Marcado: enchentes em sc

cheias em sc: tentando voltar à normalidade…

Estive ontem em Itajaí junto com um grupo de voluntários, e a sensação que tivemos é de que a cidade não caiu de joelhos diante da enchente deste ano. É verdade que muitos bairros foram afetados, que houve perdas materiais terríveis, que o medo e o desespero tomou conta de muitos, mas pelo que pudemos perceber, desta vez, a situação esteve mais sob controle.

Diferente de 2008 que havia perplexidade no olhar das pessoas e pânico no ar, ontem, nos abrigos, até sobrava voluntários. Fiquei pensando nas razões disso. Conversei com diversas pessoas tentando entender, e cheguei à conclusão de que uma soma de fatores permitiram isso: a cheia não foi uma surpresa total, já que os meios de comunicação e os governos locais alardeavam a possibilidade; a população em áreas de risco resistiu menos para deixar suas casas e seguir para os abrigos públicos; a defesa civil e órgãos consorciados tinham mais recursos, gente e know how; algumas obras de retificação de cursos de rio e de aumento de calado no Porto de Itajaí facilitaram a vazão do alto volume de água que descia do Alto e Médio Vale do Itajaí; circulou mais informação por canais tradicionais e alternativos, como as redes sociais, ajudando no quer fosse preciso…

Claro que deu uma tristeza imensa ver parte da cidade debaixo d’água. Recomeçar é tão difícil. Mas o sol que brilhou durante todo o dia de ontem trouxe um novo astral e disposição renovada para voltar a lutar.

 

Anúncios

em caso de enchente, como agir?

1. Não espere as águas chegarem até sua rua. Observe o nível do local e as ruas vizinhas. Se o volume de água estiver subindo muito rápido, deixe a residência enquanto houver segurança.

2. Se mora em prédios com garagens no subsolo, retire o veículo antes que ele possa ficar retido.

3. Coloque no veículo os familiares, roupas secas, sacos plásticos, alimentos secos (pães, bolachas, enlatados) e água potável. Economize esses itens, pois é possível que o comércio local esteja fechado e o abastecimento interrompido.

4. Evite andar a pé por trechos muito alagados, com água turva e barrenta. Ela costuma ser agente de contágio de doenças. Buracos submersos também podem surpreender.

5. Não anda a pé por trechos com correnteza. Enxurradas de 20 centímetros de altura podem provocar quedas e arrastar pessoas.

6. Se for deixar animais domésticos em casa, não os deixe presos em correntes ou coleiras. Eles podem morrer afogados. Melhor soltá-los ou, se possível, trazê-los consigo.

7. Recarregue celulares e notebooks. Pode faltar energia elétrica. Compre pilhas e baterias adicionais para rádios e lanternas.

8. Coloque documentos e objetos de valor em um saco plástico bem fechado e em local protegido. Não desgrude disso. Em casos de desastres, com documentos em mãos, é sempre mais fácil solicitar indenizações, seguros, etc…

9. No caso de casas construídas em áreas de risco de deslizamento, avise os vizinhos sobre o perigo. Contate também imediatamente o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil, informando áreas afetadas pelas águas.

10. Convença as pessoas que moram nas áreas de risco a saírem de casa durante as chuvas. Caso necessite de resgate ou auxílio, ligue para 199.

acompanhando as cheias em sc por tv e rádio

Informação ajuda a salvar vidas.
Ainda mais em situações tão emergenciais quanto as do momento, quando o Vale do Itajaí – em Santa Catarina – sofre com as fortes chuvas e enchentes.
Neste momento, pelas redes sociais, muita gente está repassando informações. Emissoras de rádio e TV de diversas cidades também estão operando de forma ininterrupta. Acesse!

Em Brusque: http://www.radiocidadeam.com.br/aovivo

Em Itajaí: http://www.radioclubebandeirantes.com.br/site

Em Balneário Camboriú: http://tunein.com/radio/Radio-Menina-1005-s100229/

Em Blumenau: http://www.tvgalega.com.br e Rádio Nereu Ramos (http://bit.ly/83DMNe)

 

chuvas no vale do itajaí e previsão de enchentes

Todas as chuvas do mundo desabam sobre Santa Catarina desde o mês passado. Em agosto, não chovia tanto há mais de uma década. Em Florianópolis, as precipitações foram o triplo do que historicamente se tem no período.

Setembro entrou com tudo. Muito volume de água nesta semana. No momento, cidades do Vale do Itajaí como Blumenau, Rio do Sul, Ilhota, Navegantes e Itajaí estão em alerta. Há pouco, o rio Itajaí-Açu chegou a 8,54 metros em Blumenau, o que já aciona todos os sinais vermelhos. É uma situação delicada, pois os transtornos são muitos: alagamentos, interrupção de abastecimento de água, suspensão de aulas, deslizamentos…

As redes sociais podem ajudar. Para saber mais e mandar informações, siga no Twitter:

@arcanoe

@raciel

@defesacivilsc

@defesacivilITJ

@clicrbsitajai

@fabrito

Cuidado com o alarme. Retransmita apenas informações confiáveis e responsáveis.

 

dois anos da tragédia hoje

Chove sem parar em Florianópolis, mas não é de assustar. Diferente de há dois anos, quando sofremos com as maiores enchentes da história do Vale do Itajaí. Aliás, hoje, faz exatamente dois anos do dia em que várias cidades foram tomadas por uma água barrenta, pútrida, perigosa e mortífera.

Dias de intensa chuva, solo encharcado, maré alta, tubulações entupidas, e outros fatores combinados contribuíram para que as águas não escoassem para o mar, alagando mais de 80% de Itajaí. Além dos milhões de reais de prejuízos, tivemos dezenas de milhares de pessoas desabrigadas e desalojadas, 135 mortos e incontáveis recordações de dias muito, mas muito difíceis mesmo.

Estive entre os desalojados, registrei parte desta história e também me juntei aos voluntários que acudiam a cidade submersa. A Arca de Noé, uma rede social na internet, surgiu e ajudou no que pôde. Outros grupos se articularam e a cidade foi se reerguendo. O mesmo se deu em Blumenau, em Ilhota e outros municípios afetados.

Diferente do que pensávamos nos piores momentos, o mundo não acabou. Diferente do que pensávamos nos momentos mais esperançosos, não vieram os recursos para a reconstrução da região e para o fortalecimento de um sistema de defesa civil. Como nos fizeram acreditar no meio da tormenta, a vida se refez, as construções foram reerguidas, os laços de amizade se fortaleceram. Mas as memórias, essas ainda não dissiparam…

uma arca sem comandante: um desafio

Em novembro de 20o8, cidades do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, sofriam com enchentes, talvez as maiores da história naquela região. Chovia há dias sem parar e o solo encharcado não absorvia mais nada. A oscilação das marés impedia a vazão dos rios. A ocupação desordenada de morros e encostas e a impermeabilização dos terrenos foram outros componentes que ajudaram a produzir uma catástrofe que matou 135 pessoas.

Em Blumenau, um punhado de jornalistas, blogueiros e cidadãos comuns criaram o Alles Blau, um blog que conectou a cidade ao mundo, noticiando o que acontecia por lá quando os veículos convencionais de informação convulsionavam. Em Itajaí, um homem articulado e com um poder incrível de aglutinação criou uma rede social na internet que tinha como objetivo não apenas difundir informações, mas mobilizar a sociedade local para criar um efetivo sistema de defesa civil. O idealizador desta iniciativa é Raciel Gonçalves Jr., que tem um largo histórico de trabalho voluntário e de atuação em órgãos do poder público. A rede social era a Arca de Noé, evidente metáfora para um ponto de salvação diante de um dilúvio como o que testemunhávamos.

Desde o início, Raciel foi incansável: motivador, incentivador, concentrado e agregador. Criou para si um avatar, O Capitão, que moderava a rede, que a expandia e que convidava a tantos para não só subir ao convés, mas para integrar também a cabine de comando. Foi um belo trabalho!

Acabo de saber que O Capitão se demitiu. Não por cansaço ou por frustração. Mas porque uma rede social precisa ser descentralizada, precisa ter muitos nós operantes e planejantes, e porque o Raciel está assumindo novos desafios. A Arca de Noé está sem comandante, mas não está à deriva. Há muita gente por lá ainda e a força e a capacidade de trabalho e engajamento deles não há de fazer a arca parar. Modestamente, estive no convés algumas vezes, mas minha volta a Florianópolis naturalmente me afastou de Itajaí. Eu ainda sigo a Arca de Noé, sigo amigos e colegas em seus blogs e sites, e ainda tenho raízes na cidade-peixeira. Não poderia deixar de registrar minha admiração pelo trabalho de Raciel – a quem sequer conheço pessoalmente! – e não poderia deixar de torcer pela Arca. Que ela encontre um mar calmo, bons ventos e muitos entardeceres maravilhosos!

enchentes em sc: um ano

Um ano atrás, exatamente, eu passava por uma experiência que jamais imaginei enfrentar. Eu e mais de um milhão de pessoas fomos atingidos pelas agora tão trágicas e famosas cheias no Vale do Itajaí. O drama, todos puderam acompanhar pela TV e pelos demais meios de comunicação. Foram dias de intenso sofrimento, de grande angústia, de total destruição, de profundo aprendizado.

Cheguei a postar aqui alguns relatos do que vi e senti à época. A água barrenta em todos os lugares, as marcas indeléveis nas paredes após os rios baixarem, as muitas pilhas de móveis destruídos e colocados nas calçados, à espera do recolhimento para o lixo. Eu, minha esposa e filho ficamos quatro dias fora de casa, alojados num apartamento de uma família amiga. Quarto andar, centro de Itajaí. Apartamento de dois dormitórios que acabou abrigando onze pessoas, com escassez de água, dificuldade de abastecimento de alimentos, medo e tristeza por ver tanta desolação espalhada.

Quando as águas baixaram, voltamos para a casa e havia poucos danos. Minha rua não ficou totalmente alagada. Em casa mesmo, o limite máximo da água riscou 40 cm nas paredes. Perdemos poucas coisas, mas algumas muito preciosas como fotografias, e o mais importante: o sossego. Depois que se passa por um transtorno desses, não se dorme mais tranquilo com uma chuva forte. Os boletins da meteorologia alcançam outra importância, e o apego ao que é realmente essencial fica muito nítido, muito claro.

Uma situação dessas revela o melhor e o pior das pessoas. Vemos a solidariedade e a rapina de doações; vemos a fraternidade verdadeira e o egoísmo; convivemos com o compartilhamento de coisas e sentimentos, e com o individualismo. Para mim, mais difícil que enfrentar os dias fora de casa, torcendo pelo menor dano, foi viver as semanas seguintes, quando a cidade tentava se reerguer de uma queda tão enfática. As pessoas se olhavam fundo nos supermercados. Comungavam um silêncio cúmplice de dor e de resistência. Alimentavam-se de uma esperança rediviva. Reinventavam-se do nada, como se conseguissem se erguer das águas pelos próprios cabelos…

Sobreviver é mais importante que viver.

Para marcar este primeiro ano da pior enchente do estado – quando morreram 135 pessoas! -, o ClicRBS produziu um excelente infográfico, com um farto material e uma dor infinita. As imagens são dramáticas, as histórias, pungentes. A emoção é absoluta. Lembrar é mesmo uma forma de se fortalecer, mesmo quando o que sobra são poucos cacos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ventou, choveu, destelhou, destruiu

A noite passada foi mesmo de pânico, de medo intenso. Ventania, chuva rasgante e raios em toda a parte. Confesso que ainda não tinha visto nada igual. Sabe aquela tempestade em que você imagina São Pedro atirando os raios como lanças? Sabe o temporal coalhado de raios e trovões que estremecem os móveis e as paredes? Pois é, descobri que pior que os estrondos é o raio em total silêncio, precedido e seguido por outros tantos. A noite vira dia, e você fica esperando o rugir, mas ele não vem. A expectativa te mata de tensão…

A Central de Meteorologia da RBS acaba de confirmar que um tornado passou pelo oeste catarinense, sobre a cidade de Guaraciaba, o que matou quatro pessoas e feriu dezenas de outras. Lembro do Catarina, que lambeu meu apartamento em Itapema; lembro das enchentes de novembro passado, que tomaram as ruas e invadiram minha casa; agora, vem esse temporal insano, que deixa a todos alarmados por aqui… Parece marcação… Meu amigo Frank Maia é quem diz…

chove, alaga e ninguém dá nada!

Fortes e constantes chuvas estão assustando os habitantes do Vale do Itajaí desde o final da tarde de quarta. Em Itajaí, chove sem parar há mais de seis horas. Na Univali, por volta das 21 horas, as coordenações dos cursos liberaram os alunos antes da hora por recomendação dos Bombeiros e da Defesa Civil.

Saí da Univali por volta das 21h45 e a água já acumulava em diversos pontos. Em muitas ruas do centro, havia pontos de alagamento e filas no trânsito. Um princípio de caos entre as pessoas assustadas, nervosismo e apreensão. Afinal, há meses, já se fala nos meios de comunicação que as tubulações da cidade estão todas comprometidas, o que pode facilitar alagamentos. Se a água não consegue escoar, ela acumula. (Para saber mais disso, veja a reportagem multimídia que o Monitor de Mídia publicou recentemente).

Até agora, apesar da correria e dos ocorridos, o ItajaíNews e o ItajaíOnline não deram uma linha sobre a coisa. Isso é que é jornalismo!!! Parabéns!

virou uma questão moral

A denúncia pela TV de que voluntários estariam furtando donativos dos flagelados das enchentes em Blumenau foi aterradora. Um escândalo mesmo. Vergonhoso, indignante, preocupante. Repercute em tudo o que é lugar e o constrangimento é indisfarçável.

O que era um fato coberto por números expressivos e histórias trágicas e comoventes tornou-se um episódio coberto por questões morais. O que está mais aflorado agora é a discussão sobre a conduta das pessoas, sua honestidade, a sinceridade com a qual se disponibilizam como voluntários, o caráter que lhes sustenta a alma. Fala-se de mau exemplo, de minoria de aproveitadores, de falta de educação. Mas qualquer discussão sobre a conduta humana é complexa demais para ser resumida a um punhado de palavras.

Claro que é odioso ver pessoas rapinando como abutres roupas e alimentos, muitas vezes cedidos por quem pouco tem. Claro que gera uma indignação mortal ao assistirmos o escárnio, o prevalecimento e o oportunismo dos chacais, fardados ou à paisana.

Mas é preciso lembrar que uma tragédia como a que se abateu sobre os catarinenses revela o que há de melhor e pior no ser humano. Não é fatalismo da minha parte, nem ceticismo. É só a preocupação de mais um diante de sinais quase inequívocos de nossa falência moral, do ocaso dos valores, da frouxidão das virtudes. Fazer o bem sem ver a quem tornou-se um ditado bonitinho, clichê desgastado que até rima. Doar-se, dar-se, oferecer-se e resistir às tentações que a vida nos impõe a toda hora é que é difícil.

a tragédia e ilhota

O jornalista Dauro Veras foi a Ilhota, em plena Linha Vermelha, para uma reportagem sobre a tragédia no Morro do Baú. Voltou a Florianópolis com um punhado de imagens aterradoras e muitas histórias sobre famílias e sonhos destruídos. Ele mesmo narra…

Cheguei ontem de uma viagem de trabalho a Ilhota e Blumenau, onde fui levantar informações pra uma reportagem sobre a reconstrução depois da enxurrada. Foram dois dias impactantes, não só pelas cenas de destruição que pude presenciar, como pelo trauma emocional das pessoas com quem tive contato. Ouvi histórias de perdas terríveis que ainda estão sendo assimiladas com dificuldade (atenção psicólogos, Santa Catarina precisa de voluntários!). Também pude observar belos exemplos de força de caráter, solidariedade e coragem diante das adversidades.
Veja mais aqui

voluntários minguam; a cidade quer retomar a rotina

Dezoito dias depois da enchente que alagou o Vale do Itajaí, já é bem visível um impasse em Itajaí: na medida em que a cidade tenta retomar a rotina, cai o número de voluntários que se dedicam à rede de apoio às vítimas da tragédia. O impasse é natural, já que o momento é outro.

No Centro de Eventos da Marejada, a movimentação de populares é menos intensa, e a coordenação local chega a dispensar os serviços dos poucos voluntários por volta das 21h30. É verdade também que a quantidade de donativos vem diminuindo gradativamente nesses dias, mas ainda há um volume expressivo de suprimentos que precisam ser triados, separados e distribuídos. Nos primeiros dias do esforço  coletvo, centenas de pessoas se revezavam no recebimento de alimentos, materiais de higiene e limpeza e roupas, e outras centenas carregavam os caminhões com destino aos flagelados. O panorama agora é outro.

A cidade tenta restabelecer o seu ritmo cotidiano. As chuvas pararam, o nível dos rios já pode ser considerado normalizado. A grande maioria dos 78 mil desabrigados ou desalojados já retornou as suas casas ou cercanias. Os serviços públicos foram quase que completamente restabelecidos.

Preocupados com a temporada de verão, o governo estadual, a imprensa e o empresariado local têm batido na tecla de que o estado já está pronto para receber os turistas. Ágil, o governo colocou esta semana no ar um site que pretende não apenas promover os destinos do estado, mas oferecer também informações atualizadas sobre condições de estrada e serviços, meteorologia, condições de balneabilidade das praias e outros dados que interessam a todos, não apenas aos turistas. A iniciativa é inteligente, mas ainda é difícil saber se os turistas visitarão o estado após o susto do final de novembro.

De qualquer forma, Santa Catarina precisa tanto dos turistas de outros estados quanto dos voluntários locais. Dos primeiros, depende a infra-estrutura de diversão, gastronômica e hoteleira. Dependem os empregos no setor, e uma parcela importante no mix da receita econômica. Dos voluntários, se espera a boa vontade de sempre, a solidariedade, a abnegação e dedicação sem preço e com um valor inestimável.

uma rede social contra as enchentes de sc

Em 2005, na passagem do furacão Katrina pela Flórida, diversas redes sociais emergiram, informando do epicentro dos acontecimentos tudo o que a grande mídia tinha dificuldades para mostrar. À época, as redes sociais também prestaram serviços, estabelecendo contatos entre diversos atores de forma a fazer chegar donativos e suprimentos o mais rapidamente aos atingidos.

Em Santa Catarina, em novembro deste ano, por conta das enchentes no Vale do Itajaí, blogs, wikis e outras redes sociais também jogaram um papel importante. Em questão de horas, blogs como o Alles Blau informavam como estava a situação em Blumenau, e em Itajaí, o Desabrigados reunia as informações sobre quem tinha deixado suas casas, procurava amparo e parentes perdidos. Na mesma cidade, a Arca de Noé, outra rede social, unia esforços dispersos para informar e prestar serviços.

Nesta rápida entrevista, o criador da Arca de Noé – o ex-secretário municipal da Criança e Adolescente Raciel Gonçalves Júnior – relata a experiência e a importância das redes sociais em momentos cruciais como os vividos no final do mês passado.

O projeto Arca de Noé foi uma das mais positivas iniciativas online em meio à tragédia em SC. Como ele começou? Quem teve a idéia e como ele foi concretizado?
Raciel Gonçalves Jr. –
Sábado (22-nov), às 23h42m28s, meu irmão Rinaldo que mora no Loteamento Santa Regina, Bairro Espinheiros, me chamou no MSN (olha a tecnologia aí), preocupado com a situação. Ele vinha monitorando a subida das águas (mesmo tendo a informação de que aquela área não era sujeita a enchente). Às águas do Rio Itajaí-Açú naquele momento estavam a 100 metros do loteamento. Ele registra que a sua filha tinha chegado do Bairro São Vicente e que tinha passado de moto – sem problemas. Registra que a casa do prefeito eleito Jandir Bellini estava debaixo d’água. Ele tinha contatado o ex-marido da nossa irmã (contador da Secretária de Desenvolvimento Regional de Itajaí) que o avisou que realmente as coisas começavam a preocupar a Defesa Civil Estadual e que a TV Brasil Esperança já estava transmitindo ao vivo as primeiras notícias e pedidos de doações para as primeiras famílias alojadas no CAIC. Assisti a uma conversa ao vivo e por telefone do apresentador Denísio Dolásio Baixo da TV Brasil Esperança com o Márcio Xavier, empresário do ramo imobiliário aqui de Itajaí (somos amigos) e imediatamente a minha reação foi de pegar o meu notebook, roupas e produtos de higiene que estavam solicitando como doação e solicitei ao namorado da minha filha que me levasse para o posto de voluntários que o Márcio estava montando, já antevendo que a noite ia ser longa.

No caminho de casa até o centro (a sede da Imobiliária Xavier é ao lado da Igrejinha, ali em frente à Delegacia da Receita Federal), me veio à mente a lembrança de minha mãe que em noites assim – de muitas chuvas e trovoadas, nos reunia na sala (somo em oitos filhos), e para nos acalmar e para que não sentíssemos medo, lia a Bíblia… Escutei a história bíblica de Noé muitas vezes… Quanto à idéia e concretização, nada foi planejado, nasceu naturalmente… Eu já havia respondido a um convite da Revista InfoExame para entrar na rede que eles haviam criado no NING. Assim, conheci o NING e já havia criado lá a REDE PIÁ (que ainda mantenho para discutir políticas públicas de atendimento à criança e ao adolescente). Incialmente, registrei a Rede Social Arca de Noé apenas para manter um registro de nossos contatos, pendências, e pedidos de ajuda e de doações…

Viramos a madrugada de sábado (22) para domingo, articulando várias ações efetivas. Eu tive um terminal de contêineres em Itajaí (Sulpartner Contêineres Ltda), e sempre vi ali uma possibilidade de com aquelas “caixinhas amigas” ajudar os outros em caso de fatalidades… Eles favorecem a logística para armazenar mercadorias, transportar e acolher pessoas, podem ser posicionados e arrumados de muitas maneiras… A ONU monta verdadeiras cidades com eles… As prefeituras de várias cidades assoladas regularmente por furacões na costa americana e no caribe, se utilizam dessas estruturas para proteger pessoas em casos de calamidades e existem empresas que exploram esse nicho de mercado.

Esta é a primeira vez que você usa redes sociais na internet para a mobilização social? Que outras experiências anteriores já teve?

Raciel Gonçalves Jr. – Eu fui um dos dez primeiros clientes da Melim Informática que introduziu a internet em Itajaí. Se não me engano, fui a terceira pessoa a arquivar em HTML puro uma página pessoal. “Nos Bares da Vida” era um diário das nossas andanças na boêmia… No terceiro setor, sou webmaster para a Associação Passos de Integração (também um dos fundadores, diretor e ex-presidente). Mais recentemente, criei e mantenho o Adoção Brasil . É a primeira vez que administro um número tão grande de membros que se registram (538*) e visitam (9.500*) um domínio mantido por mim – 91.193 page views. (*Sitemeter. Dados de hoje (9), 14:00h. Contando desde 27/11).

Aliás, por que lançar mão desses recursos tecnológicos nesse momento?
Raciel Gonçalves Jr. –
Trata-se de um recurso que favorece a interação e permite que rapidamente se disponibilize às pessoas com acesso à internet, mesmo as que apenas têm um domínio básico, acesso fácil e independente (obviamente que limitado a um padrão previamente configurado), mas com alto nível de qualidade e que está disponível 24 horas, ou seja, se você perdeu alguma informação, na web certamente ela estará disponível e atualizada, nem mesmo o rádio e a TV conseguem tanta interatividade.

Como você situaria esses esforços online em comparativo com os dispendidos pessoalmente?
Raciel Gonçalves Jr. – No meu caso particular, e tenho certeza que para muitas outras pessoas, a sensação é a mesma, os nossos esforços físicos foram tão extenuantes quanto o daqueles que foram observados presencialmente. Na primeira semana, eu não dormi mais do que 2 horas por dia, nos recolhiamos, mas a todo momento éramos acordados via fone e também porque não conseguíamos dormir. Você fecha os olhos e tenta relaxar, o cérebro dorme, mas é um sono cortado, agitado, que incomoda e que nos faz levantar e continuar a trabalhar. Os casos em que não conseguimos uma solução efetiva, apenas ligamos para a pessoa e a confortamos, solicitando que se mantivessem calmos porque tinha alguém que havia escutado e que estava imbuído de chegar até eles. Em relação a outros, nos foi possível assegurar que estavam bem e que podiam aguardar por ações mais organizadas da Defesa Civil. Para outros a Rede Social Arca de Noé articulou e disponibilizou caminhões, contêineres vazios, barcos, lanchas, donativos e voluntários. Também observamos que, aos poucos, muitos profissionais da mídia passaram a buscar aqui os informes e orientações para seus ouvintes. A Arca de Noé também disponibilizou rapidamente Formulários Eletrônicos e Planilhas Eletrônicas que facilitaram o trabalho da Defesa Civil na organização de uma listagem de pessoas desaparecidas e encontradas, serviço esse, realizado em parceria com o Instituto Areté, que é uma proposta nova, ainda em gestação, que chega para trabalhar pelo fortalecimento das políticas públicas de atendimento à criança e ao adolescente.

Que resultados esperava alcançar com a Arca de Noé? Que resultados alcançou até agora?
Raciel Gonçalves Jr. – Inicialmente, só visamos disponibilizar uma ferramenta acessível que favorecesse a mobilização e articulação para ações efetivas. Agora, temos recebido manifestações de várias partes do Brasil que estão nos animando a continuar mobilizando e articulando ações visando agora trabalhar permanentemente pelo fortalecimento da Defesa Civil em nossa região. Em números auditados pelo Sitemeter , nós alcançamos 9.500 visitas e 91.193 page views. Os resultados que mais interessam não temos como mensurar, mas as referências positivas a nossa iniciativa, em jornais de circulaçao nacional (Folha online, Estadão online, blogs, etc.) e as 2.160 referências ao nosso domínio no Google nos asseguram que a iniciativa foi exitosa.

Qual o futuro da Arca de Noé?
Raciel Gonçalves Jr. – A nossa expectativa é de que em terra, ela sirva de QG (quartel general) para os importantes desafios que teremos pela frente, nos somando as iniciativas que estão surgindo e que visam a construir uma Defesa Civil forte, aparelhada e treinada, mobilizada e articulada, enfim, viva!

as coisas vão se normalizando

Este blog mudou bastante a sua rotina nas últimas três semanas.

Em 18 de novembro, eu deixava um post em que prometia “na medida do possível” contar aqui e no Twitter o que estava acontecendo de mais interessante no 6º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo. Pois é, não deu. Em São Bernardo do Campo, tive diversos problemas de conexão, além da correria habitual desses eventos curtos em que a gente revê muitos amigos, quer acompanhar todos em suas programações e aí falta tempo até pro banho…

Voltei de São Paulo com a cabeça em Santa Catarina, afinal a chuvarada que iria se transformar num dilúvio já tinha começado. Relatos de casa davam conta de que as aulas haviam sido canceladas e que não havia previsão de tempo firme. Cheguei no sábado, 22, e no domingo aconteceu a enchente. Deixei minha casa por quatro dias e a vida online ficou mais à deriva ainda.

Só consegui consultar caixa postal, feeds e blog no dia 25, quando escrevi um longo post sobre as enchentes no estado. Primeiro de forma intuitiva, usei este espaço para organizar minhas idéias e meus sentimentos sobre aquilo que vivíamos. Depois, percebi que além disso, o blog serviria para avisar amigos da situação por aqui e para dar relatos deliberadamente impressionistas sobre o evento.

De forma surpreendente, as visitas a este espaço explodiram. Não que eu não saiba o quanto a tragédia tenha atraído a atenção e a curiosidade das pessoas. Mas não imaginava que um simples blog como este alcançasse a visibilidade que conseguiu nesses dias, chegando a um pico de 2146 visitas no dia 26 de novembro, um recorde para este espaço. Em média, temos 200 e poucas visitas diárias…

De lá pra cá, as coisas vêm se normalizando. A vida lá fora mostra isso, mas nossas estatísticas também, veja abaixo.

estatsss

A queda vertiginosa dos acessos aponta para o gradativo desinteresse das pessoas em ler sobre a tragédia catarinense, sobre o desastre que vitimou – pelo menos – 120 pessoas, desabrigando e desalojando outras 78 mil. Melhor assim. Que as pessoas retomem suas vidas, suas rotinas, seus cotidianos. Que Itajaí, Blumenau, Ilhota e outras atingidas passem a se reconstruir, a se reinventar, a se refazer.

Sim, é preciso ir adiante. Tenho dito com alguma insistência que é necessário continuar remando, pois ainda há rio. Que seja assim e que voltemos ao que sempre nos queixamos: a rotina.

monitor relata cobertura da mídia de sc sobre as enchentes

O Monitor de Mídia atualiza hoje seu site, colocando no ar a edição 145, a última deste ano. Os destaques são um relato sobre os meios de comunicação catarinense na cobertura sobre as cheias de novembro, e um amplo levantamento sobre as capas dos jornais brasileiros sobre a vitória de Barack Obama – que toma posse mês que vem.

enchentes em itajaí (14)

O medo voltou ontem à noite. Choveu forte em Itajaí por volta das 22 horas.

No Twitter, amigos de Florianópolis e Blumenau relatavam que também despencava o céu por aquelas cidades. A saraivada de 40 minutos deixou a todos em estado de alerta.

chuv2

Minha esposa chegou a monitorar o nível da enxurrada na nossa rua. Sileciosamente, passei a pensar num plano de fuga. Uma amiga ligou oferecendo pouso caso a água ameaçasse entrar.

chuv1

Diferente da semana passada, desta vez, senti medo. Um medo de que tudo se repetisse.

chuv3

Brinquei dizendo que estava traumatizado, e talvez seja alguma verdade. O fato é que não estou conseguindo muito me distanciar desses acontecimentos todos para fazer uma análise mais fria, mais objetiva. Admiro os colegas que estão formulando hipóteses sobre o uso dos microblogs nessa crise, os que estão avaliando o papel da mídia, etc… Eu, que estou acostumado a ler a mídia por dever profissional, confesso que estou com dificuldades tremendas de tecer juízos acerca disso.

Já disse aqui. Posso dizer que não fui afetado diretamente pelas cheias, já que meus prejuízos pessoais são ínfimos perto do estrago que vejo ao redor. Mas é uma confusão de sentimentos, um redemoinho selvagem, que gira na minha cabeça. Vi cenas muito tristes, comoventes mesmo. Mas meus olhos ainda estão secos. De forma dramática, já desejei que estivessem cegos. Besteira. É preciso ver para tentar entender.

O que nos faz demasiados humanos?

Esses dias que nos separam do fatídico domingo, 23, esmaecem um pouco as imagens. O que me fica muito presente ainda são impressões. Aliás, esses meus relatos aqui, são deliberadamente impressionistas. Testemunhais.

Ficam-me as impressões. Um cheiro de chorume que persiste na cidade. Um amarelo barrento que se tatuou nas paredes quando a água e o lodo baixaram. As montanhas – sem exagero – de móveis imprestáveis, descartados por quase todas as residências. O choro incontido das pessoas diante da TV, a perplexidade de todos, até os mais velhos.

Fica também uma pergunta: o que é que nos faz humanos, então? São as coisas que acumulamos? São as memórias e histórias que imprimimos nas coisas que guardamos? São nossos medos e os restos dos sonhos, levados pela enxurrada? Não sei. Sinceramente, não sei.

A solidariedade, a amizade, a doação, a dedicação ao outro também me deixam impressionado. Nunca vi uma corrente de ajuda tão forte, tão extensa, tão contagiante. As pessoas doam coisas, oferecem-se como voluntárias nos trabalhos de triagem e encaminhamento dos donativos. As pessoas ofertam suas próprias casas a desconhecidos. Comovem-se com um drama que chacoalhou com a vida de todos. Um amigo meu escreveu dizendo que talvez a solidariedade seja a mais nobre das nossas virtudes. Eu emendei afirmando que ela nos fazia mais humanos.

Nossa vulnerabilidade tornou-se nossa força. A certeza de que podemos perecer num estalar de dedos nos uniu. Damos as mãos, oferecemos ajuda, mas era preciso passar por tudo isso para compreender essa lição?

Boas notícias

Uma amiga ligou ontem, anunciando que o Sindicato dos Professores de Itajaí e região conseguiu uma verba junto a uma rede de solidariedade da CUT para dar assistência aos educadores atingidos pelas cheias. O montante foi obtido numa “vaquinha” feita por outros sindicatos, e o dinheiro será usado para a compra de cestas básicas e… livros! Sim, tem professor que perdeu tudo, inclusive seus materiais de trabalho. Conheço um que perdeu cerca de dois mil volumes, inclusive obras raras e fora de catálogo. Outro salvou apenas 40 livros de seus quase 800!

A iniciativa do Sinpro quer resgatar a dignidade dos colegas atingidos, cujas vidas foram arrastadas pelas chuvas. Para professores, livros não são um luxo, são seus instrumentos de trabalho, estão diretamente associados ao seu bom desempenho profissional.

(Nos próximos dias, o sindicato fará levantamento dos afetados e dará os principais encaminhamentos. Pedidos de ajuda podem ser feitos diretamente neste email)

Outra boa notícia é que a rede social virtual Arca de Noé, criada em apoio às vítimas das cheias, vai continuar trabalhando nas próximas semanas. A rede se constituiu numa forma alternativa de comunicação, tentando ligar desabrigados, voluntários e autoridades em torno do salvamento e atendimento aos flagelados.

enchentes em itajaí (10)

Passei a tarde de hoje no Centro de Eventos da Marejada, o pavilhão onde acontece a maior festa da cidade e onde se montou o centro de recebimento e distribuição de donativos. Havia centenas de pessoas por lá, separando alimentos, montando cestas básicas, dobrando e triando roupas. Voluntários, autoridades, militares das mais variadas patentes e corporações, anônimos e famosos da região, todos trabalhavam com rapidez, cadência e vontade.

A todo o momento chegam carretas lotadas, automóveis particulares, caminhões, gente a pé com sacolas. É muito alimento, muitas roupas de uso pessoal e de cama, muito material de higiene e limpeza. As doações vêm de diversas partes, num volume estrondoso e rápido.

No interior do imenso pavilhão da Marejada, senti um clima diferente dos anteriores. Não mais a tensão, a carranca, o semblante carregado das pessoas. Não mais a nuvem negra pairando sobre as cabeças. Senti um espírito cooperativo, vibrante, aglutinador. Percebi nos rostos das pessoas um brilho difuso, uma esperança agora incontida. Havia a generosidade de antes, mas uma energia mais positiva, mais voluntariosa, determinada a seguir e a ajudar.

Como escreveu o Joel Minusculi, é hora de recomeçar. Não é vontade de esquecer, de virar a página. Mas de ir adiante. Rogério Kreidlow, por exemplo, evoca a figura de um narrador para contar a sua própria vontade de contar o que se perdeu nessa tormenta toda. Um texto lindo e comovente.

Luto e luta

Andando pelas ruas da cidade, a impressão é uma só: aconteceu uma hecatombe por aqui. A quantidade de móveis destruídos descartados é inacreditável. Num mesmo quarteirão, quase todas as casas têm entulhos nas suas fachadas. O prefeito Volnei Morastoni, em entrevista à TV, deu um número assombroso: ele calcula que serão necessárias cerca de onze mil viagens de caminhão para recolher todoo entulho e lixo resultante das cheias. “A quantidade é tão grande que a cada quatro casas enchemos um caminhão”, completou.

A tristeza é grande. A desolação é tamanha, e o sentimento de abandono e perda são indescritíveis. Mesmo assim, tenho encontrado gente que prefere a luta ao luto. Sim, gente que tem uma coragem verdadeira e inquebrantável. Gente que te olha nos olhos e diz com convicção que a vida vai entrar nos trilhos, que as coisas vão se ajeitar, que os prejuízos foram muitos, mas mais importante é estar vivo. É arrepiante estar aqui e ver essas demonstrações inequívocas de força e alma.

A medida da água

No final de semana, foi tudo muito rápido. Em dez horas, tivemos a maior enchente da história de Santa Catarina, e uma das maiores catástrofes ambientais do país. Foi o nosso Katrina. Na manhã do domingo, por volta das 10 horas, minha esposa registrou a chegada das águas na esquina de casa, conforme se vê abaixo.

cheias_novembro2008_8

Quando a água chegou ao ponto mais alto, estava pela cintura. O lodo tomou tudo.

Ana Laux

Fotos: Ana Laux

A água só foi vazar mesmo na terça e na quarta. O que ficou tatuado no asfalto era um misto de lixo, de pedaços de móveis e objetos pessoais perdidos, de corpos de animais, de lama ressecada. A destruição deixada pela enxurrada foi apenas uma dimensão das cicatrizes que ficaram na memória e na vida de quem passou por tudo aquilo.

Sim, é hora de ir adiante. De se reerguer, sacudir os cabelos e olhar para a frente. A vida é mais.

enchentes em itajaí (5)

Retornei ontem à noite para casa. Foram mais de 80 horas de tensão permanente, apreensão, e sofrimento. Voltamos e enfrentamos a lama e a sujeira. Na segunda, barcos passavam na frente de casa, onde o nível da água chegou à minha cintura. Em casa, o lodo marcou 30 cm nas paredes. Foi pouco, muito pouco, perto do que vi pela cidade. Tenho amigos que perderam tudo, pois a água tomou as habitações por completo.

Foi tudo muito rápido. Muitos não acreditavam que seriam atingidos, já que suas casas tinham mais de um piso. Outros nem tiveram tempo para retirar seus carros ou móveis. Felizmente sobreviveram, mas outros não.

A enchente aconteceu no domingo, e conforme os dias iam passando, crescia a ansiedade para conferir o tamanho do estrago. Quem havia deixado sua casa queria logo voltar. No retorno, surpresa, perplexidade, tristeza, solidão. Desolação.

Sorte, azar, destino

Diante de tudo o que vi, diante de tudo o que vejo e leio, não consigo me desviar de um sentimento: fui poupado. Me sinto um afortunado por ter sobrevivido, por ter sido pouco atingido e por tantos amigos que me ligaram, me escreveram, enfim, ofertaram ajuda, conforto e solidariedade.

São quase cem mortos. Os números não estão consolidados. Teremos mais corpos, inevitavelmente. Nas ruas, já desde ontem, restos de móveis, entulho, e lixo se acumulam. Camas, portas, sofás, geladeiras, fogões, berços, guarda-roupas, pedaços de madeira, mesas, todos jogados. Não prestam mais. Em alguns pontos, muros inteiros caíram, trechos de rua cederam, placas e postes tombaram. As ruas estão marrons, com lama ressecada, sujeira e desordem.

Na segunda, o trânsito era caótico. Carros na contramão, semáforos sem funcionar, filas e impaciência. Enxurradas leitosas como café-com-leite. Na terça e na quarta, saques em vários pontos assustaram a todos. Parecia o caos, uma terra sem lei, uma falência completa da ordem. Hoje, decretaram toque de recolher, e após as 22 horas não se pode andar pela cidade sem justificativas. É uma tentativa de restabelecer a segurança, e resgatar a sorte.

Operação de guerra

Na segunda e terça, fiquei impressionado com o circo armado em Itajaí. Havia policiais civis, militares e federais atuando. Chegaram homens da Marinha e do Exército e alguns da Força de Segurança Nacional. Vi o Bope também nas ruas. Vi lanchas nas principais ruas, blindados e muitos caminhões camuflados, como as fardas dos militares. 23 helicópteros coalharam o céu.

No Centro de Eventos da Marejada, chegavam carretas e mais carretas com alimentos, roupas, colchões e cobertores. Cordões de voluntários desembarcavam as cargas fazendo as chegar nas pilhas no canto do imenso pavilhão. Havia um espírito impressionante de preocupação, de urgência, de querer ajudar. Mais impressionante é perceber como as pessoas estão se reerguendo. Nas ruas, ainda impera um silêncio tenso. As pessoas se olham nos olhos, se comunicam num instante, tornam-se cúmplices na desgraça.  Todos aqui têm uma história para contar sobre a tragédia. Todos. Isso é inesquecível, atordoantemente inesquecível.

Mas parece que a coragem dessa gente é maior que o pesadelo, que a devastação. Me arrepiei há pouco com isso, com a vontade sem fim de dar a volta por cima.

Tenho aprendido tanto nesses dias! Tenho visto tanta coisa, e pensado tanto na vida! Esta é uma experiência transformadora. O pesadelo ensina.

Esses são dias em que se envelhece anos.

enchentes em itajaí (3)

Uma boa notícia!

A sensação é de que, desde a manhã, os diversos atores envolvidos na operação de salvamento e atendimento aos flagelados pelas cheias estão falando a mesma língua. Defesa Civil, governos municipal, estadual e federal, e outras instituições – como a Univali – estão atuando de forma mais coordenada.

As doações estão sendo encaminhadas para o Centro de Eventos da Marejada. A Univali recebe e atende desabrigados, junto com outros 30 postos pela cidade. Na Univali, os voluntários chegam, fazem um cadastro e são encaminhados para as localidades mais necessitadas. Choveu muito rapidamente no meio da tarde, mas o sol retornou e o nível das águas nas ruas vai diminuindo, sempre dependendo da região. Ainda existem pontos onde há água e lama até o telhado das casas; noutras, nem parece que choveu.

Percebo uma esperança, mesmo que diminuta…

enchentes em itajaí (2)

Muito rapidamente:

(*) Já são 72 mortos, e os números ainda sobem. Ontem à noite, eram 53.

(*) São quase 54 mil desalojados e desabrigados, estatística que dobrou de ontem pra hoje.

(*) Parou de chover e as águas já estão num nível mais baixo.

(*) Um blog foi criado para reunir informações sobre os atingidos: http://www.desabrigadositajai.wordpress.com

A situação na cidade parece, aparentemente, melhorar. No centro, próximo à rotatória da rua Joca Machado Brandão, ontem tomada pelas águas e lama, já havia trânsito agora há pouco. Já se podia ver o asfalto. Saiu o sol pela manhã toda e parte da tarde. Isso fez com que o espírito da cidade ficasse mais aliviado, mais desperto, mais reativo.

enchente em itajaí

Sou um dos mais de 20 mil desalojados nas enchentes que assolam o Vale do Itajaí, em Santa Catarina, neste final de novembro. É um drama, mas não é um drama isolado. Estimativas dão conta de que 1,5 milhão de pessoas tenham sido afetadas pelas fortes e constantes chuvas. São mais de 44 mil pessoas – até o momento – que estão desabrigadas ou desalojadas. Existe uma diferença entre uma coisa e outra: desabrigado é quem não tem onde ficar e vai para abrigos improvisados ou organizados pela Defesa Civil e órgãos de atendimento. Desalojado é quem está em casa de amigos, vizinhos, parentes, como é o meu caso.

Cerca de 80% da cidade de Itajaí está sob as águas, e todas as classes sociais estão atingidas. Dos miseráveis aos ricaços, ninguém foi poupado. Mesmo quem não foi diretamente atingido está sofrendo as conseqüências: veja o caso dos meus amigos Isaías e Raquel, que acolheram a minha família e mais outras duas em seu apartamento. A cidade deve sofrer nas próximas horas com falta de água, alimentos, combustíveis… Boa parte da cidade, metade dela, está sem energia elétrica.

Os gestos

É um lugar comum, um clichê desgastado, mas tem uma verdade incontornável: em momentos trágicos como este, nos surpreendemos com os gestos de solidariedade, amizade, fraternidade das pessoas. Das pequenas às grandes demonstrações: é o empresário carioca que disponibiliza caminhões da sua empresa para distribuir água; é o caminhoneiro anônimo que oferece carona a desconhecidos para atravessar um trecho alagado; são os amigos que se ligam para ter informações; são as pessoas que – mesmo atingidas – se colocam como voluntários para atender os outros.

Deixei minha casa, e depois conferi que cerca de 30 ou 40 cm de água havia invadido o local. Não pude permanecer lá. Saí no domingo de manhã, antes mesmo da água chegar. Fui com mulher e filho para um local seguro, e em seguida, fomos auxiliar no Colégio Dom Bosco, onde centenas de pessoas chegavam molhadas, com frio, com fome, e sem nenhuma esperança. Perderam tudo. Distribuindo roupas para as pessoas, eu via nos olhos delas um misto de vergonha, de desalento, de perplexidade. Um sofrimento intenso, difícil de escrever aqui.

Ontem, à noite, quando fomos à Univali para ajudar mais sofrimento e dor. Desespero e medo.

Tensão

No domingo à noite, passamos pelo Supermercado Angeloni e havia um clima silencioso de grande tensão, de comunhão pelo medo. As águas não paravam de subir e a maré cheia se aproximava. Depois, soube que o Angeloni – ao menos o seu estacionamento – ficou todo tomado pela água barrenta.

É manhã de terça, e os mortos já são 65. Temo que os números disparem assim que o nível da lama baixe e que a Defesa Civil, Bombeiros e Polícia possam chegar aos locais onde houve deslizamentos e quedas de barreira.

Conversei com vários moradores mais antigos da cidade, e que já passaram pelas famigeradas enchentes de 1983 e 1984. Eles me disseram que os dias que vivemos aqui são piores, bem piores. A cidade cresceu muito desde então. A área impermeabilizada aumentou, assim como a quantidade de lixo produzido também. Tudo isso associado às condições atmosféricas fizeram com que um cenário de guerra se descortinasse por aqui.

O caos

Alguém aqui lembrou um livro. Outro alguém, um filme. Acho que os dois exemplos dão uma noção do que estamos passando por aqui. O livro: Ensaio sobre a cegueira. O filme: Guerra dos Mundos. Nos dois, o panorama é de abandono, destruição, hordas de famintos e flagelados; desespero e o inevitável sentimento de perda. Imagens podem ser vistas no blog do meu amigo Robson Souza (http://luzeestilo.wordpress.com), e informações bem atualizadas no blog do Juliano Flor, acadêmico de Jornalismo (http://visaoextra.blogspot.com).

Demorei a postar algo aqui por diversos motivos: viajei a São Bernardo do Campo para o 6º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo na quarta 19 e só voltei no sábado, 21. No domingo, tudo aconteceu, e fiquei fora de órbita. Na verdade, ainda estamos fora de ordem.

A dor e o sofrimento não vão parar

Assim que as águas baixarem, projeto eu, entraremos em outra fase desse calvário: o de contabilizar os danos, limpar a destruição e passar a reconstruir a vida. Nada será como antes, e isso não é um pessimismo à toa. Quem passa por isso aqui não esquece. Nunca. Então, a vida está andando de lado, está suspensa. Não há aulas. Não há compromissos. Não há agenda a ser cumprida. Não há vida normal. Só existe o essencial: sobreviver.

Por isso, as imagens evocadas pelos meus amigos do livro e do filme não largam a minha cabeça. Calculo que não chegaremos a um nível tal de degradação como o relatado por José Saramago, em seu lindíssimo livro. Também acho que a destruição não será como a protagonizada por Tom Cruise nos cinemas. Mas a mobilização das pessoas, a interrupção brusca do ritmo da existência e a perplexidade com a nossa fragilidade e vulnerabilidade são os mesmos.

Estou bem. Minha família também. Os amigos idem. Aliás, graças à amizade, à generosidade, à imensa capacidade de doação de alguns, muito estão sobrevivendo.