estadão X blogs: o debate (2)

Sinceramente, não sei se estamos numa puberdade da internet no país. E nem me interessa saber disso, ou tentar classificar a coisa nesses termos. Não acredito que a mera taxonomia resolva muitas questões. Não acho que ao menos nos possibilite entender melhor o cenário mutante que vivemos. De qualquer forma, é muito infantil reverberar o segundo questionamento acima.

Ora bolas! Jornalistas são produtores de informação, certo? Certo. Mas também se informam, lêem livros e jornais, conversam, pesquisam, buscam dados e assistem à TV. Quer dizer: são consumidores de informação também. Trocando em miúdos: a vigência de um estado não elimina o outro. Produtores de informação também são consumidores, são receptores e emissores. Se isso já acontece com a mídia tradicional, a interpenetração das personas se agudiza mais na web, na blogosfera, facilitado pelas condições de difusão de informação e pelo acesso razoavelmente fácil a muitas outras.

Então, é uma tremenda idiotice temer que falte público porque “todos estão se tornando emissores, todos estão virando blogueiros”. Até porque todos NÃO estão se tornando blogueiros. Isso é uma ilusão. Basta levantar números da internet no país e no mundo, basta cotejar com dados de alfabetização e indicadores sociais, sanitários e de mobilidade. O mais próximo é dizer que a blogosfera vem crescendo muito nos últimos tempos, em tão poucos anos, o que nos dá a impressão de um dia todos terem possibilidade de contribuírem para isso.

Daí, já passo para as duas questões seguintes, as do lixo demasiado na web.

Toda a raiva que li e ouvi pelos blogs nas semanas de ofensiva contra a campanha do Estadão parecia ter escorrido pelo ralo. Os blogueiros na mesa redonda eram uns lordes, autênticos aristocratas que deleitavam-se em franca tertúlia. Vários chegaram a dizer que concordavam com a campanha, e que havia mesmo muito lixo na blogosfera. O máximo que se falou foi um “merda” e um “puta”, ambos vocalizados pela única moça na mesa, a Bruna Calheiros.

Quer dizer: mal andaram pelo tabuleiro e já caíram na primeira armadilha. Ao aceitar aquela pérola – afinal, onde não há lixo? Nos jornais? Na TV? Na academia? No Congresso Nacional? -, ao convir com seus interlocutores, permitiram que o debate seguisse para uma via mais moralista e higiênica do que propriamente discutirem credibilidade e padrões de confiabilidade.

O problema não é o lixo, senhores!

Mas sim o que se faz com ele.

O ser humano produz lixo irremediavelmente. E esse subproduto é cada vez maior per capta no mundo. E isso é irreversível. O que se tem que pensar é o que fazer com isso, de que forma transformar o descartável em aproveitável.

O lixo, a irrelevância, o substrato faz parte do processo de produção. Cabe aos blogueiros e aos leitores triarem, selecionarem, escolherem. Alguém aí poderá dizer: mas a quantidade de lixo polui, atrapalha a escolher. Talvez, mas ela é inerente ao sistema. O blog de qualidade precisa do ruim para se destacar. E há leitor que não está atrás do blog de qualidade, mas quer ler coisas pessoais, paranóias, piadas sem graça, coisas absurdas, sandices. Ora, que deixem o lixo!

É preciso observar em torno do lixo e ver que condições tornaram-no descartável, diferentemente de outras coisas. (Neste meu blog, por exemplo, posto de tudo. Inclusive o que podem considerar lixo. Aliás, não definiram lixo no debate, mas ficaram repetindo – como papagaios – o exemplo do blog que fala do papagaio…)

Essa heterogeneidade é própria, característica do sistema. A própria mesa redonda do Estadão poderia ilustrar o que digo. Havia blogueiros altamente articulados, se expressando com facilidade e com segurança, trazendo à tona dados e exemplos, e havia blogueiros que alimentavam a estereotipia dos escritores-de-diários-adolescentes. Assim como em uma mesa de bar, rodeada por jornalistas (situação meramente hipotética), veremos jornalistas que transmitam credibilidade em suas piadas e jornalistas totalmente sem graça.

2 comentários em “estadão X blogs: o debate (2)

  1. Sobre a posição dos blogueiros presentes, acredito que isso foi de propósito, para mostrar uma imagem séria – ao contrário do sugestivo macaco da propaganda. Os post que pipocaram na situação estavam embebidos em fúria, pois foi considerado um golpe do nada e sem sentido (como se o Estadão tivesse atirado primeiro). Os demais comentários eu protocolo!

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