ela não está encerrada nos apartamentos ou casas. La vida está en las calles…

2. É possível envelhecer com muita dignidade

Adultos, jovens, crianças e velhos saem à noite. A sensação de segurança é plena, embora haja criminalidade e quase não se vejam policiais nas ruas. Septuagenários e octogenários circulam pelas ruas, mesmo os que têm dificuldades de caminhar. Apoiam-se em andadores ou seguem em cadeiras de roda mesmo. No dia seguinte, bem cedo, frequentam os mesmos bares em busca de café da manhã. Geralmente, café com leite e pão tostado com margarina ou azeite. Vivem a vida com uma plenitude invejável, desfrutam da cidade e de suas opções de lazer. São respeitados e isso é tão maravilhoso por aqui!

3. A cidade enaltece os seus

É natural que uma cidade como Sevilha, que tem 3,3 mil anos de existência, seja um museu a céu aberto, e ela é. Não apenas exibe palácios e prédios de várias origens e estilos. Ostenta! Atira na nossa cara a riqueza que o tempo e a vontade de permanecer causam. Mas outra coisa me chama também a atenção: a cidade honra e valoriza os seus pequenos ícones também. Temos estátuas do grande Velázquez, mas também encontramos em qualquer esquina ordinária um azulejo ou placa na parede, lembrando que naquele local viveu o poeta do bairro, a dançarina de flamenco, o toureiro habitual. São lembretes de que os tesouros da cidade são seus personagens, e o que mais importa ali são os traços humanos que deixamos.

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4 coisas que aprendi ao mudar para a Espanha

Levei dez meses planejando passar doze em Sevilha para o pós-doutorado. É nessas horas que a gente percebe como estamos amarrados a detalhes da vida que nos fixam aos lugares. Mudar com a família para outro país equivale a uma missão lunar da Nasa: mesmo com toda preparação, dá muito trabalho e rende grandes surpresas.

Passados os primeiros 30 dias, já posso contar as quatro primeiras coisas que aprendi nesse processo:

1. Demora, mas você vai ser atendido

Por aqui, enfrentei fila para tudo: de banco a hospital, de loja a serviço de imigração, passando por escola e outras repartições públicas. Tem fila para tudo, há muita burocracia, e os atendentes não parecem ter pressa nenhuma. Testo minha ansiedade a todo momento. Paciência tem sido o meu mantra. Ser atendido por aqui demora, mas quando chega a sua vez, existe cortesia e atenção. Fui muitíssimo bem atendido por todos, principalmente os funcionários públicos. Parece ser a regra local: as pessoas na fila esperam sem reclamar, não têm chilique, pois sabem que a sua vez chegará.

2. Respeite os horários e o clima

Chegamos em agosto, mês de férias. A cidade esvaziada, o que significa menos gente atendendo no comércio e lojas com horários diferenciados. Então, não adiantava buscar algo entre 14h30 e 17h30, pois tudo (ou quase) estava fechado. Isso vai se estender por todo o horário de verão, que termina no final de outubro. Depois das 17h30, tudo reabre e aí, é ser feliz. Aprendemos também que com o sol não se brinca: o verão na Andaluzia é abrasador. Pegamos 48 graus numa tarde logo na primeira semana. Agora, já ficamos radiantes quando a meteorologia prevê máximas de 35…

3. Esteja aberto às novidades da mesa

Ir ao supermercado é uma festa, pois descobrimos cada coisa! Não se trata apenas de experimentar novos sabores, mas também de encontrar equivalentes dos itens que usamos na culinária brasileira e de conhecer como os locais cozinham. É divertido e surpreendente. Não tenha frescura.

4. Não se engane com os gritos

Espanhóis são muito enfáticos, festivos, afirmativos. Berram, gesticulam e quase nunca falam à voz pequena. Nem sempre é bronca ou briga. É assim que eles se colocam no mundo. Só isso. Existe um latifúndio espanhol entre a bravata e a gentileza, entre o grito e o sorriso.