Marcado: amenidades

A Nobel tem mão quentinha

20160705_104225Eu tinha certeza de que iria me encontrar com Svetlana Aleksiévitch na Flip. Não havíamos combinado nada (quem dera!), mas eu tinha certeza. Por isso, onde quer que eu fosse, carregava comigo o exemplar de Vozes de Tchernóbil que me marejou os olhos tantas vezes.

No meio de um mar de gente que zanzava pelas ruelas de calçamento ancestral, avistei a jornalista que se notabilizou por contar histórias tristíssimas como a da tragédia nuclear de 1986 na Bielorússia. Svetlana andava com passos miúdos e olhar perdido nas fachadas das casinhas coloniais. Estava acompanhada por sua agente literária na Europa e por uma tradutora. Bendita tradutora!

Abordei Svetlana em inglês e ela me olhou desarvorada. Este idiota esqueceu de décadas de Guerra Fria! A gentil tradutora veio ao nosso socorro e construiu uma simpática ponte entre o Brasil e a Ucrânia, já que eu não sei dizer nem obrigado em russo…

Agradeci Svetlana por ter contado as histórias dos anônimos em Vozes de Tchernóbil. Suas sobrancelhas formaram um triângulo surpreso. Mencionei meu episódio favorito no livro, aquele do homem que deixa tudo na cidade evacuada, mas volta para levar consigo a porta de casa. Sobre ela velou o pai e nela marcou ao longo dos anos as fases de crescimento dos próprios filhos. A escritora sorriu e passou a falar com voz clara e olhos animados.

Eu disse que era professor de jornalismo e que desejava que meus alunos a lessem. Afetuosa, Svetlana disse algumas amabilidades. Apesar de se queixar de uma dor no trigêmeo – o incômodo nervo da face -, sorria e balançava a cabeça.

“Você não tem um livro para ela autografar?”, perguntou a tradutora. Saquei meu exemplar e tirei fotos com ela. Svetlana fez uma dedicatória, apertou minha mão e se foi com as amigas. Tinha a mão quentinha, e o cumprimento foi forte. Como a sua escrita.

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Não temos whatsapp. Não insista

Toda semana alguém arregala os olhos e luta para impedir que seu queixo bata no chão. É assim quando respondo “não tenho whatsApp”. A pessoa me olha meio estupefata, meio incrédula, quase com desprezo. “Como assim?”, ela insiste diante daquela inacreditável revelação, quase um segredo de Fátima. E aí eu preciso argumentar porque não uso o software quando 100 milhões de brasileiros já o utilizam “há séculos”.

“Mas você não usa por quê?” – pergunta, com olhar desconfiado.

(sorrio amarelo) “Porque não…”

“Isso não é resposta. Diga aí!” – diz, querendo arrancar uma confissão.

(gaguejo) “Porque não sinto necessidade e…”

“Mas como não?! Você não tem celular?” – já aumentou o volume da voz.

“Tenho…”

“Com o whatsapp, você não precisa pagar a ligação nem a mensagem que enviar. É uma solução grátis!”

(eu penso: pular da ponte também grátis, mas também não estou a fim de usar essa solução) “Bem… eu não vejo porque usar…”

“Mas é super prático!” – arranca uns tufos de cabelos.

(eu penso: tomar chuva em vez de tomar banho também é prático, mas não abro mão do chuveiro) “Não acho necessário e…”

“Mas você não é jornalista? Não lida com comunicação?” – interpela, com as mãos prestes a alcançar meu pescoço.

(esquivo do estrangulamento) “Sim, eu sou, mas…”

“E como é que você se comunica?” – a pessoa está prestes a sacar uma faca…

(meus olhos varrem o perímetro buscando rotas seguras de fuga) “Bem, eu uso email, ligo para as pessoas, mando SMS, deixo recados, converso pessoalmente…”

“Ah, mas não é a mesma coisa!” – agora, a pessoa me olha com nojo. Virei uma barata.

(penso em responder, mas o interlocutor faz sinal para parar. Ele olha seu smartphone que emite ruídos múltiplos, avisando que chegaram várias mensagens. Com os olhos pregados na tela, me deixa ali sem falar nada. Eu sorrio: salvo pelo whatsApp!)

qual é o seu signo, detetive?

A literatura policial é dessas artes que permitem muitas extrapolações. Volta e meia, estudiosos propõem classificações por ciclos históricos, pela nacionalidade dos autores e até por modalidades de crimes. Rótulos são criados (noir, hardboiled…), períodos são determinados (era de ouro, etc…) e um cânone vai se formando. Mas poderíamos ir muito além. Quem sabe elaborar listas de detetives fumantes, de mulheres que investigam, de serial-killers com traumas de infância, de mortes esquisitas e de vítimas excêntricas?
Como a literatura policial é dessas artes que permitem extrapolações, vou propor uma nova classificação, a zodiacal.

(leia a íntegra de Sob o Signo do Crime que publiquei no Almanaque da Literatura Policial)

lá vem bellini!

Não, não. Não é o capitão da seleção que avança pela lateral com o coração na boca e a bola na ponta da chuteira…

É o detetive Remo Bellini, criatura de Tony Bellotto numa série de livros policiais com a cara, a fauna e a paisagem paulistana. Distante das prateleiras desde 2005, o personagem prepara o seu retorno, conforme conta Ana Laux na entrevista exclusiva que fez com o escritor. Aqui, no Almanaque da Literatura Policial.

para quem gosta de sangue e mistério…

Se você não consegue ir pra cama antes de devorar as últimas páginas do livro e descobrir a identidade do assassino… se você se amarra em séries sobre investigação… se você é íntimo de Sam Spade, Poirot, Maigret, Sherlock Holmes, Kay Scarpeta  e tantos outros… se você tem espírito de detetive e adora literatura policial… não pode deixar de conhecer, navegar e voltar sempre preciso a esses endereços:

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nem tudo tem um link

desplugadoEm tempos de conectividade total, uma história me divertiu semana passada. Quem contou foi o jornalista Ariel Palacios, correspondente de O Estado de S.Paulo e da GloboNews na Argentina. Ele estava em um local público e “pescou” uma rápida discussão entre pai e filho, que discordavam sobre algo. O pequeno teimava, argumentando que sabia do que estava dizendo, afinal tinha visto aquilo na internet. O pai não hesitou e mandou uma frase certeira:

Filho, nem tudo na vida tem um link!

urano na casa das máquinas

Screenshot 2013-05-11 01.37.02Hoje, amanhã e domingo – dias 12, 13 e 14  de julho – tem apresentações de Urano Quer Mudar no teatro da Casa das Máquinas na praça da Lagoa da Conceição. O espetáculo começa sempre às 20 horas, com entradas a R$ 30,00 e R$ 15,00 para idosos, estudantes e classe artística.

Urano Quer Mudar é uma produção do Círculo Artístico Teodora, e tem no elenco os emocionantes Margarida Baird e José Ronaldo Faleiro, sob direção de Brigida Miranda. As canções originais são de Ana Laux. O texto é meu, reescrito a partir da versão original de 2003. Na história, um casal de atores prepara a mudança de casa e, no meio dos pacotes e caixotes, encontra um texto que nunca chegaram a encenar. Passam a ler, e aí, ficção, memória e reinvenção de si mesmos tomam conta do palco.

Vá conhecer Urano. Vá ver o que Fenícia tem a dizer.

o som das ruas em floripa

Galera, galera, vamo juntá mais! Isso, isso. Começa! Começa! Começa! Tá chovendo, vem pra debaixo da sombrinha. Começa! Começa! Começa! Pra onde que o movimento vai? Vai pra Assembleia! Vai não! Vai pra ponte! Vamo fechá as ponte! ÉEEEEEEEEEEE!!! Junta, pessoal! Assim, fica mais quentinho! O povo unido, jamais será vencido! O povo unido, jamais será vencido! Vamos tomar a ponte! Pra ponte, gente, pra ponte! Eba, eu moro no continente! Um, dois, três! Quatro, cinco, mil! Ou para a roubalheira ou paramos o Brasil! Segue, gente! Vamos fechar a ponte! Xi, o vento quebrou o guarda-chuva! Vai assim mesmo! É o banho da democracia! Ô, o gigante acordou! O gigante acordoô! Olha a capa, olha a capa! Tem guarda-chuva também!!! Meu, quem tá fumando? Maior marofa! Ei, RBS! Vai tomá no cu, filha-da-puta! Sem partido! Sem partido! Sem partido! Que maluco é aquele com a bandeira da UJS? Ei, Fifa! Paga minha tarifa! Ei, Fifa! Paga minha tarifa! Ouviram do Ipiranga à margens plácidas… Brasil, vamo acordar! Um professor vale mais do que o Neymar! Sem partido! Sem partido! Sem partido! Quem não pula, quer tarifa! Quem não pula, quer tarifa! Quem não pula, quer tarifa! Quem não pula, quer tarifa! Ei, mas que vegonha! Essa tarifa tá mais cara que a maconha! Meu, não aguento mais comer lentilha! Quero é feijão! Oi, pode tirar uma foto da nossa galera aqui? Isso! Galera, junta mais pra sair a Hercílio Luz atrás!!! AÊEEEEEEEEE!!! O povo unido, jamais será vencido! O povo unido, jamais será vencido! Fechamos as duas! Fechamos as duas!!! Que helicóptero é aquele paradão? Da RBS! Ah, então, aquele do canhão de luz é de quem? Dos milico! O gigante acordou! Anda, galera, que o gigante tá com fome! Caminhando e cantando, seguindo a canção… Sentiu a ponte balançar??? Senti, mas achei que era a minha labirintite… Oça, oça, oça! Vamo tudo pra Palhoça! Sem partido! Sem partido! Sem partido! Quem não pula, quer tarifa! Quem não pula, quer tarifa! Depois da ponte, vamo pra onde? Ah, o movimento, eu não sei, eu quero é comer um xis… Meu, as ponte tão lotada! Tira uma foto pro Face! Olha só, disseram que tá tendo protesto em Brasília e no Rio tem mais de 200 mil pessoas!!! EEEEEEEEEE!!!! Um, dois, três! Quatro, cinco, mil! Ou para a roubalheira, ou paramos o Brasil! Galera, fecharam a ponte ali, não dá pra passar! Agora, tem que voltar! Volta! Passinho pra frente, faz favor! Passinho… Vamos voltar!!! Brasil, vamos acordar! O professor vale mais que o Neymar! Vem pra rua! Vem pra rua! Vem pra rua! Oi, mãe, tá tudo bem aqui! Encontrei com um monte de gente do colégio! Mãe, sai da frente da novela e vem pra rua! Pô! A passeata tá melhor que o CarnaFacul! É, tem mais muié! Adoro as indignadas! Galera, travô, travô! Teve um cara que caiu ali na frente! Quem? Caiu da ponte na grama! Já tem gente atendendo? Tem sim… Credo! Ó, sai do parapeito aí! Sai, velho! Vamo pessoal! O povo unido, jamais será vencido! Vem pra rua! Vem pra rua! Vem pra rua! Travô de novo. Tá devagar sair da ponte! Tem muita polícia ali na frente? Nada, tão só olhando!!! Vamo, galera! Anda! Quem não anda, quer tarifa! Quem não anda, quer tarifa! Quem não anda, quer tarifa!

com criança pode?

Só hoje assisti ao vídeo em que José Genoino “fala” ao CQC, transmitido na segunda passada, 25. E confesso: pensei três, quatro vezes se escreveria sobre isso. Na verdade, me fez mal o que vi. Fiquei incomodado. Não com o cerco que os personagens do programa fazem aos políticos em Brasília, nem com a pegação de pé habitual com Genoino. Duas coisas me chamaram a atenção no vídeo: a gana do CQC Mauricio Meireles para humilhar o deputado e a cilada que armou para que Genoino respondesse ao programa.

Eu poderia descrever, mas é melhor ver com os próprios olhos:

Viu? Pois é, não vou discutir se Genoino é corrupto ou não. Fato é que ele foi condenado pelo STF pelo escândalo do Mensalão. Outro fato que também não pode ser ignorado é a sua biografia na vida política nacional. Mas, como disse, não vou entrar nessa polêmica. Só vou me prender aos dois aspectos que me causaram mal estar ao ver o vídeo. E para isso vou lançar perguntas ao léu, que você – leitor – pode se atrever a responder ou não…

– é correto ensaiar uma criança para repetir perguntas capciosas para alguém?

– é certo que o seu pai filme uma conversa em ambiente privado – um gabinete – para tentar “flagrar” algum deslize do político?

– a criança em questão sabia o que estava fazendo? se não sabia, de quem é a responsabilidade por aquilo?

– o homem que a acompanhava era mesmo seu pai?

– durante meses, o CQC tentou arrancar declarações de Genoíno e sempre em ambientes públicos. É legítimo que se valha de uma troca de palavras em ambiente privado para fazer tanto alarde?

– o CQC precisava usar uma criança para ter esse efeito?

– a frase de Genoíno – de que o PSDB tinha “lábia” e por isso não saía o julgamento do Mensalão tucano – era alguma confissão de culpa ou algo que o incriminasse?

– o CQC é um programa jornalístico ou humorístico?

– se o CQC for um programa jornalístico, quem é o diretor responsável que deveria responder por eventual uso indevido de um menor no vídeo?

– se for um programa jornalístico, o CQC se baseia em que princípios jornalísticos? E quais princípios éticos?

– se for um programa humorístico, o CQC deve ter limites? Quais?

– pode-se discutir limites de programas humorísticos sem despencarmos para a velha discussão sobre censura?

– programas humorísticos transmitidos pela TV aberta também se enquadram no que dizem a Constituição Federal, a legislação sobre radiodifusão pública e o Estatuto da Criança e do Adolescente?

– a declaração de Genoíno traz algo de novo (jornalisticamente falando) ao caso do Mensalão ou a qualquer outro?

– pegadinha é um recurso jornalístico?

– pegação no pé é uma técnica jornalística?

– usar uma criança para armar uma arapuca com alguém (quem quer que seja!) é engraçado?

– onde está a graça em humilhar e ofender as pessoas, mesmo as condenadas na justiça?

– até onde pode-se ir na tv brasileira?

Sim, isso tudo me embrulhou o estômago…

é da lata!

Se você tem mais de trinta vai se lembrar do “verão da lata”, né? Até saiu livro outro dia, contando o caso de milhares de latas de maconha prensada que “invadiram” o Rio de Janeiro, trazendo preocupação às autoridades e alegria para outras camadas sociais…

Pois não é que o imaginário popular ainda tem sérias desconfianças com latas? Ontem, retornando de viagem, fui abordado de forma muito simpática pela segurança do aeroporto de Congonhas. A moça – que mais parecia o Maguila por sua docilidade e porte atlético – rosnou logo que minha mochila passou pelo raio-X: “De quem é essa aqui?” Ergui o dedinho e murmurei: “É minha, moça!” Com as mãozinhas na cintura, ela rugiu: “É que tem uma lata aí dentro”. “É, tem”. “Que é que tem dentro da lata?!”, berrou, abalando uma pilastra do terminal. Um segundo é muito tempo e pensei em três respostas para a agente de segurança: 1) “Tem 800 gramas de cocaína, bruaca!”; 2) “É Nescau, dona, sou traficante de Nescau!”; 3) “Vaselina, doçura. A lata está cheia de vaselina e você sabe pra quê…”. Mas sou um cara educado e soltei um cândido: “Doce de leite, moça! Tô vindo de Minas”.

doce_pequeno_medalhaAntes de me encostar contra a parede e dar uma geral, a segurança disse de forma amável: “Vai ter que abrir!” Sorri amarelo, abri a mochila, e exibi com um misto de vergonha – tinha uma fila atrás de mim – e orgulho a lata. Era um exemplar do mundialmente famoso Doce de Leite de Viçosa, premiado no mercado, adorado por multidões, quase canonizado pela diocese local. Um segundo é muito tempo e me imaginei levantando a lata como Cafu fez em 2002, chuva de papel picado, flashs, We are the champion, urros de alegria… mas voltei à realidade.

Com os caninos à mostra, a segurança pareceu ter se convencido. Mas hesitou. Um segundo é tempo demais, e temi que ela fosse confiscar minha desejada lata e eu voltaria para casa apenas com o queijo meia-cura que comprara em Mariana. Mas voltei à realidade, guardei a lata e segui pelo saguão driblando a segurança, meia dúzia de turistas polacos, um cara de turbante e um anão de barbicha loira. Só saí do meu transe quando uma senhora disse de lado: “Preconceito ca lata, né mes?!”, disse em bom mineirês. Sorri amarelo, me dei conta do ocorrido e deixei escapar um pensamento político: Os mineiros deveriam se insurgir com coisas do tipo. Viu o que os cariocas fizeram com os royalties do petróleo?

e o amor, hein?

Outro dia, em Congonhas, na banca de revistas, passo por um rapaz com uma mochila nas costas. Percebo o zíper aberto, e reconheço o sujeito: “Criolo, sua bolsa está aberta!”. Ele se volta sorridente: “Obrigado, meu querido!”.

Eu o chamei de “Criolo”, e ele de “meu querido”. Contei o episódio à minha esposa, e ela se escandalizou com a minha forma de tratamento. Expliquei quem ele era, e tudo terminou bem. “Ele te conhecia?”, ela perguntou. Eu sorri balançando a cabeça. “Ele só foi gentil”. Alguém já falou que gentileza é um outro nome para o amor. Um tipo dele. Aliás, é o próprio Criolo quem já fez um belo apelo para mais amor… Vale!

nasi não é wolverine

Em três dias agitados, devorei “A ira de Nasi”, ótima biografia de Nasi Valadão, escrita pelos jornalistas Mauro Beting e Alexandre Petillo. Com informações bem apuradas, recheado de boas histórias e com um texto bem cuidado, o livro apresenta um personagem necessário para se compreender a cena pop brasileira dos últimos trinta anos. Nasi é um desses bad boys que o mundo rock produz cada vez menos. Isso mesmo! Anti-herois verdadeiros, confusos, conturbados, contraditórios e genuínos. O que mais se tem visto por aí são bad boys de meia tigela, e não é o caso do cantor que se notabilizou por mais de vinte anos como o vocalista do Ira!

Os ingredientes da vida de Nasi são os mesmos que se vê nos principais caras do show business: carreira com altos e baixos, encrencas diversas, mulheres escapando pelo ladrão, montanhas de dinheiro queimadas com drogas, montanhas de droga queimando o filme do cara… Mas tem mais: o enredo de Nasi traz traições, choque de egos, brigas familiares, redenção pessoal e busca religiosa.

Frequentemente comparado ao Wolverine, Nasi não é o mutante-com-garras-retráteis, embora a fama de mau lhe caia muito bem, ele mesmo admite. Existem semelhanças entre os dois sim, mas uma frase na biografia define melhor o cantor. Uma frase dita entre o deboche e a confissão: “Nasci pra ser o Johnny Cash da macumba!”

concierto de aranjuez: chet baker, ron carter, jim hall…

Era uma vez um violonista espanhol chamado Joaquín Rodrigo. Era uma vez os jardins do Palacio Real de Aranjuez, tão inspiradores que provocaram o tal Rodrigo a escrever um concerto para eles… Era uma vez, então, uns músicos brilhantes… um na guitarra, outro no contrabaixo, outro no trompete e outros mais, todos juntos e… bem, chega de história… assista você mesmo!

Concierto de Aranjuez

essa eu esperava desde pequenino…

Eu não tinha mais que onze anos quando descobri o traço de Milo Manara, que escancarou as portas de minhas percepções de pré-adolescente diante do universo dos quadrinhos. Sim, eu já folheava gibis desde os cinco, mas eram super-heróis, monstros, bichinhos… Manara me mostrou com quantas curvas se faz uma mulher, ao menos dentro dos requadros… Delicadeza, sensualidade, cores bem dosadas, volumes nos corpos. O desenho de Manara tem tudo isso, e um capítulo à parte é o tratamento que ele dá aos cabelos das suas musas. Tudo parece acontecer em câmera lenta, com música de fundo romântica e levemente picante…

(Eu iria cair de quatro mesmo com Paolo Eleuteri Serpieri e sua Druuna, mas isso é outra história)

O fato é que eu sempre desejei ver o encontro de Milo Manara e os quadrinhos de heróis, épicos e cheios de uma ação com alta voltagem. Isso já aconteceu, mas tem algo melhor vindo aí. Manara vai assinar a capa de um alardeado lançamento da Marvel no inverno norte-americano. Já pensou a Feiticeira Escarlate, toda esvoaçante sob a caneta de Milo Manara? Não pense, veja! Tá aí!

(dica do HQRock)

notas de férias (1)

Tirei uns diazinhos de férias. Fui obrigado. Caso contrário, as perderia.
Diante disso, o que posso fazer? Go-zar.

1. O que mais me chamou a atenção em “O Espetacular Homem-Aranha” não foi o vilão reptiliano e escabroso, nem os sempre-incríveis efeitos especiais, nem a trama aracnídea. Foi Andrew Garfield. É, eu pensava que Tobey Maguire era o Peter Parker definitivo no cinema e que o magrelinho escalado para fazer o super-heroi iria cair das alturas. Besteira. Garfield mergulha no personagem sem rede de proteção, e faz um Parker no mais autêntico estilo adolescente: confuso, dramático, hiperbólico, atrapalhado. E seu Homem-Aranha é elástico, histriônico e acrobático, como o de Todd McFarlane.

2. A Praia da Armação ainda está ao deus-dará. A obra de contenção do mar foi mal feita, o comércio sentiu o baque da queda do turismo e a comunidade está abandonada. O mar continua a ser o mais lindo dessa parte da Ilha. As gaivotas reinam soberanas num céu sem limites. Como são sem limites as cagadas humanas.

3. Garcia-Roza voltou com tudo. Em “Fantasma”, ele traz mais uma vez o delegado Espinosa em um intrigante romance policial, sempre ambientado em Copacabana (ou arredores) e com personagens com contornos pouco nítidos e camadas e mais camadas de complexidade. Houve quem rosnasse com o lançamento. Gostei. Trama bem costurada, mistérios e segredos na medida. Aos 52 anos, Espinosa está melhor do que antes…

4. Tropecei em “Bourbon Street – Os fantasmas de Cornelius”, uma luxuosa HQ dos franceses Phillipe Charlot e Alexis Chabert, que mescla jazz, nostalgia, esperança e aparições de Louis Armistrong. Junte uma pitada de Buena Vista Social Club, uma arte vigorosa e bem detalhada, e um roteiro delicado, et voila! Vale a leitura, mas aviso: é apenas a primeira parte da história. A segunda só sai no Brasil no ano que vem…

5. E já que estamos falando (quase que só) de fantasmas, fuja de “Motoqueiro Fantasma – Espírito da Vingança”. É uma bomba

6. Dias ensolarados sepultam listas de compromissos chatos, atrasados e incontornáveis.

7. “Para Roma com Amor” é delicioso. Woody Allen está hilário: na frente e atrás das câmeras. Três ou quatro diálogos e ele chuta Roberto Benigni pro canto.

8. É bom acordar e se espreguiçar. É bom poder prestar atenção na própria respiração (mesmo que isso acarrete olhar pra pança indo e voltando). É bom fugir no meio da tarde para pegar um cinema. É bom estar vivo.

o fim de demóstenes

O Senado vota hoje pela manhã o pedido de cassação de Demóstenes Torres (sem partido – GO), e tudo parece fazer crer que ele será o segundo senador da história a ser defenestrado pelos seus pares…

A Polícia Federal gravou mais de 300 telefonemas entre Demóstenes e o contraventor Carlinhos Cachoeira. Putz! Mais de 300! É bem mais do que falo com a minha mãe! Isso quer dizer duas coisas: 1. Demóstenes gosta mais de Cachoeira do que eu da minha mãe! 2. Eu também merecia uma CPI por isso…

stan lee segue as pegadas de hitchcock

Alfred Hitchcok foi um dos cineastas mais influentes do mundo, um renovador de linguagens, um realizador sem igual. Afora isso tudo, foi um sujeito de um humor bem peculiar. Algumas das piadas mais conhecidas do velho estavam em seus filmes, nas aparições-relâmpagos do diretor em situações cotidianas e irônicas. Passatempo de muita gente é assistir aos filmes e “pescar” as suas passagens.

Stan Lee, o cara mais importante da indústria dos quadrinhos nos últimos 50 anos, também é muitíssimo bem-humorado e recorreu ao mesmo expediente para “estrelar” os principais lançamentos cinematográficos envolvendo super-herois dos quadrinhso da Marvel. Veja um mix e se divirta!

sete anos é um ciclo

Este blog completou sete anos de publicação no último dia 20. Eu ia escrever que são sete anos de publicação ininterrupta, mas se você passa por aqui com alguma frequência sabe que os posts têm ficado mais raros. A desculpa é a de sempre: absoluta falta de tempo. Desde que assumi uma montanha de compromissos profissionais – entre os quais a coordenação do Mestrado em Jornalismo na UFSC -, tem sido mais difícil levar esta second life de blogueiro. Já me queixei também se falta de motivação, mas o grande impedimento mesmo é a duração do dia. Ele curto demais.

De qualquer maneira, fica o registro. E pra não perder a mão, ofereço aos meus poucos (fiéis e insistentes) leitores um novo layout. Mais uma vez, fica o meu agradecimento pelo privilégio da sua visita.

ninguém mais faz backup?

Fiquei muito surpreso com o que aconteceu com o Art Spiegelman ontem! O cartunista teve o seu notebook furtado momentos antes de palestrar num encontro de jornalismo cultural em São Paulo. Para quem não liga o nome à pessoa, Spiegelman é o único cara a ganhar um Pulitzer com uma obra em quadrinhos, o mítico Maus, onde representa de forma irônica o embate entre judeus e nazistas na forma de gatos e ratos. Pois o cidadão vem ao Brasil como atração e passam a mão nele!

Outro dia, outro cartunista também teve o mesmo destino. Levaram o notebook do Laerte, e na máquina havia um acervo de anos e anos de trabalhos gráficos. O azar se repetiu, pois o computador de Spiegelman também continha um tesouro visual armazenado. Perdido para sempre? Talvez…

Fiquei pensando: será que esses caras não fazem cópias de segurança de seus desenhos e ilustrações? Se a maré tá assim, meu amigo Frank Maia, que se cuide… Faz um backup aí, Frank!

homens que eu amo: clint eastwood

Não espere sorrisos em abundância, simpatia gratuita ou demonstrações explícitas de extroversão. Clint é caladão, taciturno, na dele. É assim nos filmes, onde encarna quase sempre a figura do solitário-vingador, e na vida real, conforme conta Marc Eliot na biografia “Clint Eastwood – Nada censurado”. Mas Clint não se limita a esse clichê, como se pode imaginar.

Os muitos percalços na carreira, a pouca certeza sobre seu talento como ator, os muitos casos extraconjugais, os filhos fora do casamento e o amadurecimento como homem e como artista são a base do livro. O retrato composto não é autorizado nem complacente. Também não é denunciador ou polemista. Clint é mostrado clinicamente, quase sem emoções ou arroubos de deslumbramento. Ele desfila calmo e determinado pelas páginas. Vemos Clint figurar em 56 filmes, dirigir 22 deles, receber oito indicações ao Oscar, levar outros cinco. Vemos Clint casar duas vezes, ter sete filhos, virar prefeito, virar diretor e produtor… Vemos Clint matar facínoras, vingar prostitutas, varrer cidades de mal feitores, trocar socos nas ruas, contracenar com orangotangos, apaixonar-se por mulheres…

Ao fim da leitura, não se pode dizer que haja uma redenção de Clint. Ele continua contestado pela crítica por suas limitações de atuação; permanece à espera de um Oscar de Melhor Ator, mesmo tendo batido na trave por mais de uma vez. Por outro lado, o leitor para e pensa: putz! A década mais interessante da vida desse homem é a que começa depois dos 70 anos. Depois disso, quando ele já poderia se aposentar e ficar mais tempo jogando golfe em seu clube em Carmel, Clint engata uma quinta marcha e produz como nunca, de forma inquieta, como se estivesse buscando algo. É dessa época Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, Gran Torino, A conquista da honra, Cartas de Iwo Jima, Invictus, Além da Vida, A troca…

Você pode nem ir muito com a cara dele, mas Clint é extraordinário. Não acha?

um vinicius repetitivo e apressado

Eu já havia cruzado mais de uma vez com “Nuestro Vinicius” numa bela livraria de shopping. Neguei-me a levar por um misto de desconfiança e receio. A desconfiança: será que uma biografia escrita por uma estrangeira ultrapassaria a admiração que já tinha pelo que considero o livro definitivo sobre Vinicius de Moraes? A gringa é a jornalista Liana Wenner, e a obra-prima da qual não queria abrir mão é “Vinicius de Moraes – o poeta da paixão”, do crítico José Castello. O receio: deparar-me com um relato que corrompesse o personagem que cultivo como a um parente próximo.

Por uma dessas coisas que não se explica, ontem, trombei mais uma vez com o livro da argentina, mas agora numa versão brasileira, recém-lançada. Por aqui, a biografia que trata das aventuras do Poetinha na Argentina e Uruguai passou a se chamar “Vinicius portenho”. Trouxe comigo, e passei a devorá-la logo após o almoço, como quem se empanturra com papos de anjo em trevas totais…

Mas o que percebi nas primeiras 50 páginas é que o livro nem faz sombra a outros títulos que biografam esse inesquecível personagem. Primeiro porque é mal escrito: tem ideias repetitivas, não é claro no percurso temporal – o que causa desorientação no leitor -, e ainda por cima cria um ou outro clímax que não se sustenta. Depois, porque a pesquisa da autora parece apressada, circunscrita a poucas fontes, e com um tratamento das informações que tende ao preguiçoso. Não raras são as vezes em que Liana Wenner deixa o fio condutor de lado e entrega ao leitor longos trechos de depoimentos, sem um tratamento que uniformize o seu texto, como quem não sabe muito bem o que fazer com aquilo tudo. A narrativa perde em fluxo e potência; a autora evapora diante dos depoentes…

Isto é, “Vinicius portenho” me decepcionou bastante. A prosa é fácil, rotineira até, o que faz restar a impressão de que estamos diante não de um livro, mas de um amontoado de textos jornalísticos – feitos no calor e na pressa do cotidiano -, sem um período de amadurecimento, polimento e cuidado. Apesa disso, é preciso dizer que a obra não é pretensiosa, como se costuma encontrar por aí em outros empreendimentos biográficos. Mas o Poetinha merecia mais que isso.

Em “Garoto de Ipanema”, de Alex Solnik, encontramos um saboroso cardápio de episódios que apresentam Vinicius de Moraes numa dimensão bem humorada e bonachona. Também não há pretensão ou sisudez, mas a leveza do texto do autor carrega o leitor numa viagem bastante prazerosa. “Vinicius de Moraes – uma geografia poética”, de José Castello, é um trabalho restrito a mostrar os lugares por onde passou o poeta, relacionando afetos e logradouros. Caminha-se com o velho sedutor, com o compositor inspirado, com o poeta de copo na mão. Mas “Vinicius de Moraes – o poeta da paixão”, do próprio Castello, é um retrato muito bem acabado, sincero, dramático e doce, como era o “branco mais preto do Brasil”.

Enfim, Benjamin Moser nos mostrou uma Clarice Lispector multidimensional e sólida, mostrando que sua estrangeiridade em nada afetou a distância de sua biografada; Liana Wenner nem arranhou a moldura de Vinicius…

uma lágrima para moebius

Sei que já não é novidade, afinal aconteceu há quase uma semana… mas a vida anda corrida, e pelo jeito, a morte também tem a sua pressa. Moebius deixou de desenhar no sábado passado. Morreu e viajou para habitar seus mundos desenhados. Tinha um estilo claro, limpo, elegante. Trabalhou com gente importante e influente, deixou um legado, uma obra, enfim. Conheci seu trabalho nos anos 1980, quando desembarcou no Brasil uma graphic novel que ele assinava com o mítico Stan Lee. Na época, juntei cada centavo (era a época do Cruzado Novo!) para comprar a revista e nunca me arrependi. Mais de uma década depois, perdi o título numa mudança. No ano passado, num sebo, readquiri o exemplar. Na história de Stan Lee, o Surfista Prateado mais uma vez se digladia com o devorador de mundos Galaktus. E mais: revela a fragilidade da vida dos humanos e suas muitas contradições. Nos desenhos de Moebius, o Surfista se mostra esguio, brilhante, inigualável.

um dos duetos mais emocionantes

Na madrugada deste domingo, fui sacudido por uma torrente emocionante quando vi um número que reuniu Maria Gadú e Beto Guedes, no programa Altas Horas. Gadú, com seu timbre vigoroso e encorpado, é acompanhada por um Beto Guedes, envelhecido mas ainda muito suave e generoso. O compositor mineiro de voz afeminada é um dos poetas mais importantes dos anos 70 e 80 no Brasil. “Amor de índio” – assinada com Ronaldo Bastos – é uma das suas melhores canções e deveria ser ensinada nas escolas, como o Hino Nacional.

para onde vão os livros?

Um velho ditado proclamava: “As palavras caminham”. Se elas não ficam paradas, o que dirá dos livros?

Os que você tem em casa, estão à sua vista, mas e os que você empresta ou os que são descartados?

Frequento sebos não apenas para encontrar livros baratos e fora de catálogo. Volta e meia, descarrego em um sebo os livros que não leio mais, não vou ler nunca ou que já transbordam da minha estante. Eu sei, tem gente mais apegada que não se livra de seus livros nunca. Também já fui assim, mas é que vem faltando espaço e, volta e meia, tento desocupar lugares nas prateleiras para os novos volumes que comprei e ganhei. Pois recentemente tive duas gostosas surpresas com os livros que dispensei. E quem me trouxe notícias deles foi o Facebook.

Meses atrás, uma moça mandou mensagem reservada pelo sistema dizendo que havia comprado um livro que fora meu. Ela identificara meu nome na folha de rosto, e em dois cliques no Google me encontrou. O livro era “A linguagem no pensamento e na ação”, e ele estava no interior de São Paulo, a quase mil quilômetros de onde estou. Vendi o livro em Florianópolis e, meses depois, a nova dona dele me encontrou na internet e decidiu mandar lembranças do volume. Achei curioso.

Semana passada, tive novas informações de outro ex-livro-meu: “Liberalismo e Democracia”. Mais uma vez, um desconhecido me procurou na rede, e me contou que era o mais novo proprietário. Desta vez, o volume viajara pouco. Na verdade, ele até estava me seguindo. Foi comprado numa banquinha de livros a cem metros do prédio onde leciono na UFSC. Tenho certeza de que vendera para um sebo do centro da cidade, mas “as palavras caminham”, lembra? O novo leitor não só me contou do livro como disse que me conhecia de uma palestra em outro lugar, e que ele sim viajara e acabara de comprar o volume…

Você pode até dizer: tá e daí?

E daí que o mundo é bem pequeno, os livros não ficam parados e as redes sociais ajudam as pessoas a se encontrar. Há poucos anos não escrevo mais meu nome na folha de rosto dos livros. Não é preguiça, superstição ou coisa que o valha. É só um ensaio de desapego.

vá chorar com hugo cabret

Amo cinema, mas torço o nariz para filmes exibidos em 3D. Por uma razão simples: na maioria das vezes, o efeito tridimensional é só um penduricalho, algo para fazer um buzz e cobrarem 50% a mais no preço dos ingressos. Eu disse na maioria das vezes. Hoje, fui ver “A invenção de Hugo Cabret”, produção assinada por Martin Scorsese e que disputa o Oscar de melhor filme neste ano. E não houve jeito: assisti à versão em 3D e (muito bem) dublada. E quer saber? Não me arrependi em nenhum momento desde que entrei na sala. Imagine: tarde um domingo de Carnaval, havia vinte e poucas pessoas na sessão apenas, silêncio, calma, atenção total para a projeção…

E o 3D? Sen-sa-cio-nal! Tanto pelo uso inteligente quanto pelo emocional. Eu explico.

Scorsese filmou nos dois sistemas – o convencional e o D-Cinema -, mas as perspectivas de filmagem, os enquadramentos, a exploração da profundidade de campo, buscando novos pontos focais fazem com que a experiência de assistir a “Hugo” seja realmente envolvente e não superficial. Se em “Avatar” o efeito era estonteante, agora é transportador, vertiginoso na primeira sequência do filme. Não bastasse explorar como ninguém o 3-D, ao escolher este triunfo tecnológico, Scorsese faz mais uma homenagem a Georges Mèliés, a quem o público é apresentado com tanta delicadeza e respeito. Afinal, o cinema também é isso: uma arte apoiada na sensibilidade e no engenho, na emoção e na técnica.

“A invenção de Hugo Cabret” é desses filmes que já nascem clássicos, pois fazem justas homenagens a personagens-chave do cinema e resgatam elementos de primera, como a ilusão, a fantasia, a magia… Com Scorsese, assistimos estupefatos à “Chegada do trem à estação”, mas agora em 3D! Tão estupefatos quanto o público daquela mítica primeira exibição do cinematógrafo… Grande sacada que reúne passado (1895) e presente (2011-12), e dois realizadores importantes para a arte e a indústria: Mèliés e Scorsese.

Ben Kingsley está soberbo como sempre; a trilha é sensível – embora não seja tocante como em outros filmes do tipo; o próprio Scorsese faz uma aparição-relâmpago (fique ligado!); os efeitos especiais são usados na medida; mas são os cenários e a maquinaria envolvida que transborda pela tela.

Se você conhece a história do cinema, vá ver “Hugo” pelo que ele nos relembra desse rico enredo.
Se você não conhece a história do cinema mas quer ver uma história bem contada no cinema, vá ver “Hugo” para assistir à poesia escrita com a luz.
Nos dois casos, como já avisei no título do post, leve uma caixa de lenços descartáveis.

nosso herói ataca novamente…

Se você teve insônia ontem, viu que a Globo reprisou pela enésima vez “Curtindo a vida adoidado”. Ainda bem. O filme é um clássico para quem passou a adolescência nos anos 80. Se você não sabe do que estou falando, dê um Google ou vá buscar informação na Wikipedia ou no YouTube… Por outro lado, se você também é um fã de Ferris Bueller, saiba que ele está de volta! Mais uma vez curtindo um dia de folga como ninguém, e numa super máquina.

A Honda convidou nosso heroi para um comercial que será exibido no intervalo do SuperBowl.

Só…

“o brado retumbante” é ingênuo, mas interessante

Os americanos não têm tantos pudores quanto os brasileiros quando o assunto é usar seus presidentes na TV ou no cinema. Na pele do chefe da nação, Harrison Ford já trocou sopapos para salvar o mundo em seu Força Aérea Um, Morgan Freeman, Danny Glover e Jack Nicholson anunciaram o apocalipse, e até mesmo o baixinho Martin Sheen já mandou na Casa Branca. Os presidentes americanos pilotam caças contra alienígenas, lideram ofensivas globais, assumem – com algum conforto – o posto de xerifes do planeta.

Entre nós, a coisa não é bem assim.

A minissérie “O brado retumbante”, no ar na TV Globo desde a terça, 17, é um produto que foge à regra. Apresenta a história de um presidente acidental, cercado de chacais palacianos, e disposto a colocar o país nos trilhos, apesar de seus muitos deslizes pessoais. A direção caprichada, o ritmo bem cadenciado dos capítulos e o elenco que mescla medalhões e rostos menos conhecidos ajudam a dar um charme à trama. A trilha sonora reúne bons momentos, embora não tenha sido criada especificamente para a ocasião. Cenários aludem mais ao Rio de Janeiro que Brasília, mas isso pouco importa no enredo. Fica até mais bonito.

Particularmente, tenho gostado da história na medida em que embaça as fronteiras entre as vidas privada e pública do presidente Paulo Ventura, e quando mostra aliados e opositores de forma dúbia. O presidente se mostra aturdido pela surpresa de ter que assumir o cargo mais alto do país. É pressionado de todos os lados, até mesmo de quem ele menos poderia esperar, a mãe. Os diálogos oscilam entre boas trocas de farpas e discursos mais didáticos, que quase convidam ao sono. Mas a atração vale a atenção.

A história se apoia em alguns pontos frágeis, muito próximos da ingenuidade:

. Ventura se torna presidente porque o primeiro e o segundo homens da nação desparecem num acidente de helicóptero! Ora, em nenhum lugar do mundo, presidente e vice viajam juntos! É uma norma básica de segurança e de manutenção do poder!

. Um senador ou outro têm acesso fácil e privilegiado ao gabinete do homem, e chegam de forma intempestiva. Ora, não há secretária, agenda presidencial, protocolos? Em toda parte, esse acesso é restrito, dificultado pela burocracia, por filtros!

. A filha de Ventura se mete em enrascadas e grita, como que anunciando, ser filha do homem. Ora, em tempos de redes sociais, paparazzi e meios de comunicação de massa, ninguém sabia disso? Só se estivesse no Canadá…

O fato é que “O brado retumbante” é um bom exercício narrativo, apesar da visão política maniqueísta e juvenil. É uma boa história mesmo com sua estatura rasa, sem muitas camadas e temas paralelos. Sua nuvem de tags poderia trazer “ética”, “política”, “corrupção”, “utopia”, “moralismo”, “justiça”, “novo país”, “público versus privado”, “interesses privados”, “razões de estado”… Tornar mais intrincado o jogo entre essas palavras é que seria muito bem vindo.

Seus autores e realizadores só não podem querer fazer da diversão um capítulo do Telecurso 2000 ou mesmo uma transmissão da TV Senado. Teledramaturgia não precisa de didatismo nem discursos insossos. Requer ritmo, bons diálogos, trama envolvente, personagens críveis e finais não previsíveis. Aliens, guerras mundiais e finais do mundo podem ficar com os americanos…

no elevador, com a cientista…

O acaso (ou não!) fez com que eu pegasse uma carona de elevador com uma moça na descida do quinto andar. Eu acabara de deixar a sede da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Santa Catarina (Fapesc). Assim que fecharam as portas, ela emendou, seriíssima: “Sempre me esqueço que a Fapesc fica nesse andar. Geralmente, subo até o sexto e desço. São os macróbios atacando os neurônios!”. Disfarcei a ignorância crônica e soltei no mesmo tom: “A-ham!”

é, não tem jeito…

Fiquei semanas sem passar por aqui, cansado, desmotivado, aparentemente sem ter o que dizer. Acessei agora as estatísticas do blog na indisfarçável esperança que ele estivesse zerado, mas não. Ainda há quem por aqui passe. Me mostra que o blog resiste, apesar de mim. Bem, se não tem jeito, vamos adiante. Um passo à frente.