Tenho um blog e ele faz 15 anos hoje!

Talvez você já nem lembre mais o que é um blog. Eles estão fora da moda, eu sei.

Mas eu ainda mantenho um, sabe? Aliás, hoje, ele faz 15 anos. Foi em 20 de maio de 2005 que decidi abrir um bloco de notas onde pudesse opinar, compartilhar coisas que eu gostava e me colocar no mundo digital. Era isso o que a gente tinha naquela época e o tempo se encarregou de oferecer substitutos mais atraentes e ágeis dos blogs: redes sociais!

É, já tive contas em algumas delas. No orkut, no Facebook, no Twitter, no Facebook de novo, e hoje no Twitter mais uma vez.

Quem me conhece mais de perto sabe que ando beeeeeeeemmmm descontente com as redes sociais. Há razões de sobra para deletar as nossas presenças por lá, né, Jaron Lanier? Trabalhamos de graça para essas redes, alimentamos monstros nelas, azedamos algumas de nossas relações nesses ambientes, nos domesticamos, inflamos nosso ego e auto-importância, torramos nosso tempo diante dos teclados, fortalecemos gigantes oligopólios exploradores de mão-de-obra em todo o mundo… ah, tanta coisa!

Por outro lado, cada vez mais, valorizo esse espacinho aqui. Ele não substitui as redes sociais, nem quer. É um obsoleto blog, um terreno ocupado, embora não totalmente meu, pois o wordpress e outros intermediários me lembram disso de quando em vez. Mas aqui eu me sinto bem, como a pessoa que adora dormir no sofá velho de casa, com o estofado rasgado, mas com o cheiro familiar daquilo que já embalou seus sonhos.

Nesses 15 anos, deixei muita coisa por aqui. Até resisto a olhar o arquivo para não me arrepender. Afinal, até as cotidianas besteiras fazem parte de nós!

Nesses 15 anos, envelheci e vivi muita coisa. Sou diferente do que era, e é pra ser assim mesmo.

Quantos anos ainda tenho para mim? Quantos posts vou publicar por aqui? Não sei.

Na verdade, não perco tempo pensando nisso. Em algum momento, sem aviso ou cerimônia, os posts ficarão mais raros, o tempo para a escrita pessoal vai se tornar menos importante e, aí sim, esse blog – como registro de uma pessoa qualquer num tempo qualquer – terá cumprido sua função.

Intelectuais do mundo, uni-vos!

Um grupo altamente qualificado de ativistas mundiais acaba de criar a Internacional Progressista, um movimento para conectar e construir alternativas contra o autoritarismo e a exploração no planeta.

Sim! Você já viu esse filme antes, mas a verdade é que o velho filme nunca deixou de passar: continuamos a destruir o planeta, a nos matar e a produzir os piores resultados sociais e coletivos.

O que há de diferente desta coalizão comparada às anteriores? A urgência.

Precisamos nos juntar para sonhar, imaginar e realizar saídas. Já.

Noam Chomsky, Naomi Klein, Celso Amorim, Gael García Bernal, Fernando Haddad e Yanis Varoufakis são alguns dos nomes mais peso-pesados do conselho da entidade, que se declara democrática, decolonial, justa, igualitária, solidária, libertadora, ecológica, sustentável, pacífica, próspera, plural e pós-capitalista.

A Internacional Progressista, a meu ver, é também um movimento que desafia os intelectuais a saírem de seus gabinetes, assim como a provocação recente de um influenciador digital brasileiro. Quem se cala diante do atual estado das coisas contribui para a manutenção do caos que governa atualmente as coisas…

3 links (atrasados) sobre privacidade

Pra não dizer que não falei das flores…

Julgamento moral de whistleblowers

Assisti ao documentário Privacidade Hackeada e fiquei intrigado com Brittany Kaiser, a ex-funcionária da Cambridge Analytica que decidiu jogar farofa no ventilador. Estou devorando o livro dela, Manipulados, e as diversas reticências que eu tinha sobre ela ainda se mantêm.

Isso me fez pensar que esse deve ser um comportamento bem comum quando estamos diante de whistleblowers. Isto é, é frequente que esses denunciantes não sejam levados muito a sério em seus propósitos e objetivos. Alguma pulga atrás da orelha fica cochichando que eles podem não ser confiáveis, que suas motivações são combustível de vingança, bla-bla-blá.

 

Quando Julian Assange apareceu para o mundo e despejou sobre nós montanhas de segredos das guerras do Iraque e Afeganistão, e quando nos inundou com oceanos de dados sobre a diplomacia dos EUA, confesso que não duvidei dele. Ele não era um insider como Brittany ou mesmo Edward Snowden. Assange era esquisitão, misterioso, talvez bem intencionado (talvez não), mas não estava diretamente implicado naquilo até o pescoço. Era diferente.

Ah, mas por que não acreditou tão piamente em Brittany? Por que ela é jovem? Por que é mulher?

Não. Também não.

Tive a mesma sensação quando li Vigilância Eterna, do Snowden. Pensei antes: quanto de verdade ele ainda pode nos contar e quanto dessa verdade pode prejudicá-lo? Embora ele tivesse contado parte importante do seu passado e tivesse argumentado sobre as razões que o fizeram mudar de lado, não posso dizer que fui totalmente convencido sobre sua conversão. O mesmo se dá com Brittany e com todos os delatores da Lava-Jato, por exemplo. Eu sei, eles não são propriamente whistleblowers, mas têm alguns pontos de contato com essas figuras: estavam dentro do monstro quando o monstro agia e, por alguma razão, decidiram abrir a boca. No caso da Operação Lava-Jato, a razão não é nenhum bom mocismo: chama-se delação premiada. Quem abrir o bico pode reduzir a pena e ficar menos tempo na prisão…

Mas o que ganham Snowden e Brittany? Suas consciências tranquilas, alguém pode responder. E acho que é um grande ganho sim, mas o que mais me importa pensar agora é: será possível considerar os conteúdos divulgados por eles sem considerar suas condições morais? Por que devemos acreditar no que dizem agora? Apenas por que se mostraram arrependidos? O arrependimento de alguém é um salvo-conduto moral, uma redenção do caráter? Se ainda mantivermos desconfiança sobre o que falam, não estaremos nós sendo injustos com eles?

Não sei responder essas perguntas, e elas ainda me assombram. E eles não deveriam interessar apenas a quem se preocupa com ética, moral e essas coisas fora de moda. Deveriam interessar a jornalistas – que se ocupam de ouvir e entrevistar esses personagens – e deveriam interessar a todos os cidadãos – que são afetados por tais revelações.

A vida mandou um recado

Ontem, um colorido passarinho nos visitou. Ele ficava cantando no alto de um dos muros do quintal, depois descia até uma das bicicletas estacionadas, e depois descia um pouco mais. Parecia estar sacaneando os nossos gatos, com aquela curiosa coreografia. Isso chamou a atenção da esposa que fez o vídeo abaixo:

Hoje cedo, o passarinho voltou a fazer os mesmos movimentos, o que nos intrigou. Cheguei perto do muro e percebi outro canto, além do primeiro. Percebemos que um segundo passarinho estava ali, no vão entre o muro de madeira e o de tijolos. Rapidamente, percebemos que ele havia caído ali. Por sorte, as tábuas são parafusadas, e em minutos, conseguimos soltar a mais baixa, o que permitiu o resgate do passarinho.

Pensávamos que era o filhote ou a companhia amorosa do passarinho colorido, mas… surpresa! Era um bicho mais jovem e de outra espécie. Fraco, dava pequenos voos, mas não conseguia subir até o muro ou ganhar liberdade total. O passarinho colorido, que tinha desaparecido, voltou e os dois trocaram bicadinhas, como se estivessem se cumprimentando. Achamos aquilo maravilhoso: eram amigos, e o colorido estava nos alertando há um dia do cativeiro involuntário do jovem passarinho.

A esposa conseguiu apanhar o resgatado, e o colocou na grelha da churrasqueira, onde estava protegido do vento, poderia beber água, comer migalhas de pão, se comunicar com o amigo colorido, enfim…

Achamos maravilhoso o ato de amizade. Mas foi além: achamos simbólico começar o dia com um resgate daqueles. Quais as chances de um pequeno passarinho cair no estreito vão entre dois muros, ter um amigo leal que nos avisasse daquilo, e ser resgatado com vida? Quais as chances de haver gente em casa e sermos capazes de salvá-lo? Aliás, quem mais poderia salvar aquela vidinha?

Demos um sentido àquilo tudo: era a vida nos dando a chance de entender que, em certos momentos, só a gente pode ajudar alguém, e quando isso acontece, precisamos ajudar.

ATUALIZAÇÃO, das 16h38: O leitor Mauro Demarchi informa que o passarinho colorido é um canário da terra e que, muito provavelmente, o segundo é seu filhote. O detalhe muda um pouco a história acima, mas não reduz em nada o amor nela embutido, não é mesmo? Na verdade, só amplia.

Regina Casé e a invisibilidade das mulheres pobres

Ouvi a Branca Vianna entrevistar Regina Casé e Sandra Kogut sobre “Três Verões”, filme que elas fizeram e que estreia em março. Regina vive Madá, uma personagem que pode fazer lembrar da Val de “Que horas ela volta?” e de Lurdes, de “Amor de mãe”. A exemplo das outras duas, é mais uma mulher com mais de 50, suburbana, forte, periférica, e que está imprensada pela luta de classes. As semelhanças param por aí, concordam Branca e Regina. E Regina explica de uma maneira espetacular: as mulheres pobres estavam tão invisibilizadas que agora, quando aparecem, parecem todas iguais. Parte do público que ignora a sua existência pensa que não há nuances entre elas, e há muitas!

A entrevista foi para o podcast Maria Vai Com As Outras, da revista Piauí. Você pode ouvir o episódio aqui.

E um trailer do filme tá aqui:

Meus dados, os seus, IA e algoritmos enviesados

O mundo gira rápido e por isso te ofereço 8 links sobre (des)proteção de dados, algoritmos sacanas, inteligência artificial e privacidade. Links para a gente arregalar os olhos!

O governo exterminador das universidades

Acaba de sair a edição nº 147 do Primeira Pauta, jornal-laboratório do curso de Jornalismo do Ielusc, de Joinville. Me convidaram para escrever um artigo sobre os cortes orçamentários na educação.

O resultado é este aqui:

Um governo exterminador das universidades

Os cortes de verbas, bolsas de estudo e investimentos na educação brasileira são a pior política que o governo federal pode ter para a área. Esta opção compromete a formação de uma geração inteira na medida em que sucateia escolas e universidades, desestimula professores e funcionários, e degrada o nível de conhecimento de uma nação que já ambicionou um dia ser uma potência global.

Quando o governo decide fechar as torneiras, mostra para a população e o mundo que educação não é prioridade na sua visão de país, e, com isso, ignora a obscena injustiça social que corrói o presente e o futuro do Brasil. Os cortes são profundos no orçamento deste ano e eles prometem ser mais drásticos ainda em 2020. Eles afetam a educação superior, a fundamental, e a própria ciência, pois a tesoura não discriminou laboratórios e institutos de pesquisa. Está também seriamente afetado o programa de livros didáticos e a formação de professores, e universidades deixarão de pagar contas de água, energia elétrica, telefone e segurança. Restaurantes universitários, que vendem comida a preços populares a estudantes de baixa renda, fecharão suas portas, e hospitais universitários vão restringir o atendimento à população carente. Milhares de bolsas de estudo em diversos níveis deixarão de existir, e teremos não só estudantes em início de formação, mas também cientistas de ponta sem recursos para trabalhar. Livros deixarão de ser comprados, computadores continuarão quebrados, salas de aula não serão reformadas, e um conjunto impressionante de pesquisas fundamentais para o país poderão ser interrompidas de imediato.

Já tivemos governos que congelaram salários de professores, que retiveram verbas e que deixaram de investir no setor. Mas já tivemos também governos que aumentaram a participação da educação no orçamento da União, que expandiram a rede de universidades e que implementaram políticas para ofertar vagas a camadas historicamente deseducadas. O governo Bolsonaro não se parece com nenhum de seus predecessores. Orgulhosamente, considera educação um gasto e não investimento; é uma gestão que desdenha da pesquisa, abomina o conhecimento e desconsidera o avanço tecnológico produzido no país. O governo Bolsonaro parece seguir uma agenda de extermínio das universidades, pois sufoca professores e estudantes, cientistas e qualificados servidores técnicos. É, portanto, negacionista, obscurantista, e perverso, pois impede que a sociedade usufrua dos benefícios que a educação pode trazer para suas vidas.

Pessoalmente, resisto à ideia de que todo governo detesta escola. O argumento é que a educação permite que o povo se emancipe e seja mais crítico ao governo. Ora, a história está cheia de exemplos que provam o contrário. O Japão ficou em frangalhos depois da rendição no final da Segunda Guerra Mundial e só se reergueu após investir quarenta anos em educação de qualidade. A Coréia do Sul se tornou um importante player tecnológico porque escolheu o desenvolvimento por meio da educação. A China despeja bilhões de yuans no setor, e até mesmo empresas privadas criam as próprias universidades para formar e qualificar sua mão-de-obra. Na Europa, as universidades existem desde o século XI e são motivos de orgulho continental, e até no norte da África elas existem há milênios. Aliás, as instituições de ensino mais antigas do mundo em funcionamento estão na Tunísia, no Marrocos e no Egito!

Atravesse o oceano e veremos que os Estados Unidos atraíram algumas das mentes mais brilhantes da Europa nas décadas de 1930, 1940 e 1950, tornando-se um pólo de desenvolvimento científico e tecnológico global, ao mesmo tempo em que injetavam caminhões de dinheiro nas universidades que hoje são as mais prestigiadas do mundo.

Em resumo, os governos não odeiam a educação; pelo contrário, convertem-na numa estratégica alavanca de formação de recursos humanos qualificados, visando resolver problemas do setor produtivo e da sociedade, o que resulta em duas coisas: desenvolvimento e soberania. A educação não liberta apenas pessoas, mas emancipa também países. À medida que cria produtos e serviços, que se organiza e avança no conhecimento, que desenvolve soluções, um país se torna menos dependente dos outros. A soberania é essa chave de independência que dá maioridade às nações, e as afasta de desigualdades que fragilizam a sua própria paz. Um exemplo próximo é a Venezuela, que tem as maiores reservas de petróleo do mundo, mas sofre com uma crise econômica que esmaga a maior parte de sua população. Fatores políticos também interferem, é verdade, mas o fato é que a Venezuela extrai de suas terras quantidades colossais da maior riqueza do planeta, mas refina muito pouco, vendendo o óleo cru. Investir em tecnologia de processamento fez com que os países do Oriente Médio se destacassem no mercado mundial, e isso tem a ver com educação e ciência! É uma escolha!

Ao asfixiar o sistema de ensino público e gratuito, o governo Bolsonaro não só extermina o nosso futuro, mas ataca o presente. Afeta a qualificação profissional e aumenta a dependência brasileira de soluções estrangeiras. É, no mínimo, um projeto entreguista! Pode-se perceber ainda que acabar com as universidades federais é ruim até mesmo para as particulares, pois boa parte de sua mão-de-obra foi formada na rede pública. Então, se destruir as universidades é um negócio tão ruim, por que o governo federal está fazendo isso? Bem, responder a essa questão também depende de estudo e pesquisa. Percebe a gravidade da coisa?