wikis e dicionários: não, eu não mudei

Recebi um email que me obriga fazer um anúncio público: não! eu não mudei!
Claro que não vou dizer o santo, mas divido o milagre.
A mensagem em questão é esta:
“…quando fui tua aluna, você implicava até com o Aurélio [o dicionário] que é a nossa ‘última palavra’. Já faz tempo, tenho visto você credibilizando a wiki [pedia] que é construção coletiva…. Você está mudando mesmo, hein? Eu fui fazer citações no meu pré-projeto do trabalho de final de curso usando a wiki e já levei pau. Me falaram muitchas e a nota já desceu. Eu gosto dela, mas parece que o povo da academia nao…”
Como já disse aquele rapaz dos becos de Londres, vamos por partes:
1. Implico sim quando o aluno entrega um trabalho ou texto que começa com definição de dicionário. Quando o trabalho é do tipo monográfico ou científico, pior ainda. Pior porque geralmente o aluno usa a definição de dicionário para fechar a questão, sintetizar o que quis dizer, balizar com o pai-dos-burros. Dicionário é ponto de partida, e um trabalho científico deve trazer o diálogo entre autores, com diferentes visões. O sentido não é fechar, mas abrir para fechar. Se o dicionário resolvesse tudo, não precisaríamos dos outros milhões de livros que existem, tentando explicar as coisas…
2. Usar a wikipédia é diferente, embora muita gente faça o mesmo acima. Usa-se a wikipédia e fecha-se a questão. Enciclopédias, como dicionários, são pontos de partida. Por isso, iniciam a busca, não a finalizam. Pode-se usar dicionários ou enciclopédias, mas o que não se pode é ficar restrito a uma ou duas referências apenas. Taí o perigo.
3. Tenho falado da wikipédia porque ela é um fenômeno cada vez mais crescente e influente na web, é irreversível e incontornável. Não podemos fechar os olhos diante dela, até porque a sua própria existência tem influenciado a existência de outras enciclopédias.
4. Tenho falado da wikipédia também porque precisei estudá-la junto com minha ex-orientanda de mestrado, cujo trabalho foi defendido hoje sobre a confiabilidade (ou não) dessa enciclopédia como referência de pesquisas escolares.
5. A pesquisa em questão ouviu alunos e professores sobre o uso, a aceitação e a confiabilidade dessa fonte como referência para as pesquisas de universitários. O processo de credibilização, de reputação está em franco desenvolvimento, e por isso, é muito possível que alguns (ou muitos) professores não aceitem a wikipedia em trabalhos. Mesmo os que aceitam isso, não podem tolerar que só uma referência sirva de base de sustentação de textos e pesquisas.
Será que me fiz entender?

Um comentário em “wikis e dicionários: não, eu não mudei

  1. Rogério,
    este teu post está para mim como aquela sensação que você tem quando alguém fala de algo que você percebe de forma muito semelhante e que talvez seja gratificante porque é um encontro de supostas compreensões ainda difícies de encontrar no seu meio. Eita!!!!!

    Bem, quanto à Wikipédia, que entendo como a expressão do sucesso das plataformas sociais Wiki, acho que estas explicações ainda serão necessárias por algum tempo. Discussão válida e frutífera. Quanto aos dicionários…
    Ah, se eu for falar vou ter que falar muito. Sinto que tenho dificuldades em ser econômico com certas coisas.

    Abraços

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