fernando, dulce e o infante

Fernando Pessoa, transbordante de uma nostalgia nunca vivida – porque não havia pisado o século 16 -, escreveu esse atroz poema. Dulce Pontes, transbordante de emoção, musicou os versos. A apresentação a seguir se deu em Istambul, que já foi Bizâncio e que já foi Constantinopla.
Senta e ouve. Pode chorar, se quiser.

7 dias com a mídia

Screenshot 2014-03-02 10.16.54Em Portugal, o Grupo de Trabalho Informal sobre Literacia para os Media (GILM) anuncia a iniciativa 7 Dias com os Media. O GILM reúne representantes do governo português, da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), Universidade do Minho, Unesco, RTP, entre outros parceiros, e sua função é contribuir para a difusão de ações de educação para a mídia.

7 Dias com os Media está programado para a semana de 3 a 9 de maio, e você pode conferir aqui o site do evento. Aliás, visite também o Portal da Literácia Mediática.

nsa para desavisados

Já que estamos sendo monitorados pela NSA, não custa nada saber um pouco mais sobre ela:

1. Claro que você já ouviu falar de CIA e FBI. A NSA pode ser uma novidade para muitos de nós, mas pasme: os EUA têm dezesseis (isso mesmo!), dezesseis agências de inteligência governamentais.

2. A NSA não é nova. Ela surgiu em 1952, o que significa dizer que a agência existe há mais de 60 anos…

3. O objetivo inicial da NSA era investigar fora dos EUA, filtrando informações de outros países que colocassem em risco a segurança norte-americana. As revelações de Edward Snowden mostraram que a agência também atuava internamente, bisbilhotando cidadãos estadunidenses.

4. Aliás, estima-se que 80% das comunicações que passem pelos EUA sejam filtradas pela NSA por meio de seus modernos recursos.

5. A NSA não trabalha sozinha. Ela conta com a colaboração – em diferentes graus de envolvimento e dedicação – de empresas de tecnologia e telecomunicações. Quem? Ora, Facebook, Google, Microsoft, Apple, Vodafone, Verizon, entre outras…

6. O Prism é apenas um dos softwares usados pela NSA para espionar pessoas, governos e empresas, Na verdade, ela dispõe de diversos sistemas para colher, filtrar, agregar e compreender dados.

7. A agência também tem altos investimentos e esforços para a quebra de criptografia, para o uso de alçapões em softwares, para a exploração de falhas deliberadas em máquinas e sistemas para extração de dados, e para a coleta de dados diretamente em cabos submarinos…

8. Na maioria das vezes, não importa muito o conteúdo das mensagens interceptadas, mas sim os dados de geolocalização. Com isso, a NSA consegue “ver” onde você está, por onde passa, com quem estabelece relações, etc…

9. Os dados não são tratados manualmente; há sistemas que comportam grandes quantidades de informação, que são sistematizados e convertidos em unidades compreensíveis.

10. Se você pensa que a NSA fica num sótão, num porão escondido, secreta, esqueça! Ela fica em imensos prédios, cercados por gigantescos estacionamentos. Confira aqui.

facebook, whatsapp e você com isso…

A semana passou e cansei de ver jornalistas na TV anunciarem com um indisfarçável sorriso a compra do WhatsApp pelo Facebook por US$ 16 bilhões. Fiquei intrigado: por que tanta alegria? Quem ganha com um negócio desses?

Os mais entusiastas dirão: os usuários porque agora o WhatsApp vai bombar. Besteira. Nada garante isso.

Pergunto de novo: quem ganha com isso? Só o Facebook. Tenta conter a já alardeada e preocupante sangria de usuários, dá um passo na direção dos mais jovens que uatsapam e concentra mais o mercado da internet.

A concentração de mercado só é uma boa jogada para os peixes grandes que devoram os pequenos. Só.

a mídia e o cuidado como obrigação

David Putnam teve uma longa carreira como produtor de filmes premiados. Depois, cansou, largou tudo e passou a atuar com educação e ativismo social. Chegou a ser o homem forte da Unicef no Reino Unido. No video abaixo – uma intervenção no mundialmente aclamado TED – , ele traz questões bastantes interessantes sobre a mídia. Afinal, ela não deveria ter a obrigação de ser mais cuidadosa?

Para ver e pensar.

cadê a privacidade que estava aqui?

Capa_PoliTICS_16_100x133Se você é daqueles que andam bem cabreiros quando navegam na internet, vale a pena estar muito informado sobre as principais discussões sobre privacidade e segurança de dados. Existe muita coisa por aí que merece ser conhecida e lida, e uma lista de leituras obrigatórias seria sempre muito limitada. Por isso, nem me arrisco a fazer, até porque por mais que estude o assunto, ainda tenho muito a aprender sobre a tal coisa…

De qualquer forma, me atrevo a indicar a leitura do mais recente número da revista poliTICs, editada pelo Nupef, que circula gratuitamente e pode ser lida tanto em papel quanto em PDF.  O número em questão traz três artigos muito importantes. O professor Pedro Antonio Dourado de Rezende, de Ciências da Computação da UnB, aponta caminhos para se entender melhor as denúncias de espionagem e vigilância global, hipertrofiadas com as ações de Edward Snowden. De quebra, faz um “afago” ao ministro das Comunicações, Paulo Bernardo.

O cultuado ativista Cory Doctorow chacoalha a cadeira para falar de marcos regulatórios para proteção de dados na União Europeia. Você não mora por lá? Não importa. Se algo de grave acontecer do outro lado do Atlântico, o que garante que as ondas não cheguem aqui?

E se você pensa que “privacidade” é apenas manterem seus dados guardadinhos quando você acessa algum site, abra a cabeça com o artigo de Koichi Kameda e Magaly Pazello, pesquisadores do Nupef, que abordam a segurança de dados sobre a saúde das pessoas num ambiente hiperconectado como o nosso.

E já que estamos falando nisso, por que não conferir Os arquivos de Snowden, o livro do jornalista Luke Harding, do The Guardian, sobre o delator dos megaesquemas de espionagem dos EUA? Lendo a trajetória do jovem analista de segurança terceirizado da NSA, dá pra ver como resta quase nada do que chamávamos de segurança na navegação e privacidade…

dingo!

Miles Davis, Michel Legrand e uma ilusão fílmica…

o beijo gay e o mundo de amanhã

Futebol e telenovela são coisas seríssimas no Brasil, sempre digo isso. E é claro que acompanhamos aqui em casa o capítulo final de “Amor à vida”. A família grudada no sofá esperava com ansiedade os desfechos da trama, e na cena com os personagens Félix e Niko, prendemos a respiração. Eles trocaram declarações de amor, os segundos passaram, a tensão aumentou e meu filho, de nove anos, soltou: “Beija logo, cara!”.

Félix e Niko se beijaram, as redes sociais explodiram em festa e ódio, e assim que subiram os créditos, fui com o filho para o quintal. Ficamos ali em silêncio, olhando nossos gatos, e eu me reconheci muitíssimo feliz com a atitude do filho. Sem preconceito, ele torceu pela felicidade dos personagens, inclusive de um que era o vilão da história até então. Gostei muitíssimo de ver a ousadia da maior empresa de comunicação do país em exibir uma cena que pode afrontar a tanta gente. Mas gostei muito mais de ver uma criança não se importar com o pre-julgamento dos outros, acatar a vontade de amar de pessoas diferentes, enfim…

A frase desabafada aqui na sala de casa me fez sonhar com um mundo melhor amanhã. Mais tolerante, mais aberto, menos preconceituoso, mais afeto ao amor. A todo tipo de amor. Foi um final feliz de novela…

o menino e o mundo: comovente

1379958_524963000924630_537371154_n_1_O que é que fica quando o pai, simplesmente, se vai? Não fica nada. Porque o menino vai atrás.

É assim – simples e direto – que a gente se depara com “O menino e o mundo”, belíssima animação de Alê Abreu, em cartaz nos cinemas a partir deste mês de janeiro. O filme costura com poesia e crueza o descortinar do mundo e da realidade pelos olhos de uma criança. O abandono, a ignorância, a pobreza, a brutalidade dos fatos, está tudo lá. As máquinas, a velocidade, a ferocidade, os ruídos apavorantes, os seres esquisitos, a fome, as cores e as músicas também. Emicida, Barbatuques e Naná Vasconcelos. Traços rápidos, primitivismo, política e crítica social. Lirismo, encantamento, sorrisos e algumas lágrimas.

Desnecessários os diálogos e as frases que possamos entender. Tem muita coisa ali. “Gente, carro, vento, arma, roupa, poste, aos olhos de uma criança. Quente, barro, tempo, carma, roupa, nóis, aos olhos de uma criança…”

Vá ao cinema se emocionar. Leve uma criança para segurar a sua mão durante a sessão…

obama mente!

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, mentiu descaradamente ontem para congressistas de seu país, para líderes mundiais e para o resto do planeta. Quis tranquilizar a humanidade, colocando panos quentes sobre as espionagens que os EUA estão operando em escala global, sabe-se lá desde quando.

Disse que Angela Merkel, que foi bisbilhotada por agências norte-americanas, não precisa mais se preocupar. Ignorou Dilma Rousseff, que passou um pito público no homem em plena Assembleia Geral da ONU, queixando-se de violação de direitos individuais e de atropelo da soberania das nações.

Obama mentiu porque as ações de monitoramento de emails, redes sociais e celulares não vão diminuir. Não vão parar. Não vão aguardar permissões judiciais. Não vão se restringir. Não vão. Por que iriam, afinal? Por que os Estados Unidos se arrependeram? Por que se convenceram de que Edward Snowden estava mesmo certo? Por que fizeram uma  autocrítica e passaram a ver o mundo pela ótica de Julian Assange e Chelsea Manning?

Nada disso. Aliás, ao listar os quatro nomes em negrito juntos neste post, emiti um alerta em algum lugar. Não será exagero imaginar que uma tropa de agentes já interceptou todos os meus emails nos últimos dois meses, já rastreou minhas compras online, meus hábitos de consumo, minha árvore genealógica inteira, sabe meu salário, localização de parentes e demais dados que NÃO AUTORIZEI a acessarem.

Sim, amigos. A coisa está assim mesmo. Quanto mais busco entender o assunto, mais me convenço de que a matéria “privacidade” é um animal extinto. E que monitoramento, espionagem, bisbilhotagem, roubo de dados pessoais, desrespeito à privacidade são feitos em altíssima escala, sem qualquer permissão e sem nenhuma justificativa. O que permite que o Estado verifique meus emails com listas de palavras? O que permite que um governo de outro país faça isso? Para evitar terrorismo? MENTIRA. Para “manter nossos cidadãos seguros”? MENTIRA. Para “avançarmos em nossa política externa”? MENTIRA. Para assegurar a liberdade e a vida? Preciso repetir?

Obama mentiu. Sete meses após as primeiras denúncias de que NSA e outras agências fazem o serviço sujo de xeretar governos, empresas, países e sociedades inteiras, o presidente dos Estados Unidos vem a público e se apoia numa pilha de inverdades. Mal sentou na cadeira do salão oval e a academia sueca deu a ele o Prêmio Nobel da Paz! Bajulação pós-colonial… Prêmio Nobel da Paz… irônico é pensar que Obama é justamente o homem que está sepultando a paz de bilhões de usuários da internet e de celulares…

este blog morreu. mentira!

O blogueiro Jason Kottke causou alguns tremores de terra com seu post no Nieman Journalism Lab nas vésperas do natal passado. No texto, ele dizia que os blogs como considerávamos desde 1997 estão mortos. E o blog como plataforma morreu justamente porque foi apropriada e absorvida por veículos e organizações que não produziam blogs, mas qualquer coisa que chamavam de blogs. E o blog como plataforma pessoal morreu porque as redes sociais têm servido muito mais a esse propósito, de maneira mais fácil, rápido e com mais recursos.

Kottke celebra: o blog morreu, longa vida ao blog.

Em janeiro de 2010, arrisquei um palpite numa mesa da Campus Party. Estava ao lado de André Lemos, Sérgio Amadeu, Sandra Montardo e Henrique Antoun. Eu disse que não sabia muito do futuro dos blogs, mas achava que eles eram uma mídia de transição, de passagem. Não sei se acertei, nem me interessa na verdade. O fato é que continuei blogando e vou permanecer nessa situação.

Não se aborreça, por favor. Você precisa relevar: sou quase um ancião, não aguentei os trancos das redes sociais e preciso escoar parte de minha tagarelice.

Este blog não era alimentado há mais de 100 dias, desde 30 de setembro de 2013. Não morreu de inanição. Nem eu. Por algum tempo não senti qualquer falta. Na verdade, não tenho lá uma ânsia para publicar conteúdos, mas voltarei sempre que der. Não farei promessas e você – se ainda estiver aí -, não mantenha grandes esperanças. Não sou como o notável e influente Dan Gillmor, que manifestou publicamente sua resolução para 2014 – lutar para impedir que os Estados Unidos se convertam num estado de vigilância plena de todos os internautas. Meus objetivos são bem menos ambiciosos.

Este blog vai continuar. Seja esta uma boa ou má notícia…

garcia márquez manda ver…

Gabo apareceu publicamente e foi efusivo, conforme relata El Universal

gabo

 

ben afleck? no, thanks

Dark Knight Clint Eastwood as Batman by Lee-HowardAssim, ficaria bem melhor… com roteiros de Nolan, direção e música do próprio Clint. Superman pode ser qualquer um mas tem que levar os sopapos originalmente pensados por Frank Miller…

feche os olhos e ouça

É segunda-feira. Então, siga Astor Piazzolla e Gerry Mulligan…

agosto começa bem…

… com Nicholas Payton: Into the blue.

urano selecionado para o isnard

A Fundação Franklin Cascaes anunciou os espetáculos selecionados para a 20ª edição do Festival Isnard Azevedo, que acontece em Florianópolis de 5 a 12 de outubro. A comissão analisou 199 propostas e destacou 18 espetáculos, entre eles o nosso Urano Quer Mudar. Ficamos muito felizes! Vejam a lista completa:

Urano quer Mudar – Círculo Artístico Teodora – Florianópolis/SC

As Criadas – Esfera Produções Artísticas – Florianópolis/SC

A Garota da Capa – Andréa Padilha – Florianópolis/SC

Nijinski, para dentro do coração de deus – Florianópolis/SC

5 tempos para a morte – Usina do Trabalho do Ator – Porto Alegre/RS

Amor por Anexins – Grupo de Teatro Guará – Goiânia/GO

No Pirex – Grupo de Teatro Armatrux – Belo Horizonte/MG

Outro Lado – Quatroloscinco Teatro do Comum – Belo Horizonte/MG

Deus da Fortuna – Coletivo de Teatro Alfenin – João Pessoa/PB

Por que a gente não é assim ou porque a gente não é assado – Grupo Bagaceira de Teatro – Fortaleza/CE

Cartas do Paraíso – Boa Companhia – Campinas/SP

Quixote Cabloco – Cia da Tribo – São Paulo/SP

Cocô de Passarinho – Cia Noz de Teatro, Dança e Animação – São Paulo/SP

Expresso Caracol – Cia dos Pés – São José do Rio Preto/SP

A Farsa do Advogado Pathelin – Grupo Rosa dos Ventos – Presidente Prudente/SP

O Concerto da Lona Preta – Trupe Lona Preto – São Paulo/SP

A cozinheira, o bebê e a dona do restaurante – Companhia do Gesto – Rio de Janeiro/RJ

Holoclownsto – Troup Pas D’argent – Rio de Janeiro/RJ

feliz dia do rock

Heavy Metal, com Miles Davis

Tutu, de Miles Davis

urano na casa das máquinas

Screenshot 2013-05-11 01.37.02Hoje, amanhã e domingo – dias 12, 13 e 14  de julho – tem apresentações de Urano Quer Mudar no teatro da Casa das Máquinas na praça da Lagoa da Conceição. O espetáculo começa sempre às 20 horas, com entradas a R$ 30,00 e R$ 15,00 para idosos, estudantes e classe artística.

Urano Quer Mudar é uma produção do Círculo Artístico Teodora, e tem no elenco os emocionantes Margarida Baird e José Ronaldo Faleiro, sob direção de Brigida Miranda. As canções originais são de Ana Laux. O texto é meu, reescrito a partir da versão original de 2003. Na história, um casal de atores prepara a mudança de casa e, no meio dos pacotes e caixotes, encontra um texto que nunca chegaram a encenar. Passam a ler, e aí, ficção, memória e reinvenção de si mesmos tomam conta do palco.

Vá conhecer Urano. Vá ver o que Fenícia tem a dizer.

“the newsroom” vem aí

A segunda temporada do seriado jornalístico mais interessante dos últimos anos está pra começar no Brasil este mês. Para ter um gostinho do que vem por aí…

junho vai deixar saudades

Nesta época de tantos superlativos e adjetivos totalizantes é muito fácil cair na tentação de cavar “dias históricos”. Mesmo assim, não receio em errar e me arrepender de apostar que aqui no Brasil vivemos um junho pra não mais esquecer.

Junho foi barulhento, agitado. As muitas passeatas trouxeram à rua milhões de pessoas em todas as partes do país. Nas metrópoles e nas cidades pequenas, do Acre ao Rio Grande do Sul, e mais de uma vez em muitos locais. As palavras de ordem eram muitas, e elas chacoalharam as pilastras dos centros de poder. Botaram medo e trouxeram apreensão para quem tem mandato político. Subiram no teto do Congresso Nacional, fecharam as pontes em Florianópolis, tentaram invadir o Itamarati e a Alerj…

Junho fez tarifas de transporte cair em várias cidades; fez os governos cortarem impostos; e fez com que parlamentares trabalhassem duro e rápido em pleno dia de jogo da seleção. Junho forçou a derrubada da PEC 37 e a aprovação da lei que tipifica corrupção como crime hediondo.

Junho viu ainda jogos na Copa das Confederações cercados de vaias, de batalhas campais nos entornos dos estádios e repulsa generalizada a políticos, cartolas, escroques e outros aproveitadores. O mês viu uma seleção brasileira vigorosa que atropelou o time dos sonhos do momento, campeão mundial mais recente. Junho viu também que é possível por aqui protestar, reclamar e se expressar, torcer, priorizar e discernir.

O mês que finda a primeira metade do ano se foi. E tudo o que aconteceu não foi pouco para 30 dias. E como julho começa em plena segunda-feira, é melhor se preparar porque o segundo tempo de 2013 vai começar.

quando baquetas viram batuta

Não são muitos os grupos de jazz que têm como bandleader um baterista. Talvez o caso mais memorável seja o de Art Blakey e seus Jazz Messengers. Mas temos um caso muito especial ultimamente. É o Jonathan Blake Quintet, que esteve recentemente no Brasil para o BMW Jazz Festival. Blake, com o porte de um urso, move suas baquetas com suavidade, autoridade e leveza. Parece um maestro e sua batuta. Parece acariciar as peles estendidas dos tambores, caixas, bumbos e chimbaus.

sim, há esperanza…

O mundo é maravilhoso. Com ela: Esperanza Spalding. Abraçada ao seu contrabaixo acústico e sussurrando ao microfone…

o som das ruas em floripa

Galera, galera, vamo juntá mais! Isso, isso. Começa! Começa! Começa! Tá chovendo, vem pra debaixo da sombrinha. Começa! Começa! Começa! Pra onde que o movimento vai? Vai pra Assembleia! Vai não! Vai pra ponte! Vamo fechá as ponte! ÉEEEEEEEEEEE!!! Junta, pessoal! Assim, fica mais quentinho! O povo unido, jamais será vencido! O povo unido, jamais será vencido! Vamos tomar a ponte! Pra ponte, gente, pra ponte! Eba, eu moro no continente! Um, dois, três! Quatro, cinco, mil! Ou para a roubalheira ou paramos o Brasil! Segue, gente! Vamos fechar a ponte! Xi, o vento quebrou o guarda-chuva! Vai assim mesmo! É o banho da democracia! Ô, o gigante acordou! O gigante acordoô! Olha a capa, olha a capa! Tem guarda-chuva também!!! Meu, quem tá fumando? Maior marofa! Ei, RBS! Vai tomá no cu, filha-da-puta! Sem partido! Sem partido! Sem partido! Que maluco é aquele com a bandeira da UJS? Ei, Fifa! Paga minha tarifa! Ei, Fifa! Paga minha tarifa! Ouviram do Ipiranga à margens plácidas… Brasil, vamo acordar! Um professor vale mais do que o Neymar! Sem partido! Sem partido! Sem partido! Quem não pula, quer tarifa! Quem não pula, quer tarifa! Quem não pula, quer tarifa! Quem não pula, quer tarifa! Ei, mas que vegonha! Essa tarifa tá mais cara que a maconha! Meu, não aguento mais comer lentilha! Quero é feijão! Oi, pode tirar uma foto da nossa galera aqui? Isso! Galera, junta mais pra sair a Hercílio Luz atrás!!! AÊEEEEEEEEE!!! O povo unido, jamais será vencido! O povo unido, jamais será vencido! Fechamos as duas! Fechamos as duas!!! Que helicóptero é aquele paradão? Da RBS! Ah, então, aquele do canhão de luz é de quem? Dos milico! O gigante acordou! Anda, galera, que o gigante tá com fome! Caminhando e cantando, seguindo a canção… Sentiu a ponte balançar??? Senti, mas achei que era a minha labirintite… Oça, oça, oça! Vamo tudo pra Palhoça! Sem partido! Sem partido! Sem partido! Quem não pula, quer tarifa! Quem não pula, quer tarifa! Depois da ponte, vamo pra onde? Ah, o movimento, eu não sei, eu quero é comer um xis… Meu, as ponte tão lotada! Tira uma foto pro Face! Olha só, disseram que tá tendo protesto em Brasília e no Rio tem mais de 200 mil pessoas!!! EEEEEEEEEE!!!! Um, dois, três! Quatro, cinco, mil! Ou para a roubalheira, ou paramos o Brasil! Galera, fecharam a ponte ali, não dá pra passar! Agora, tem que voltar! Volta! Passinho pra frente, faz favor! Passinho… Vamos voltar!!! Brasil, vamos acordar! O professor vale mais que o Neymar! Vem pra rua! Vem pra rua! Vem pra rua! Oi, mãe, tá tudo bem aqui! Encontrei com um monte de gente do colégio! Mãe, sai da frente da novela e vem pra rua! Pô! A passeata tá melhor que o CarnaFacul! É, tem mais muié! Adoro as indignadas! Galera, travô, travô! Teve um cara que caiu ali na frente! Quem? Caiu da ponte na grama! Já tem gente atendendo? Tem sim… Credo! Ó, sai do parapeito aí! Sai, velho! Vamo pessoal! O povo unido, jamais será vencido! Vem pra rua! Vem pra rua! Vem pra rua! Travô de novo. Tá devagar sair da ponte! Tem muita polícia ali na frente? Nada, tão só olhando!!! Vamo, galera! Anda! Quem não anda, quer tarifa! Quem não anda, quer tarifa! Quem não anda, quer tarifa!

os protestos nos jornais

Dê uma olhada na vitrine e guarde essas primeiras páginas…

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o que fica de um mestre?

Escrevo este post sob a frieza de uma notícia triste: morreu em Penápolis, no interior de São Paulo, o professor José Fulanetti de Nadai. Fulanetti foi professor dos cursos de Comunicação na Unesp, em Bauru, no início da década de 1990, e tive o privilégio de ser seu aluno.

Apesar de não ter tido nenhuma intimidade com ele, não erro em dizer que ele era admirável. Dele me vêm à memória três momentos, três partículas do que ele era, ao menos para mim. Um homem sincero, simples e inspirador.

Uma vez, ele dava aulas numa daquelas imensas salas do campus que mais pareciam auditórios. Ele estava numa espécie de tablado de concreto, próximo à lousa. Eu na primeira fila, à direita. Ele fumava sem parar, separando as frases bem pesadas entre as tragadas. Com impressionante propriedade, flanava entre Walter Benjamin e os funcionalistas. Eu, na altura dos 19 anos, sabedor de meus direitos e doutor em boas maneiras, exibi para ele uma página de caderno com uma mensagem escrita a caneta: “por favor, não fume”. Mesmo na fila do gargarejo, eu estava a uns três metros dele e as baforadas se esvaneciam completamente antes de chegar até mim. Mesmo assim, insisti na picuinha. Ele parou de falar, perguntou se eu tinha alergia ou qualquer coisa do tipo. Respondi com essa empáfia que a gente tem na adolescência: “Não, é que eu preferia que o senhor não fumasse”. Ele sorriu e disse: “Eu gostaria de fumar, você não. Temos um problema aqui”. Sorriu de novo, tragou e apagou o cigarro para não mais fumar naquela turma. À época, senti idiotamente uma nesga de orgulho pela minha “atitude”. Só depois fui entender que quem me ensinou com aquilo tudo foi ele, me mostrando um respeito ao pensamento diferente que pouco se vê por aí.

Noutra vez, ele dava aulas de reposição por conta das constantes greves da Unesp naqueles tempos. Era sábado de manhã, havia sol e a turma estava simplesmente hipnotizada com a sua verve, com a facilidade com que pulava de um assunto a outro, todos muito eruditos para nós. De repente, ele para de falar, e um lindo passarinho amarelo pousa na entrada da sala. O bichinho volta a cabeça ao Fulanetti e solta um pio, como se o cumprimentasse. Ele sorri, todos ficam estupefatos, e continua a falar. O passarinho assistiu mais um pouquinho da aula e logo foi embora. Fulanetti era mesmo encantador.

Pouco depois, ele deixou os cursos de Comunicação da Unesp para voltar a lecionar no ensino médio e fundamental em outra cidade. Simples assim. Deixou os píncaros da glória do ensino superior para ensinar na base, onde as pessoas estão sendo inicialmente formadas. O Fulanetti era assim: desprendido e jamais vaidoso.

Câncer no pulmão, enfisema e outras complicações tiraram o Fulanetti das salas de aula. Eu nunca tive a oportunidade de dizer a ele o quanto o admirava e o quanto ele serve de modelo para alguns dos meus gestos. A vida é curta demais e nem sempre a gente diz tudo o que sente. Sou professor há catorze anos e devo ficar nesse negócio por mais uns tempos. Um dia quero ser como o Fulanetti. Um dia quero poder espalhar essas sementes que ele tão bem guardava no bolsa da camisa, junto ao maço de cigarros.

a inversão do dia

Pra muita gente, hoje vai ser assim:

Colocar imagem de Santo Antônio de cabeça para baixo é simpatia tradicional