sobre nossa precariedade e insuficiência teóricas

Fiquei particularmente satisfeito com a conferência de Jacques Mick no segundo dia do Encontro de Professores de Jornalismo do Paraná e Santa Catarina, que aconteceu em Joinville na sexta e ontem. O foco de Mick eram os novos desafios à pesquisa, ensino e extensão na perspectiva do jornalismo do futuro, e sua fala foi secundada por comentários de Maria José Baldessar (UFSC), Tomás Barreiros (Universidade Positivo) e Elaine Tavares (SJSC).

Mick centrou sua fala na crítica de que os professores de jornalismo ainda sofremos de grande insuficiência teórica para justificar a profissão e o campo que constituímos. Para o autor, avançou-se pouco no Brasil em termos de Teoria do Jornalismo desde o lançamento de O Segredo da Pirâmide, de Adelmo Genro Filho, em 1987. Nos últimos anos, o país viu se espalharem as escolas de Jornalismo e os cursos de pós-graduação em Comunicação, condições que ajudaram a formar quadros qualificados para a academia e o mercado, mas para Mick, esses esforços se traduziram muito pouco em avanços verdadeiros na teorização do campo. “Esse desenvolvimento, o desenvolvimento teórico é uma necessidade do jornalismo”.

Em tom acadêmico, mas flagrantemente provocativo, Jacques Mick apontou dois aspectos que são marcantes na academia: a) Persiste uma obediência à normatividade técnica, reforçando e reproduzindo práticas do mercado, em detrimento da inovação; b) Há pouco espaço para a produão teórica na área.

Esses aspectos, segundo Mick, acabam criando um cenário bastante complacente, permissivo até entre os autores brasileiros. É “raro o pensamento novo”; as obras são quase sempre recebidas sem muita discussão; parece prevalecer entre os acadêmicos um compadrio – este termo não é dele -, sobrando generosidade e generalidades nas resenhas de livros e artigos. Mick põe o dedo na ferida de todos nós, com muita razão (ouso dizer), alertando para o pouco enfrentamento teórico, prática que torna vulnerável a nossa produção teórica.

Para Mick, hoje – vinte anos depois de Adelmo Genro Filho -, quando dispomos de mais escolas, de mais força na academia, de mais doutores e mestres nos corpos das universidade, os desafios para o ensino-pesquisa-extensão no jornalismo são mais acadêmicos que institucionais. Isto é, a bola está no nosso pé…

Minha satisfação ao ouvir Jacques Mick não se deve ao fato de que torço contra o campo do jornalismo. Claro que não. Mas é preciso reconhecer que ainda temos muito o que fazer, muito o que amadurecer na compreensão do jornalismo e nos seus entornos. Essa insuficiência, essa carência, essa precariedade teórica vem minando nossos passos. Já disse isso com relação à discussão sobre o diploma.

Enfrentar essa realidade é olhar-se no espelho e reconhecer falhas, para depois, traçar novos rumos e passar a caminhar com mais força e vigor.

entrevista sobre cibercultura

Minha amiga Adriana Amaral manda avisar que a entrevista que deu em abril passado ao programa Cybercubo, da TV Feevale, já está na web. Para quem não ligou o nome à pessoa, a Adriana é a pessoa que mais entende de cibercultura, ciberpunk e cibertribos do país. Conectada!!!

Assista em quatro partes!

Parte 1

pierre levy aqui (final)

O debate terminou agora. Foi interessante, mas para quem acompanha o autor em seus livros e textos, não houve nada de novo. Levy não trouxe nenhum conceito inédito e pouco abordou com clareza sobre o que está fazendo atualmente na universidade. Ele está radicado em Otawa, Canadá.

De qualquer forma, foi importante ele ter batido à mesma tecla: a de que a tecnologia é resultado do que vem primeiro entre os humanos. Parece óbvio, e o é. Mas esquecemos quase sempre.

Boa iniciativa da Fundação Vanzolini e do LInC, Laboratório de Inteligência Coletiva.

pierre levy aqui (8)

“A construção social vem primeiro. A tecnologia vem depois”

pierre levy aqui (7)

Perguntaram a ele se a universidade pode perder o seu lugar na produção do conhecimento.

“A internet foi criada por acadêmicos. Muito do conhecimento que circula por aí veio da universidade. A gestão do conhecimento é ensinada nas universidades. Então, não acho que a universidade fique fora disso. Não há um tipo de instituição contra outro. Precisamos cultivar uma visão muito aberta para visualizar a relação entre as pessoas e a colaboração”

pierre levy aqui (6)

“Um exemplo de uma comunidade colaborativa bem sucedida é a wikipedia. Há milhões de pessoas contribuindo para que se construa a maior enciclopédia que já existiu. Ela é gratuita, precisa, atualizada, multi-língüe. Há regras muito claras para que os conhecimentos ali sejam confiáveis. Há pessoas que revisam o conteúdo, a todo momento. Ele é um bom exemplo desse sucesso. A espontaneidade é a chave.”

pierre levy aqui (5)

A tarefa do educador vai se tornar mais complexa. Vamos ser sinceros. Como estruturar a arquitetura do conhecimento? Não é só entrar no orkut, auxiliar a pesquisar no google. Quando eu falo da arquitetura do conhecimento, eu penso num código genético. Cada comunidade pode ser vista como uma espécie de conhecimento, algo vivo, com sua própria identidade. Todos os membros da comunidade são as células do organismo e compartilham o mesmo código genético, a mesma ontologia”

pierre levy aqui (4)

Perguntaram para ele: o que esperar de um portal?

Pierre Levy lembrou que o portal, um site ou qualquer forma é suporte, é meio para que as pessoas façam coisas. Logo, o problema é mais complexo, o buraco é mais embaixo. “Criar uma rede é um problema político, social. Como se cria uma comunidade? Esta é uma questão política. Não há comunidade sem identidade, sem memória. Eu acho que hoje, não se pode ter uma comunidade sem uma memória comum, coletiva. O papel de cada membro dessa comunidade é contribuir para cultivar uma memória comum. A comunidade é o centro e cada um de nós está cultivando o que é comum a nós. Você dá e você retira. E quanto mais as pessoas dão, melhor é a qualidade do conhecimento que você tem à disposição. Essa é a nova regra que temos”.

pierre levy aqui (3)

Ele disse: “Formar redes leva tempo. Às vezes, dura mais de uma geração. Quando eu comecei a falar de trabalho colaborativo, de inteligência coletiva há quinze anos, eu me sentia muito sozinho. Hoje, muita gente fala sobre isso. Já não estou sozinho, mas é preciso repetir e repetir para que não demore tanto para que essas redes surjam”.

pierre levy aqui (2)

Errei no post anterior quando eu disse que Pierre Levy palestraria sobre inteligência coletiva, redes sociais e interdependência. É um debate. Um debate sobre redes sociais que já existem, de projetos em andamento como a Educarede.
O evento está acontecendo agora – 19h44 – e só mesmo agorinha, Levy passou a falar. Antes dele, outros interlocutores apresentaram seus projetos. Todos colocaram questões a ele. E Levy começou: “Eu gostaria de dizer que vocês estão trabalhando nesses projetos há anos e eu os conheço há uma hora. Vocês sabem melhor deles do que eu…”

(Na transmissão online, não se ouve a voz de Levy, que fala em inglês. Mas apenas a tradutora…)

pierre levy aqui

Pierre Levy está em São Paulo e palestra hoje seobre Inteligência Coletiva, Interdependência e Projetos Sociais.

 

Ah, você não está em Sampa?
Não tem problema.

O evento começa às 18h30 e você pode assisti-lo pela web AQUI.

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mais mcluhan

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Robert Logan volta à carga no MediaShift: faz um mcluhan estendido. Retorna ao pensamento do teórico-guru – que já havia visitado antes – e pensa convergência e tecnologias híbridas. Curioso, bem sacado, inteligente…

PS: Logan substitui Mark Glaser – o dono da parada no blog – que está de férias. Blog profi é assim: blogueiros tiram férias, mas a coisa continua… e bem!

mcluhan, mass media e new media

Robert Logan, convidado a escrever no Mediashift, lembra o teórico-guru canadense e separa o joio do trigo. Logan lista 14 distinções entre meios de comunicação de massa e novas mídias. Mcluhan chacoalhou o bambuzal nos anos 60 quando escreveu livros como Understanding Media (que aqui o Décio Pignatari traduziu como Os Meios de Comunicação como Extensão do Homem. Título melhor que o original!). O que diria hoje???

para um mergulho com Foucault

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 Meu querido amigo Pedro de Souza acaba de retornar da França onde permaneceu por cem dias em pesquisas sobre Michel Foucault. E é justamente ele, o Pedro, quem me repassa dois importantes links para os que se interessam pelo pensamento e pela obra de um dos mais influentes nomes do século XX:

Michel Foucaul Archives é uma iniciativa do Centre Michel Foucault e do Institut Mémoires de l’Édition Contemporain. O site ainda está em construção, mas já traz conteúdos bem básicos sobre o autor, como uma cronologia de sua obra, a digitalização de alguns manuscritos – como o curso de 1981-82 que Foucault deu no Collège de France – e algumas fotos. Em breve, haverá vídeos, promete o site que tem interfaces em inglês, francês, espanhol, chinês e árabe. Na equipe responsável pelo site está Daniel Defert, antigo companheiro de Foucault e quem detém a guarda, zela e administra muita coisa inédita.

Institut Mémoires de l’Édition Contemporain (IMEC) guarda e disponibiliza arquivos de nomes como Foucault, Althusser, Barthes, Beckett, Benveniste, Céline, Anthony Burgess, Derrida, Jean Genet, Guattari, Grotowsky, Levinas, entre muitos outros. O slogan da iniciativa é “uma memória viva da escrita, da edição e da criação“. O instituto e todo esse patrimônio funciona numa abadia, isso mesmo, a Abadia d´Ardenne. Lá, o visitante pode acessar arquivos em áudio, vídeo e originais (manuscritos ou datilografados). Nada pode ser xerocado ou copiado, apenas consultado. Pelo menos no caso de Foucault. A medida drástica se explica: ainda restam alguns cursos que Foucault deu e que ainda estão inéditos em livros. Os responsáveis pelo acervo estão sistematizando tais originais para a sua publicação, e o vazamento de tais materiais pode provocar diversas conseqüências: da exploração indevida à apropriação indébita.