Meu post sobre os gaúchos produziu risadas e ranger de dentes. Um pouco de cada, na verdade. E uma ou outra ameaça de morte por parte de umas amigas do Rio Grande. Mas como sou corajoso – sou casado com uma gaúcha, o que significa viver com uma mulher-com-faca-na-bota -, retomo o assunto que me é sempre fascinante: identidades.
Ando por aí e não conheço nenhum povo brasileiro com identidade mais marcada e esbravejada que os gaúchos. Não apenas os reforços dos estereótipos de plantão, mas um conjunto de traços que desaguam num sentimento que me parece genético entre eles: o orgulho. São orgulhosos de seus feitos, de sua história, de sua terra, de sua cultura. São tão orgulhosos que transpiram arrogância ou um pouco de presunção. Alguns são hiperbólicos, outros megalomaníacos. Mas são invejáveis na sua disposição por fazer e acontecer, e na grande satisfação de mostrar seus feitos.
Orgulham-se de um passado sangrento; de lutar pela terra; de seus times de futebol viverem epopéias; de seus livros serem épicos; de suas vidas serem tragédias cantadas em verso e prosa. São fascinantes porque contagiam, porque envolvem e porque teorizam sobre suas existências.
Agora à noitinha, apanhei um livrinho – por conta do tamanho e não da importância, não me trucidem, gaúchos! – de um grande compositor gaúcho, Vitor Ramil: A estética do frio. Na verdade, o livro é a versão escrita bilíngüe (português, francês) de uma conferência que o músico deu na Suíça, sob o pretexto de falar de sua trajetória e de sua relação com a cultura que o cerca e que o ajuda a ser o que é. Pois Vitor Ramil, em vinte e poucas páginas, percorre sua vida e a formação de seu imaginário íntimo para determinar uma busca estética que ajude a unificar seus trabalhos e sua produção musical.
Ramil – o irmão menos conhecido da dupla Cleiton e Cledir, e o mais talentoso de todos – elege o frio como um traço distintivo do que faz e a milonga, como expressão aglutinadora do sentimento-canção que o move no seu fazer cotidiano. Ok, o frio e a milonga, a contemplação e a melancolia, mas o que tem a ver com os gaúchos? Ora, penso que muito. Se há uma intensa alegria nas tertúlias, vigora também uma saudade-de-não-sei-o-quê. Se há um orgulho de ser da terra, esse sentimento lateja em qualquer latitude que os gaúchos estejam: seja porque está feliz junto à terra natal, seja porque sente a nostalgia de um exilado, de um expatriado.
Ainda corroboro com a lenda de que há um grande plano gaúcho para conquistar o mundo. As células de disseminação disso seriam os CTGs (Centros de Tradição Gaúcha), espalhados por todo o globo. Tem gaúcho em tudo o que é lugar. Há CTGs em Rondônia, churrascarias nos Estados Unidos, torrões do pampa no Japão globalizado. Como diria Flávio Rangel, citado por Vinicius de Morais, “são as raízes!”