sou um selvagem, eu confesso

Esta semana, estava num ambiente público à espera de uma palestra, e como o evento não começava, passei a folhear um livro que tinha em mãos. A demora me fez espiar um parágrafo e quando percebi, já estava lendo páginas. Não só: com uma caneta, eu sublinhava trechos que considerava importante.

De repente, me senti perfurado por olhares. Virei do lado e percebi dois rapazes me vigiando indignados. Eles comentaram entre si algo e me apontaram o livro e a caneta em punho. Sim, eu havia sido pego em flagrante delito: eu estava rabiscando um livro. E à caneta, o que significa de forma permanente, indelével, definitiva.

Me passou um filme na cabeça: julgamento sumário, condenação perpétua. Eu seria sentenciado a apagar milhares de páginas que sublinhei com a própria língua…

Para evitar o sermão, me antecipei e fiz um gracejo: “Não adiantou anos e anos de educação. Sou mesmo um selvagem! Não respeito os livros e rabisco…”

Um dos meus algozes sorriu amarelo e emendou: “Eu também fazia isso. Mas percebi que, quando voltava aos livros, os trechos sublinhados me orientavam a leitura, me atrapalhavam…”. Tentei argumentar que eu quase nunca relia livros, mas não adiantou. A condenação já havia acontecido. Perdido por um, perdido por mil e lá fui eu novamente: “Mas fique tranquilo. Este livro não é meu! Eu só rabisco livros dos outros e de bibliotecas públicas!”, menti para alarmar ainda mais. Os rapazes riram, desarmados. Devem ter pensado: “Que babaca!”

Eu corrigiria: Babaca, não. Selvagem! Monstro! Vândalo!

Afinal, eu estava lendo. E leitura é coisa que se deva condenar hoje em dia.

Afinal, eu estava marcando frases e parágrafos que eu queria fichar, guardar, citar em outros momentos.

Afinal, eu me apego às ideias, às palavras e não ao objeto-livro, à coisa. Como diz o João Marcelo Bôscoli sobre a música, se um dia inventarem isso em forma de spray, eu compro, eu consumo. O que me importa é a leitura, o prazer, a possibilidade de conhecer. Os livros deterioram, as páginas se queimam, se rasgam, mas as palavras, ah… essas voam!

Eu sou um selvagem mesmo. Confesso!

11 comentários em “sou um selvagem, eu confesso

  1. Devo confessar que nunca usei a caneta, mas, por outro lado, já tive que apagar vários que risquei com lápis. Hoje em dia, anoto em papel separado as páginas e parágrafos que me interessam. Confissões à parte, acho que cada um deve ter a relação que achar melhor com o suporte; essa história do “politicamente correto” anda me irritando muito…

  2. Felipe, eu só rabisco os meus também. Só sacaneei com os caras que ficaram me olhando torto… Aliás, você não quer me emprestar aquele seu livro… hahahahahaha….

    Marta, também não suporto isso. Eu poderia ser um gentleman e berrar para os meus algozes: É MEEEEEEEUUUU! EU RISCO SE QUISEEEER! TIRA OS ZÓIO!!!! Mas não, eu dei satisfação…hehehehehe

    Também adoro livros. Tenho estantes cheias deles (o Felipe já namorou uma delas). Mas não sou escravo dessas caixinhas mágicas… abs

  3. Risco todos. Comento. Deixo ali nomes de coisas, pessoas, momentos que me lembram aquele trecho. Esse viciozinho selvagem faz a leitura bem mais cheia, e sim, eu prefiro meus livros rabiscados do que intocados na estante. ,)

  4. Diria mais, caro: os rabiscos, que chamo de marcas de leitura, emprestam, aos meus olhos, mais amplitude aos livros. Basicamente porque acrescem a todas as possibilidades de leitura aquela já feita, realizada. É bom demais, para além do que vemos no livro posto, observar o que foi visto por olhos que não os nossos. És, portanto, aos meus olhos, um selvagem, sem dúvida; mas um bom selvagem. Grande abraço!

  5. Pelo jeito, pessoal! Temos uma tribo imensa de selvagens!
    Se eu tivesse jeito pra coisa, até abria uma igreja: Nossa Senhora dos Rabiscos…

    abs

  6. Bem, leia “A Casa de Papel”, de Carlos María Domínguez. O livro todo tem passagens sobre nossa relação com os livros. E tem uma parte interessante sobre o sublinhar, rabiscar e tudo mais. Além de tudo a história é fantástica.
    Abraço

    1. Valeu pela dica… tenho uma outra: “Se um viajante num dia de inverno…”, do Ítalo Calvino. É um livro sobre a leitura, sobre os leitores… feito para mudar a nossa relação… abs

  7. Também sou selvagem! Risco, anoto, sublinho, com caneta, marcador, lápis, o que tiver mais a mão. Deixo anotado nas margens das páginas ideias, lembranças de outros autores, questionamentos, o que vier à mente no momento da leitura. Como disse minha xará em comentário a esse post, prefiro rabiscar os livros, dar mais vida às suas palavras, do que mantê-los como “troféus” na estante. Eles não foram criados para isso. Cuido muito deles, mas porque respeito o que me trazem e não para que se tornem objetos decorativos. Adorei o texto! Abs

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