Marcado: confessionais

Desprestígio

Fugimos dos sentidos de algumas palavras. Às vezes, até fazemos um leve esforço para fingir que esquecemos aqueles significados, como se pudéssemos engavetar tudo.

É o que se passa com “desprestígio”.

Quase nunca usamos, não é? Gostamos mais do antônimo. É nome de chocolate, é algo que nos enaltece, uma forma de capital, que ajuda a nos destacar dos demais.

Desprestígio, não. Revela que – por mais que façamos, por mais que provemos o nosso valor -, de nada valeu. Não somos reconhecidos como esperávamos. Não somos tidos como queríamos. Não somos especiais em nada. Mãos e bolsos estão vazios.

Não se trata de paparico, de ter vantagem adicional sobre os demais, de afagos no ego. O desprestígio só mostra que a tabela pela qual fomos valorizados está zerada, e nesse cálculo de si, o resultado é mais que negativo.

O desprestígio exibe um pouco de nós. Mas também mostra quem nos cerca: o quanto nos querem bem, o quanto nos conhecem, o quanto estão conosco.

O Brasil me faz perder o sono

103522_Papel-de-Parede-Coruja-Guinchando_1600x1200Tem sido muito difícil fechar os olhos esses dias. O Brasil me faz perder o sono. Não só a mim, claro!, mas muita gente padece disso. Ando amarrotado por aí.

O Brasil me faz perder o sono porque chegamos a esse estado, como se a vida fosse uma correnteza que nos arrastasse apenas e não adiantasse remar.

O Brasil me faz perder o sono porque julgaram não apenas uma presidente, mas seu governo, seu partido, o modelo de país que construíram, um conjunto impressionante de direitos que querem cassar, um punhado de utopias que estão para destruir.

O Brasil me faz perder o sono não apenas por causa do impedimento de Dilma, mas porque o mesmo Congresso Nacional que a estraçalhou vai continuar por mais alguns anos. Deputados despreparados, senadores rancorosos, parlamentares conservadores, congressistas corruptos, todos os 594 seres que compõem o legislativo brasileiro vão seguir suas vidas após a deposição de Dilma. (Note: não foi um erro escrever o nome do poder em minúsculas na linha anterior. Não existe grandeza que justifique o uso de outras letras).

O Brasil me faz perder o sono porque a política e a economia não vão melhorar, pois a esperança e os sonhos estão soterrados pela dúvida de uns, pelo inconformismo de outros e pelo ódio de terceiros. Não estamos nem unidos nem pacificados, Michel. Não se engane. Não nos engane, não mais.

O Brasil me faz perder o sono porque Dilma cai antes de Eduardo Cunha, de Romero Jucá e outros canalhas que conspiram e dinamitam a vida nacional. E talvez eles se arvorem em algum artifício para sobreviver politicamente, já que são sobre-humanamente espertos.

O Brasil me faz perder o sono porque perdemos também o senso de justiça, não confiamos mais no voto direto, na manutenção da vontade popular, nas instituições, na democracia. Desconfiamos da mídia, da isenção do judiciário (de novo, minúsculas), do colega do trabalho, do vizinho, do parente querido, das parcas certezas que cultivávamos.

O Brasil me faz perder o sono porque, em muitos de nós, o senso de decência não pode ser mais percebido, a verdade é meramente retórica e o projeto coletivo de país se esfarelou.

Enfim, o Brasil me faz perder o sono porque apesar disso tudo, há quem ainda consiga dormir tranquilo.

O golpe fez 100 dias

Michel Temer está na condição de presidente interino há 102 dias.

Pelo andar da carruagem – e a figura cai muito bem pelo tom arcaico -, vai se transformar em presidente efetivo com a deposição de Dilma Rousseff no final deste mês, mais tardar no começo de setembro.

Nesses pouco mais de três meses no comando, Temer não fez do Brasil um país mais unido, nem mais pacificado, muito menos um país melhor. Perdemos todos. Em direitos, em esperança, em sonhos. A nação tem sobre si um tecido esgarçado em cujos rasgos vê que a corrupção não foi extinta, que o otimismo se esfarelou, e que a economia está longe de melhorar.

Temer, Serra, Jucá, Renan, Cunha, Aécio e os demais corvos que roem a esperança nacional estão também muito distantes de serem modelos de honestidade e conduta. Rodrigo Maia, o segundo homem da República, foi citado generosas vezes no Listão da Odebrecht, em segredo de justiça por ordem do ministro Teori Zavaski. O Congresso Nacional que ele lidera representa conservadorismo, intolerância, rancor e retrocessos.

Com a queda de Dilma, o PT destruído, as esquerdas aparvalhadas e a população exausta, corvos, chacais e hienas vão avançar sobre o que imaginam ser uma carcaça sem vida. Veremos nos próximos tempos se o país estará assim mesmo. Torço para que não.

De certeza, só tenho uma: daqui pra frente, as coisas não vão melhorar. Não vão.

Este é o ano do “não”

2016 tem se mostrado um período difícil, de tantas recusas, de tantos senões, de tantas vírgulas. Metade do ano já era, e eu já sei que não é um bom momento. Tenho acumulado uma quantidade impressionante de nãos. As pessoas não estão dispostas, os recursos não estão disponíveis, as oportunidades não estão na mesa!

Tudo parece travado, interrompido. É o medo do risco, é a impossibilidade de incerteza, é a certeza de reticências.

Dá vontade de desistir de tudo, de jogar as cartas para o alto, de cavar um buraco na direção do núcleo da Terra. Acha que eu vou desistir? Não. Essa é a única resposta que eu conheço para tantos outros nãos.

A Nobel tem mão quentinha

20160705_104225Eu tinha certeza de que iria me encontrar com Svetlana Aleksiévitch na Flip. Não havíamos combinado nada (quem dera!), mas eu tinha certeza. Por isso, onde quer que eu fosse, carregava comigo o exemplar de Vozes de Tchernóbil que me marejou os olhos tantas vezes.

No meio de um mar de gente que zanzava pelas ruelas de calçamento ancestral, avistei a jornalista que se notabilizou por contar histórias tristíssimas como a da tragédia nuclear de 1986 na Bielorússia. Svetlana andava com passos miúdos e olhar perdido nas fachadas das casinhas coloniais. Estava acompanhada por sua agente literária na Europa e por uma tradutora. Bendita tradutora!

Abordei Svetlana em inglês e ela me olhou desarvorada. Este idiota esqueceu de décadas de Guerra Fria! A gentil tradutora veio ao nosso socorro e construiu uma simpática ponte entre o Brasil e a Ucrânia, já que eu não sei dizer nem obrigado em russo…

Agradeci Svetlana por ter contado as histórias dos anônimos em Vozes de Tchernóbil. Suas sobrancelhas formaram um triângulo surpreso. Mencionei meu episódio favorito no livro, aquele do homem que deixa tudo na cidade evacuada, mas volta para levar consigo a porta de casa. Sobre ela velou o pai e nela marcou ao longo dos anos as fases de crescimento dos próprios filhos. A escritora sorriu e passou a falar com voz clara e olhos animados.

Eu disse que era professor de jornalismo e que desejava que meus alunos a lessem. Afetuosa, Svetlana disse algumas amabilidades. Apesar de se queixar de uma dor no trigêmeo – o incômodo nervo da face -, sorria e balançava a cabeça.

“Você não tem um livro para ela autografar?”, perguntou a tradutora. Saquei meu exemplar e tirei fotos com ela. Svetlana fez uma dedicatória, apertou minha mão e se foi com as amigas. Tinha a mão quentinha, e o cumprimento foi forte. Como a sua escrita.

Não temos whatsapp. Não insista

Toda semana alguém arregala os olhos e luta para impedir que seu queixo bata no chão. É assim quando respondo “não tenho whatsApp”. A pessoa me olha meio estupefata, meio incrédula, quase com desprezo. “Como assim?”, ela insiste diante daquela inacreditável revelação, quase um segredo de Fátima. E aí eu preciso argumentar porque não uso o software quando 100 milhões de brasileiros já o utilizam “há séculos”.

“Mas você não usa por quê?” – pergunta, com olhar desconfiado.

(sorrio amarelo) “Porque não…”

“Isso não é resposta. Diga aí!” – diz, querendo arrancar uma confissão.

(gaguejo) “Porque não sinto necessidade e…”

“Mas como não?! Você não tem celular?” – já aumentou o volume da voz.

“Tenho…”

“Com o whatsapp, você não precisa pagar a ligação nem a mensagem que enviar. É uma solução grátis!”

(eu penso: pular da ponte também grátis, mas também não estou a fim de usar essa solução) “Bem… eu não vejo porque usar…”

“Mas é super prático!” – arranca uns tufos de cabelos.

(eu penso: tomar chuva em vez de tomar banho também é prático, mas não abro mão do chuveiro) “Não acho necessário e…”

“Mas você não é jornalista? Não lida com comunicação?” – interpela, com as mãos prestes a alcançar meu pescoço.

(esquivo do estrangulamento) “Sim, eu sou, mas…”

“E como é que você se comunica?” – a pessoa está prestes a sacar uma faca…

(meus olhos varrem o perímetro buscando rotas seguras de fuga) “Bem, eu uso email, ligo para as pessoas, mando SMS, deixo recados, converso pessoalmente…”

“Ah, mas não é a mesma coisa!” – agora, a pessoa me olha com nojo. Virei uma barata.

(penso em responder, mas o interlocutor faz sinal para parar. Ele olha seu smartphone que emite ruídos múltiplos, avisando que chegaram várias mensagens. Com os olhos pregados na tela, me deixa ali sem falar nada. Eu sorrio: salvo pelo whatsApp!)

“Stoner” me fez chorar de novo

12985588_1665400570387011_2803034507267203373_nPense por alguns segundos e responda: quantos livros já te emocionaram de uma forma tão arrebatadora a ponto de perder o chão? Pense com calma, tenho certeza de que não foram muitos. Comigo também, e os livros que me fizeram chorar cabem nos dedos das mãos, de uma talvez…

Há muito anos, chorei amargamente quando Gregor Samsa percebeu que sua família não lhe devotava nenhum valor, nada de respeito. E não era porque havia se tornado um inseto monstruoso…

Há alguns anos, chorei fundo quando Baleia veio consolar um dos meninos-sem-nome de Vidas Secas, encostando a cabeça magra em uma mãozinha suja…

Há poucos anos, chorei copiosamente quando os remorsos da infância tomaram a vida do narrador em O caçador de pipas…

Hoje, voltei a manchar as páginas de um livro: Stoner, de John Williams.

Desta vez, conhecemos um professor de literatura, com um casamento falido, sem vaidades ou ambições, e que conduz sua vida como se fosse levado por um caudaloso rio. Williams oferece a vida ordinária de um homem sem qualquer brilhantismo, contada de uma forma linear e cotidiana que nos mostra o quanto se pode descobrir de dignidade e honestidade em alguém. Suas escolhas erradas, a impassividade e a resiliência, os fracassos pessoais, as fragilidades emocionais, tudo o que nos faz sermos o que somos. Pungente, bem escrito, profundamente humano.

Foi um prazer conhecê-lo, professor Stoner…

 

A chuva contada por Schroeder

544931_historia-da-chuva-702678_Z1Eu esperava outra coisa de “História da Chuva”.

Quando Carlos Henrique Schroeder deixou escapar o título do livro que preparava, me deslumbrei com o achado. Por que não pensei nisso antes? Algo tão ancestral, quase mítico. Tipo “A história do fogo”, como no filme. Um rótulo amplo, capaz de reunir todos os fluxos do tempo e ainda conservar lirismo. Era maio e estávamos em pleno Festival Nacional do Conto. O autor confidenciou ainda que se tratava de um romance sobre a enchente de 2008 no Vale do Itajaí, e vibrei secretamente com aquilo. Também sobrevivi a ela e foi uma das minhas experiências mais aterradoras. Alguém precisava contar aquilo. Aquele mar de tristezas e horror não poderia escorrer pelos ralos da memória…

Então, eu esperava outra coisa de “História da Chuva”, e por isso, saí no meio da tempestade com uma sede infinita, engolindo sofregamente as páginas. Fui tragado por outros redemoinhos, como aqueles que a gente vê num rio caudaloso e que dá dentadas nos barrancos e nas pontes, como já escreveu Schroeder. Os redemoinhos sinalizam os sumidouros, onde pessoas, animais e coisas são tragadas, desaparecendo na água turva.

Fui arrastado então para outros lugares. A partir de um corpo que boia na água marrom, mergulhamos na busca de um narrador por sua própria história e natureza. O cadáver é de um artista de teatro de animação e o narrador estranhamente se chama Carlos Henrique Schroeder, mora em Jaraguá do Sul, é escritor e modesto editor. Tal qual o homem que assina o livro e que iluminou a noite com um título como aquele. O narrador tenta reconstituir o passado do morto, enquanto tenta manter longe a ex-namorada perigosamente ciumenta às vésperas de seu casamento. Como é de se esperar, sua jornada é também a busca de si mesmo, a tentativa de preencher as lacunas que justificariam sua existência.

Menos poético que “As fantasias eletivas”, este “História da Chuva” é um romance muito mais complexo e ambicioso. Schroeder, o autor, espalha mais personagens na mesa e constroi sua trama a partir de várias camadas, alternadas com muita destreza. Me fez lembrar daqueles artistas de circo que equilibram pratos giratórios nas mãos, pés, nariz e queixo. O malabarismo não está apenas em manter os pratos em movimento, mas em mover as varas que os sustentam numa dancinha caótica. Schroeder faz autoficção e ensaísmo sobre o teatro de animação, e reflete sobre o que é sobreviver em meio às agruras de ser artista periférico. Não satisfeito, oferece mais: prende a respiração e afunda no turbilhão da alma de quem se dedica a escrever e a criar. Como foi tudo rápido e sem aviso, há pouco oxigênio para aquilo e o leitor pode acabar como o corpo que boia: com os pulmões cheios de água.

Eu esperava outra coisa de “História da Chuva”. Talvez a redenção a partir da enchente, talvez um punhado de explicações para o mistério que faz da água tanto trazer quanto tirar vidas. Talvez, talvez, talvez. Faz poucos minutos que fechei o livro, depois de reler seis ou sete vezes o final. O impacto permanece. Não pelas surpresas que me trouxe, mas pelo inevitável desconforto de quem passa o dia com as meias e os pés encharcados.

Faz 70 anos. Para não esquecer.

Numa manhã como a nossa, Hiroshima acordou como nenhuma outra.

Há 70 anos, uma bomba matava mais de 130 mil pessoas. Dois dias depois, repetiriam a dose em Nagazaki, matando outras dezenas de milhares. E agosto de 1945 mudou a história da humanidade…

Alguém mais esperto já disse que 6 de agosto de 1945 foi o dia mais importante da história humana. A justificativa é simples. Se antes tínhamos certeza de que morreríamos individualmente, depois desse dia, passamos a considerar a morte total e coletiva…

Não dá pra esquecer. Não podemos esquecer. Era um tempo de guerra, é verdade, e o Japão também cometeu atrocidades. Mas nada justifica.

Não podemos esquecer as milhares de vítimas.

Não podemos esquecer o horror dos anos seguintes.

Não podemos esquecer do pânico instaurado no mundo desde então.

Não podemos esquecer que as bombas atômicas não caíram sobre as cidades. Elas foram atiradas.

Não podemos esquecer quem apertou o botão. Não foi a Rússia, não foi a China, nem Cuba, Irã ou Iraque.

Não podemos esquecer que os Estados Unidos usaram a bomba atômica contra milhares de civis, mais de uma vez numa única semana, de forma irreversível, covarde e injustificável.

Dias melhores virão

Amanhã começo um semestre daqueles!

Estou muito empolgado com o que vem por aí. Na graduação, terei mais uma turma de Políticas de Comunicação, e vou oferecer uma optativa para aprofundar o tema: Políticas de Comunicação 2. A ideia é mergulhar em alguns assuntos, como Marco Civil da Internet, uma Lei Geral para a Comunicação e a realidade da mídia no país… Quero ver também se conseguimos ter uma atuação para além das paredes da universidade, se é que me entendem…

Terei também outro desafio no curso de Jornalismo: vou assumir a disciplina de Legislação e Ética. Sim, já lecionei a matéria por quase dez anos na Univali e ela é meu objeto de pesquisa há mais de quinze. No entanto, herdo a responsabilidade do grande mestre Francisco José Castilhos Karam, referência nacional nesses estudos. Espero dar conta… Na pós-graduação, dividirei com o mesmo Karam a disciplina Estudos Avançados em Ética Jornalística, um privilégio para mim, para alunos do Mestrado e do Doutorado…

No mais, os desafios do semestre envolvem ainda a continuidade de minhas pesquisas, a renovação do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), a chegada de novos orientandos (mestrandos e graduando) e o lançamento de Questões para um Jornalismo em crise, a sair pela Editora Insular. Há outros projetos e parcerias sendo costurados, mas ainda é cedo pra contar.

O que posso adiantar é que eu e Ana Paula Laux terminamos o primeiro romance policial assinado por Chris Lauxx. O título ainda é segredo, pelo menos até assinarmos com uma editora…

Bem, eu avisei: estou empolgado. Dias melhores virão, e eles estão logo ali na esquina…

Este blog fez 10 anos!

Quando comecei este blog, em maio de 2005, o mundo era bem diferente do que é hoje.

George W. Bush não só mandava nos Estados Unidos, como estava no segundo mandato! Por aqui, Lula era o presidente e uma tal de Dilma Rousseff estava às vésperas de assumir a Casa Civil. O Fórum Social Mundial ainda acontecia em Porto Alegre e a Microsoft preparava o lançamento de uma novidade, o XBox 360. João Paulo 2º nem tinha esfriado ainda e Bento 16 dava o sermão na Praça São Pedro. Quem diria? O YouTube estava surgindo! O Orkut era o rei das redes sociais – apesar do Facebook já existir – e o Twitter só apareceria no ano seguinte, em 2006. Eu tinha um bebê em casa, muito mais cabelo e esperança, e muito menos barriga e mau humor.

Em dez anos, o mundo não parou de girar uma única vez. Por isso, mudamos tanto. Um passo à frente e você não está no mesmo lugar. Não foi assim que Chico Science ensinou?

Não entendo também como conseguimos chegar até aqui. Deveria ter desistido. Tive chance pra isso. Faltou coragem, faltou tempo, sei lá.

Registramos mais de 450 mil visitas, mais de 3,3 mil comentários e infinitas horas despejando coisas que colecionei por aí. Valeu a pena? Sim, valeu. Afinal, não são muitas as coisas na nossa vida que duram dez anos.

Obrigado pela visita, por algum comentário, por lincar este blog. De alguma forma, ele também foi seu. E eu me senti menos patético e sozinho enquanto remexia essas memórias.

2007: o endereço ainda era monitorando.zip.net

2007: o endereço ainda era monitorando.zip.net

2007: primeiro layout no wordpress

2007: primeiro layout no wordpress

2008: era demais ter um blog nessa época!

2008: era demais ter um blog nessa época!

2009: blogar era publicar para não perecer

2009: blogar era publicar para não perecer

2010: o blog se tornava cada vez mais um diário de bordo

2010: o blog se tornava cada vez mais um diário de bordo

2010: a cada mudança de humor, uma alteração no layout

2010: a cada mudança de humor, uma alteração no layout

2011: a integração com o Twitter ajudava a

2011: a integração com o Twitter ajudava a “espalhar” melhor

2012: começa a bater o cansaço. Os blogs já não são mais os mesmos

2012: começa a bater o cansaço. Os blogs já não são mais os mesmos

2013: posts ficam cada vez mais enxutos

2013: posts ficam cada vez mais enxutos

2014: as postagens ficam mais escassas

2014: as postagens ficam mais escassas

2015: o blog é

2015: o blog é “engolido” pelo site, mas sobrevive

Cremilda Medina em casa

UnknownFazia algum tempo que eu não a via pessoalmente. Mas na semana passada, ela passou pela cidade para uma conferência num evento, e foi a oportunidade de nos revermos rapidamente. Afetuosa como sempre, me deu um abraço daqueles, fez questão de me olhar nos olhos e me escaneou a alma. Acho que passei… Me trouxe também um presente: Você tem o meu livro de memórias? Sem jeito, fui sincero. Não. E ela sacou um exemplar com dedicatória e tudo o mais.

Acariciei a capa, sentindo a leveza do papel e deixei as páginas ventilarem meu rosto. Duas noites depois, abri o livro querendo um tantinho mais. E quem disse que consegui deixar de lado?

Me dei conta de que conheço Cremilda Medina há quase 15 anos. Ela me orientou no doutorado e convivemos um tempinho, pouco diante do que eu poderia aprender.

Em “Casas da Viagem”, Cremilda não apenas oferece uma autobiografia, mas porções generosas de diversos encontros que teve na vida nas últimas sete décadas. De maneira original, ela toma o mote das casas que habitamos ao longo da existência para contar o que viu, sentiu e viveu. As casas são as contas de um colar, e cada um tem o seu… Desprendida, a autora narra suas origens em Portugal, os tempos de imigração, a passagem pelo Rio Grande do Sul, a longa estada em São Paulo e as muitas viagens pelo mundo, como jornalista, pesquisadora e professora. Franca, a autora lembra de momentos bons e ruins, dá os nomes certos aos acertos e aos erros, e deixa escapar parte de sua coragem e ímpeto.

Aquelas páginas nos contam da relação de Cremilda com escritores e artistas, do convívio com intelectuais e cientistas, da vida difícil em tempos difíceis, da certeza de que a vida deve ser celebrada. Ao final, somos apresentados às casas da viagem, em fotos vívidas dos imóveis que a autora já habitou, como um filme rápido que desfila pelas nossas retinas.

Autobiografias há aos milhões. Toda vida merece ser contada e registrada. Este livro de memórias de Cremilda Medina não é um acerto de contas, não é um balanço de trajetória, não é uma ostentação de ditos e feitos. Para mim, as “Casas da Viagem” é um volume que cerca uma personagem que está à procura de si mesma. Alguém que sabe saborear bons e maus momentos, e que enxerga na vida uma grande aventura, um risco do qual não se pode fugir.

O futuro dura muito tempo

A Editora da UFSC, o Departamento de Jornalismo e o Laboratório da Tele da UFSC têm um projeto bem bacana chamado “O livro da sua vida”. Nele, em um minutinho, leitores falam de títulos que foram importantes em algum momento de suas existências…

Como hoje é feriado, que tal perder ganhar um tempinho conhecendo a iniciativa?

(Até eu me arrisquei a indicar um livro…)

A memória está nos poros

Aconteceu num dia de Natal, e não foi especial apenas por isso. Mas é claro que em datas como essas a gente fica mais sensível, propenso a tornar tudo mais simbólico, quase milagroso…

Era o finalzinho da tarde, quando não havia mais presentes para abrir e a preguiça nos alcançava de uma forma inescapável. A luz sumindo lá fora, a cortina do quarto fechada, o abajur aceso tingindo as paredes de um amarelo mole. A família ainda se espremia inteira na cama, quando esbarramos num CD caseiro antigo, repleto de canções que a mãe reunira para uma festinha de aniversário do filho. As musiquinhas infantis pertenciam a um passado longínquo do garoto agora com dez anos. Quase uma eternidade para ele…

Apertei o play para que a família embarcasse naquela viagem, e o rapazinho pulou me dando um abraço, o que me fez segurá-lo numa posição de aconchego. Grudado, se aninhou ali, com o queixo colado no meu ombro, as pernas e os braços, sobrando às costas. Começamos a dançar as aberturas dos desenhos animados, as cantigas de roda e as músicas da Turma do Cococoricó… Há quase uma década, quando o rapazinho era só um cisco de gente, eu fazia o mesmo. A mãe – exausta do dia – aproveitava para descansar e eu colocava o bebê para dormir, ao som daquelas canções.

Agora, dançávamos mais uma vez, e os braços sentiam quase trinta quilos a mais. A mãe assistia com um sorriso que unia as duas orelhas… E, de repente, eu notei o ombro encharcar. Em silêncio, o rapazinho me abraçava com força, com uma disposição de nunca mais largar. Disfarcei, mas também deixei escapar algumas lágrimas. Continuamos dançando por outra eternidade. A mãe quis saber o que acontecia, e o rapazinho disse que estava com saudades dos tempos de ninar…

Mas como poderia lembrar se nem gente quase era?

Naquele dia de Natal, percebi que a memória não está na cabeça nem no coração. Ela está em toda a parte, na pele, no corpo, nos poros. Qualquer coisa pode interromper seu sono latente, e fazê-la vibrar feito asas de beija-flor. A música infantil, o calor do colo e o chacoalhar da dança, tudo isso mexeu com a gente, e nos fez voltar um tempo de delicadeza. Foi meu melhor presente no Natal que passou…