porque é 7 de setembro…

… e porque Vinicius está em toda a parte, lembro trecho da Carta ao Tom, datada do feriado de um fatídico ano:

“Porto do Havre, 7 de setembro de 1964
Tomzinho querido,
Estou aqui num quarto de hotel que dá para uma praça, que dá para toda a solidão do mundo. São dez horas da noite e não se vê viv’alma. Meu navio só sai amanhã à tarde e é impossível alguém estar mais triste do que eu. (…)
A coisa ruim é que hoje é sete de setembro, a data nacional, e eu sei que em nossa Embaixada há uma festa que me cairia muito bem, com o Baden mandando brasa no violão. Há pouco telefonei para lá para cumprimentar o Embaixador, e veio todo o mundo ao telefone. (…) Você já passou um 7 de setembro, Tomzinho, sozinho, num porto estrangeiro, numa noite sem qualquer perspectiva? (…)
Vou agora escrever para casa e pedir dois menus diferentes para a minha chegada. Para o almoço, um tutuzinho com torresmo, um lombinho de porco, bem tostadinho, uma couvinha mineira – e doce de coco. Para o jantar, uma galinha ao molho pardo, com um arroz bem soltinho – e papos-de-anjo. Mas daqueles como só a mãe da gente sabe fazer; daqueles que se a pessoa fosse honrada mesmo só comeria metida num banho morno, em trevas totais, pensando no máximo na mulher amada. Por aí você vê como eu estou me sentindo: nem cá nem lá”.

[Ouça o poeta lendo a carta no disco que reconstitui o show ao vivo que fez grande sucesso na boate Zum-Zum nos anos 60, quando Vinicius se juntou ao Quarteto em Cy, o Conjunto Oscar Castro Neves e Dorival Caymmi. A capa abaixo é a original do LP, em seguida a remasterizada agora em CD]

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3 comentários em “porque é 7 de setembro…

  1. Show rapaiz! Bela lista, instigantes considerações. Curtes William Parker? Baixo nervoso, mas calmo ao mesmo tempo.

    Só pra me estender um pouco (de praxe), interessante como hoje a gente lê o Jazz e como ele era lido nos seus primórdios. Penso em Adorno, dos frankfurtianos – que tinha seu lado de músico frustrado -, com toda sua carga de preconceito contra os negros americanos que dançavam e se contorciam com seus trumpetes tortos…

    E a história do Hobsbawn, quando ainda era marxista, com aquela paixão escondida por trás da seriedade sociológica (e do pseudônimo). Histórias, causos, curiosidades que só ajudam a curtir mais a arte.

    Faça mais disto por aqui.
    Abraços

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