Uma aula de adaptação para os quadrinhos

dois_irmaos-10-1-2Quando fechei o volume de Daytripper, pensei: Nunca li nada melhor por aqui. Sim, a minha impressão permanece, e acho que o trabalho de Gabriel Bá e Fábio Moon é a melhor HQ brasileira já produzida. Sensível, criativa, instigante, belíssima, caprichada.

E quando a gente pensa que os caras alcançaram o ápice e a tendência é ladeira abaixo, engano-engano.

A adaptação de Dois Irmãos mostra que os gêmeos mais talentosos dos quadrinhos mantêm um patamar de altíssima qualidade gráfica e narrativa. O premiado romance de Milton Hatoum conta décadas da vida de outros dois gêmeos descendentes de libaneses numa Manaus mansa e chacoalhada. A história é linda, triste, sofrida e absolutamente cativante. Hatoum revisita uma fábula ancestral – a dos irmãos que se digladiam -, atualiza os mitos de Esaú e Jacó (Machado de Assis) e desvela como amores fraternais podem ser frios e bestiais.

DoisIrmaosA obra de Bá e Moon é uma aula de como adaptar um romance para os quadrinhos. Sim, eles sabem o que fazem. Já até ganharam um Jabuti por O Alienista. Há o respeito à obra original e a oferta generosa de outra obra, única, autônoma, efetiva. Mas em Dois Irmãos, vejo muito mais. Há os traços angulosos e esquálidos que contornam os personagens, aparentemente fortes, mas que fraquejam em suas paixões. Há os estudos da cidade, o porto, as ruas, o casario, o bairro flutuante, cenários que hipnotizam em preto e branco. Está tudo ali. A prosa contida, as palavras bem escolhidas, a caligrafia tortuosa, as onomatopeias econômicas. A casa que envelhece, os amores confusos, as ilusões difusas, os segredos familiares, a ambição convertida em coragem, a preguiça ocultando a pequenez, a sensualidade de orientais e barés, a violência, a vida e a morte.

Longa vida aos irmãos Omar e Yaqub, Gabriel e Fábio.

quadrinhos, jornalismo, teoria e arte nacional

Três notas rápidas que se cruzam num mesmo assunto: histórias em quadrinhos.

  • Quadrinhos e Jornalismo: acontece amanhã, às 14h30, no Mestrado em Jornalismo da UFSC a defesa da dissertação “Imagem, narrativa e discurso da reportagem em quadrinhos de Joe Sacco”, de Juscelino Neco de Souza Júnior. O trabalho é uma vigorosa leitura das narrativas do jornalista maltês que inaugurou um novo gênero na área: a reportagem em quadrinhos. Tendo como base o filósofo Michel Foucault, a dissertação transita pelo jornalismo, pelas artes visuais e pelo cinema. O trabalho foi orientado pela professora Gislene Silva. Acompanhe a transmissão ao vivo aqui.
  • Quadrinhos e Teoria: alunos da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Pará (UFPA) estão produzindo histórias em quadrinhos eletrônicas, com recursos multimídia, e apoiados no conceito de modernidade líquida do teórico Zygmunt Bauman. A “Equipe do PH” surgiu no Laboratório de Jornalismo Digital e Novas Mídias e teve orientação da professora Kalynka Cruz. Conheça o site, leia e baixe em formato PDF.
  • Quadrinhos no Brasil: junte um jovem escritor premiado e um cartunista criativo desde o útero. Misture tudo e agite antes de ler. O resultado é “Cachalote”, que está nas livrarias brasileiras e se revela o lançamento brasileiro do ano em termos de quadrinhos. O livro de quase 300 páginas reúne cinco histórias que não se cruzam, mas que se entremeiam e que envolvem o leitor. Os enredos são de Daniel Galera e os desenhos de Rafael Coutinho. O primeiro escreveu o excelente “Cordilheira”. O segundo não bastasse ter talento e traço marcante, é filho de Laerte. Se gostei? Sim. Bastante. “Cachalote” vale ler, ter e estudar. E a baleia onírica, fantástica, misteriosa é uma poderosa metáfora da felicidade.

asilo arkham, uma adaptação

Existe um lugar sombrio, tenebroso, assustador. É escuro, úmido e com criaturas repugnantes. Gemidos e gritos histéricos são ouvidos. Nada funciona direito. As paredes parecem ter olhos e ouvidos. E aquilo lá está lotado de gente insana, perdidamente insana.

O Asilo Arkham é assim. Um lugar para não esquecer. E pra gente se arrepiar quando dele se lembrar.

É diferente das pirotecnias cinematográficas que vêm recheando os filmes do Batman. Talvez caiba nesses filmes apenas em parte, apenas como uma referência do depósito de vilões-loucos que alguns queriam transformá-lo. Mas o Asilo Arkham é um pouco o que Conrad escreveu: é o coração das trevas, onde o horror sussurra no seu ouvido, onde você se volta pra trás após sentir um arrepio estranho na espinha.

Os anos 80 e 90 foram realmente gloriosos para os quadrinhos, principalmente por conta de um formato novo para os brasileiros: a graphic novel, que nada mais era do que quadrinhos com temáticas mais adultas, com revisões de personagens, com inovações gráficas e com altíssima voltagem de ação. Um dos melhores títulos a circular no país foi Asilo Arkham, escrito por Grant Morrison e ilustrado por Dave McKean. Aterrador. Quem leu, tremeu ao conhecer esse lugar que é o próprio inferno.

No vídeo abaixo – que vi primeiro no Nota 7 -, há uma adaptação literal, quase quadro-a-quadro do original dos quadrinhos. Sente, veja, ouça e veja para onde os filmes do Batman poderiam caminhar.

quando elas se encontram

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O G1 traz uma extensa, exclusiva e ótima entrevista com Alan Moore, uma lenda entre os quadrinhos mundiais, apontado como um dos responsáveis por catapultar a Nova Arte à condição de arte respeitável. Pois a entrevista dá conta do lançamento de Lost Girls, obra em três partes que relaciona sexo, o começo do século XX e Wendy (de Peter Pan), Dorothy (O mágico de Oz) e Alice (aquela de Lewis Carroll).

Consegue imaginar essas personagens se encontrando?

Consegue pensar nelas e ver perversão sexual, desejos e vias de fato?

Mas Moore fala de muito mais coisas.

O portal traz a entrevista em versão para maiores de 18 anos e um infográfico ótimo.

HQ e controvérsia

Jeaux Janovsky enumera cinco momentos mais controversos das histórias em quadrinhos.

É engraçadinho…