Wikipedia agitou o debate sobre a blogosfera brasileira

Ouvi o arquivo em áudio do debate promovido pelo Digestivo Cultural sobre blogs no Brasil. Com mediação de Julio Daio Borges, a discussão durou quase duas horas e teve na mesa Alexandre Inagaki, Marcelo Tas e Pedro Doria. A conversa, que aconteceu em São Paulo, foi bastante animada, com cara de papo de boteco, bem divertida.

 

Foi interessante ouvir o que pensam alguns dos blogueiros mais antigos e bem sucedidos no país. Inagaki, por exemplo, queixou-se da ainda incipiente profissionalização da blogosfera nacional. Para ele, ainda há muito copia-e-cola e pouca apuração, pouca disciplina de postagem e controle de qualidade. Doria é mais otimista e pensa que o que temos hoje ainda não é a blogosfera brasileira que podemos ter, mas que isso é uma questão de tempo. Tas se diz cada vez mais interessado nas produções em vídeo na internet (e particularmente em blogs), um oásis de criatividade e ousadia que dá um banho na publicidade mainstream.

 

Mas o debate pegou fogo mesmo quando Pedro Doria deu de ombros para a Wikipedia, argumentando que ela não era confiável. Tas, sempre bem humorado, reagiu: “Que isso?! Pedro, fala baixo! Pessoal, pára de gravar. Corta! Corta aí”. A gargalhada foi geral. Polarização. Pedro Doria reforçou sua descofiança com a Wikipedia, dizendo que fraudar verbetes é muito fácil e rápido. Tas rebateu, citando pesquisa recente que compara a enciclopédia virtual à tradicional Britânica e revela margem de erro idêntica entre elas.

De novo a questão de credibilidade, da confiabilidade, assunto que sempre retomo. No Mestrado em Educação da Univali, oriento uma dissertação que investiga essa questão, centrada basicamente no uso da Wikipedia em ambiente escolar e por alunos do ensino superior. Como a pesquisa está em andamento, não posso adiantar seus resultados. No entanto, acho que esse tema já fertiliza os corredores das escolas e as salas de professores. Os mestres discutem se aceitam ou não trabalhos que tenham como referência a Wikipedia. Alunos – numa assustadora maioria – fazem o copy-paste dos verbetes da enciclopédia virtual (como antes faziam à mão das enciclopédias de papel nas bibliotecas).

O que você pensa disso? A Wikipedia é confiável? Você já a usou como referência em trabalhos escolares? Seus professores aceitaram? Você, professor, recomenda a Wikipedia a seus alunos?

12 comentários em “Wikipedia agitou o debate sobre a blogosfera brasileira

  1. eu uso a wikipedia pra verbetes que chamo de “efervescentes”..rs coisas que nao consigo achar em livros ou artigos acadêmicos, mesmo assim, sempre confiro as fontes.. ou então eu uso ela como starter e depois vou buscando outras coisas. o problema é confiar cegamente ou querer usar wikipedia pra conceitos mais sedimentados… nao sei se eu me expliquei muito bem, mas dando um exemplo prático, por ex space-disco q é um gênero de música eletrônica, praticamente nao vou achar isso num livro, mas posso achar sites que falam o q é e complementam o assunto.

  2. mas pera aih: “pouca disciplina de postagem e controle de qualidade”? mas pra quê? essa eh a pergunta principal. nem todo mundo que tem um blog quer ser jornalista. nem todo mundo que tem um flog/flicker quer ser fotografo. blog tambem eh ferramenta de criação de rede-social, nao podemos esquecer disso.

    nesse quesito, o unico problema que eu vejo sao as empresas que hosteiam blogs nao droparem o registro depois de muito tempo sem posts – acho que 1 mes seria um tempo ideal. no IRC, ha muito tempo atras, o sistema era esse. depois de X dias sem usar o nick, o sistema dropava o registro. facilitava pra saber quem eh blogueiro (nao jornalista) de verdade e quem soh entrou no hype, alem de liberar MUITOS nomes legais que tao presos por users que nao blogam 🙂

  3. Falcão, vc tem toda a razão. Não concordo com o Inagaki e nem vou engrossar o coro de que há muito lixo na web…

    Adri, pelo que vi, vc é das curiosas, das antenadas, das investigativas…

    Marcia, pelo que vi, vc é das brabas… ui!

  4. Dá para usar a Wikipedia como ponto de partida… Mas como fonte, pode ser perigoso. Só em último caso (como nas situações em que não se tem a informação em outros lugares).

  5. A Wikipedia é tão confiável quanto qualquer enciclopédia, professor, pai, mãe, orientador acadêmico, guru, doutor, especialista… É preciso consultar com espírito crítico e comparar com outras fontes. Enfim, fazer o dever de casa básico que todo estudante devia aprender na primeira série. Abs D/

  6. Legal teu ponto de vista, Rogério. Eu já achei um barato (e postei sobre isso) a questão política tupiniquim X blogs.

    Mas em relação à Wikipedia, a intenção dela é válida, não podemos jogar por água abaixo. Agora, o princípio de consulta nela deve valer para qualquer mídia. Inclusive livros. É a recomendação de Descartes, o princípio da dúvida.

    É engraçado como a gente acredita mais em papel do que bytes. Por que isso? Numa das aulas da pós em Fotografia mesmo, com Thales Trigo, uma das autoridades em digital no país, conversa vai e conversa vem ele falou de erros grosseiros em obras de referências em áreas técnicas, como física, ótica, etc. (ele é formado em Física com mestrado em Astronomia). E tem gente que usa a mesma bibliografia, sem saber dos erros, até hoje.

    Quanto aos professores, se aceitavam cópia à mão da Barsa, porque não aceitar CTRL-C/CTRL-V da Wikipedia? Tem trabalhos, inclusive de algumas disciplinas da graduação, que não merecem senão uma cópia dessas, pela má qualidade da aula, pela má avaliação que se sabe que o trabalho irá ter, pela inutilidade da proposta. Que dizer, então, do ensino fundamental e médio, onde não se aprende um pingo de legislação, ética, Constituição, Democracia, mas onde até hoje se repetem inverdades históricas e se tenta destrinchar regras gramaticais e leis matemáticas que às vezes nem um adulto interessado compreende facilmente? Enfim… só esse viés dá o que debater…

    O que a gente vive (e eu prefiro assim, na verdade) é uma relativização, uma “descanonização”, pra usar um termo que não existe, de muitas coisas. Da família, do trabalho, do conhecimento também. Não é a Web que provocou isso, ela só entra na parada e colabora.

    De qualquer maneira, pior sem Wikipedia. Iríamos reclamar se ela não existisse. Pior se ela fosse, também, propriedade de uma empresa, como muitas obras intelectuais (que a gente quer ter e não consegue por falta de grana) são propriedades de certas empresas que visam lucros – imagine ter de ler um resumo e pagar para ler o resto?

    Enfim… que tem lixo na Web, tem. E o próprio conceito de lixo é muito relativo, porque de repente ele pode ser reciclado e virar algo novo, diferente, útil… Nos jornais também tem lixo. Nos releases de agência, nossa senhora! Nas bibliotecas, tem parteleiras inteiras com lixo (de novo, dentro do conceito relativo, de que o que pode ser lixo pra mim, pode não ser para outra pessoa). Cabe saber filtrar isso, e ter mecanismos para nos ajudar na tarefa. Esse é o grande lance do mundo da informação… nem é “estar informado” (pra gerundizar um pouco e ficar na onda), é saber selecionar o que se precisa – com a consciência de que, para viver, às vezes meia dúzia de regras basta.

    Desculpa a quilometragem. Abraços e inté a próxima

  7. Outra coisa: muita das opiniões que se dá hoje, nesses debates, parte muito de experiência pessoal e não de casos possíveis de se generalizar, porque não há nenhuma pesquisa sobre isso, só elocubração.

    É mais ou menos como o cara fazer uma compra pelo Submarino. Se o produto satisfaz, chega no prazo e não dá nenhum problema, o Submarino é a melhor loja pra se comprar. Se o produto da problema, atrasa, etc., é a pior loja que existe.

    Isso é opinião baseada em experiência individual. Pode ser que o caso de sucesso seja um entre mil ou vice-versa. Já que falei de relativização, é bom relativizar isso e não generalizar também (nem relativizar as “verdades”).

    A gente comenta, comenta… isso também acaba virando lixo nessa sopa e informações. Hehehe… Abraços

  8. Adri, vc virou casaca! Foi pro time das brabinhas, junto com a Marcia.

    Gabriela, a vida é perigosa.

    Dauro, vc é um sábio zen.

    Xará Kreidlow, depois de ler os seus comentários elásticos eu fico pensando: esse cara tem que ter um blog! hahahahaha

  9. eu ia comentar… mas os Rogérios já falaram tudo… hehehe

    Vou apenas dar meu exemplo pessoal então… Eu uso a Wikipedia apenas para referências rápidas e presto muita atenção nos textos, pois é mais ou menos como nos blogs: Quando eles não são muito confiáveis, geralmente também são mal escritos, desleixados e tal.

    Ela serve como ponto de partida também, já que geralmente fornece os links relacionados sobre os assuntos que você está procurando. Mas eu sempre busco um outro site além da Wikipédia para confirmar minhas informações.

    Agora, quanto aos alunos poderem usar isso como instrumento de pesquisa e quanto a questão do copia e cola, acho que a partir do ensino médio os professores já têm que cobrar referências nos trabalhos escolares. O professor tem que saber de onde o aluno tirou as informações. Porque antes, mesmo quando nós copiávamos da Barsa, tínhamos que ler para isso… agora é só selecionar e apertar os botões, nem precisa saber o que está escrito. Na internet os trabalhos estão prontos, nos livros, por mais que copiássemos, tínhamos que escolher as partes… era diferente.

    []s

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