Consta que Drummond era um bundófilo. Vinicius de Morais também, e Ziraldo até lançou revista enaltecendo as abundâncias metafórico-metafísicas nacionais. Embora bunda ainda não tenha sido tombada pelos órgãos patrimoniais, ela é um monumento que se reverencia nas praças, nos museus, nas ruas, no ônibus, na praia, em casa, pela TV, em qualquer lugar.

A bunda mobiliza todos os sentidos humanos, ninguém fica de fora.

E a apropriação da palavra em diversos outros sentidos, mostram não apenas a incoerência da dialética bundal mas também a amplitude do que ela significa para todos nós. Nascer de bunda pra lua é ser bafejado pela sorte. Bundão é um sujeito pusilânime. Povinho-bunda é uma nação desarticulada. Bunda-molice é atestado de incompetência, inaptidão. Bunda-suja é um cidadão reles. E mesmo achincalhando com a bunda na boca, cultivamo-la na sua singeleza curvilínea.

Elas são paradoxais. São únicas, mas são plurais. Afinal, na matemática-dos-quadris, uma bunda tem duas bandas. Tal como o cérebro tem dois lobos. Neste país, há quem pense com a bunda. E por que não?

Já vimos a banda passar, mas continuamos a ver a bunda passar. Ela nos obriga a olhar de revés, encarar o verso das pessoas, o que há por trás delas. Sejam as nádegas, o bumbum ou qualquer sinônimo que a anatomia permita.

Drummond foi certeiro ao escrever:

A bunda, que engraçada

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda
redunda.

Vinicius cantou a bunda de diversas formas. Em verso e canção.

Ziraldo dizia que sua revista Bundas “era a cara do Brasil”.

Certa noite, num lugar público qualquer, João Ubaldo Ribeiro foi interpelado por uma senhora indignada com seu mais recente livro A Casa dos Budas Ditosos (eu disse budas!). “O senhor é um devasso mesmo! Escreveu um monte de pornografias nesse livro. Parece que sabe muito do que escreveu. Por acaso o senhor já deu a bunda?”
Mais rápido que de costume, o escritor respondeu: “Não, minha senhora. Mas já comi muitas”

O fato é que só há pouco as mulheres também vêm se manifestando sobre ela, a bunda. Mas o movimento ainda é muito tímido, localizado, como as celulites. As mulheres têm comentado a preferência no que tange jogadores de futebol, atores e celebridades em geral. Não se trata, portanto, de machismo o culto à coisa em si. Mas de prazer estético, o que às vezes descamba também para o erótico.

Há doutores no assunto. Bundablog é um site carioca que presta serviço público, reunindo bundófilos, bundólogos, bundófagos e bundólatras. Perceba a importância dessa iniciativa e o contingente populacional a que serve. Há milhões de bundófilos no Brasil. Alguns são bundófagos, outros sofrem de bundolatria. Mas bundólogos há poucos, por isso é importante recorrer a especialistas em momentos especiais.

Se você se encaixa em algum dos perfis acima, vá direto à coisa.
Se achou esse post bunda-demais, levanta a sua da cadeira e vá exercitar os glúteos.

2 comentários em “aBUNDAncias

  1. E já que o negócio é bunda, não podemos nos esquecer do concurso mundial “Show me your Sloogy” – que na verdade é “Mostre-me sua bunda”. A vencedora da votação da etapa brasileira vai ganhar um ensaio com o JR Duran. Por incrível que pareça, as brasileiras não estão entre as melhores do mundo… O site é: http://smys.sloggi.com/

    _______________
    Joel Minusculi

  2. Joel, taí uma questão de prioridade nacional. É necessário que governo, iniciativa privada, terceiro setor e toda a sociedade civil organizada se articule para demonstrar a riqueza que esbanjamos nessa área.
    Não é uma questão superficial, mas de fundo.
    Precisamos defender melhor as nossas retaguardas, mostrando mais a cara do Brasil. Isto é, a bunda…

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