Nunca sabemos quanto tempo resta

Talvez a gente possa culpar deus ou a filosofia pela ironia que é a consciência humana da morte. Dizem que somos os únicos seres na Terra a saber que um dia morreremos. Os demais são sortudos porque ignoram, vivem e ponto.

A ironia (de deus ou da filosofia) é que sabemos da missa só a metade. Todos sabemos que um dia estaremos mortos, mas não nos é revelado quando isso vai se dar na prática.

Meu pai morreu aos 48 anos. 17 dias depois do próprio aniversário, o que dá pra dizer que aquele foi o ano mais curto da vida dele. E como passou o tempo todo num hospital, nem é possível dizer que aproveitou esse ano. Por isso, considero que o último ano de vida dele foi o anterior, aqueles 12 meses de quando tinha 47 anos.

Imagino que, naquela manhã de 5 de agosto de 1989, quando completou 47, meu pai não imaginava que estaria morto em pouco tempo. Apenas vivia. E ponto.

Completo 47 hoje, e tive uma vida muito diferente da do meu pai. No entanto, como ele, não sei ainda quanto me resta a partir de agora. Isso não me atemoriza de verdade. Só me permite entender o que era aquele homem, naquela fase da vida, um ano antes de desaparecer por completo…

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Deep fake news e rastreamento de olhar: distopias

Dias atrás, um vídeo viralizou nos Estados Unidos mostrando a presidente do Congresso com uma fala arrastada e estranha, mais parecendo estar bêbada. O vídeo não condiz com a verdade porque sua velocidade foi alterada, e o efeito é uma clara manipulação de informação e contexto.

Se antes estávamos preocupados com fake news, nossos problemas aumentaram! Temos agora deep fake news!

O Carlos Affonso explica melhor como isso pode nos afetar e pode funcionar nas eleições do ano que vem. Sim, apertem os cintos.

Ficou preocupado? Ficou preocupada?

Nesta completíssima reportagem, a Vice conta como já estão em uso diversas tecnologias para rastrear os movimentos de nossos olhos, e que isso é o “Santo Graal da publicidade”. Isso já permite que as empresas e agências coletem nossas reações mais íntimas e inconscientes diante de imagens, campanhas e outros estímulos. (Isso é destrinchado de forma bem detalhada pelo Andrew McStay no livro “Privacy and the Media”, que recomendo fortemente a leitura).

E aí, gelou o seu sangue?

Câmara e Senado aprovam autoridade de proteção de dados

O Brasil está muito perto de ter um órgão que zele pelos dados pessoais dos milhões de usuários de internet.  A jornalista Cristina De Luca, que cobre o assunto de perto, dá mais detalhes aqui.

O Portal Privacidade fez um ótimo trabalho juntando o texto aprovado na Câmara e no Senado, e é possível fazer comparações.

Para saber mais sobre privacidade e dados pessoais, vá por aqui e aqui

Após a sanção presidencial, a medida provisória anterior se converte em lei, e a Lei Geral de Proteção de Dados passará a vigorar a partir de 20 de agosto de 2020. Olhos abertos.

Direitos Humanos e Globalização: um evento

Nos dias 4 e 5 de julho, acontece a primeira edição do Congresso Internacional Direitos Humanos e Globalização, na Facultad de Filosofia da Universidad de Sevilla. O evento é amplo e dirigido a pesquisadores do direito, das ciências humanas, da comunicação e das ciências sociais. O prazo para recebimento de propostas de comunicação termina em 31 de maio. Por isso, corra!

Mais informações: http://congresos.us.es/ddhhglobal/por/

 

Precisamos falar sobre depressão

Se você chegou a este post, muito provavelmente, sabe de alguém que sofre de depressão ou convive com uma vítima dela. Talvez ela esteja mais próxima ainda, e seja a sombra permanente que nubla os seus dias e desbota o mundo. A depressão é como o oxigênio ou a internet. Está em toda a parte. Não faz distinção de gênero, classe social, religião, idade, geografia. Não é, como muitos pensam, um mal moderno, recente. E embora seja relativamente fácil de diagnosticar, tratá-la é bem mais complicado.

É raro encontrarmos alguém que não tenha sido tocado por ela. Mesmo que à distância, de forma colateral. E mesmo assim, com ela tão presente em nossa vida, desprezamos seu poder e seu alcance. Como se fosse apenas tristeza, irritação, prostração, melancolia, cansaço, fraqueza…

Muito tardiamente conheci Andrew Solomon e seu O Demônio do Meio-Dia. O livro foi lançado há quase 20 anos, venceu o National Book Award e quase levou o Pulitzer em 2000. Foi eleito pelo Times como um dos 100 melhores livros daquela década e foi publicado em 24 línguas. Mesmo assim, eu ainda não havia tropeçado nele e me assombrado com a sua impressionante voz. Pois fiz isso na última semana e estou arrebatado. Já é o livro mais forte e pulsante que li no ano, e existem tantas razões para isso!

Solomon é um depressivo há décadas e nos oferece o mais franco e aprofundado relato sobre a doença. Escancara sua vida, seus fantasmas, seus surtos e alguns dos sentimentos mais secretos para narrar a depressão a partir de sua luta particular. Se fosse isso, já seria corajoso e importante, mas ele vai além. Entrevista dezenas de pessoas e costura suas experiências com os tratamentos clínicos e terapêuticos mais diversos, e passa um pente-fino nos principais estudos científicos internacionais na Medicina, Psicologia, Antropologia e Sociologia. Mergulha na misteriosa química dos remédios e nos efeitos variados que produzem. Rasga a história e a geografia, desfazendo uma série de mal entendidos comuns. Prospecta o futuro. E desbrava os terrenos mais insondáveis da esperança por uma cura.

O que temos, então, é um tratado monumental da depressão, talvez sua anatomia mais detalhada. Sensível e respeitoso, Solomon trafega entre uma multidão zumbi, ele mesmo em transe. E nos faz entender – muito obrigado por isso! – a delicadeza, a complexidade e a urgência de compreendermos este mal, que não tem hora para se manifestar, nem motivo para existir.

Em muitos momentos, é dilacerante conhecer o drama de famílias inteiras tentando conviver com pessoas depressivas. Em outros, é devastador conhecer o que isso provoca na vida, no corpo e na alma de quem é assombrado por este demônio do meio-dia. É tanto sofrimento que a leitura das mais de 580 páginas parece nunca acabar, embora Solomon escreva de forma envolvente e brilhante. Assim, o homem extrai poesia de cada (mau) sentimento, ao mesmo tempo que nos enche de fé na possibilidade de vitória.

Seu relato poderia ser um conjunto poderoso de gatilhos emocionais para os acometidos pela depressão. Mas quem mais poderia descrever as trevas se não quem nelas vive? A sua honestidade coloca a nossa coluna ereta e endireita o nosso olhar, permitindo que a gente veja além. Ele escreve muitíssimo bem, e a tradução da Myriam Campello me pareceu impecável.

Eu aprendi muito em cada página. Muito. E sofri com Solomon e seus muitos semelhantes. Torci para que restaurassem suas forças e que não desistissem de lutar. Chorei com despedidas e com retomadas corajosas do leme da vida. Eu me perguntava porque estava tão tocado por aquilo tudo, e uma resposta fragmentada e provisória martelava a minha cabeça, ricocheteando com outra pergunta: como não se emocionar e se envolver quando a matéria da história é a própria matéria de nossa frágil humanidade?

No epílogo escrito para a versão brasileira, Solomon repete o retorno de diversos leitores seus. Para muitos, O Demônio da Meia-Noite mudou suas vidas. Para alguns, permitiu reencontrar razões para não abandonar a vida. Bem, talvez este livro não transforme a sua vida, mas tenho certeza de que ele vai mudar a sua perspectiva sobre a depressão. Isso já é uma galáxia…

O que Floripa poderia aprender com o transporte público de Sevilha

Sevilha tem um terço do tamanho de Florianópolis, mais ou menos. Apesar disso, tem um sistema de transporte público de dar inveja: é mais moderno, limpo, confortável e proporcionalmente mais barato. Articula ônibus, metrô, bonde (tranvia) e bicicletas de aluguel. Isso faz com que as pessoas se locomovam com facilidade pela cidade que tem uma população de 700 mil habitates, superior à capital catarinense.

Há dez meses uso ônibus em Sevilha e vejam as condições locais:

  • 100% dos ônibus têm ar condicionado, rampas para cadeirantes ou carrinhos de bebê, e sistema de aviso audiovisual. Isto é, os passageiros sabem qual é a próxima parada, pois isso é anunciado em áudio e podemos conferir em mapas nas telas disponíveis.
  • A grande maioria dos pontos de ônibus é coberta, e em todas elas há informações sobre as linhas e seus trajetos. É fácil se orientar. Algumas paradas têm, inclusive, painéis eletrônicos que informam em tempo real qual o próximo ônibus e qual o tempo da espera.
  • Todos os ônibus são rastreáveis. Por isso, o usuário baixa o app da empresa de ônibus e sabe quando chegará seu ônibus. Basta selecionar a linha e o número do ponto – todos são numerados -, e saberá a que distância está o veículo e quando chegará até a parada. Em tempo real e grátis.
  • Os ônibus têm motoristas homens e mulheres. Não há distinção de gênero para essa ocupação.
  • Não há cobradores, e o recebimento é feito pelos motoristas. Mas apenas os turistas ou usuários ocasionais pagam em dinheiro.
  • A grande maioria dos passageiros usa cartões magnéticos em que recarregam créditos de viagem. Compensa muito usar o cartão. Uma viagem em dinheiro custa 1,4 euro. Pelo cartão é menos da metade do preço: 69 centavos de euro. Isso incentiva o uso do cartão e reduz o volume de dinheiro movimentado pelos motoristas. Menos dinheiro em caixa, mais segurança. As recargas dos cartões podem ser feitas em bancas de jornal e lojas que vendem cigarro, que existem em todos os cantos. Há também totens eletrônicos em alguns pontos.
  • Menos da metade da frota usa diesel como combustível. A maior parte usa gás natural, menos poluente, e com motores menos ruidosos.
  • Muitos veículos têm sinal de wi-fi gratuito e tomadas para carregamento de celulares.
  • São 44 linhas diárias e 9 noturnas. A frota é de 428 ônibus.
  • No primeiro trimestre de 2019, 21,5 milhões de passageiros usaram ônibus em Sevilha. Foram percorridos 4,9 milhões de quilômetros.
  • Existem vários cartões com descontos para estudantes, idosos, deficientes e… desempregados.
  • São 650 km de rede de ônibus e 1027 paradas.
  • A empresa que mantém o sistema cuida dos ônibus e dos bondes elétricos (tranvias) que transitam no centro histórico. A empresa existe há 44 anos e É PÚBLICA e SUPERAVITÁRIA!!
  • Poucas vezes, peguei veículos lotados. Penso que quatro vezes nesse tempo todo, e sempre no mesmo horário e na mesma linha, o que sinaliza um problema pontual…
  • Apenas uma única vez mofei esperando num ponto de ônibus: era um domingo. Também ocasional.

Em Florianópolis, o sistema de ônibus é mantido pelo Consórcio Fênix, um arranjo entre as empresas que exploravam o setor antes da última licitação. Os ônibus convencionais não têm ar condicionado, apenas os executivos. Informações do próprio consórcio explicam que esse item não estava no edital de licitação e que, para modificar qualquer condição de oferta, é preciso alterar o contrato firmado. São 184 linhas e 537 ônibus, 25% a mais que Sevilha, embora Florianópolis tenha o triplo do território e 60% da população da capital andaluz.

Anda-se muito bem por Sevilha. É uma cidade plana e linda, o que incentiva a andar a pé ou de bicicleta. Existem poucas vagas de estacionamento nas ruas e isso desencoraja usar carros e veículos próprios, mas há quem o faça pois existem estacionamentos privados espalhados em diversas partes. E apesar de tudo estar funcionando bem, os sevilhanos fazem pesquisas periódicas para aperfeiçoar o sistema.

Uma cidade tão extensa e com limitações territoriais para ampliar a malha viária como Florianópolis poderia ter um sistema de transporte coletivo melhor. Uma cidade de beleza exuberante e tão convidativa ao turismo como Florianópolis poderia ter um sistema de transporte coletivo que funcionasse melhor. Uma cidade tão especial como Florianópolis poderia ter um sistema de transporte coletivo mais humano e mais barato. Sevilha e outras cidades poderiam nos inspirar nesse sentido…

Sobre privacidade e transparência algorítmica

Grande parte de nossa privacidade online é corroída pela opacidade com que as grandes plataformas de tecnologia trabalham. Quer dizer: se as big techs fossem transparentes e nos dissessem como funcionam seus sistemas e algoritmos e como eles extraem e processam nossos dados, teríamos mais condições de exigir mais resguardo de nossos dados pessoais. E poderíamos combater abusos, sequestros e usos indevidos.

É o que se chama de transparência algorítmica. Precisamos disso. Queremos isso!

5 links pulsantes para pensar e agir!

Vamos pensar o tempo?

Logo depois do feriado do dia do trabalhador, vamos mergulhar numa jornada para discutir o tempo do nosso tempo.

A iniciativa é do filósofo André Barata, da Universidade de Beira Interior (Portugal), e do catedrático de filosofia moral e política, Juan Carlos Suárez Villegas, da Universidad de Sevilla (Espanha).

O programa é este aqui:

Dia 2 de maio

Olhares fenomenológicos para a compreensão do tempo no nosso tempo (Manhã, 10h30)

Irene Borges Duarte (Universidade de Évora)

César Moreno (Universidade de Sevilha)

Raquel Loio (Universidade da Beira Interior)

 

Escalas temporais no nosso presente e suas consequências ético-políticas: tempos psicológico, biográfico e geológico (Tarde, 15h30)

André Barata (Universidade da Beira Interior)

Ana Leonor Santos (Univerisdade da Beira Interior)

Davide Scarso (FCT/Universidade Nova de Lisboa)

 

Dia 3 de Maio

Olhares sociológicos e teórico políticos para a compreensão do tempo no nosso tempo (Manhã, 9h30)

Renato Miguel do Carmo (ISCTE, Lisboa)

Irene Viparelli (Universidade de Évora)

Paola Panarese (Sapienza, Università di Roma)

Regina Queirós (Universidade Nova de Lisboa)

 

O problema da comunicação na compreensão do tempo no nosso tempo (Tarde, 15h30)

Juan Carlos Suarez Villegas (Universidade de Sevilha)

Rogério Christofoletti (Universidade Federal de Santa Catarina)

João Canavilhas (Universidade da Beira Interior)

Que animal você é nas redes sociais?

Você deve ter visto dezenas de testes com perguntinhas capciosas como esta nas suas redes, não é mesmo?

Foi sem querer. Juro.

Na verdade, eu estava pensando em bichos, em animais. Por essas combinações malucas que a cabeça da gente faz, acabei lembrando de como às vezes recorremos aos nossos afetos animalescos para explicar as coisas. E, de repente, cruzei lembranças de dois livros que li há algum tempo. Pensei em ratos, gatos e cachorros. E humanos também.

Eli Pariser disse no longínquo ano de 2011 que precisamos deixar de ser ratos. Ele estava nos explicando como funcionam os filtros-bolha, uma novidade que começava a dar as caras naqueles dias e que hoje – infelizmente! – nos é muito familiar. Pariser nos dizia que as redes sociais acabam nos encerrando em bolhas, lugares confortáveis que ecoam coisas parecidas com as que sentimos e pensamos. E que nos isolam daquilo que pode representar algum tipo de risco, incerteza ou ameaça. E Pariser também argumentava como somos previsíveis. Para isso, recorreu a uma rudimentar invenção humana, a ratoeira. Ele cita a taxa de sucesso (!) do dispositivo e diz que ele só funciona porque os ratos são repetitivos e, portanto, previsíveis. Caem na armadilha porque se deixam seduzir por um naco de queijo ou menos ainda. Como nós, nas redes. O recado de Pariser é: deixemos de ser ratos!

Outro cara, o Jaron Lanier, deu outro recado importante. Foi no ano passado. Lanier disse que as redes sociais e as grandes plataformas querem nos adestrar, querem nos fazer agir como cães, a seguir obediente as ordens, a fazer coisas que não nos sujeitaríamos antes. O recado: sejamos mais gatos e preservemos as nossas autonomias, personalidades e singularidades.

Lanier sabe o que diz. É um sujeito importante para a história da realidade virtual, alguém que ajuda a construir o futuro, mas não se deixa escravizar por máquinas ou sistemas. Pariser não é qualquer um também. Tem contribuições importantes para o ativismo social e a tecnologia, e tem posições muito críticas sobre a nossa organização política e comunitária, por exemplo. Lanier e Pariser merecem ser ouvidos, portanto.

(E lidos: O filtro invisível e Dez Argumentos para Você Deletar Agora Suas Redes Sociais são leituras deliciosas e esclarecedoras, quando não engraçadas e assustadoras).

Combinados, os recados poderiam ser um só: humano deixe de ser rato e cachorro, e seja mais gato. Bob Marley já cantou isso de uma forma muito poderosa: “Emancipate yourselves from mental slavery. None but ourselves can free our minds” (“Liberte-se da escravidão mental. Ninguém senão nós próprios podemos libertar as nossas mentes”). Autonomia, amigos. Liberdade, amigos.

Cada vez mais tenho pensado nisso, e cada vez menos tenho ficado nas redes sociais. Elas têm me aborrecido mais do que informado. Elas têm me deprimido mais que me conectado com outras pessoas. Não preciso acreditar que deixar as redes sociais da internet seja abandonar meus amigos ou as pessoas que amo, admiro e respeito. Tenho me preparado para um desembarque. Tentado ser mais gato.

Por isso, pretendo cada vez mais estar neste blog. É a minha forma de te convidar a deixar as redes e ver o que está acontecendo aqui fora, na internet.

Um depoimento de como o Twitter afeta nosso comportamento

Marcelo Träsel já foi um usuário inveterado no Twitter. Opinava, informava, discutia, brigava. Mas há um ano está longe daquela rede social.

Algumas razões pessoais o levaram a isso, e o mais corajoso nem é se desligar da rede, mas fazer um profundo exame de consciência e uma revisão de suas atitudes. Passado um ano de abstenção, Träsel faz um relato pungente de como o Twitter continua fabricando babacas, de como pouco se importa com crimes e linchamentos pessoais, e de como isso nos faz cada vez piores.

Leia o Träsel. Pense a partir dele.