confiança e credibilidade: questões

O sempre inquieto Rogério Kreidlow deixou comentário neste blog que me deixou fervilhante de idéias.

Tomo a liberdade de reproduzir o texto aqui na forma de um diálogo. Assim: as provocações dele me impelem a responder (ou a perguntar) mais sobre credibilidade e confiabilidade.

“Estou lendo o Confiança, credibilidade e reputação: no jornalismo e na blogosfera e uma coisa que me ocorreu agora: a credibilidade não passaria também por uma identificação pessoal, personalista, com quem transmite a notícia? Será que critérios de afinidade não podem, de alguma maneira, solapar uma pretensa objetividade?”

Sim, eu acho que a credibilidade passa por diversos estágios e afeta várias dimensões, que vão tanto de fatores externos quanto internos. Passa por autoria, por estilo, pela autoridade (ou legitimidade) de quem escreve ou narra. É curioso perceber, por exemplo, que autoria e autoridade têm o mesmo radical. E a credibilidade se dá numa medida em que se confia, se delega poderes, se confia atributos a alguém. Isto é, reconhece-se uma autoridade, uma legitimidade naquele que narra.

Sobre a objetividade, acho que outros fatores também contribuem para a sua corrosão e não diretamente a credibilidade. Mas é algo a se pensar…

“Penso nos seguintes casos: alguém que assiste determinado apresentador (não vou citar nomes, mas pode-se imaginar), mesmo que ele seja sensacionalista, seja “comprado”, etc., não lhe delega credibilidade pelo simples fato de gostar dele, de ter afinidade com ele? Digo porque se de repente aparece um apresentador desbocado, por exemplo, xingando deus, a política e o mundo, e vai haver ibope, vai haver audiência. Se essa pessoa for para um blog, principalmente se tiver saído de um meio televisivo, vai ter audiência também.”

Sim, pode vir a ter audiência sim. Há pesquisas nacionais e internacionais que mostram que personas mais conhecidas tendem a ter mais visibilidade ainda em blogs do que anônimos nas mesmas circunstâncias. Mas no seu exemplo, acho que incidem ainda outros aspectos, como o fator polêmica, o fator conservadorismo, etc…
“Será que o público busca só credibilidade ou busca o que lhe agrada, mesmo com credibilidade duvidosa? Se a segunda opção for verdadeira, como estabelever pesquisas de opinião que pretendam medir a credibilidade  ou tratar dela de maneira mais ampla (quando passa por critérios particulares e não universais)?”

Sinceramente, não acho que o público busque credibilidade. Penso que ele busque informações que possa confiar, que possa tomar como verdadeiras. Se nesta procura, passa-se a gostar do estilo de certo comunicador, a tendência é se convencer com mais facilidade. A identificação atuaria como um catalisador deste processo. O público, em minha hipótese, não se preocupa com credibilidade, mas com veracidade, com confiabilidade. Como se tivéssemos a seguinte operação: você busca informação verdadeira e se percebe em mim algo semelhante, passa a me ter como confiável e a me dar créditos por isso. Aliás, perceba como credibilidade e crédito têm parentescos. Quando acredito em alguém, dou créditos a ele, transfiro reputação, reforço suas credenciais de alguém confiável.

Sobre a sua segunda pergunta, eu precisaria pensar mais. (Mas outros leitores deste blog podem entrar na discussão. Socorram-nos!!!)

“Outro caso: colunistas esportivos. Busca-se o que dá a informação melhor, mesmo que mais seca, ou o que polemiza mais, mesmo que exagere? Tem gente para os dois casos, é claro. Na política a coisa se complica mais: confio mais nesse jornalista porque simpatizo, também, com tal partido do qual ele fala bem, e por isso ele tem “mais credibilidade” para mim? Na religião nem se fala, estamos assistindo os (maus) exemplos.”

Acho que há público para todos os gostos e mau gostos. E a questão da credibilidade em si é mesmo muitíssimo complexa. Não é à toa que se pesquisa, se fala e se busca tanto isso. Qual um santo graal.

(Obrigado, Kreidlow, pela oportunidade do diálogo. Continuemos matutando e ruminando)

2 comentários em “confiança e credibilidade: questões

  1. Ótimos os questionamentos de Rogério. Minha impressão é que afinidade e credibilidade andam de mãos dadas. Uma leva à outra e vice-versa. Em geral acreditamos em quem gostamos, e passamos a gostar das pessoas em quem acreditamos. Embora isso não seja uma regra, claro. Queria colocar outro elemento no debate: a força das estatísticas e das referências. Todo grande mentiroso, aliás, sabe disso: basta citar uns dados de pesquisas de uma instituição conceituada ou pensador reconhecido pra que os argumentos ganhem, pelo menos na aparência, um peso substancial. Jorge Luis Borges brincava muito com isso. Até que ponto os instrumentos da retórica contribuem pra reforçar a credibilidade de uma mensagem? Abs!

  2. Legal desdobrar os questionamentos aqui, Christofoletti. Sigamos fazendo mais disso. Depois da “bronca” da Gislaine (lá nos meus comentários) vou tentar dar um gá novo ao blog, depois de umas semanas improdutivas. Abraço
    Rogério K.

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