Uma das ferramentas mais celebradas entre ativistas e jornalistas quando se trata de garantia de anonimato e privacidade é o Pretty Good Privacy, o PGP. Ele garante criptografia de ponta a ponta, funcionando à base de chaves individuais públicas, o que só permitia aos destinatários decodificar as mensagens recebidas. Acontece que descobriram uma falha no PGP e a própria comunidade hacker está avisando: evite usar porque estamos buscando consertar as coisas por aqui.
Enquanto isso, a saída é usar serviços como o Signal, por exemplo.
A revista portuguesa Media & Jornalismo, editada pela Universidade Nova de Lisboa, acaba de publicar uma edição com um dossiê sobre ética jornalística, novos e velhos dilemas. O número foi editado por Carla Baptista e Alberto Arons de Carvalho e tem um sumário muito variado:
Reconstructing journalism ethics: disrupt, invent, collaborate – Stephen J. A. Ward Novas responsabilidades do jornalismo face à liquidificação da profissão: fundamentos normativos, valores, formação – Carlos Camponez Regulação participada e regulação em parceria como resposta aos desafios da profissão – João Miranda Direito e proteção à privacidade em códigos deontológicos de jornalismo – Rogério Christofoletti, Giulia Oliveira Gaia A liberdade de consciência do jornalista precisa de proteção especifica a bem da independência no seu trabalho, do pluralismo e da democracia? – Otília Leitão O lucro social e financeiro do jornalismo de investigação – Pedro Coelho, Marisa Torres da Silva Tendências do jornalismo de investigação televisivo a partir do estudo de caso da reportagem da TVI “Segredo dos Deuses” – Carla Baptista Debates da história: a evolução do conceito de objetividade em Umberto Eco – Marco Gomes Jornalistas brasileiros no banco dos réus: enquadramentos de sentenças judiciais em ações de dano moral – Caetano Machado, Carlos Locatelli O ethos do jornal O Globo e a campanha contra as fake news – Vivian Augustin Eichler, Janaína Kalsing, Ana Gruszynski Fake news nas redes sociais online: propagação e reações à desinformação em busca de cliques – Caroline Delmazo, Jonas C. L. Valente Journalism at the crossroads of the algorithmic turn – Francisco Rui Cádima O jornalismo no contexto da Web Semântica – Bruno Viana Dissimulacro-ressimulação: ensejos da cultura do ódio na era do Brasil pós-verdade – Paulo Quadros Resenha do livro Radical Media Ethics, de Stephen J. Ward – Dairan Paul
Começa amanhã na PUC-Minas o Seminário de Crítica de Mídia, evento que vai até o dia 26. O seminário é promovido e realizado pelo Centro de Crítica de Mídia e a programação está carregada de bons temas e debates.
Darei uma passadinha por lá porque me encarregaram de palestrar sobre ética e crítica de mídia. Estou bastante ansioso para conversar com os colegas mineiros sobre o tema. Uma pena eu não poder ficar por mais tempo. Se você estiver por lá, não perca. Veja a programação:
Dia 24 de abril:
8h50: Conferência de abertura – Cinema e Sociedade, Diálogos Críticos, com Pablo Villaça
10h40: Conferência 2 – Crítica da Mídia: Cobertura do Futebol, com Cândido Henrique e Marcelo Carvalho
15h20: Conferência 3 – Ética e Crítica da Mídia, com Rogério Chistofoletti
17h10: Conferência 4 – Observatórios e Grupos de Pesquisa: Experiências de Crítica Midiática, com Ercio Sena (CCM), Paula Simões (GRISLAB) e Daniela Lopes (MID)
Dia 25 de abril:
8h50: Conferência 5 – Luta por Reconhecimento e Crítica da Mídia, com Francisco Bosco
10h40: Conferência 6 – Rituais de Consumo Midiatizado, com Bruno Pompeu
15h20: Conferência 7 – Reflexividade no Cinema, com Alice Riff
17h10: Conferência 8 – Música e Memória: Construções Biográficas no Cinema e na Mídia, com Bruna Santos, Graziela Cruz e Mozahir Salomão Bruck
Dia 26 de abril:
8h50: Conferência 9 – Memória, consumo e práticas lúdicas: Cosplay, Medievalismo e Steampunk, com Mônica Ferrari
10h40: Conferência 10 – Semiótica Aplicada à Publicidade, com Clotilde Perez
15h20: Conferência 11 – Dinâmicas Identitárias nas Redes Sociais, com Beatriz Polivanov
17h10: Conferência 12 – Políticas do Streaming: Algoritmos e Curadoria Musical, com Rodrigo Fonseca
Um dos episódios recentes mais tensos da política nacional teve um desfecho ontem à noite: Lula cumpriu o mandado de prisão e está em Curitiba. Veja como os jornais brasileiros e internacionais deram a notícia. E se ainda quiser ver como as principais revistas semanais brasileiras fizeram isso, leia meu texto no objETHOS.
A edição de abril da revista ITS, voltada ao público jovem em Santa Catarina, traz matéria de capa sobre as chamadas fake news. Em linguagem informal e com dicas úteis, a reportagem assinada por Lucas Inácio cumpre aquilo que muita gente fala como importante, mas não faz: incentivar a alfabetização digital e formar públicos mais críticos.
A ITS é uma publicação impressa, mas você também pode acessar a revista online aqui.
O escândalo Facebook-Cambridge Analytica coloca mais gasolina na fogueira sobre o recolhimento e a interceptação de dados das pessoas no mundo todo. Ninguém ou quase ninguém está protegido dos abusos do Facebook, de Google e de outros gigantes da tecnologia. Por mais que a gente tome cuidado com privacidade, as capacidades intrusivas deles sempre nos surpreendem. As pessoas mais próximas me consideram paranóico com isso e não tenho vergonha nenhuma desse comportamento. Privacidade é liberdade, é autonomia, é controle sobre as próprias informações.
Claro que revisei minhas configurações de privacidade após mais este escândalo. Antes mesmo era bastante cuidadoso com certas informações. Mas isso não impediu que eu caísse das pernas com o que Facebook fez comigo!
Por precaução adicional, fui ver que dados meus o Facebook coletou ultimamente. Qualquer pessoa pode fazer isso. Basta ir em Configurações/Configurações gerais da conta e clicar em Baixar uma cópia dos seus dados no Facebook. Você recebe um email e depois um segundo email com o link para baixar o pacote. Particularmente, não uso tanto o Facebook, mas mesmo assim, meu arquivo superou 1 giga!
Lá estão minhas postagens, as fotos que subi, meus amigos e… meus contatos telefônicos do meu celular e até mesmo para quem liguei, quando, e quanto duraram as chamadas. Isso mesmo! Se você acessou o Facebook por seu celular alguma vez na vida, ele extraiu toda a sua agenda telefônica e registrou suas ligações nos últimos meses. No meu caso, a lista tinha metadados das chamadas desde setembro de 2017!!! E registros de SMS desde junho de 2016!
Os mais cínicos dirão: ah, mas você deu consentimento ao Facebook para que ele acessasse esses dados.
NÃO! NÃO DEI!
Clicar em um botãozinho não é um consentimento claro, livre e esclarecido. É uma armadilha para os usuários! NÃO AUTORIZEI O FACEBOOK A DOCUMENTAR MINHAS LIGAÇÕES. ELES NÃO TÊM MINHA AUTORIZAÇÃO NEM ESTÃO AMPARADOS POR ORDENS JUDICIAIS.
Convidar a clicar em um botãozinho é uma maneira perversa e maliciosa que pode induzir qualquer pessoa a fazer o que ela não deseja. Então, ninguém no planeta me convence de que eu autorizei o Facebook a interceptar MEUS números, MINHAS chamadas, MINHAS mensagens, até porque nenhuma das ligações foi feita através do Facebook, mas por minha operadora telefônica.
Revoltante. Alarmante.
O Brasil precisa urgente de uma lei de proteção de dados. O Marco Civil da Internet de 2014 já prevê isso, e há projetos de lei para dar conta disso e tentar proteger os usuários. Os países da União Europeia não só têm leis semelhantes como a proteção vai ficar mais rígida este ano a partir de maio, quando novas regras passarão a vigorar. Anotem: vamos assistir a uma guerra entre as autoridades europeias e Facebook etc…
O escândalo Cambridge Analytica mostra de forma contundente como os gigantes da tecnologia precisam de limites. Mostra como os governos – junto com a sociedade – precisam regular o setor. Mostra como não podemos confiar nesses gigantes da tecnologia, e como eles recolhem e utilizam nossos dados sem nosso conhecimento e consentimento. Isso é crime e você já sabe o nome.
Achou meu texto alarmista? Faça você mesmo o teste. Baixe seus arquivos do Facebook e veja como ele está espionando a sua vida privada. Sem o seu conhecimento, e o que é pior: sem a sua concordância e autorização.
Quantos repórteres falam de suas relações com as fontes?
Quantos jornalistas avisam ao público de algum eventual conflito de interesses?
Transparência ainda é um tabu para muitos de nós…
Em um contundente texto para The Intercept Brasil, Glenn Greenwald mostra que esta não é só uma medida de coragem, mas de caráter.
Se você está em São Paulo ou vai passar por lá nas datas abaixo, é uma pessoa de sorte.
Fosse eu, não perderia por nada esses belos debates do Grupo de Pesquisa de Computação Social da USP (TECS)!
Começo hoje um curso para alunos de mestrado e doutorado sobre estudos avançados em ética jornalística. Esta é uma disciplina eletiva do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC, e nas próximas 15 semanas, pretendo enfrentar com meus companheiros de aula algumas questões que me parecem cruciais para se pensar a profissão atualmente: ética das redações e ética hacker; verdade, credibilidade e fake news; robôs, algoritmos e automação do jornalismo; privacidade, vigilância e transparência; direito ao esquecimento e vazamentos… esses são alguns dos tópicos que vamos perseguir com uma extensa bibliografia, e é claro que outros podem surgir inadvertidamente.
A turma já está fechada e estarei em excelente companhia. Como talvez o assunto interesse a você, leitor, deixo aqui o plano de ensino na esperança de atrair novos interlocutores. Se não de forma presencial e em sala de aula, que o diálogo se dê pelas muitas vias tecnológicas que temos hoje.
The Post, o filme de Steven Spielberg sobre a divulgação de segredos dos Estados Unidos sobre a guerra do Vietnã, já está em muitas salas de cinema e merece ser conferido. Não chega a ser um filme empolgante, nem mesmo para jornalistas.
A narrativa oscila em ritmo, não tem trilha sonora envolvente e algumas passagens são apressadas. Vez em quando, lá se vai o fio da meada, mas seguimos o baile.
A câmera é certeira, a reconstituição de época – entre o final dos 60 e começo dos 70 – é muito competente e o elenco é irrepreensível. Tom Hanks oferece um Ben Bradlee mal humorado e inquieto, bem distante da atuação carrancuda de Jason Robards em Todos os Homens do Presidente. Meryl Streep traz nuances singulares para Kay Graham, a hesitante e quebradiça dona do Washington Post. Bob Odenkirk esculpe o mítico repórter Ben Bagdikian com traços de implacável correção moral e jornalística. Apesar disso, há uma imensa (e invisível) casca de banana no meio do caminho: The Post deposita todo o heroísmo no colo do jornalismo, mas a história verdadeira é outra.
A trama do filme se concentra no vazamento de milhares de páginas de documentos ultrassecretos dos Estados Unidos que provam ingerência política de vários presidentes, conhecimento de que o país não venceria a guerra tão fácil, entre outros podres. The Post até mostra quem vazou os documentos e como. Um agente de informação copia 7 mil páginas de um longo estudo sobre a presença dos EUA na guerra e distribui partes para The New York Times e Washington Post. Esse denunciante tem nome: Daniel Ellsberg. E foi só por causa dele que o mundo veio a saber dos chamados Papéis do Pentágono. Sim! Foi ele que arriscou o pescoço por meses para transportar caixas e mais caixas de papéis – disfarçados das mais diversas formas – para fora de seus cofres para fazer xerox daquilo tudo.
Andy Greenberg tem um livro ótimo que retoma essa história e compara como são feitos os grandes vazamentos de informação na atualidade. Em poucos minutos, foi possível copiar centenas de milhares de documentos num CD regravável e que depois seriam vazados pelo WikiLeaks em novembro de 2010. Mas imaginem o que é xerocar 7 mil páginas confidenciais, retiradas furtivamente de empresas e órgãos de segurança nacional…
No filme de Spielberg, Ellsberg é apresentado como um sujeito lacônico, com olhar esquisito, jeito misterioso e com importância tão limitada que chega a desaparecer nela. Todos os louros são dados ao editor intransigente que quer levar os segredos ao público e à publisher, que descobre na liberdade de imprensa um corolário para justificar a função da empresa que herdou do marido.
É verdade que Bradlee e Graham se arriscaram bastante. The Post reserva várias cenas em que a coragem como valor republicano é enaltecida e celebrada. Mas o que indigna é que Spielberg mostra uma coragem seletiva, reservada apenas à empresa jornalística e não ao vazador. Ora! Quem deu o primeiro pontapé na bola?!
Tenho uma modesta explicação para isso, amigos.
Nos Estados Unidos, vazador tem um nome pomposo: whistleblower. Isto é, soprador de apito, aquele que berra para apontar um problema grande. A história mostra que esses denunciantes são motivados por valores públicos que os fazem desafiar poderes, correr riscos inimagináveis e a se sacrificarem para que a sociedade se beneficie com o teor de suas revelações. Julian Assange e seu Wikileaks são whistleblowers. Chelsea Manning e Edward Snowden também, bem como Daniel Ellsberg.
Por que, então, Spielberg fez a coragem de Ellsberg evaporar?
Por uma razão só: o Washington Post de hoje não é o mesmo da época retratada pelo cineasta. Hoje em dia, ele não pertence mais à família Graham, mas sim ao magnata Jeff Bezos, dono da Amazon. E embora o Washington Post de Bezos tenha se beneficiado muito com as revelações do whistleblower Edward Snowden, o jornal também defendeu em editorial que ele fosse julgado por espionagem (veja aqui). Sim, é isso mesmo: um jornal desse tamanho e importância voltando suas baterias contra a própria fonte de informação!
Então, o Washington Post atual não gosta muito whistleblowers. Nada melhor que apequenar a presença e importância de Daniel Ellsberg na trama. “Vamos dar um lugar a ele no enredo, mas não precisamos torná-lo um herói, não é mesmo, rapazes?”
Foi por birra, então?! Não só.
Por que Steven Spielberg contrariaria Jeff Bezos, que além de mandar em boa parte do varejo mundial também tem um influente serviço de streaming de TVpor onde pode transmitir filmes do cineasta? Por que fechar uma janela que está cada vez mais escancarada?
Conversei com o jornalista Marco Aurélio Gomes, da Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e TV (Acaert), sobre notícias falsas e de como elas são perigosas. Não só para o jornalismo, mas para a própria democracia…
Uma corajosa comunicadora que não se deixa censurar pelo Estado e denuncia a violência policial na sua comunidade. Uma persistente jornalista independente que tenta driblar os embargos oficiais de informação. Uma valente militante feminista que luta para não ser criminalizada por expressar o que pensa e o que sente. Três mulheres brasileiras num documentário sobre as liberdades no país em nossos dias.
Nossa Voz Resiste é um minidocumentário de 11 minutos de Carolina Caffé, e marca os 10 anos da ONG Artigo 19 no Brasil.
Já está disponível o documentário Em nome da inocência: justiça, de Sergio Giron, sobre a trágica morte de Luiz Carlos Cancellier de Olivo, reitor da UFSC.
Nos Estados Unidos, o órgão que regula o setor de comunicações quer acabar com a neutralidade de rede, o que pode significar que a internet vai ficar cada vez mais comercial, e que ela vai priorizar os interesses de quem paga mais. Alerta vermelho!
A TV Drone e o coletivo Actantes lançaram neste mês XPloit: internet sob ataque, uma websérie em seis capítulos que explica as principais disputas atuais na rede brasileira e mundial. Com didatismo, programetes de até 15 minutos e depoimentos de muita gente inteligente e importante nos rumos da web, XPloit precisa ser assistida e discutida.
O capítulo 1 discute como os conflitos na internet colocam a democracia em risco. No segundo, aborda as perseguições aos ativistas e movimentos sociais. No terceiro capítulo, o tema é a própria estrutura da internet e como ela reproduz as lógicas do colonialismo. Na quarta parte da websérie, estão em foco as estratégias de coleta de dados e vigilantismo, o que também é mais profundamente tratado no quinto capítulo. O vídeo final trata de resistência dos usuários diante das ações intrusivas, antidemocráticas, punitivas e privativas das liberdades e direitos individuais.
Vale muito a pena ver!
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O coletivo Intervozes divulga na próxima semana os resultados de um mapeamento sobre os 50 maiores veículos de mídia do Brasil. Importante, essencial e estratégico para quem acredita na possibilidade de democratizar a comunicação no país.
A morte trágica do reitor da UFSC Luiz Carlos Cancellier de Olivo, que aconteceu em 2 de outubro passado, me levou a escrever dois textos, ambos publicados no Observatório da Ética Jornalística (objETHOS):
Agora, é o próprio CGI que deseja ouvir a sociedade. Aí, o leitor pode perguntar: ah, é um novo golpe? Eu respondo: não. E o leitor pode perguntar mais uma vez: e por que não é? Eu também respondo: porque agora é o próprio comitê quem quer saber a opinião da população, e o comitê é mais plural e muito mais amplo que as cadeiras que cabem ao governo.
Lembrando: o CGI é um órgão estratégico, essencial para a internet no Brasil. Ele pode ser fortalecido ou ser tomado, absorvido por interesses governamentais ou corporativos. Por isso, a participação popular e cidadã é essencial.
Chegam notícias de que uma amiga retirou um tumor enorme da cabeça. A quilômetros dali, outra amiga se recupera de dois AVCs. E mais longe ainda, chegam notícias do México, onde um amigo avisa que o terrível terremoto fez ruir diversos prédios. Felizmente, todos passam bem.