Vem conversar comigo sobre o novo livro

Hoje (20/05), tem um bate-papo pela web sobre o livro A crise do jornalismo tem solução?, que estou lançando pela Estação das Letras e Cores. É às 16 horas – horário de Brasília – e de graça.

Aliás, quem participar, vai ganhar cupom de desconto na compra do livro.

As vagas são limitadas e a inscrição pode ser feita aqui.

A crise do jornalismo tem solução? está disponível em livro físico (aqui) e em versão ebook (aqui e aqui).

Vem!

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Precisamos falar sobre depressão

Se você chegou a este post, muito provavelmente, sabe de alguém que sofre de depressão ou convive com uma vítima dela. Talvez ela esteja mais próxima ainda, e seja a sombra permanente que nubla os seus dias e desbota o mundo. A depressão é como o oxigênio ou a internet. Está em toda a parte. Não faz distinção de gênero, classe social, religião, idade, geografia. Não é, como muitos pensam, um mal moderno, recente. E embora seja relativamente fácil de diagnosticar, tratá-la é bem mais complicado.

É raro encontrarmos alguém que não tenha sido tocado por ela. Mesmo que à distância, de forma colateral. E mesmo assim, com ela tão presente em nossa vida, desprezamos seu poder e seu alcance. Como se fosse apenas tristeza, irritação, prostração, melancolia, cansaço, fraqueza…

Muito tardiamente conheci Andrew Solomon e seu O Demônio do Meio-Dia. O livro foi lançado há quase 20 anos, venceu o National Book Award e quase levou o Pulitzer em 2000. Foi eleito pelo Times como um dos 100 melhores livros daquela década e foi publicado em 24 línguas. Mesmo assim, eu ainda não havia tropeçado nele e me assombrado com a sua impressionante voz. Pois fiz isso na última semana e estou arrebatado. Já é o livro mais forte e pulsante que li no ano, e existem tantas razões para isso!

Solomon é um depressivo há décadas e nos oferece o mais franco e aprofundado relato sobre a doença. Escancara sua vida, seus fantasmas, seus surtos e alguns dos sentimentos mais secretos para narrar a depressão a partir de sua luta particular. Se fosse isso, já seria corajoso e importante, mas ele vai além. Entrevista dezenas de pessoas e costura suas experiências com os tratamentos clínicos e terapêuticos mais diversos, e passa um pente-fino nos principais estudos científicos internacionais na Medicina, Psicologia, Antropologia e Sociologia. Mergulha na misteriosa química dos remédios e nos efeitos variados que produzem. Rasga a história e a geografia, desfazendo uma série de mal entendidos comuns. Prospecta o futuro. E desbrava os terrenos mais insondáveis da esperança por uma cura.

O que temos, então, é um tratado monumental da depressão, talvez sua anatomia mais detalhada. Sensível e respeitoso, Solomon trafega entre uma multidão zumbi, ele mesmo em transe. E nos faz entender – muito obrigado por isso! – a delicadeza, a complexidade e a urgência de compreendermos este mal, que não tem hora para se manifestar, nem motivo para existir.

Em muitos momentos, é dilacerante conhecer o drama de famílias inteiras tentando conviver com pessoas depressivas. Em outros, é devastador conhecer o que isso provoca na vida, no corpo e na alma de quem é assombrado por este demônio do meio-dia. É tanto sofrimento que a leitura das mais de 580 páginas parece nunca acabar, embora Solomon escreva de forma envolvente e brilhante. Assim, o homem extrai poesia de cada (mau) sentimento, ao mesmo tempo que nos enche de fé na possibilidade de vitória.

Seu relato poderia ser um conjunto poderoso de gatilhos emocionais para os acometidos pela depressão. Mas quem mais poderia descrever as trevas se não quem nelas vive? A sua honestidade coloca a nossa coluna ereta e endireita o nosso olhar, permitindo que a gente veja além. Ele escreve muitíssimo bem, e a tradução da Myriam Campello me pareceu impecável.

Eu aprendi muito em cada página. Muito. E sofri com Solomon e seus muitos semelhantes. Torci para que restaurassem suas forças e que não desistissem de lutar. Chorei com despedidas e com retomadas corajosas do leme da vida. Eu me perguntava porque estava tão tocado por aquilo tudo, e uma resposta fragmentada e provisória martelava a minha cabeça, ricocheteando com outra pergunta: como não se emocionar e se envolver quando a matéria da história é a própria matéria de nossa frágil humanidade?

No epílogo escrito para a versão brasileira, Solomon repete o retorno de diversos leitores seus. Para muitos, O Demônio da Meia-Noite mudou suas vidas. Para alguns, permitiu reencontrar razões para não abandonar a vida. Bem, talvez este livro não transforme a sua vida, mas tenho certeza de que ele vai mudar a sua perspectiva sobre a depressão. Isso já é uma galáxia…

A crise do jornalismo tem solução?

Estou lançando “A crise do jornalismo tem solução?”, livro editado pela Estação das Letras e Cores na coleção Interrogações. Nele, discuto temas como colapso do modelo de negócios, perda de credibilidade, crise ética, problemas de governança no jornalismo e por aí vai…

É um livro curto e voltado ao público geral. Na verdade, acredito que a crise do jornalismo não interessa só aos repórteres e aos donos dos veículos. Essa crise afeta a todos, pois todos são afetados pelas notícias de alguma maneira.

“A crise do jornalismo tem solução?” estará disponível em versões livro e e-book, e já está em pré-venda no site da editora ou nas principais plataformas de livros digitais.

O que Floripa poderia aprender com o transporte público de Sevilha

Sevilha tem um terço do tamanho de Florianópolis, mais ou menos. Apesar disso, tem um sistema de transporte público de dar inveja: é mais moderno, limpo, confortável e proporcionalmente mais barato. Articula ônibus, metrô, bonde (tranvia) e bicicletas de aluguel. Isso faz com que as pessoas se locomovam com facilidade pela cidade que tem uma população de 700 mil habitates, superior à capital catarinense.

Há dez meses uso ônibus em Sevilha e vejam as condições locais:

  • 100% dos ônibus têm ar condicionado, rampas para cadeirantes ou carrinhos de bebê, e sistema de aviso audiovisual. Isto é, os passageiros sabem qual é a próxima parada, pois isso é anunciado em áudio e podemos conferir em mapas nas telas disponíveis.
  • A grande maioria dos pontos de ônibus é coberta, e em todas elas há informações sobre as linhas e seus trajetos. É fácil se orientar. Algumas paradas têm, inclusive, painéis eletrônicos que informam em tempo real qual o próximo ônibus e qual o tempo da espera.
  • Todos os ônibus são rastreáveis. Por isso, o usuário baixa o app da empresa de ônibus e sabe quando chegará seu ônibus. Basta selecionar a linha e o número do ponto – todos são numerados -, e saberá a que distância está o veículo e quando chegará até a parada. Em tempo real e grátis.
  • Os ônibus têm motoristas homens e mulheres. Não há distinção de gênero para essa ocupação.
  • Não há cobradores, e o recebimento é feito pelos motoristas. Mas apenas os turistas ou usuários ocasionais pagam em dinheiro.
  • A grande maioria dos passageiros usa cartões magnéticos em que recarregam créditos de viagem. Compensa muito usar o cartão. Uma viagem em dinheiro custa 1,4 euro. Pelo cartão é menos da metade do preço: 69 centavos de euro. Isso incentiva o uso do cartão e reduz o volume de dinheiro movimentado pelos motoristas. Menos dinheiro em caixa, mais segurança. As recargas dos cartões podem ser feitas em bancas de jornal e lojas que vendem cigarro, que existem em todos os cantos. Há também totens eletrônicos em alguns pontos.
  • Menos da metade da frota usa diesel como combustível. A maior parte usa gás natural, menos poluente, e com motores menos ruidosos.
  • Muitos veículos têm sinal de wi-fi gratuito e tomadas para carregamento de celulares.
  • São 44 linhas diárias e 9 noturnas. A frota é de 428 ônibus.
  • No primeiro trimestre de 2019, 21,5 milhões de passageiros usaram ônibus em Sevilha. Foram percorridos 4,9 milhões de quilômetros.
  • Existem vários cartões com descontos para estudantes, idosos, deficientes e… desempregados.
  • São 650 km de rede de ônibus e 1027 paradas.
  • A empresa que mantém o sistema cuida dos ônibus e dos bondes elétricos (tranvias) que transitam no centro histórico. A empresa existe há 44 anos e É PÚBLICA e SUPERAVITÁRIA!!
  • Poucas vezes, peguei veículos lotados. Penso que quatro vezes nesse tempo todo, e sempre no mesmo horário e na mesma linha, o que sinaliza um problema pontual…
  • Apenas uma única vez mofei esperando num ponto de ônibus: era um domingo. Também ocasional.

Em Florianópolis, o sistema de ônibus é mantido pelo Consórcio Fênix, um arranjo entre as empresas que exploravam o setor antes da última licitação. Os ônibus convencionais não têm ar condicionado, apenas os executivos. Informações do próprio consórcio explicam que esse item não estava no edital de licitação e que, para modificar qualquer condição de oferta, é preciso alterar o contrato firmado. São 184 linhas e 537 ônibus, 25% a mais que Sevilha, embora Florianópolis tenha o triplo do território e 60% da população da capital andaluz.

Anda-se muito bem por Sevilha. É uma cidade plana e linda, o que incentiva a andar a pé ou de bicicleta. Existem poucas vagas de estacionamento nas ruas e isso desencoraja usar carros e veículos próprios, mas há quem o faça pois existem estacionamentos privados espalhados em diversas partes. E apesar de tudo estar funcionando bem, os sevilhanos fazem pesquisas periódicas para aperfeiçoar o sistema.

Uma cidade tão extensa e com limitações territoriais para ampliar a malha viária como Florianópolis poderia ter um sistema de transporte coletivo melhor. Uma cidade de beleza exuberante e tão convidativa ao turismo como Florianópolis poderia ter um sistema de transporte coletivo que funcionasse melhor. Uma cidade tão especial como Florianópolis poderia ter um sistema de transporte coletivo mais humano e mais barato. Sevilha e outras cidades poderiam nos inspirar nesse sentido…

Vamos pensar o tempo?

Logo depois do feriado do dia do trabalhador, vamos mergulhar numa jornada para discutir o tempo do nosso tempo.

A iniciativa é do filósofo André Barata, da Universidade de Beira Interior (Portugal), e do catedrático de filosofia moral e política, Juan Carlos Suárez Villegas, da Universidad de Sevilla (Espanha).

O programa é este aqui:

Dia 2 de maio

Olhares fenomenológicos para a compreensão do tempo no nosso tempo (Manhã, 10h30)

Irene Borges Duarte (Universidade de Évora)

César Moreno (Universidade de Sevilha)

Raquel Loio (Universidade da Beira Interior)

 

Escalas temporais no nosso presente e suas consequências ético-políticas: tempos psicológico, biográfico e geológico (Tarde, 15h30)

André Barata (Universidade da Beira Interior)

Ana Leonor Santos (Univerisdade da Beira Interior)

Davide Scarso (FCT/Universidade Nova de Lisboa)

 

Dia 3 de Maio

Olhares sociológicos e teórico políticos para a compreensão do tempo no nosso tempo (Manhã, 9h30)

Renato Miguel do Carmo (ISCTE, Lisboa)

Irene Viparelli (Universidade de Évora)

Paola Panarese (Sapienza, Università di Roma)

Regina Queirós (Universidade Nova de Lisboa)

 

O problema da comunicação na compreensão do tempo no nosso tempo (Tarde, 15h30)

Juan Carlos Suarez Villegas (Universidade de Sevilha)

Rogério Christofoletti (Universidade Federal de Santa Catarina)

João Canavilhas (Universidade da Beira Interior)

Que animal você é nas redes sociais?

Você deve ter visto dezenas de testes com perguntinhas capciosas como esta nas suas redes, não é mesmo?

Foi sem querer. Juro.

Na verdade, eu estava pensando em bichos, em animais. Por essas combinações malucas que a cabeça da gente faz, acabei lembrando de como às vezes recorremos aos nossos afetos animalescos para explicar as coisas. E, de repente, cruzei lembranças de dois livros que li há algum tempo. Pensei em ratos, gatos e cachorros. E humanos também.

Eli Pariser disse no longínquo ano de 2011 que precisamos deixar de ser ratos. Ele estava nos explicando como funcionam os filtros-bolha, uma novidade que começava a dar as caras naqueles dias e que hoje – infelizmente! – nos é muito familiar. Pariser nos dizia que as redes sociais acabam nos encerrando em bolhas, lugares confortáveis que ecoam coisas parecidas com as que sentimos e pensamos. E que nos isolam daquilo que pode representar algum tipo de risco, incerteza ou ameaça. E Pariser também argumentava como somos previsíveis. Para isso, recorreu a uma rudimentar invenção humana, a ratoeira. Ele cita a taxa de sucesso (!) do dispositivo e diz que ele só funciona porque os ratos são repetitivos e, portanto, previsíveis. Caem na armadilha porque se deixam seduzir por um naco de queijo ou menos ainda. Como nós, nas redes. O recado de Pariser é: deixemos de ser ratos!

Outro cara, o Jaron Lanier, deu outro recado importante. Foi no ano passado. Lanier disse que as redes sociais e as grandes plataformas querem nos adestrar, querem nos fazer agir como cães, a seguir obediente as ordens, a fazer coisas que não nos sujeitaríamos antes. O recado: sejamos mais gatos e preservemos as nossas autonomias, personalidades e singularidades.

Lanier sabe o que diz. É um sujeito importante para a história da realidade virtual, alguém que ajuda a construir o futuro, mas não se deixa escravizar por máquinas ou sistemas. Pariser não é qualquer um também. Tem contribuições importantes para o ativismo social e a tecnologia, e tem posições muito críticas sobre a nossa organização política e comunitária, por exemplo. Lanier e Pariser merecem ser ouvidos, portanto.

(E lidos: O filtro invisível e Dez Argumentos para Você Deletar Agora Suas Redes Sociais são leituras deliciosas e esclarecedoras, quando não engraçadas e assustadoras).

Combinados, os recados poderiam ser um só: humano deixe de ser rato e cachorro, e seja mais gato. Bob Marley já cantou isso de uma forma muito poderosa: “Emancipate yourselves from mental slavery. None but ourselves can free our minds” (“Liberte-se da escravidão mental. Ninguém senão nós próprios podemos libertar as nossas mentes”). Autonomia, amigos. Liberdade, amigos.

Cada vez mais tenho pensado nisso, e cada vez menos tenho ficado nas redes sociais. Elas têm me aborrecido mais do que informado. Elas têm me deprimido mais que me conectado com outras pessoas. Não preciso acreditar que deixar as redes sociais da internet seja abandonar meus amigos ou as pessoas que amo, admiro e respeito. Tenho me preparado para um desembarque. Tentado ser mais gato.

Por isso, pretendo cada vez mais estar neste blog. É a minha forma de te convidar a deixar as redes e ver o que está acontecendo aqui fora, na internet.

Oportunidades para pesquisar jornalismo

Há mais ou menos trinta anos, um velho jornalista fazia um convite sorridente: “vem comigo!

E lá íamos nós no ombro dele para descobrir como as coisas funcionavam, como eram personagens invisíveis, e como a vida acontecia. Quero repetir o bordão do Goulart de Andrade com você que pretende pesquisar jornalismo num mestrado ou doutorado.

Estão abertas as inscrições para o processo seletivo do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC, uma reconhecida escola que há 40 anos forma jornalistas e há mais de 10 forma mestres e doutores na área.

São três fases: análise de projeto e currículo, prova escrita e entrevista.

O prazo de inscrição vai até dia 17 de março, e os resultados finais devem sair no final de junho. Os detalhes podem ser conferidos no edital, e se eu fosse você, atentaria para duas dicas:

  1. Leia o edital com calma e atenção. As regras do jogo estão lá, inclusive os interesses de pesquisa dos possíveis orientadores de sua tese ou dissertação.
  2. Navegue pelo site do PPGJOR e conheça o programa. Pode ser a sua nova casa nos próximos anos…

Estou abrindo duas vagas para mestrado e duas para doutorado. Como o edital deixa bem claro, não preciso preencher todas elas, mas seria muito bom receber mais quatro pessoas dispostas a pesquisar ética jornalística, privacidade, transparência, media accountability, e crise no jornalismo. Atuo no Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), onde desenvolvo pesquisa e extensão com uma equipe incrível e altamente comprometida. E lá temos outros dois professores que podem orientar sua pesquisa. Fora dali, há outros grupos no mesmo programa de pós-graduação. Então, as oportunidades para pesquisar jornalismo são muitas!

Se você se interessou por alguma das temáticas com que trabalho ou se quer trabalhar com a gente no objETHOS, “vem comigo!”

 

 

Um depoimento de como o Twitter afeta nosso comportamento

Marcelo Träsel já foi um usuário inveterado no Twitter. Opinava, informava, discutia, brigava. Mas há um ano está longe daquela rede social.

Algumas razões pessoais o levaram a isso, e o mais corajoso nem é se desligar da rede, mas fazer um profundo exame de consciência e uma revisão de suas atitudes. Passado um ano de abstenção, Träsel faz um relato pungente de como o Twitter continua fabricando babacas, de como pouco se importa com crimes e linchamentos pessoais, e de como isso nos faz cada vez piores.

Leia o Träsel. Pense a partir dele.

Competindo com robôs

De repente, ando lendo muita coisa sobre inteligência artificial, automatização de redações e robôs no jornalismo. No momento, estou devorando “Ética para Máquinas”, de José Ignacio Latorre, e talvez por isso esteja muito atento ao relacionamento que nós, humanos, temos com elas, as coisas.

Daí que fui a uma exposição na CaixaForum aqui em Sevilha (Tecno Revolución: La era de de las tecnologias convergentes) e nela fui desafiado por um robô para duas partidas de jogo da velha.

Na verdade, não era um robô do tipo andróide, desses que os japoneses adoram e constroem muito bem, e que nos perturbam pela extrema semelhança. Era um braço mecânico com sensores, bem ao estilo das montadoras automobilísticas do ABC, programado a manipular peças num cenário com n possibilidades.

Pois bem, primeira partida: empate. Segunda: empate, de novo.

Não sei porque, mas ao deixar o painel de controle, lancei um olhar maroto para o robô como quem diz: não ganhei, mas também não deixei ele ganhar.

Será esse nosso conforto nos próximos tempos? Responda se for humano.

 

 

Falhamos em 2018. Vamos tentar de novo?

No finalzinho de 2017, postei aqui uma mensagem que traduzia o que eu desejava para o ano que estava começando. “Que em 2018 nossa indignação se torne ação!” Me lembro bem que era um desabafo pelo que estávamos amargando na vida política e social no Brasil, pelos muitos retrocessos que estávamos colecionando e por um inarredável sentimento de apatia.

Bem, o ano voou e os seus ventos não trouxeram as mudanças que eu queria ou esperava. Falhamos nesse sentido. Nossas queixas não se transformaram nos gestos para remoldar a nossa existência. Vamos tentar de novo!

Não estou menos combativo que antes. Mas nessas últimas horas que nos separam de 2019, tenho outro desejo: Que em 2019 tenhamos novos horizontes. Isto é, precisamos voltar a sonhar, a desejar, a imaginar e a criar outros mundos. Vamos?

Gracias Ministério del Tiempo

Foi por acaso (talvez não) que semanas antes de mudar para a Espanha eu tenha encontrado Ministério do Tempo, série televisiva criada por Javier e Pablo Olivares. Na trama, o governo espanhol mantém há séculos uma divisão secreta para zelar pela história daquele país. Para que isso ocorra, patrulhas viajam por portas que se conectam a episódios históricos, e os agentes se encarregam de que as coisas funcionem conforme se espera…

Criativa e divertida, a série conquistou de imediato a mim e a meu filho. Foi uma chance preciosa para conhecer trechos da história da Espanha, alguns personagens importantes e ainda fazer um curso intensivo da língua. Nos tornamos “ministéricos”, como são conhecidos os fãs da atração… É só um programa de TV, eu sei, mas a gente se afeiçoa a alguns personagens, sofre com outros, e com eles convivemos naquelas tantas horas de atenção.

Nos últimos seis meses, fomos devorando os 34 episódios aos poucos, e só ontem, cheguei ao último.

Desta vez, assisti sozinho porque meu filho já tem outros interesses, como o Alonso de Entrerríos da série. Eu nem percebi, mas o tempo passou rápido aqui também.

El mejor del tiempo és vivirlo. Muchas gracias Ministério del Tiempo…

Mais um livro sobre a crise do jornalismo

Estou ausente por aqui porque ando mergulhado na escrita de um livro, que tem como título provisório A crise do jornalismo tem solução?

Nele, discuto aspectos financeiros, de credibilidade, relevância, governança e ética na profissão. Discuto a crise pela perspectiva brasileira, mas dialogo com autores internacionais e analiso movimentos em outros países…

Enfim, é um livro modesto e que vai integrar uma coleção recém-lançada por uma editora paulista. A sair nos primeiros meses de 2019. E é tudo o que posso dizer por enquanto. Torçam para que eu chegue logo ao ponto final…

Precisamos de mais redes de afeto

Na semana passada, lançamos em Coimbra a Rede Lusófona pela Qualidade da Informação. “Lançar uma rede” é uma expressão recheada de significados aqui e isso tem a ver com o próprio ato do pescador que desafia a madrugada em busca de sustento. No fundo, esse é um gesto de esperança, de quem deseja colher bons frutos.

Foi um dia especial aquele, e na saída, a tarde se despedia no Pátio das Escolas, no coração de uma das universidades mais antigas do Ocidente. Falei por alguns minutos na cerimônia de criação da RLQI, representando os signatários, e foi mais ou menos assim:

Ao cumprimentar o Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra, estendo a saudação às demais autoridades, aos signatários desta rede e ao público presente.

Agradecemos a acolhida da Universidade de Coimbra nesses dias e, em especial, ao professor Carlos Camponez, por seu entusiasmo e profissionalismo, o que resultou na ampla articulação desta Rede Lusófona pela Qualidade da Informação.

Estamos felizes!

Não porque o congresso esteja terminando, mas porque este é um momento muito especial.

Um certo português escreveu certa vez que “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”. Sim, a Rede Lusófona pela Qualidade da Informação surge e ela é fruto de sonhos, mas sabemos bem que teremos que trabalhar muito para que ela se torne realidade. O português que escreveu esse verso era muitas pessoas, e ele disse também que “o mesmo mar que separa, une”.

Somos uma rede unida pelo mar, mas não somos uma rede de territórios, de países, de mapas. Somos uma rede unida por algo mais poderoso ainda: a língua portuguesa. Não se pode prender, acabar ou fazer desaparecer uma língua. Ela habita o nosso interior e ajuda a constituir os sujeitos. “A língua é minha pátria”, escreveu mais uma vez aquele português.

A Rede Lusófona pela Qualidade da Informação surge hoje, dia 14 de novembro de 2018. Amanhã é dia 15, e no meu país, o Brasil, se comemora o Dia da Proclamação da República. Muitos colegas vieram nos últimos dias conversar comigo, preocupados com os rumos do Brasil, depois dos resultados das eleições. Eles perguntavam sobre o país e eu tampouco sei explicar o que se passa por lá. E o que é pior, se num futuro breve, teremos república, teremos Brasil…

Temos cada vez mais claro que as eleições deste ano foram atípicas, e que foram contaminadas por notícias falsas, por um sistema sofisticado de desinformação, típico do que estamos chamando mais recentemente de pós-verdade. Neste contexto, é muito oportuno criar uma Rede Lusófona pela Qualidade da Informação, afinal, os meus colegas não estão preocupados apenas com o Brasil, mas com a democracia como um todo. Estão também preocupados com o jornalismo, isso que ajuda as pessoas informadas a tomar decisões pequenas e grandes.

Sim, uma Rede Lusófona pela Qualidade da Informação tem muito a fazer.

Mas uma rede como essa salva a democracia? Não.

Salva o jornalismo? Também não.

Mas por outro lado, vamos ficar parados e calados? Claro que não.

Este é um tempo difícil, e é cada vez mais necessário criar redes de cooperação, elos de trabalho, vínculos coletivos. Precisamos de redes de afeto, de respeito e de conhecimento.

Uma rede é feita de nós, e precisamos fortalecer esses laços. Precisamos tramar novas redes, de afetos e trabalho, e assim, desafiar o mar revolto.

Estamos felizes sim. Muito obrigado!

Vem aí uma rede lusófona pela qualidade da informação

Nos dias 13 e 14 próximos estarei em Coimbra para o Congresso Internacional Ética e Deontologia do Jornalismo no Espaço Lusófono, um evento que vai apresentar as mais atuais pesquisas científicas na área entre os países que falam português e que vai lançar oficialmente a Rede Lusófona de Qualidade da Informação (RLQI).

A rede vai integrar membros acadêmicos e profissionais dos nove países da comunidade em língua portuguesa para fazer pesquisas internacionais, para fomentar debates e produzir materiais que contribuam para o aumento da qualidade na área.

Para acompanhar, siga por aqui.

Outras 3 coisas que aprendi ao mudar para a Espanha

O tempo voa e já se passaram 50 dias de nossa chegada a Sevilha. Estamos cada vez mais habituados e com os pés enterrados nesse solo arenoso amarelo que mais parece ouro em pó. O calor ainda frita os miolos de quem se atreve a desafiar o sol do meio da tarde. Já não estamos tão desavisados. E por isso, listo mais três coisinhas rápidas que aprendi nesse curto período (se você não viu, há outras 4 aqui).

1. A vida está nas ruas

Os espanhóis lotam os bares à noite, e sentam-se preferencialmente nas mesas e cadeiras das ruas. Estão em busca de brisa e de boa conversa. Famílias inteiras descem dos prédios e se espalham por todos os cantos. Falam alto, riem, brindam, entregam-se às tapas e às bebidas geladas. E ficam até altas horas da noite, já que chegam tarde também, depois das 21 horas, quando o sol se esconde. A vida é pulsante, e os sevilhanos parecem não ser exigentes em termos de local. Importa mais é a situação de convívio, a possibilidade de celebrar a vida. Ela não está encerrada nos apartamentos ou casas. La vida está en las calles…

2. É possível envelhecer com muita dignidade

Adultos, jovens, crianças e velhos saem à noite. A sensação de segurança é plena, embora haja criminalidade e quase não se vejam policiais nas ruas. Septuagenários e octogenários circulam pelas ruas, mesmo os que têm dificuldades de caminhar. Apoiam-se em andadores ou seguem em cadeiras de roda mesmo. No dia seguinte, bem cedo, frequentam os mesmos bares em busca de café da manhã. Geralmente, café com leite e pão tostado com margarina ou azeite. Vivem a vida com uma plenitude invejável, desfrutam da cidade e de suas opções de lazer. São respeitados e isso é tão maravilhoso por aqui!

3. A cidade enaltece os seus

É natural que uma cidade como Sevilha, que tem 3,3 mil anos de existência, seja um museu a céu aberto, e ela é. Não apenas exibe palácios e prédios de várias origens e estilos. Ostenta! Atira na nossa cara a riqueza que o tempo e a vontade de permanecer causam. Mas outra coisa me chama também a atenção: a cidade honra e valoriza os seus pequenos ícones também. Temos estátuas do grande Velázquez, mas também encontramos em qualquer esquina ordinária um azulejo ou placa na parede, lembrando que naquele local viveu o poeta do bairro, a dançarina de flamenco, o toureiro habitual. São lembretes de que os tesouros da cidade são seus personagens, e o que mais importa ali são os traços humanos que deixamos.

4 coisas que aprendi ao mudar para a Espanha

Levei dez meses planejando passar doze em Sevilha para o pós-doutorado. É nessas horas que a gente percebe como estamos amarrados a detalhes da vida que nos fixam aos lugares. Mudar com a família para outro país equivale a uma missão lunar da Nasa: mesmo com toda preparação, dá muito trabalho e rende grandes surpresas.

Passados os primeiros 30 dias, já posso contar as quatro primeiras coisas que aprendi nesse processo:

1. Demora, mas você vai ser atendido

Por aqui, enfrentei fila para tudo: de banco a hospital, de loja a serviço de imigração, passando por escola e outras repartições públicas. Tem fila para tudo, há muita burocracia, e os atendentes não parecem ter pressa nenhuma. Testo minha ansiedade a todo momento. Paciência tem sido o meu mantra. Ser atendido por aqui demora, mas quando chega a sua vez, existe cortesia e atenção. Fui muitíssimo bem atendido por todos, principalmente os funcionários públicos. Parece ser a regra local: as pessoas na fila esperam sem reclamar, não têm chilique, pois sabem que a sua vez chegará.

2. Respeite os horários e o clima

Chegamos em agosto, mês de férias. A cidade esvaziada, o que significa menos gente atendendo no comércio e lojas com horários diferenciados. Então, não adiantava buscar algo entre 14h30 e 17h30, pois tudo (ou quase) estava fechado. Isso vai se estender por todo o horário de verão, que termina no final de outubro. Depois das 17h30, tudo reabre e aí, é ser feliz. Aprendemos também que com o sol não se brinca: o verão na Andaluzia é abrasador. Pegamos 48 graus numa tarde logo na primeira semana. Agora, já ficamos radiantes quando a meteorologia prevê máximas de 35…

3. Esteja aberto às novidades da mesa

Ir ao supermercado é uma festa, pois descobrimos cada coisa! Não se trata apenas de experimentar novos sabores, mas também de encontrar equivalentes dos itens que usamos na culinária brasileira e de conhecer como os locais cozinham. É divertido e surpreendente. Não tenha frescura.

4. Não se engane com os gritos

Espanhóis são muito enfáticos, festivos, afirmativos. Berram, gesticulam e quase nunca falam à voz pequena. Nem sempre é bronca ou briga. É assim que eles se colocam no mundo. Só isso. Existe um latifúndio espanhol entre a bravata e a gentileza, entre o grito e o sorriso.

A primeira saudade do Brasil…

Estou há quatro semanas em Sevilha para o pós-doutorado e só ontem uma pontinha no peito acendeu a luz da saudade. Não é a primeira vez, é verdade. Já estive fora antes, mas esta saudade do Brasil só foi despertada agora porque devorei a tese de Lilian Juliana Martins: “Antonio Callado jornalista: a narrativa da grande reportagem e o ideal do Brasil possível”. Orientada por Marcelo Bullhões na Unesp de Bauru, a ótima tese é um mergulho inédito e revelador na obra jornalística desse gigante. Ela analise seis grandes reportagens de Callado e as articula a um movimento mobilizador (e idealizador) de um país que teima em não acontecer.

Índios no Xingu, miseráveis na seca nordestina, agricultores engajados pela reforma agrária, tudo isso encharcou de brasilidade as mais de 300 páginas do trabalho, despertando esse sentimento escondido lá no fundo das minhas malas.

As últimas semanas têm sido muito intensas por aqui e mal havia me preparado para isso.

Hoje, Lilian defendeu a tese e seu trabalho foi aprovado. Por Skype, confessei que o trabalho dela havia me provocado a primeira saudade do Brasil nesta jornada espanhola. Ouvi a reação simpática da platéia e dos outros avaliadores. Todos rimos e eu me peguei num redemoinho de emoções: a banca acontecia na universidade onde me formei como jornalista há mais mais de 20 anos; a tese foi orientada por um dos meus mais queridos professores dessa época; e as páginas do trabalho me fizeram lembrar daquele país que não sai de mim.

Lembrar não. Recordar! Porque recordar significa voltar a passar pelo coração…

 

Ética Jornalística, um curso

Começo hoje um curso para alunos de mestrado e doutorado sobre estudos avançados em ética jornalística. Esta é uma disciplina eletiva do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC, e nas próximas 15 semanas, pretendo  enfrentar com meus companheiros de aula algumas questões que me parecem cruciais para se pensar a profissão atualmente: ética das redações e ética hacker; verdade, credibilidade e fake news; robôs, algoritmos e automação do jornalismo; privacidade, vigilância e transparência; direito ao esquecimento e vazamentos… esses são alguns dos tópicos que vamos perseguir com uma extensa bibliografia, e é claro que outros podem surgir inadvertidamente.

A turma já está fechada e estarei em excelente companhia. Como talvez o assunto interesse a você, leitor, deixo aqui o plano de ensino na esperança de atrair novos interlocutores. Se não de forma presencial e em sala de aula, que o diálogo se dê pelas muitas vias tecnológicas que temos hoje.

A vida, essa teimosa

Chegam notícias de que uma amiga retirou um tumor enorme da cabeça. A quilômetros dali, outra amiga se recupera de dois AVCs. E mais longe ainda, chegam notícias do México, onde um amigo avisa que o terrível terremoto fez ruir diversos prédios. Felizmente, todos passam bem.

A vida insistentemente resiste.

O que eu trouxe da Bienal do Livro…

Eu tinha todos os livros do mundo à disposição mas só carreguei dois em minha mochila. Não temia pagar excesso de bagagem no aeroporto, nem estava contando os centavos. Só decidi trazer dois títulos porque só eles me pareceram imperdíveis-fundamentais-necessários…

Compro livros com muita regularidade, tanto físicos quanto eletrônicos. Então, a Bienal do Livro no Rio não trouxe muitas novidades. O que me chamou a atenção mesmo foram duas ideias inteligentes e contra a corrente. Em A Vingança dos Analógicos, o canadense David Sax chama a nossa atenção para o ressurgimento com vigor dos discos de vinil, do filme em película, dos cadernos Moleskine, de revistas de nicho, enfim, de tecnologias analógicas que enriquecem nossa experiência humana nesse contexto de altíssima conectividade. O texto é limpo, bem humorado, próprio das boas reportagens ou dos livros sobre cultura, consumo e comportamento. Em O Reino da Fala, Tom Wolfe sustenta a hipótese de que foi a fala, e não a evolução, que permitiu que chegássemos onde chegamos como humanos (!!).

Fiquei pensando porque, diante de tanta gente abarrotada de sacolas, só trouxe dois míseros títulos. Descobri só ontem no labirinto das boas ideias daqueles autores inspirados: livros são caixinhas mágicas de ideias, e aquelas que eles me apresentavam eram tão cintilantes que ofuscaram todas as outras milhares de caixinhas da Bienal…

Porque sou candidato à comissão de ética do sindicato dos jornalistas

O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina vai renovar a sua comissão de ética e sou candidato a uma vaga. Por quê?

Sou professor de Legislação e Ética em Jornalismo e de Ética e Deontologia na Universidade Federal de Santa Catarina. Ética profissional é minha área de pesquisa há 18 anos e escrevi alguns livros e muitos artigos científicos sobre isso. É um tema que me interessa e que me preocupa. Tanto é que em 2009 ajudei a criar o Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), projeto que tem um site para discutir condutas e ações de jornalistas e veículos de mídia.

Mas a ética jornalística não é uma preocupação minha apenas no campo acadêmico. Acompanho a evolução da nossa profissão e os principais debates da categoria há vinte anos. Entre 2002 e 2004, fui vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas e, nessa função, conduzi eventos e outras realizações que tratavam disso.

Então, por essas razões, sinto que posso colaborar com a comissão de ética do nosso estado.

Acredito que um órgão como esse não deve ser só punitivo e disciplinar. A comissão de ética pode ter um papel mais educativo, que contribua para aperfeiçoarmos os nossos padrões éticos dentro e fora das redações. A comissão pode realizar e promover eventos, e produzir materiais de orientação e aconselhamento, por exemplo. Outras iniciativas podem fazer com que cresçamos enquanto categoria e nos aproximemos mais do que a sociedade espera. Sim, há muito o que fazer!

Estou pessoalmente motivado a trabalhar com outros colegas da comissão e gostaria de oferecer a minha contribuição. Trata-se de um trabalho voluntário, independente e não vinculado à diretoria, e sem qualquer remuneração.

Se você é filiado ao Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, não deixe de participar da eleição da diretoria nos dias 23 e 24 de agosto. Aproveite e escolha também os cinco membros da comissão de ética. Espero poder contar com a sua confiança. Se quiser saber mais da minha trajetória, acesse meu site.

Para mais informações sobre horários e locais de votação, acompanhe os informes da comissão eleitoral.

Que possamos lutar juntos e construir dias melhores para o nosso jornalismo.

Desprestígio

Fugimos dos sentidos de algumas palavras. Às vezes, até fazemos um leve esforço para fingir que esquecemos aqueles significados, como se pudéssemos engavetar tudo.

É o que se passa com “desprestígio”.

Quase nunca usamos, não é? Gostamos mais do antônimo. É nome de chocolate, é algo que nos enaltece, uma forma de capital, que ajuda a nos destacar dos demais.

Desprestígio, não. Revela que – por mais que façamos, por mais que provemos o nosso valor -, de nada valeu. Não somos reconhecidos como esperávamos. Não somos tidos como queríamos. Não somos especiais em nada. Mãos e bolsos estão vazios.

Não se trata de paparico, de ter vantagem adicional sobre os demais, de afagos no ego. O desprestígio só mostra que a tabela pela qual fomos valorizados está zerada, e nesse cálculo de si, o resultado é mais que negativo.

O desprestígio exibe um pouco de nós. Mas também mostra quem nos cerca: o quanto nos querem bem, o quanto nos conhecem, o quanto estão conosco.

O Brasil me faz perder o sono

103522_Papel-de-Parede-Coruja-Guinchando_1600x1200Tem sido muito difícil fechar os olhos esses dias. O Brasil me faz perder o sono. Não só a mim, claro!, mas muita gente padece disso. Ando amarrotado por aí.

O Brasil me faz perder o sono porque chegamos a esse estado, como se a vida fosse uma correnteza que nos arrastasse apenas e não adiantasse remar.

O Brasil me faz perder o sono porque julgaram não apenas uma presidente, mas seu governo, seu partido, o modelo de país que construíram, um conjunto impressionante de direitos que querem cassar, um punhado de utopias que estão para destruir.

O Brasil me faz perder o sono não apenas por causa do impedimento de Dilma, mas porque o mesmo Congresso Nacional que a estraçalhou vai continuar por mais alguns anos. Deputados despreparados, senadores rancorosos, parlamentares conservadores, congressistas corruptos, todos os 594 seres que compõem o legislativo brasileiro vão seguir suas vidas após a deposição de Dilma. (Note: não foi um erro escrever o nome do poder em minúsculas na linha anterior. Não existe grandeza que justifique o uso de outras letras).

O Brasil me faz perder o sono porque a política e a economia não vão melhorar, pois a esperança e os sonhos estão soterrados pela dúvida de uns, pelo inconformismo de outros e pelo ódio de terceiros. Não estamos nem unidos nem pacificados, Michel. Não se engane. Não nos engane, não mais.

O Brasil me faz perder o sono porque Dilma cai antes de Eduardo Cunha, de Romero Jucá e outros canalhas que conspiram e dinamitam a vida nacional. E talvez eles se arvorem em algum artifício para sobreviver politicamente, já que são sobre-humanamente espertos.

O Brasil me faz perder o sono porque perdemos também o senso de justiça, não confiamos mais no voto direto, na manutenção da vontade popular, nas instituições, na democracia. Desconfiamos da mídia, da isenção do judiciário (de novo, minúsculas), do colega do trabalho, do vizinho, do parente querido, das parcas certezas que cultivávamos.

O Brasil me faz perder o sono porque, em muitos de nós, o senso de decência não pode ser mais percebido, a verdade é meramente retórica e o projeto coletivo de país se esfarelou.

Enfim, o Brasil me faz perder o sono porque apesar disso tudo, há quem ainda consiga dormir tranquilo.

O golpe fez 100 dias

Michel Temer está na condição de presidente interino há 102 dias.

Pelo andar da carruagem – e a figura cai muito bem pelo tom arcaico -, vai se transformar em presidente efetivo com a deposição de Dilma Rousseff no final deste mês, mais tardar no começo de setembro.

Nesses pouco mais de três meses no comando, Temer não fez do Brasil um país mais unido, nem mais pacificado, muito menos um país melhor. Perdemos todos. Em direitos, em esperança, em sonhos. A nação tem sobre si um tecido esgarçado em cujos rasgos vê que a corrupção não foi extinta, que o otimismo se esfarelou, e que a economia está longe de melhorar.

Temer, Serra, Jucá, Renan, Cunha, Aécio e os demais corvos que roem a esperança nacional estão também muito distantes de serem modelos de honestidade e conduta. Rodrigo Maia, o segundo homem da República, foi citado generosas vezes no Listão da Odebrecht, em segredo de justiça por ordem do ministro Teori Zavaski. O Congresso Nacional que ele lidera representa conservadorismo, intolerância, rancor e retrocessos.

Com a queda de Dilma, o PT destruído, as esquerdas aparvalhadas e a população exausta, corvos, chacais e hienas vão avançar sobre o que imaginam ser uma carcaça sem vida. Veremos nos próximos tempos se o país estará assim mesmo. Torço para que não.

De certeza, só tenho uma: daqui pra frente, as coisas não vão melhorar. Não vão.

Este é o ano do “não”

2016 tem se mostrado um período difícil, de tantas recusas, de tantos senões, de tantas vírgulas. Metade do ano já era, e eu já sei que não é um bom momento. Tenho acumulado uma quantidade impressionante de nãos. As pessoas não estão dispostas, os recursos não estão disponíveis, as oportunidades não estão na mesa!

Tudo parece travado, interrompido. É o medo do risco, é a impossibilidade de incerteza, é a certeza de reticências.

Dá vontade de desistir de tudo, de jogar as cartas para o alto, de cavar um buraco na direção do núcleo da Terra. Acha que eu vou desistir? Não. Essa é a única resposta que eu conheço para tantos outros nãos.

A Nobel tem mão quentinha

20160705_104225Eu tinha certeza de que iria me encontrar com Svetlana Aleksiévitch na Flip. Não havíamos combinado nada (quem dera!), mas eu tinha certeza. Por isso, onde quer que eu fosse, carregava comigo o exemplar de Vozes de Tchernóbil que me marejou os olhos tantas vezes.

No meio de um mar de gente que zanzava pelas ruelas de calçamento ancestral, avistei a jornalista que se notabilizou por contar histórias tristíssimas como a da tragédia nuclear de 1986 na Bielorússia. Svetlana andava com passos miúdos e olhar perdido nas fachadas das casinhas coloniais. Estava acompanhada por sua agente literária na Europa e por uma tradutora. Bendita tradutora!

Abordei Svetlana em inglês e ela me olhou desarvorada. Este idiota esqueceu de décadas de Guerra Fria! A gentil tradutora veio ao nosso socorro e construiu uma simpática ponte entre o Brasil e a Ucrânia, já que eu não sei dizer nem obrigado em russo…

Agradeci Svetlana por ter contado as histórias dos anônimos em Vozes de Tchernóbil. Suas sobrancelhas formaram um triângulo surpreso. Mencionei meu episódio favorito no livro, aquele do homem que deixa tudo na cidade evacuada, mas volta para levar consigo a porta de casa. Sobre ela velou o pai e nela marcou ao longo dos anos as fases de crescimento dos próprios filhos. A escritora sorriu e passou a falar com voz clara e olhos animados.

Eu disse que era professor de jornalismo e que desejava que meus alunos a lessem. Afetuosa, Svetlana disse algumas amabilidades. Apesar de se queixar de uma dor no trigêmeo – o incômodo nervo da face -, sorria e balançava a cabeça.

“Você não tem um livro para ela autografar?”, perguntou a tradutora. Saquei meu exemplar e tirei fotos com ela. Svetlana fez uma dedicatória, apertou minha mão e se foi com as amigas. Tinha a mão quentinha, e o cumprimento foi forte. Como a sua escrita.

Não temos whatsapp. Não insista

Toda semana alguém arregala os olhos e luta para impedir que seu queixo bata no chão. É assim quando respondo “não tenho whatsApp”. A pessoa me olha meio estupefata, meio incrédula, quase com desprezo. “Como assim?”, ela insiste diante daquela inacreditável revelação, quase um segredo de Fátima. E aí eu preciso argumentar porque não uso o software quando 100 milhões de brasileiros já o utilizam “há séculos”.

“Mas você não usa por quê?” – pergunta, com olhar desconfiado.

(sorrio amarelo) “Porque não…”

“Isso não é resposta. Diga aí!” – diz, querendo arrancar uma confissão.

(gaguejo) “Porque não sinto necessidade e…”

“Mas como não?! Você não tem celular?” – já aumentou o volume da voz.

“Tenho…”

“Com o whatsapp, você não precisa pagar a ligação nem a mensagem que enviar. É uma solução grátis!”

(eu penso: pular da ponte também grátis, mas também não estou a fim de usar essa solução) “Bem… eu não vejo porque usar…”

“Mas é super prático!” – arranca uns tufos de cabelos.

(eu penso: tomar chuva em vez de tomar banho também é prático, mas não abro mão do chuveiro) “Não acho necessário e…”

“Mas você não é jornalista? Não lida com comunicação?” – interpela, com as mãos prestes a alcançar meu pescoço.

(esquivo do estrangulamento) “Sim, eu sou, mas…”

“E como é que você se comunica?” – a pessoa está prestes a sacar uma faca…

(meus olhos varrem o perímetro buscando rotas seguras de fuga) “Bem, eu uso email, ligo para as pessoas, mando SMS, deixo recados, converso pessoalmente…”

“Ah, mas não é a mesma coisa!” – agora, a pessoa me olha com nojo. Virei uma barata.

(penso em responder, mas o interlocutor faz sinal para parar. Ele olha seu smartphone que emite ruídos múltiplos, avisando que chegaram várias mensagens. Com os olhos pregados na tela, me deixa ali sem falar nada. Eu sorrio: salvo pelo whatsApp!)

“Stoner” me fez chorar de novo

12985588_1665400570387011_2803034507267203373_nPense por alguns segundos e responda: quantos livros já te emocionaram de uma forma tão arrebatadora a ponto de perder o chão? Pense com calma, tenho certeza de que não foram muitos. Comigo também, e os livros que me fizeram chorar cabem nos dedos das mãos, de uma talvez…

Há muito anos, chorei amargamente quando Gregor Samsa percebeu que sua família não lhe devotava nenhum valor, nada de respeito. E não era porque havia se tornado um inseto monstruoso…

Há alguns anos, chorei fundo quando Baleia veio consolar um dos meninos-sem-nome de Vidas Secas, encostando a cabeça magra em uma mãozinha suja…

Há poucos anos, chorei copiosamente quando os remorsos da infância tomaram a vida do narrador em O caçador de pipas…

Hoje, voltei a manchar as páginas de um livro: Stoner, de John Williams.

Desta vez, conhecemos um professor de literatura, com um casamento falido, sem vaidades ou ambições, e que conduz sua vida como se fosse levado por um caudaloso rio. Williams oferece a vida ordinária de um homem sem qualquer brilhantismo, contada de uma forma linear e cotidiana que nos mostra o quanto se pode descobrir de dignidade e honestidade em alguém. Suas escolhas erradas, a impassividade e a resiliência, os fracassos pessoais, as fragilidades emocionais, tudo o que nos faz sermos o que somos. Pungente, bem escrito, profundamente humano.

Foi um prazer conhecê-lo, professor Stoner…

 

A chuva contada por Schroeder

544931_historia-da-chuva-702678_Z1Eu esperava outra coisa de “História da Chuva”.

Quando Carlos Henrique Schroeder deixou escapar o título do livro que preparava, me deslumbrei com o achado. Por que não pensei nisso antes? Algo tão ancestral, quase mítico. Tipo “A história do fogo”, como no filme. Um rótulo amplo, capaz de reunir todos os fluxos do tempo e ainda conservar lirismo. Era maio e estávamos em pleno Festival Nacional do Conto. O autor confidenciou ainda que se tratava de um romance sobre a enchente de 2008 no Vale do Itajaí, e vibrei secretamente com aquilo. Também sobrevivi a ela e foi uma das minhas experiências mais aterradoras. Alguém precisava contar aquilo. Aquele mar de tristezas e horror não poderia escorrer pelos ralos da memória…

Então, eu esperava outra coisa de “História da Chuva”, e por isso, saí no meio da tempestade com uma sede infinita, engolindo sofregamente as páginas. Fui tragado por outros redemoinhos, como aqueles que a gente vê num rio caudaloso e que dá dentadas nos barrancos e nas pontes, como já escreveu Schroeder. Os redemoinhos sinalizam os sumidouros, onde pessoas, animais e coisas são tragadas, desaparecendo na água turva.

Fui arrastado então para outros lugares. A partir de um corpo que boia na água marrom, mergulhamos na busca de um narrador por sua própria história e natureza. O cadáver é de um artista de teatro de animação e o narrador estranhamente se chama Carlos Henrique Schroeder, mora em Jaraguá do Sul, é escritor e modesto editor. Tal qual o homem que assina o livro e que iluminou a noite com um título como aquele. O narrador tenta reconstituir o passado do morto, enquanto tenta manter longe a ex-namorada perigosamente ciumenta às vésperas de seu casamento. Como é de se esperar, sua jornada é também a busca de si mesmo, a tentativa de preencher as lacunas que justificariam sua existência.

Menos poético que “As fantasias eletivas”, este “História da Chuva” é um romance muito mais complexo e ambicioso. Schroeder, o autor, espalha mais personagens na mesa e constroi sua trama a partir de várias camadas, alternadas com muita destreza. Me fez lembrar daqueles artistas de circo que equilibram pratos giratórios nas mãos, pés, nariz e queixo. O malabarismo não está apenas em manter os pratos em movimento, mas em mover as varas que os sustentam numa dancinha caótica. Schroeder faz autoficção e ensaísmo sobre o teatro de animação, e reflete sobre o que é sobreviver em meio às agruras de ser artista periférico. Não satisfeito, oferece mais: prende a respiração e afunda no turbilhão da alma de quem se dedica a escrever e a criar. Como foi tudo rápido e sem aviso, há pouco oxigênio para aquilo e o leitor pode acabar como o corpo que boia: com os pulmões cheios de água.

Eu esperava outra coisa de “História da Chuva”. Talvez a redenção a partir da enchente, talvez um punhado de explicações para o mistério que faz da água tanto trazer quanto tirar vidas. Talvez, talvez, talvez. Faz poucos minutos que fechei o livro, depois de reler seis ou sete vezes o final. O impacto permanece. Não pelas surpresas que me trouxe, mas pelo inevitável desconforto de quem passa o dia com as meias e os pés encharcados.

Faz 70 anos. Para não esquecer.

Numa manhã como a nossa, Hiroshima acordou como nenhuma outra.

Há 70 anos, uma bomba matava mais de 130 mil pessoas. Dois dias depois, repetiriam a dose em Nagazaki, matando outras dezenas de milhares. E agosto de 1945 mudou a história da humanidade…

Alguém mais esperto já disse que 6 de agosto de 1945 foi o dia mais importante da história humana. A justificativa é simples. Se antes tínhamos certeza de que morreríamos individualmente, depois desse dia, passamos a considerar a morte total e coletiva…

Não dá pra esquecer. Não podemos esquecer. Era um tempo de guerra, é verdade, e o Japão também cometeu atrocidades. Mas nada justifica.

Não podemos esquecer as milhares de vítimas.

Não podemos esquecer o horror dos anos seguintes.

Não podemos esquecer do pânico instaurado no mundo desde então.

Não podemos esquecer que as bombas atômicas não caíram sobre as cidades. Elas foram atiradas.

Não podemos esquecer quem apertou o botão. Não foi a Rússia, não foi a China, nem Cuba, Irã ou Iraque.

Não podemos esquecer que os Estados Unidos usaram a bomba atômica contra milhares de civis, mais de uma vez numa única semana, de forma irreversível, covarde e injustificável.

Dias melhores virão

Amanhã começo um semestre daqueles!

Estou muito empolgado com o que vem por aí. Na graduação, terei mais uma turma de Políticas de Comunicação, e vou oferecer uma optativa para aprofundar o tema: Políticas de Comunicação 2. A ideia é mergulhar em alguns assuntos, como Marco Civil da Internet, uma Lei Geral para a Comunicação e a realidade da mídia no país… Quero ver também se conseguimos ter uma atuação para além das paredes da universidade, se é que me entendem…

Terei também outro desafio no curso de Jornalismo: vou assumir a disciplina de Legislação e Ética. Sim, já lecionei a matéria por quase dez anos na Univali e ela é meu objeto de pesquisa há mais de quinze. No entanto, herdo a responsabilidade do grande mestre Francisco José Castilhos Karam, referência nacional nesses estudos. Espero dar conta… Na pós-graduação, dividirei com o mesmo Karam a disciplina Estudos Avançados em Ética Jornalística, um privilégio para mim, para alunos do Mestrado e do Doutorado…

No mais, os desafios do semestre envolvem ainda a continuidade de minhas pesquisas, a renovação do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), a chegada de novos orientandos (mestrandos e graduando) e o lançamento de Questões para um Jornalismo em crise, a sair pela Editora Insular. Há outros projetos e parcerias sendo costurados, mas ainda é cedo pra contar.

O que posso adiantar é que eu e Ana Paula Laux terminamos o primeiro romance policial assinado por Chris Lauxx. O título ainda é segredo, pelo menos até assinarmos com uma editora…

Bem, eu avisei: estou empolgado. Dias melhores virão, e eles estão logo ali na esquina…

Este blog fez 10 anos!

Quando comecei este blog, em maio de 2005, o mundo era bem diferente do que é hoje.

George W. Bush não só mandava nos Estados Unidos, como estava no segundo mandato! Por aqui, Lula era o presidente e uma tal de Dilma Rousseff estava às vésperas de assumir a Casa Civil. O Fórum Social Mundial ainda acontecia em Porto Alegre e a Microsoft preparava o lançamento de uma novidade, o XBox 360. João Paulo 2º nem tinha esfriado ainda e Bento 16 dava o sermão na Praça São Pedro. Quem diria? O YouTube estava surgindo! O Orkut era o rei das redes sociais – apesar do Facebook já existir – e o Twitter só apareceria no ano seguinte, em 2006. Eu tinha um bebê em casa, muito mais cabelo e esperança, e muito menos barriga e mau humor.

Em dez anos, o mundo não parou de girar uma única vez. Por isso, mudamos tanto. Um passo à frente e você não está no mesmo lugar. Não foi assim que Chico Science ensinou?

Não entendo também como conseguimos chegar até aqui. Deveria ter desistido. Tive chance pra isso. Faltou coragem, faltou tempo, sei lá.

Registramos mais de 450 mil visitas, mais de 3,3 mil comentários e infinitas horas despejando coisas que colecionei por aí. Valeu a pena? Sim, valeu. Afinal, não são muitas as coisas na nossa vida que duram dez anos.

Obrigado pela visita, por algum comentário, por lincar este blog. De alguma forma, ele também foi seu. E eu me senti menos patético e sozinho enquanto remexia essas memórias.

2007: o endereço ainda era monitorando.zip.net
2007: o endereço ainda era monitorando.zip.net
2007: primeiro layout no wordpress
2007: primeiro layout no wordpress
2008: era demais ter um blog nessa época!
2008: era demais ter um blog nessa época!
2009: blogar era publicar para não perecer
2009: blogar era publicar para não perecer
2010: o blog se tornava cada vez mais um diário de bordo
2010: o blog se tornava cada vez mais um diário de bordo
2010: a cada mudança de humor, uma alteração no layout
2010: a cada mudança de humor, uma alteração no layout
2011: a integração com o Twitter ajudava a
2011: a integração com o Twitter ajudava a “espalhar” melhor
2012: começa a bater o cansaço. Os blogs já não são mais os mesmos
2012: começa a bater o cansaço. Os blogs já não são mais os mesmos
2013: posts ficam cada vez mais enxutos
2013: posts ficam cada vez mais enxutos
2014: as postagens ficam mais escassas
2014: as postagens ficam mais escassas
2015: o blog é
2015: o blog é “engolido” pelo site, mas sobrevive

Cremilda Medina em casa

UnknownFazia algum tempo que eu não a via pessoalmente. Mas na semana passada, ela passou pela cidade para uma conferência num evento, e foi a oportunidade de nos revermos rapidamente. Afetuosa como sempre, me deu um abraço daqueles, fez questão de me olhar nos olhos e me escaneou a alma. Acho que passei… Me trouxe também um presente: Você tem o meu livro de memórias? Sem jeito, fui sincero. Não. E ela sacou um exemplar com dedicatória e tudo o mais.

Acariciei a capa, sentindo a leveza do papel e deixei as páginas ventilarem meu rosto. Duas noites depois, abri o livro querendo um tantinho mais. E quem disse que consegui deixar de lado?

Me dei conta de que conheço Cremilda Medina há quase 15 anos. Ela me orientou no doutorado e convivemos um tempinho, pouco diante do que eu poderia aprender.

Em “Casas da Viagem”, Cremilda não apenas oferece uma autobiografia, mas porções generosas de diversos encontros que teve na vida nas últimas sete décadas. De maneira original, ela toma o mote das casas que habitamos ao longo da existência para contar o que viu, sentiu e viveu. As casas são as contas de um colar, e cada um tem o seu… Desprendida, a autora narra suas origens em Portugal, os tempos de imigração, a passagem pelo Rio Grande do Sul, a longa estada em São Paulo e as muitas viagens pelo mundo, como jornalista, pesquisadora e professora. Franca, a autora lembra de momentos bons e ruins, dá os nomes certos aos acertos e aos erros, e deixa escapar parte de sua coragem e ímpeto.

Aquelas páginas nos contam da relação de Cremilda com escritores e artistas, do convívio com intelectuais e cientistas, da vida difícil em tempos difíceis, da certeza de que a vida deve ser celebrada. Ao final, somos apresentados às casas da viagem, em fotos vívidas dos imóveis que a autora já habitou, como um filme rápido que desfila pelas nossas retinas.

Autobiografias há aos milhões. Toda vida merece ser contada e registrada. Este livro de memórias de Cremilda Medina não é um acerto de contas, não é um balanço de trajetória, não é uma ostentação de ditos e feitos. Para mim, as “Casas da Viagem” é um volume que cerca uma personagem que está à procura de si mesma. Alguém que sabe saborear bons e maus momentos, e que enxerga na vida uma grande aventura, um risco do qual não se pode fugir.

A memória está nos poros

Aconteceu num dia de Natal, e não foi especial apenas por isso. Mas é claro que em datas como essas a gente fica mais sensível, propenso a tornar tudo mais simbólico, quase milagroso…

Era o finalzinho da tarde, quando não havia mais presentes para abrir e a preguiça nos alcançava de uma forma inescapável. A luz sumindo lá fora, a cortina do quarto fechada, o abajur aceso tingindo as paredes de um amarelo mole. A família ainda se espremia inteira na cama, quando esbarramos num CD caseiro antigo, repleto de canções que a mãe reunira para uma festinha de aniversário do filho. As musiquinhas infantis pertenciam a um passado longínquo do garoto agora com dez anos. Quase uma eternidade para ele…

Apertei o play para que a família embarcasse naquela viagem, e o rapazinho pulou me dando um abraço, o que me fez segurá-lo numa posição de aconchego. Grudado, se aninhou ali, com o queixo colado no meu ombro, as pernas e os braços, sobrando às costas. Começamos a dançar as aberturas dos desenhos animados, as cantigas de roda e as músicas da Turma do Cococoricó… Há quase uma década, quando o rapazinho era só um cisco de gente, eu fazia o mesmo. A mãe – exausta do dia – aproveitava para descansar e eu colocava o bebê para dormir, ao som daquelas canções.

Agora, dançávamos mais uma vez, e os braços sentiam quase trinta quilos a mais. A mãe assistia com um sorriso que unia as duas orelhas… E, de repente, eu notei o ombro encharcar. Em silêncio, o rapazinho me abraçava com força, com uma disposição de nunca mais largar. Disfarcei, mas também deixei escapar algumas lágrimas. Continuamos dançando por outra eternidade. A mãe quis saber o que acontecia, e o rapazinho disse que estava com saudades dos tempos de ninar…

Mas como poderia lembrar se nem gente quase era?

Naquele dia de Natal, percebi que a memória não está na cabeça nem no coração. Ela está em toda a parte, na pele, no corpo, nos poros. Qualquer coisa pode interromper seu sono latente, e fazê-la vibrar feito asas de beija-flor. A música infantil, o calor do colo e o chacoalhar da dança, tudo isso mexeu com a gente, e nos fez voltar um tempo de delicadeza. Foi meu melhor presente no Natal que passou…

As solidões de Carlos Henrique Schroeder

schroederConfesso que cheguei meio acabrunhado na livraria. Arrastado por minha esposa, eu ia a um lançamento de dois livros de jovens autores brasileiros que eu desconhecia. Para ser mais exato: já tinha ouvido falar muito deles, cheguei a trombar com alguns de seus títulos, mas eu nunca tinha lido Santiago Nazarian ou Carlos Henrique Schroeder. E eles estavam ali, a duas fileiras de cadeira, falando de suas novidades, e eu só balançando o queixo, no maior estilo sabe-tudo…

Confesso também que fui capturado pela simplicidade e pelo jeito gente-boa de Schroeder, e dias depois, fui “conhecer” o sujeito por meio de seu As Fantasias Eletivas. Nele, uma voz atual e um timbre claro nos conta a história de Renê, sujeito pacato, com passado tumultuado, que trabalha como recepcionista de hotel à noite em plena baixa temporada. Estamos em Balneário Camboriú, que no verão é a Babilônia, e fora dele, o Saara.

Acompanhamos Renê e o hall vazio, o silêncio da madrugada, as ruas desertas, as habitações ermas, a excêntrica fauna noturna, tudo isso e mais ajudam a compor uma atmosfera de absoluta solidão. Mais que solidão, abandono.

Se o romance só nos apresentasse o cotidiano de Renê, teríamos elementos de sobra para permanecer com o nariz colado naquelas páginas. Mas Schroeder – que já foi um Renê na vida – nos apresenta Copi, um travesti divertidíssimo que rouba a cena e que nos tira de nós mesmos. Fadado a mexer com os quadris e a capturar cenas com sua câmera, Copi captura pessoas e coisas que se cercam de solidão. Numa pasta surrada, coleciona os flagrantes da vida e destila pequenos textos que transbordam lirismo e inteligência.

É o que Copi chamou de A Solidão das Coisas, e aí a gente se depara com preciosidades que me fizeram lembrar de Borges nos seus delírios eruditos, em mundos inventados, nas obras e autores que sonhou… Ponteiros de relógio são solitários, marcadores de página são solitários, corredores de hotel são solitários, placas, sombras e notas de rodapé são solitários… Passamos por eles todos os dias, esbarramos em suas superfícies – como as dos rejuntes do piso – e nada. Nem percebemos suas condições singulares e, portanto, sozinhas.

Schroeder, Renê e eu ficamos só olhando o que Copi nos mostra. E é tanto que queremos mais Copi nas páginas que virão. Seria exagero dizer que “agora, sim!, conheço Schroeder”. É pouco ainda. Quero ler mais, e tenho certeza de que não estou sozinho nesse desejo.

Frank Maia é o maior, e vou dizer porque

Screenshot 2014-11-05 10.01.58Imagine a cena: você entra na sala meio acabrunhado, nem senta e eles te dizem na lata. Você está fora! De-mi-ti-do.

Diante isso, a maioria das pessoas junta os cacos e sai de fininho. Uma minoria, em vez de juntar, espalha os cacos, jogando tudo no ventilador. Mas tem uns outros, que vão além… Meu amigo Frank Maia é desse time.

Soube hoje que ele foi desligado de A Notícia, e – chateado – fui buscar razões para a notícia ruim. Justo o Frank, um chargista criativo, com um traço personalíssimo, uma usina de piadas ambulante!

Pensei em ligar pra ele, deixar um abraço. Desisti. Vai que o cara emenda uma piada e acabamos gargalhando dessa história toda. Deixei meia linha de comentário no Facebook. Daí, deslizei a tela e vi outro post, que me deixou muito impactado. Nele, o Frank faz troça da própria condição. Faz uma charge homenageando justamente o cara que vai substituí-lo em A Notícia. Isso mesmo. Frank não é só o melhor chargista de Santa Catarina há anos – na época de Bonson, ele já era, mas não admitia frente ao mestre. Frank Maia não é só o melhor chargista do Estado como é um cara extraordinário, um ser humano capaz de deixar a prancheta reluzente para seu sucessor.

Frank, eu te amo, cara!