Julgamento moral de whistleblowers

Assisti ao documentário Privacidade Hackeada e fiquei intrigado com Brittany Kaiser, a ex-funcionária da Cambridge Analytica que decidiu jogar farofa no ventilador. Estou devorando o livro dela, Manipulados, e as diversas reticências que eu tinha sobre ela ainda se mantêm.

Isso me fez pensar que esse deve ser um comportamento bem comum quando estamos diante de whistleblowers. Isto é, é frequente que esses denunciantes não sejam levados muito a sério em seus propósitos e objetivos. Alguma pulga atrás da orelha fica cochichando que eles podem não ser confiáveis, que suas motivações são combustível de vingança, bla-bla-blá.

 

Quando Julian Assange apareceu para o mundo e despejou sobre nós montanhas de segredos das guerras do Iraque e Afeganistão, e quando nos inundou com oceanos de dados sobre a diplomacia dos EUA, confesso que não duvidei dele. Ele não era um insider como Brittany ou mesmo Edward Snowden. Assange era esquisitão, misterioso, talvez bem intencionado (talvez não), mas não estava diretamente implicado naquilo até o pescoço. Era diferente.

Ah, mas por que não acreditou tão piamente em Brittany? Por que ela é jovem? Por que é mulher?

Não. Também não.

Tive a mesma sensação quando li Vigilância Eterna, do Snowden. Pensei antes: quanto de verdade ele ainda pode nos contar e quanto dessa verdade pode prejudicá-lo? Embora ele tivesse contado parte importante do seu passado e tivesse argumentado sobre as razões que o fizeram mudar de lado, não posso dizer que fui totalmente convencido sobre sua conversão. O mesmo se dá com Brittany e com todos os delatores da Lava-Jato, por exemplo. Eu sei, eles não são propriamente whistleblowers, mas têm alguns pontos de contato com essas figuras: estavam dentro do monstro quando o monstro agia e, por alguma razão, decidiram abrir a boca. No caso da Operação Lava-Jato, a razão não é nenhum bom mocismo: chama-se delação premiada. Quem abrir o bico pode reduzir a pena e ficar menos tempo na prisão…

Mas o que ganham Snowden e Brittany? Suas consciências tranquilas, alguém pode responder. E acho que é um grande ganho sim, mas o que mais me importa pensar agora é: será possível considerar os conteúdos divulgados por eles sem considerar suas condições morais? Por que devemos acreditar no que dizem agora? Apenas por que se mostraram arrependidos? O arrependimento de alguém é um salvo-conduto moral, uma redenção do caráter? Se ainda mantivermos desconfiança sobre o que falam, não estaremos nós sendo injustos com eles?

Não sei responder essas perguntas, e elas ainda me assombram. E eles não deveriam interessar apenas a quem se preocupa com ética, moral e essas coisas fora de moda. Deveriam interessar a jornalistas – que se ocupam de ouvir e entrevistar esses personagens – e deveriam interessar a todos os cidadãos – que são afetados por tais revelações.

The Post mostra coragem seletiva no caso dos Pentagon Papers

The Post, o filme de Steven Spielberg sobre a divulgação de segredos dos Estados Unidos sobre a guerra do Vietnã, já está em muitas salas de cinema e merece ser conferido. Não chega a ser um filme empolgante, nem mesmo para jornalistas.

A narrativa oscila em ritmo, não tem trilha sonora envolvente e algumas passagens são apressadas. Vez em quando, lá se vai o fio da meada, mas seguimos o baile.

A câmera é certeira, a reconstituição de época – entre o final dos 60 e começo dos 70 – é muito competente e o elenco é irrepreensível. Tom Hanks oferece um Ben Bradlee mal humorado e inquieto, bem distante da atuação carrancuda de Jason Robards em Todos os Homens do Presidente. Meryl Streep traz nuances singulares para Kay Graham, a hesitante e quebradiça dona do Washington Post. Bob Odenkirk esculpe o mítico repórter Ben Bagdikian com traços de implacável correção moral e jornalística. Apesar disso, há uma imensa (e invisível) casca de banana no meio do caminho: The Post deposita todo o heroísmo no colo do jornalismo, mas a história verdadeira é outra.

A trama do filme se concentra no vazamento de milhares de páginas de documentos ultrassecretos dos Estados Unidos que provam ingerência política de vários presidentes, conhecimento de que o país não venceria a guerra tão fácil, entre outros podres. The Post até mostra quem vazou os documentos e como. Um agente de informação copia 7 mil páginas de um longo estudo sobre a presença dos EUA na guerra e distribui partes para The New York Times e Washington Post. Esse denunciante tem nome: Daniel Ellsberg. E foi só por causa dele que o mundo veio a saber dos chamados Papéis do Pentágono. Sim! Foi ele que arriscou o pescoço por meses para transportar caixas e mais caixas de papéis – disfarçados das mais diversas formas – para fora de seus cofres para fazer xerox daquilo tudo.

Andy Greenberg tem um livro ótimo que retoma essa história e compara como são feitos os grandes vazamentos de informação na atualidade. Em poucos minutos, foi possível copiar centenas de milhares de documentos num CD regravável e que depois seriam vazados pelo WikiLeaks em novembro de 2010. Mas imaginem o que é xerocar 7 mil páginas confidenciais, retiradas furtivamente de empresas e órgãos de segurança nacional…

No filme de Spielberg, Ellsberg é apresentado como um sujeito lacônico, com olhar esquisito, jeito misterioso e com importância tão limitada que chega a desaparecer nela. Todos os louros são dados ao editor intransigente que quer levar os segredos ao público e à publisher, que descobre na liberdade de imprensa um corolário para justificar a função da empresa que herdou do marido.

É verdade que Bradlee e Graham se arriscaram bastante. The Post reserva várias cenas em que a coragem como valor republicano é enaltecida e celebrada. Mas o que indigna é que Spielberg mostra uma coragem seletiva, reservada apenas à empresa jornalística e não ao vazador. Ora! Quem deu o primeiro pontapé na bola?!

Tenho uma modesta explicação para isso, amigos.

Nos Estados Unidos, vazador tem um nome pomposo: whistleblower. Isto é, soprador de apito, aquele que berra para apontar um problema grande. A história mostra que esses denunciantes são motivados por valores públicos que os fazem desafiar poderes, correr riscos inimagináveis e a se sacrificarem para que a sociedade se beneficie com o teor de suas revelações. Julian Assange e seu Wikileaks são whistleblowers. Chelsea Manning e Edward Snowden também, bem como Daniel Ellsberg.

Por que, então, Spielberg fez a coragem de Ellsberg evaporar?

Por uma razão só: o Washington Post de hoje não é o mesmo da época retratada pelo cineasta. Hoje em dia, ele não pertence mais à família Graham, mas sim ao magnata Jeff Bezos, dono da Amazon. E embora o Washington Post de Bezos tenha se beneficiado muito com as revelações do whistleblower Edward Snowden, o jornal também defendeu em editorial que ele fosse julgado por espionagem (veja aqui). Sim, é isso mesmo: um jornal desse tamanho e importância voltando suas baterias contra a própria fonte de informação!

Então, o Washington Post atual não gosta muito whistleblowers. Nada melhor que apequenar a presença e importância de Daniel Ellsberg na trama. “Vamos dar um lugar a ele no enredo, mas não precisamos torná-lo um herói, não é mesmo, rapazes?”

Foi por birra, então?! Não só.

Por que Steven Spielberg contrariaria Jeff Bezos, que além de mandar em boa parte do varejo mundial também tem um influente serviço de streaming de TV por onde pode transmitir filmes do cineasta? Por que fechar uma janela que está cada vez mais escancarada?

PS – Não deixe de ler este texto de Rogério de Campos sobre a participação de Ben Bagdikian no episódio dos Pentagon Papers, e este, do Luiz Biajoni, sobre Phil Graham (e cia), o marido de Kate, a dona do Washington Post. Imperdíveis aulas de história.

PS 2 – Atualização de 27/03/18. Matéria da Agência France Press reproduzida no UOL informa que Steven Spielberg vai produzir uma série para o serviço de video streaming da Amazon. Eu não disse?