enchentes em itajaí (14)

O medo voltou ontem à noite. Choveu forte em Itajaí por volta das 22 horas.

No Twitter, amigos de Florianópolis e Blumenau relatavam que também despencava o céu por aquelas cidades. A saraivada de 40 minutos deixou a todos em estado de alerta.

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Minha esposa chegou a monitorar o nível da enxurrada na nossa rua. Sileciosamente, passei a pensar num plano de fuga. Uma amiga ligou oferecendo pouso caso a água ameaçasse entrar.

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Diferente da semana passada, desta vez, senti medo. Um medo de que tudo se repetisse.

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Brinquei dizendo que estava traumatizado, e talvez seja alguma verdade. O fato é que não estou conseguindo muito me distanciar desses acontecimentos todos para fazer uma análise mais fria, mais objetiva. Admiro os colegas que estão formulando hipóteses sobre o uso dos microblogs nessa crise, os que estão avaliando o papel da mídia, etc… Eu, que estou acostumado a ler a mídia por dever profissional, confesso que estou com dificuldades tremendas de tecer juízos acerca disso.

Já disse aqui. Posso dizer que não fui afetado diretamente pelas cheias, já que meus prejuízos pessoais são ínfimos perto do estrago que vejo ao redor. Mas é uma confusão de sentimentos, um redemoinho selvagem, que gira na minha cabeça. Vi cenas muito tristes, comoventes mesmo. Mas meus olhos ainda estão secos. De forma dramática, já desejei que estivessem cegos. Besteira. É preciso ver para tentar entender.

O que nos faz demasiados humanos?

Esses dias que nos separam do fatídico domingo, 23, esmaecem um pouco as imagens. O que me fica muito presente ainda são impressões. Aliás, esses meus relatos aqui, são deliberadamente impressionistas. Testemunhais.

Ficam-me as impressões. Um cheiro de chorume que persiste na cidade. Um amarelo barrento que se tatuou nas paredes quando a água e o lodo baixaram. As montanhas – sem exagero – de móveis imprestáveis, descartados por quase todas as residências. O choro incontido das pessoas diante da TV, a perplexidade de todos, até os mais velhos.

Fica também uma pergunta: o que é que nos faz humanos, então? São as coisas que acumulamos? São as memórias e histórias que imprimimos nas coisas que guardamos? São nossos medos e os restos dos sonhos, levados pela enxurrada? Não sei. Sinceramente, não sei.

A solidariedade, a amizade, a doação, a dedicação ao outro também me deixam impressionado. Nunca vi uma corrente de ajuda tão forte, tão extensa, tão contagiante. As pessoas doam coisas, oferecem-se como voluntárias nos trabalhos de triagem e encaminhamento dos donativos. As pessoas ofertam suas próprias casas a desconhecidos. Comovem-se com um drama que chacoalhou com a vida de todos. Um amigo meu escreveu dizendo que talvez a solidariedade seja a mais nobre das nossas virtudes. Eu emendei afirmando que ela nos fazia mais humanos.

Nossa vulnerabilidade tornou-se nossa força. A certeza de que podemos perecer num estalar de dedos nos uniu. Damos as mãos, oferecemos ajuda, mas era preciso passar por tudo isso para compreender essa lição?

Boas notícias

Uma amiga ligou ontem, anunciando que o Sindicato dos Professores de Itajaí e região conseguiu uma verba junto a uma rede de solidariedade da CUT para dar assistência aos educadores atingidos pelas cheias. O montante foi obtido numa “vaquinha” feita por outros sindicatos, e o dinheiro será usado para a compra de cestas básicas e… livros! Sim, tem professor que perdeu tudo, inclusive seus materiais de trabalho. Conheço um que perdeu cerca de dois mil volumes, inclusive obras raras e fora de catálogo. Outro salvou apenas 40 livros de seus quase 800!

A iniciativa do Sinpro quer resgatar a dignidade dos colegas atingidos, cujas vidas foram arrastadas pelas chuvas. Para professores, livros não são um luxo, são seus instrumentos de trabalho, estão diretamente associados ao seu bom desempenho profissional.

(Nos próximos dias, o sindicato fará levantamento dos afetados e dará os principais encaminhamentos. Pedidos de ajuda podem ser feitos diretamente neste email)

Outra boa notícia é que a rede social virtual Arca de Noé, criada em apoio às vítimas das cheias, vai continuar trabalhando nas próximas semanas. A rede se constituiu numa forma alternativa de comunicação, tentando ligar desabrigados, voluntários e autoridades em torno do salvamento e atendimento aos flagelados.

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3 comentários em “enchentes em itajaí (14)”

  1. Rogério, é impossível você ter qualquer distanciamento neste contexto, cara. Deixe as análises para aqueles que estamos estarrecidos apenas à distância. Estamos atentos e à disposição por aqui. Força para reconstruir o “mundo real”. Abraço, Carlos

  2. Reconstruir, mas c/ muita consciencia e cautela, conforme dados oficiais esta não foi a pior delas no Estado, em 1974 em Tubarão houve uma que gerou 199 mortos e 65 mil desagrigados, o rio teria subido 10,22 mts. Em 1983 e 1984, 140 pessoas morreram em todo o Estado nessas cheias, em 1983 tb em Blumenau, o rio Itajaí subiu 15,34 mts deixando 197 mil pessoas desabrigadas c/ 8 mortos, no ano seguinte este mesmo rio subiu 15,46, deixando um saldo de 155 mil desabrigados e 8 mortos, outras fortes chuvas em 1995 em Floripa, mais 69 mortos, furação Catarina em 2004 mais mortes e desabrigados e agora esta última de 2008 c/ mortes e desabrigados ainda não computadas oficialmente. Pergunto, QUANTOS MAIS mortos irão ser necessários para acordarem e tomarem as providências cabíveis nessas e outras mais regiões, não é de hoje que o Criador(Eu creio) atraves da mamãe Natureza vem nos mostrando que nem todos os lugares podem ser invadidos, habitados, tipo, morros e suas encostas, próximos aos rios…, como tb sofrerem degradações pelos Homens, queira Deus que depois desta tragédia despertem e reflitam melhor sobre estes locais, se vale mesmo ainda reconstruir e permanecerem neles!?… Que estes exemplos reais e trágicos sirva de alerta aos demais em todo o Planeta!!!

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