Marcado: confessionais

A vida, essa teimosa

Chegam notícias de que uma amiga retirou um tumor enorme da cabeça. A quilômetros dali, outra amiga se recupera de dois AVCs. E mais longe ainda, chegam notícias do México, onde um amigo avisa que o terrível terremoto fez ruir diversos prédios. Felizmente, todos passam bem.

A vida insistentemente resiste.

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O que eu trouxe da Bienal do Livro…

Eu tinha todos os livros do mundo à disposição mas só carreguei dois em minha mochila. Não temia pagar excesso de bagagem no aeroporto, nem estava contando os centavos. Só decidi trazer dois títulos porque só eles me pareceram imperdíveis-fundamentais-necessários…

Compro livros com muita regularidade, tanto físicos quanto eletrônicos. Então, a Bienal do Livro no Rio não trouxe muitas novidades. O que me chamou a atenção mesmo foram duas ideias inteligentes e contra a corrente. Em A Vingança dos Analógicos, o canadense David Sax chama a nossa atenção para o ressurgimento com vigor dos discos de vinil, do filme em película, dos cadernos Moleskine, de revistas de nicho, enfim, de tecnologias analógicas que enriquecem nossa experiência humana nesse contexto de altíssima conectividade. O texto é limpo, bem humorado, próprio das boas reportagens ou dos livros sobre cultura, consumo e comportamento. Em O Reino da Fala, Tom Wolfe sustenta a hipótese de que foi a fala, e não a evolução, que permitiu que chegássemos onde chegamos como humanos (!!).

Fiquei pensando porque, diante de tanta gente abarrotada de sacolas, só trouxe dois míseros títulos. Descobri só ontem no labirinto das boas ideias daqueles autores inspirados: livros são caixinhas mágicas de ideias, e aquelas que eles me apresentavam eram tão cintilantes que ofuscaram todas as outras milhares de caixinhas da Bienal…

Porque sou candidato à comissão de ética do sindicato dos jornalistas

O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina vai renovar a sua comissão de ética e sou candidato a uma vaga. Por quê?

Sou professor de Legislação e Ética em Jornalismo e de Ética e Deontologia na Universidade Federal de Santa Catarina. Ética profissional é minha área de pesquisa há 18 anos e escrevi alguns livros e muitos artigos científicos sobre isso. É um tema que me interessa e que me preocupa. Tanto é que em 2009 ajudei a criar o Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), projeto que tem um site para discutir condutas e ações de jornalistas e veículos de mídia.

Mas a ética jornalística não é uma preocupação minha apenas no campo acadêmico. Acompanho a evolução da nossa profissão e os principais debates da categoria há vinte anos. Entre 2002 e 2004, fui vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas e, nessa função, conduzi eventos e outras realizações que tratavam disso.

Então, por essas razões, sinto que posso colaborar com a comissão de ética do nosso estado.

Acredito que um órgão como esse não deve ser só punitivo e disciplinar. A comissão de ética pode ter um papel mais educativo, que contribua para aperfeiçoarmos os nossos padrões éticos dentro e fora das redações. A comissão pode realizar e promover eventos, e produzir materiais de orientação e aconselhamento, por exemplo. Outras iniciativas podem fazer com que cresçamos enquanto categoria e nos aproximemos mais do que a sociedade espera. Sim, há muito o que fazer!

Estou pessoalmente motivado a trabalhar com outros colegas da comissão e gostaria de oferecer a minha contribuição. Trata-se de um trabalho voluntário, independente e não vinculado à diretoria, e sem qualquer remuneração.

Se você é filiado ao Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, não deixe de participar da eleição da diretoria nos dias 23 e 24 de agosto. Aproveite e escolha também os cinco membros da comissão de ética. Espero poder contar com a sua confiança. Se quiser saber mais da minha trajetória, acesse meu site.

Para mais informações sobre horários e locais de votação, acompanhe os informes da comissão eleitoral.

Que possamos lutar juntos e construir dias melhores para o nosso jornalismo.

Desprestígio

Fugimos dos sentidos de algumas palavras. Às vezes, até fazemos um leve esforço para fingir que esquecemos aqueles significados, como se pudéssemos engavetar tudo.

É o que se passa com “desprestígio”.

Quase nunca usamos, não é? Gostamos mais do antônimo. É nome de chocolate, é algo que nos enaltece, uma forma de capital, que ajuda a nos destacar dos demais.

Desprestígio, não. Revela que – por mais que façamos, por mais que provemos o nosso valor -, de nada valeu. Não somos reconhecidos como esperávamos. Não somos tidos como queríamos. Não somos especiais em nada. Mãos e bolsos estão vazios.

Não se trata de paparico, de ter vantagem adicional sobre os demais, de afagos no ego. O desprestígio só mostra que a tabela pela qual fomos valorizados está zerada, e nesse cálculo de si, o resultado é mais que negativo.

O desprestígio exibe um pouco de nós. Mas também mostra quem nos cerca: o quanto nos querem bem, o quanto nos conhecem, o quanto estão conosco.

O Brasil me faz perder o sono

103522_Papel-de-Parede-Coruja-Guinchando_1600x1200Tem sido muito difícil fechar os olhos esses dias. O Brasil me faz perder o sono. Não só a mim, claro!, mas muita gente padece disso. Ando amarrotado por aí.

O Brasil me faz perder o sono porque chegamos a esse estado, como se a vida fosse uma correnteza que nos arrastasse apenas e não adiantasse remar.

O Brasil me faz perder o sono porque julgaram não apenas uma presidente, mas seu governo, seu partido, o modelo de país que construíram, um conjunto impressionante de direitos que querem cassar, um punhado de utopias que estão para destruir.

O Brasil me faz perder o sono não apenas por causa do impedimento de Dilma, mas porque o mesmo Congresso Nacional que a estraçalhou vai continuar por mais alguns anos. Deputados despreparados, senadores rancorosos, parlamentares conservadores, congressistas corruptos, todos os 594 seres que compõem o legislativo brasileiro vão seguir suas vidas após a deposição de Dilma. (Note: não foi um erro escrever o nome do poder em minúsculas na linha anterior. Não existe grandeza que justifique o uso de outras letras).

O Brasil me faz perder o sono porque a política e a economia não vão melhorar, pois a esperança e os sonhos estão soterrados pela dúvida de uns, pelo inconformismo de outros e pelo ódio de terceiros. Não estamos nem unidos nem pacificados, Michel. Não se engane. Não nos engane, não mais.

O Brasil me faz perder o sono porque Dilma cai antes de Eduardo Cunha, de Romero Jucá e outros canalhas que conspiram e dinamitam a vida nacional. E talvez eles se arvorem em algum artifício para sobreviver politicamente, já que são sobre-humanamente espertos.

O Brasil me faz perder o sono porque perdemos também o senso de justiça, não confiamos mais no voto direto, na manutenção da vontade popular, nas instituições, na democracia. Desconfiamos da mídia, da isenção do judiciário (de novo, minúsculas), do colega do trabalho, do vizinho, do parente querido, das parcas certezas que cultivávamos.

O Brasil me faz perder o sono porque, em muitos de nós, o senso de decência não pode ser mais percebido, a verdade é meramente retórica e o projeto coletivo de país se esfarelou.

Enfim, o Brasil me faz perder o sono porque apesar disso tudo, há quem ainda consiga dormir tranquilo.

O golpe fez 100 dias

Michel Temer está na condição de presidente interino há 102 dias.

Pelo andar da carruagem – e a figura cai muito bem pelo tom arcaico -, vai se transformar em presidente efetivo com a deposição de Dilma Rousseff no final deste mês, mais tardar no começo de setembro.

Nesses pouco mais de três meses no comando, Temer não fez do Brasil um país mais unido, nem mais pacificado, muito menos um país melhor. Perdemos todos. Em direitos, em esperança, em sonhos. A nação tem sobre si um tecido esgarçado em cujos rasgos vê que a corrupção não foi extinta, que o otimismo se esfarelou, e que a economia está longe de melhorar.

Temer, Serra, Jucá, Renan, Cunha, Aécio e os demais corvos que roem a esperança nacional estão também muito distantes de serem modelos de honestidade e conduta. Rodrigo Maia, o segundo homem da República, foi citado generosas vezes no Listão da Odebrecht, em segredo de justiça por ordem do ministro Teori Zavaski. O Congresso Nacional que ele lidera representa conservadorismo, intolerância, rancor e retrocessos.

Com a queda de Dilma, o PT destruído, as esquerdas aparvalhadas e a população exausta, corvos, chacais e hienas vão avançar sobre o que imaginam ser uma carcaça sem vida. Veremos nos próximos tempos se o país estará assim mesmo. Torço para que não.

De certeza, só tenho uma: daqui pra frente, as coisas não vão melhorar. Não vão.

Este é o ano do “não”

2016 tem se mostrado um período difícil, de tantas recusas, de tantos senões, de tantas vírgulas. Metade do ano já era, e eu já sei que não é um bom momento. Tenho acumulado uma quantidade impressionante de nãos. As pessoas não estão dispostas, os recursos não estão disponíveis, as oportunidades não estão na mesa!

Tudo parece travado, interrompido. É o medo do risco, é a impossibilidade de incerteza, é a certeza de reticências.

Dá vontade de desistir de tudo, de jogar as cartas para o alto, de cavar um buraco na direção do núcleo da Terra. Acha que eu vou desistir? Não. Essa é a única resposta que eu conheço para tantos outros nãos.

A Nobel tem mão quentinha

20160705_104225Eu tinha certeza de que iria me encontrar com Svetlana Aleksiévitch na Flip. Não havíamos combinado nada (quem dera!), mas eu tinha certeza. Por isso, onde quer que eu fosse, carregava comigo o exemplar de Vozes de Tchernóbil que me marejou os olhos tantas vezes.

No meio de um mar de gente que zanzava pelas ruelas de calçamento ancestral, avistei a jornalista que se notabilizou por contar histórias tristíssimas como a da tragédia nuclear de 1986 na Bielorússia. Svetlana andava com passos miúdos e olhar perdido nas fachadas das casinhas coloniais. Estava acompanhada por sua agente literária na Europa e por uma tradutora. Bendita tradutora!

Abordei Svetlana em inglês e ela me olhou desarvorada. Este idiota esqueceu de décadas de Guerra Fria! A gentil tradutora veio ao nosso socorro e construiu uma simpática ponte entre o Brasil e a Ucrânia, já que eu não sei dizer nem obrigado em russo…

Agradeci Svetlana por ter contado as histórias dos anônimos em Vozes de Tchernóbil. Suas sobrancelhas formaram um triângulo surpreso. Mencionei meu episódio favorito no livro, aquele do homem que deixa tudo na cidade evacuada, mas volta para levar consigo a porta de casa. Sobre ela velou o pai e nela marcou ao longo dos anos as fases de crescimento dos próprios filhos. A escritora sorriu e passou a falar com voz clara e olhos animados.

Eu disse que era professor de jornalismo e que desejava que meus alunos a lessem. Afetuosa, Svetlana disse algumas amabilidades. Apesar de se queixar de uma dor no trigêmeo – o incômodo nervo da face -, sorria e balançava a cabeça.

“Você não tem um livro para ela autografar?”, perguntou a tradutora. Saquei meu exemplar e tirei fotos com ela. Svetlana fez uma dedicatória, apertou minha mão e se foi com as amigas. Tinha a mão quentinha, e o cumprimento foi forte. Como a sua escrita.

Não temos whatsapp. Não insista

Toda semana alguém arregala os olhos e luta para impedir que seu queixo bata no chão. É assim quando respondo “não tenho whatsApp”. A pessoa me olha meio estupefata, meio incrédula, quase com desprezo. “Como assim?”, ela insiste diante daquela inacreditável revelação, quase um segredo de Fátima. E aí eu preciso argumentar porque não uso o software quando 100 milhões de brasileiros já o utilizam “há séculos”.

“Mas você não usa por quê?” – pergunta, com olhar desconfiado.

(sorrio amarelo) “Porque não…”

“Isso não é resposta. Diga aí!” – diz, querendo arrancar uma confissão.

(gaguejo) “Porque não sinto necessidade e…”

“Mas como não?! Você não tem celular?” – já aumentou o volume da voz.

“Tenho…”

“Com o whatsapp, você não precisa pagar a ligação nem a mensagem que enviar. É uma solução grátis!”

(eu penso: pular da ponte também grátis, mas também não estou a fim de usar essa solução) “Bem… eu não vejo porque usar…”

“Mas é super prático!” – arranca uns tufos de cabelos.

(eu penso: tomar chuva em vez de tomar banho também é prático, mas não abro mão do chuveiro) “Não acho necessário e…”

“Mas você não é jornalista? Não lida com comunicação?” – interpela, com as mãos prestes a alcançar meu pescoço.

(esquivo do estrangulamento) “Sim, eu sou, mas…”

“E como é que você se comunica?” – a pessoa está prestes a sacar uma faca…

(meus olhos varrem o perímetro buscando rotas seguras de fuga) “Bem, eu uso email, ligo para as pessoas, mando SMS, deixo recados, converso pessoalmente…”

“Ah, mas não é a mesma coisa!” – agora, a pessoa me olha com nojo. Virei uma barata.

(penso em responder, mas o interlocutor faz sinal para parar. Ele olha seu smartphone que emite ruídos múltiplos, avisando que chegaram várias mensagens. Com os olhos pregados na tela, me deixa ali sem falar nada. Eu sorrio: salvo pelo whatsApp!)

“Stoner” me fez chorar de novo

12985588_1665400570387011_2803034507267203373_nPense por alguns segundos e responda: quantos livros já te emocionaram de uma forma tão arrebatadora a ponto de perder o chão? Pense com calma, tenho certeza de que não foram muitos. Comigo também, e os livros que me fizeram chorar cabem nos dedos das mãos, de uma talvez…

Há muito anos, chorei amargamente quando Gregor Samsa percebeu que sua família não lhe devotava nenhum valor, nada de respeito. E não era porque havia se tornado um inseto monstruoso…

Há alguns anos, chorei fundo quando Baleia veio consolar um dos meninos-sem-nome de Vidas Secas, encostando a cabeça magra em uma mãozinha suja…

Há poucos anos, chorei copiosamente quando os remorsos da infância tomaram a vida do narrador em O caçador de pipas…

Hoje, voltei a manchar as páginas de um livro: Stoner, de John Williams.

Desta vez, conhecemos um professor de literatura, com um casamento falido, sem vaidades ou ambições, e que conduz sua vida como se fosse levado por um caudaloso rio. Williams oferece a vida ordinária de um homem sem qualquer brilhantismo, contada de uma forma linear e cotidiana que nos mostra o quanto se pode descobrir de dignidade e honestidade em alguém. Suas escolhas erradas, a impassividade e a resiliência, os fracassos pessoais, as fragilidades emocionais, tudo o que nos faz sermos o que somos. Pungente, bem escrito, profundamente humano.

Foi um prazer conhecê-lo, professor Stoner…

 

A chuva contada por Schroeder

544931_historia-da-chuva-702678_Z1Eu esperava outra coisa de “História da Chuva”.

Quando Carlos Henrique Schroeder deixou escapar o título do livro que preparava, me deslumbrei com o achado. Por que não pensei nisso antes? Algo tão ancestral, quase mítico. Tipo “A história do fogo”, como no filme. Um rótulo amplo, capaz de reunir todos os fluxos do tempo e ainda conservar lirismo. Era maio e estávamos em pleno Festival Nacional do Conto. O autor confidenciou ainda que se tratava de um romance sobre a enchente de 2008 no Vale do Itajaí, e vibrei secretamente com aquilo. Também sobrevivi a ela e foi uma das minhas experiências mais aterradoras. Alguém precisava contar aquilo. Aquele mar de tristezas e horror não poderia escorrer pelos ralos da memória…

Então, eu esperava outra coisa de “História da Chuva”, e por isso, saí no meio da tempestade com uma sede infinita, engolindo sofregamente as páginas. Fui tragado por outros redemoinhos, como aqueles que a gente vê num rio caudaloso e que dá dentadas nos barrancos e nas pontes, como já escreveu Schroeder. Os redemoinhos sinalizam os sumidouros, onde pessoas, animais e coisas são tragadas, desaparecendo na água turva.

Fui arrastado então para outros lugares. A partir de um corpo que boia na água marrom, mergulhamos na busca de um narrador por sua própria história e natureza. O cadáver é de um artista de teatro de animação e o narrador estranhamente se chama Carlos Henrique Schroeder, mora em Jaraguá do Sul, é escritor e modesto editor. Tal qual o homem que assina o livro e que iluminou a noite com um título como aquele. O narrador tenta reconstituir o passado do morto, enquanto tenta manter longe a ex-namorada perigosamente ciumenta às vésperas de seu casamento. Como é de se esperar, sua jornada é também a busca de si mesmo, a tentativa de preencher as lacunas que justificariam sua existência.

Menos poético que “As fantasias eletivas”, este “História da Chuva” é um romance muito mais complexo e ambicioso. Schroeder, o autor, espalha mais personagens na mesa e constroi sua trama a partir de várias camadas, alternadas com muita destreza. Me fez lembrar daqueles artistas de circo que equilibram pratos giratórios nas mãos, pés, nariz e queixo. O malabarismo não está apenas em manter os pratos em movimento, mas em mover as varas que os sustentam numa dancinha caótica. Schroeder faz autoficção e ensaísmo sobre o teatro de animação, e reflete sobre o que é sobreviver em meio às agruras de ser artista periférico. Não satisfeito, oferece mais: prende a respiração e afunda no turbilhão da alma de quem se dedica a escrever e a criar. Como foi tudo rápido e sem aviso, há pouco oxigênio para aquilo e o leitor pode acabar como o corpo que boia: com os pulmões cheios de água.

Eu esperava outra coisa de “História da Chuva”. Talvez a redenção a partir da enchente, talvez um punhado de explicações para o mistério que faz da água tanto trazer quanto tirar vidas. Talvez, talvez, talvez. Faz poucos minutos que fechei o livro, depois de reler seis ou sete vezes o final. O impacto permanece. Não pelas surpresas que me trouxe, mas pelo inevitável desconforto de quem passa o dia com as meias e os pés encharcados.

Faz 70 anos. Para não esquecer.

Numa manhã como a nossa, Hiroshima acordou como nenhuma outra.

Há 70 anos, uma bomba matava mais de 130 mil pessoas. Dois dias depois, repetiriam a dose em Nagazaki, matando outras dezenas de milhares. E agosto de 1945 mudou a história da humanidade…

Alguém mais esperto já disse que 6 de agosto de 1945 foi o dia mais importante da história humana. A justificativa é simples. Se antes tínhamos certeza de que morreríamos individualmente, depois desse dia, passamos a considerar a morte total e coletiva…

Não dá pra esquecer. Não podemos esquecer. Era um tempo de guerra, é verdade, e o Japão também cometeu atrocidades. Mas nada justifica.

Não podemos esquecer as milhares de vítimas.

Não podemos esquecer o horror dos anos seguintes.

Não podemos esquecer do pânico instaurado no mundo desde então.

Não podemos esquecer que as bombas atômicas não caíram sobre as cidades. Elas foram atiradas.

Não podemos esquecer quem apertou o botão. Não foi a Rússia, não foi a China, nem Cuba, Irã ou Iraque.

Não podemos esquecer que os Estados Unidos usaram a bomba atômica contra milhares de civis, mais de uma vez numa única semana, de forma irreversível, covarde e injustificável.

Dias melhores virão

Amanhã começo um semestre daqueles!

Estou muito empolgado com o que vem por aí. Na graduação, terei mais uma turma de Políticas de Comunicação, e vou oferecer uma optativa para aprofundar o tema: Políticas de Comunicação 2. A ideia é mergulhar em alguns assuntos, como Marco Civil da Internet, uma Lei Geral para a Comunicação e a realidade da mídia no país… Quero ver também se conseguimos ter uma atuação para além das paredes da universidade, se é que me entendem…

Terei também outro desafio no curso de Jornalismo: vou assumir a disciplina de Legislação e Ética. Sim, já lecionei a matéria por quase dez anos na Univali e ela é meu objeto de pesquisa há mais de quinze. No entanto, herdo a responsabilidade do grande mestre Francisco José Castilhos Karam, referência nacional nesses estudos. Espero dar conta… Na pós-graduação, dividirei com o mesmo Karam a disciplina Estudos Avançados em Ética Jornalística, um privilégio para mim, para alunos do Mestrado e do Doutorado…

No mais, os desafios do semestre envolvem ainda a continuidade de minhas pesquisas, a renovação do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), a chegada de novos orientandos (mestrandos e graduando) e o lançamento de Questões para um Jornalismo em crise, a sair pela Editora Insular. Há outros projetos e parcerias sendo costurados, mas ainda é cedo pra contar.

O que posso adiantar é que eu e Ana Paula Laux terminamos o primeiro romance policial assinado por Chris Lauxx. O título ainda é segredo, pelo menos até assinarmos com uma editora…

Bem, eu avisei: estou empolgado. Dias melhores virão, e eles estão logo ali na esquina…

Este blog fez 10 anos!

Quando comecei este blog, em maio de 2005, o mundo era bem diferente do que é hoje.

George W. Bush não só mandava nos Estados Unidos, como estava no segundo mandato! Por aqui, Lula era o presidente e uma tal de Dilma Rousseff estava às vésperas de assumir a Casa Civil. O Fórum Social Mundial ainda acontecia em Porto Alegre e a Microsoft preparava o lançamento de uma novidade, o XBox 360. João Paulo 2º nem tinha esfriado ainda e Bento 16 dava o sermão na Praça São Pedro. Quem diria? O YouTube estava surgindo! O Orkut era o rei das redes sociais – apesar do Facebook já existir – e o Twitter só apareceria no ano seguinte, em 2006. Eu tinha um bebê em casa, muito mais cabelo e esperança, e muito menos barriga e mau humor.

Em dez anos, o mundo não parou de girar uma única vez. Por isso, mudamos tanto. Um passo à frente e você não está no mesmo lugar. Não foi assim que Chico Science ensinou?

Não entendo também como conseguimos chegar até aqui. Deveria ter desistido. Tive chance pra isso. Faltou coragem, faltou tempo, sei lá.

Registramos mais de 450 mil visitas, mais de 3,3 mil comentários e infinitas horas despejando coisas que colecionei por aí. Valeu a pena? Sim, valeu. Afinal, não são muitas as coisas na nossa vida que duram dez anos.

Obrigado pela visita, por algum comentário, por lincar este blog. De alguma forma, ele também foi seu. E eu me senti menos patético e sozinho enquanto remexia essas memórias.

2007: o endereço ainda era monitorando.zip.net

2007: o endereço ainda era monitorando.zip.net

2007: primeiro layout no wordpress

2007: primeiro layout no wordpress

2008: era demais ter um blog nessa época!

2008: era demais ter um blog nessa época!

2009: blogar era publicar para não perecer

2009: blogar era publicar para não perecer

2010: o blog se tornava cada vez mais um diário de bordo

2010: o blog se tornava cada vez mais um diário de bordo

2010: a cada mudança de humor, uma alteração no layout

2010: a cada mudança de humor, uma alteração no layout

2011: a integração com o Twitter ajudava a

2011: a integração com o Twitter ajudava a “espalhar” melhor

2012: começa a bater o cansaço. Os blogs já não são mais os mesmos

2012: começa a bater o cansaço. Os blogs já não são mais os mesmos

2013: posts ficam cada vez mais enxutos

2013: posts ficam cada vez mais enxutos

2014: as postagens ficam mais escassas

2014: as postagens ficam mais escassas

2015: o blog é

2015: o blog é “engolido” pelo site, mas sobrevive

Cremilda Medina em casa

UnknownFazia algum tempo que eu não a via pessoalmente. Mas na semana passada, ela passou pela cidade para uma conferência num evento, e foi a oportunidade de nos revermos rapidamente. Afetuosa como sempre, me deu um abraço daqueles, fez questão de me olhar nos olhos e me escaneou a alma. Acho que passei… Me trouxe também um presente: Você tem o meu livro de memórias? Sem jeito, fui sincero. Não. E ela sacou um exemplar com dedicatória e tudo o mais.

Acariciei a capa, sentindo a leveza do papel e deixei as páginas ventilarem meu rosto. Duas noites depois, abri o livro querendo um tantinho mais. E quem disse que consegui deixar de lado?

Me dei conta de que conheço Cremilda Medina há quase 15 anos. Ela me orientou no doutorado e convivemos um tempinho, pouco diante do que eu poderia aprender.

Em “Casas da Viagem”, Cremilda não apenas oferece uma autobiografia, mas porções generosas de diversos encontros que teve na vida nas últimas sete décadas. De maneira original, ela toma o mote das casas que habitamos ao longo da existência para contar o que viu, sentiu e viveu. As casas são as contas de um colar, e cada um tem o seu… Desprendida, a autora narra suas origens em Portugal, os tempos de imigração, a passagem pelo Rio Grande do Sul, a longa estada em São Paulo e as muitas viagens pelo mundo, como jornalista, pesquisadora e professora. Franca, a autora lembra de momentos bons e ruins, dá os nomes certos aos acertos e aos erros, e deixa escapar parte de sua coragem e ímpeto.

Aquelas páginas nos contam da relação de Cremilda com escritores e artistas, do convívio com intelectuais e cientistas, da vida difícil em tempos difíceis, da certeza de que a vida deve ser celebrada. Ao final, somos apresentados às casas da viagem, em fotos vívidas dos imóveis que a autora já habitou, como um filme rápido que desfila pelas nossas retinas.

Autobiografias há aos milhões. Toda vida merece ser contada e registrada. Este livro de memórias de Cremilda Medina não é um acerto de contas, não é um balanço de trajetória, não é uma ostentação de ditos e feitos. Para mim, as “Casas da Viagem” é um volume que cerca uma personagem que está à procura de si mesma. Alguém que sabe saborear bons e maus momentos, e que enxerga na vida uma grande aventura, um risco do qual não se pode fugir.

O futuro dura muito tempo

A Editora da UFSC, o Departamento de Jornalismo e o Laboratório da Tele da UFSC têm um projeto bem bacana chamado “O livro da sua vida”. Nele, em um minutinho, leitores falam de títulos que foram importantes em algum momento de suas existências…

Como hoje é feriado, que tal perder ganhar um tempinho conhecendo a iniciativa?

(Até eu me arrisquei a indicar um livro…)

A memória está nos poros

Aconteceu num dia de Natal, e não foi especial apenas por isso. Mas é claro que em datas como essas a gente fica mais sensível, propenso a tornar tudo mais simbólico, quase milagroso…

Era o finalzinho da tarde, quando não havia mais presentes para abrir e a preguiça nos alcançava de uma forma inescapável. A luz sumindo lá fora, a cortina do quarto fechada, o abajur aceso tingindo as paredes de um amarelo mole. A família ainda se espremia inteira na cama, quando esbarramos num CD caseiro antigo, repleto de canções que a mãe reunira para uma festinha de aniversário do filho. As musiquinhas infantis pertenciam a um passado longínquo do garoto agora com dez anos. Quase uma eternidade para ele…

Apertei o play para que a família embarcasse naquela viagem, e o rapazinho pulou me dando um abraço, o que me fez segurá-lo numa posição de aconchego. Grudado, se aninhou ali, com o queixo colado no meu ombro, as pernas e os braços, sobrando às costas. Começamos a dançar as aberturas dos desenhos animados, as cantigas de roda e as músicas da Turma do Cococoricó… Há quase uma década, quando o rapazinho era só um cisco de gente, eu fazia o mesmo. A mãe – exausta do dia – aproveitava para descansar e eu colocava o bebê para dormir, ao som daquelas canções.

Agora, dançávamos mais uma vez, e os braços sentiam quase trinta quilos a mais. A mãe assistia com um sorriso que unia as duas orelhas… E, de repente, eu notei o ombro encharcar. Em silêncio, o rapazinho me abraçava com força, com uma disposição de nunca mais largar. Disfarcei, mas também deixei escapar algumas lágrimas. Continuamos dançando por outra eternidade. A mãe quis saber o que acontecia, e o rapazinho disse que estava com saudades dos tempos de ninar…

Mas como poderia lembrar se nem gente quase era?

Naquele dia de Natal, percebi que a memória não está na cabeça nem no coração. Ela está em toda a parte, na pele, no corpo, nos poros. Qualquer coisa pode interromper seu sono latente, e fazê-la vibrar feito asas de beija-flor. A música infantil, o calor do colo e o chacoalhar da dança, tudo isso mexeu com a gente, e nos fez voltar um tempo de delicadeza. Foi meu melhor presente no Natal que passou…

As solidões de Carlos Henrique Schroeder

schroederConfesso que cheguei meio acabrunhado na livraria. Arrastado por minha esposa, eu ia a um lançamento de dois livros de jovens autores brasileiros que eu desconhecia. Para ser mais exato: já tinha ouvido falar muito deles, cheguei a trombar com alguns de seus títulos, mas eu nunca tinha lido Santiago Nazarian ou Carlos Henrique Schroeder. E eles estavam ali, a duas fileiras de cadeira, falando de suas novidades, e eu só balançando o queixo, no maior estilo sabe-tudo…

Confesso também que fui capturado pela simplicidade e pelo jeito gente-boa de Schroeder, e dias depois, fui “conhecer” o sujeito por meio de seu As Fantasias Eletivas. Nele, uma voz atual e um timbre claro nos conta a história de Renê, sujeito pacato, com passado tumultuado, que trabalha como recepcionista de hotel à noite em plena baixa temporada. Estamos em Balneário Camboriú, que no verão é a Babilônia, e fora dele, o Saara.

Acompanhamos Renê e o hall vazio, o silêncio da madrugada, as ruas desertas, as habitações ermas, a excêntrica fauna noturna, tudo isso e mais ajudam a compor uma atmosfera de absoluta solidão. Mais que solidão, abandono.

Se o romance só nos apresentasse o cotidiano de Renê, teríamos elementos de sobra para permanecer com o nariz colado naquelas páginas. Mas Schroeder – que já foi um Renê na vida – nos apresenta Copi, um travesti divertidíssimo que rouba a cena e que nos tira de nós mesmos. Fadado a mexer com os quadris e a capturar cenas com sua câmera, Copi captura pessoas e coisas que se cercam de solidão. Numa pasta surrada, coleciona os flagrantes da vida e destila pequenos textos que transbordam lirismo e inteligência.

É o que Copi chamou de A Solidão das Coisas, e aí a gente se depara com preciosidades que me fizeram lembrar de Borges nos seus delírios eruditos, em mundos inventados, nas obras e autores que sonhou… Ponteiros de relógio são solitários, marcadores de página são solitários, corredores de hotel são solitários, placas, sombras e notas de rodapé são solitários… Passamos por eles todos os dias, esbarramos em suas superfícies – como as dos rejuntes do piso – e nada. Nem percebemos suas condições singulares e, portanto, sozinhas.

Schroeder, Renê e eu ficamos só olhando o que Copi nos mostra. E é tanto que queremos mais Copi nas páginas que virão. Seria exagero dizer que “agora, sim!, conheço Schroeder”. É pouco ainda. Quero ler mais, e tenho certeza de que não estou sozinho nesse desejo.

Frank Maia é o maior, e vou dizer porque

Screenshot 2014-11-05 10.01.58Imagine a cena: você entra na sala meio acabrunhado, nem senta e eles te dizem na lata. Você está fora! De-mi-ti-do.

Diante isso, a maioria das pessoas junta os cacos e sai de fininho. Uma minoria, em vez de juntar, espalha os cacos, jogando tudo no ventilador. Mas tem uns outros, que vão além… Meu amigo Frank Maia é desse time.

Soube hoje que ele foi desligado de A Notícia, e – chateado – fui buscar razões para a notícia ruim. Justo o Frank, um chargista criativo, com um traço personalíssimo, uma usina de piadas ambulante!

Pensei em ligar pra ele, deixar um abraço. Desisti. Vai que o cara emenda uma piada e acabamos gargalhando dessa história toda. Deixei meia linha de comentário no Facebook. Daí, deslizei a tela e vi outro post, que me deixou muito impactado. Nele, o Frank faz troça da própria condição. Faz uma charge homenageando justamente o cara que vai substituí-lo em A Notícia. Isso mesmo. Frank não é só o melhor chargista de Santa Catarina há anos – na época de Bonson, ele já era, mas não admitia frente ao mestre. Frank Maia não é só o melhor chargista do Estado como é um cara extraordinário, um ser humano capaz de deixar a prancheta reluzente para seu sucessor.

Frank, eu te amo, cara!

a universidade é…

… o local onde alunos e professores se cumprimentam e se tratam com extrema cordialidade;

… o período da vida em que alunos se dedicam ao máximo para vencer limites;

… a oportunidade de professores se esforçarem para lecionar com qualidade, e de contribuírem para o crescimento de outras pessoas;

… o ambiente onde todos respeitam o pensamento alheio, principalmente se ele for bem diferente do seu;

… o lugar onde orientandos demonstram reconhecimento pela parceria com seus orientadores;

… o local onde professores emprestam livros e outros materiais, e esses sempre são devolvidos e sempre com pelo menos um bilhete de agradecimento;

… o ambiente onde orientandos convidam seus orientadores para sua formatura;

… o encontro da inteligência com a sensibilidade, do trabalho com o talento, e onde “educação” é uma palavra sem limites, quase como o ar que respiramos;

Enfim, a universidade é o lugar dos meus sonhos… talvez ela só exista em meus sonhos…

os maiores detetives do mundo!

10687074_809697539082601_8309464264861088602_nEu e Ana Paula Laux acabamos de lançar Os Maiores Detetives do Mundo, um livro que reúne 60 perfis dos mais importantes personagens da ficção policial da literatura, TV, cinema, quadrinhos e games.

Disponível exclusivamente em formato eletrônico, o livro é resultado de cinco anos de pesquisa e escrita. Mas não foi só muito trabalho. Foi também muita diversão ao encontrarmos com tantos tipos sensacionais: Sherlock Holmes, Poirot, Miss Marple, James Bond, Scooby-Doo, Casal 20, McGaiver, Wallander, Ed Mort, Delegado Espinosa, Nero Wolf, Miami Vice, CSI, Kay Scarpetta, House, e tantos outros…

Para escrever, buscamos uma linguagem leve, muitas curiosidades, e um estilo bem-humorado. Recorremos ao traço sensacional de Junião para a capa e o resultado você confere ao lado. Por falar nisso, reparou que nossos nomes não aparecem abaixo do título? Pois é, optamos por um pseudônimo, mas essa história eu conto depois…

Ficou curioso sobre o livro? Não fique mais!

Para adquirir seu exemplar, clique aqui.

Para saber mais de Os Maiores Detetives do Mundo, acesse aqui.

E para ter uma amostra grátis do livro, vá por aqui.

respostas que professores adorariam dar a seus alunos

Leciono há quinze anos e isso me permitiu construir fama e fortuna. Mas não só. Permitiu que eu colecionasse perguntas sensacionais de alguns alunos. Nem sempre pude responder como queria, e até peço desculpas por isso.

Mas como hoje é dia do professor, me peguei fantasiando: já pensou se o professor pudesse dizer o que pensa nessas horas? Acho que seria mais ou menos assim:

ALUNO – Professor, essa matéria vai cair na prova?

PROFESSOR, enquanto atira um livro – Não, vai cair na sua cabeça!

***

ALUNO – Professor, o senhor vai dar alguma coisa importante nessa aula?

PROFESSOR – Vou sim. Vou revelar o terceiro segredo de Fátima, mostrar a fórmula da Coca-Cola e dar o celular pessoal da Fernanda Lima.

***

ALUNO – Professor, o senhor não vai fazer intervalo?

PROFESSOR – Vou sim. Turma, vamos dar uma paradinha agora. Voltamos em dez anos.

***

ALUNO – Professor, o trabalho é pra nota?

PROFESSOR – Claro que não. É sadismo mesmo.

***

ALUNO – Professor, o senhor trabalha também ou só dá aulas?

PROFESSOR – Sou matador de aluguel, traficante de órgãos e homem-bomba. Aliás, prestem atenção que eu só vou mostrar uma vez…

que ano trágico estamos tendo!

Dois terços de 2014 já se foram e com eles muita gente.

Difícil não pensar diante de tanto pesar.

Entre gente importante e celebridades, a lista é imensa: os escritores Ariano Suassuna, Nadine Gordimer, Rubem Alves, João Ubaldo Ribeiro e Ivan Junqueira;  a atriz Lauren Bacall; os atores Robin Williams, José Wilker, Bob Hoskins, Philip Seymour Hoffmann e James Garner; o político Eduardo Campos; os futebolistas Bellini, Marinho Chagas, Fernandão e Eusébio; o humorista Canarinho; o furacão Rubin Carter; o cineasta Eduardo Coutinho; os narradores Luciano do Valle e Maurício Torres; o cantor Jair Rodrigues; o músico Paco de Lucia; os intelectuais Stuart Hall e Jacques Le Goff… entre tantos outros.

Tristeza não tem fim…

não acho normal…

… que de um lado da guerra morram mais de mil e do outro, menos de cem;

… que uma rede de túneis clandestinos seja construída por inimigos sem ninguém perceber;

… que o conselho de segurança da ONU não mova um dedo diante de massacre de civis;

… que ninguém ou quase ninguém ligue para o Ebola que se alastra na África ocidental;

… que médicos e agentes de saúde morram contraindo vírus que estariam combatendo;

… que mais ninguém se importe com a guerra civil na Síria, as instabilidades no Egito e no Iêmen;

… que aviões de carreira sejam derrubados por mísseis…

… que os russos armem milicianos na Ucrânia para bagunçar o coreto por lá…

… que a NSA continue a espionar milhões de pessoas dentro e fora dos Estados Unidos;

… que as tropas norte-americanas continuem no Afeganistão;

… que por isso e muito menos Obama tenha ganho um prêmio Nobel da Paz…

Tudo isso é o mundo; nada nele é normal.

kucinski lança alice

alice de kucinskiBernardo Kucinski não para. Depois de estrear na ficção com “K”, chamar a atenção da crítica e do público, ser traduzido no exterior, mudar de editora, lançar um título de contos (“Você vai voltar pra mim…”), ele apronta mais uma. Chega às livrarias “Alice”, sua primeira novela policial, uma incursão que ele já ensaiava há algum tempo.

Aqui em casa, recebemos um exemplar do autor, o que nos deixou muito felizes. Minha mulher foi uma das leitoras dos originais. Ela se assombrou com a história de crime acontecida em plena USP. Eu me assombro com a capacidade de reinvenção do Bernardo…

feira de arte no campeche

Não sei se todos sabem, mas me arrisco um pouco escrevendo peças para o teatro.
Neste ano, o Círculo Artístico Teodora está montando meu texto mais recente – Shakespiradas – um delírio cômico em homenagem aos 450 anos de William Shakespeare.
Como forma de captação de recursos para o espetáculo, o Círculo está promovendo no Campeche uma Feira de Amostras no próximo sábado, dia 26, com música, exposição de arte e de fotos, exibição de curtas catarinenses, e outras atrações. A feira começa às 15 horas e se estende ao longo do dia.

feira no CAT

o futebol que fez chorar

Jornal da Tarde - 06.07.1986Eu tinha dez anos quando a Itália de Paolo Rossi derrotou a seleção de Zico, Sócrates e Falcão.

Diante daquele inacreditável 3 a 2, engoli o choro e só vi uma maneira de enfrentar aquilo: junto com outros meninos da rua, desci até o campinho da esquina e lá “vingamos” a seleção. Jogamos até murchar, e a derrota em Sarriá nunca mais foi esquecida.

Meu filho tem dez anos e, ontem, ele assistiu ao devastador 7 a 1 para a Alemanha. Vestido de verde amarelo, o pequeno não conseguiu segurar, e o dique cedeu em lágrimas que me molharam os ombros.

O que se diz nessas horas?

Eu só pude contar a minha história, e de como – doze anos depois! – assisti ao Tetra. Ele esboçou um sorriso, enxugou o rosto envergonhado, e respirou fundo. Mas a dor da derrota estava lá no fundindo daqueles olhos…

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o beijo gay e o mundo de amanhã

Futebol e telenovela são coisas seríssimas no Brasil, sempre digo isso. E é claro que acompanhamos aqui em casa o capítulo final de “Amor à vida”. A família grudada no sofá esperava com ansiedade os desfechos da trama, e na cena com os personagens Félix e Niko, prendemos a respiração. Eles trocaram declarações de amor, os segundos passaram, a tensão aumentou e meu filho, de nove anos, soltou: “Beija logo, cara!”.

Félix e Niko se beijaram, as redes sociais explodiram em festa e ódio, e assim que subiram os créditos, fui com o filho para o quintal. Ficamos ali em silêncio, olhando nossos gatos, e eu me reconheci muitíssimo feliz com a atitude do filho. Sem preconceito, ele torceu pela felicidade dos personagens, inclusive de um que era o vilão da história até então. Gostei muitíssimo de ver a ousadia da maior empresa de comunicação do país em exibir uma cena que pode afrontar a tanta gente. Mas gostei muito mais de ver uma criança não se importar com o pre-julgamento dos outros, acatar a vontade de amar de pessoas diferentes, enfim…

A frase desabafada aqui na sala de casa me fez sonhar com um mundo melhor amanhã. Mais tolerante, mais aberto, menos preconceituoso, mais afeto ao amor. A todo tipo de amor. Foi um final feliz de novela…

este blog morreu. mentira!

O blogueiro Jason Kottke causou alguns tremores de terra com seu post no Nieman Journalism Lab nas vésperas do natal passado. No texto, ele dizia que os blogs como considerávamos desde 1997 estão mortos. E o blog como plataforma morreu justamente porque foi apropriada e absorvida por veículos e organizações que não produziam blogs, mas qualquer coisa que chamavam de blogs. E o blog como plataforma pessoal morreu porque as redes sociais têm servido muito mais a esse propósito, de maneira mais fácil, rápido e com mais recursos.

Kottke celebra: o blog morreu, longa vida ao blog.

Em janeiro de 2010, arrisquei um palpite numa mesa da Campus Party. Estava ao lado de André Lemos, Sérgio Amadeu, Sandra Montardo e Henrique Antoun. Eu disse que não sabia muito do futuro dos blogs, mas achava que eles eram uma mídia de transição, de passagem. Não sei se acertei, nem me interessa na verdade. O fato é que continuei blogando e vou permanecer nessa situação.

Não se aborreça, por favor. Você precisa relevar: sou quase um ancião, não aguentei os trancos das redes sociais e preciso escoar parte de minha tagarelice.

Este blog não era alimentado há mais de 100 dias, desde 30 de setembro de 2013. Não morreu de inanição. Nem eu. Por algum tempo não senti qualquer falta. Na verdade, não tenho lá uma ânsia para publicar conteúdos, mas voltarei sempre que der. Não farei promessas e você – se ainda estiver aí -, não mantenha grandes esperanças. Não sou como o notável e influente Dan Gillmor, que manifestou publicamente sua resolução para 2014 – lutar para impedir que os Estados Unidos se convertam num estado de vigilância plena de todos os internautas. Meus objetivos são bem menos ambiciosos.

Este blog vai continuar. Seja esta uma boa ou má notícia…

urano na casa das máquinas

Screenshot 2013-05-11 01.37.02Hoje, amanhã e domingo – dias 12, 13 e 14  de julho – tem apresentações de Urano Quer Mudar no teatro da Casa das Máquinas na praça da Lagoa da Conceição. O espetáculo começa sempre às 20 horas, com entradas a R$ 30,00 e R$ 15,00 para idosos, estudantes e classe artística.

Urano Quer Mudar é uma produção do Círculo Artístico Teodora, e tem no elenco os emocionantes Margarida Baird e José Ronaldo Faleiro, sob direção de Brigida Miranda. As canções originais são de Ana Laux. O texto é meu, reescrito a partir da versão original de 2003. Na história, um casal de atores prepara a mudança de casa e, no meio dos pacotes e caixotes, encontra um texto que nunca chegaram a encenar. Passam a ler, e aí, ficção, memória e reinvenção de si mesmos tomam conta do palco.

Vá conhecer Urano. Vá ver o que Fenícia tem a dizer.

junho vai deixar saudades

Nesta época de tantos superlativos e adjetivos totalizantes é muito fácil cair na tentação de cavar “dias históricos”. Mesmo assim, não receio em errar e me arrepender de apostar que aqui no Brasil vivemos um junho pra não mais esquecer.

Junho foi barulhento, agitado. As muitas passeatas trouxeram à rua milhões de pessoas em todas as partes do país. Nas metrópoles e nas cidades pequenas, do Acre ao Rio Grande do Sul, e mais de uma vez em muitos locais. As palavras de ordem eram muitas, e elas chacoalharam as pilastras dos centros de poder. Botaram medo e trouxeram apreensão para quem tem mandato político. Subiram no teto do Congresso Nacional, fecharam as pontes em Florianópolis, tentaram invadir o Itamarati e a Alerj…

Junho fez tarifas de transporte cair em várias cidades; fez os governos cortarem impostos; e fez com que parlamentares trabalhassem duro e rápido em pleno dia de jogo da seleção. Junho forçou a derrubada da PEC 37 e a aprovação da lei que tipifica corrupção como crime hediondo.

Junho viu ainda jogos na Copa das Confederações cercados de vaias, de batalhas campais nos entornos dos estádios e repulsa generalizada a políticos, cartolas, escroques e outros aproveitadores. O mês viu uma seleção brasileira vigorosa que atropelou o time dos sonhos do momento, campeão mundial mais recente. Junho viu também que é possível por aqui protestar, reclamar e se expressar, torcer, priorizar e discernir.

O mês que finda a primeira metade do ano se foi. E tudo o que aconteceu não foi pouco para 30 dias. E como julho começa em plena segunda-feira, é melhor se preparar porque o segundo tempo de 2013 vai começar.

o som das ruas em floripa

Galera, galera, vamo juntá mais! Isso, isso. Começa! Começa! Começa! Tá chovendo, vem pra debaixo da sombrinha. Começa! Começa! Começa! Pra onde que o movimento vai? Vai pra Assembleia! Vai não! Vai pra ponte! Vamo fechá as ponte! ÉEEEEEEEEEEE!!! Junta, pessoal! Assim, fica mais quentinho! O povo unido, jamais será vencido! O povo unido, jamais será vencido! Vamos tomar a ponte! Pra ponte, gente, pra ponte! Eba, eu moro no continente! Um, dois, três! Quatro, cinco, mil! Ou para a roubalheira ou paramos o Brasil! Segue, gente! Vamos fechar a ponte! Xi, o vento quebrou o guarda-chuva! Vai assim mesmo! É o banho da democracia! Ô, o gigante acordou! O gigante acordoô! Olha a capa, olha a capa! Tem guarda-chuva também!!! Meu, quem tá fumando? Maior marofa! Ei, RBS! Vai tomá no cu, filha-da-puta! Sem partido! Sem partido! Sem partido! Que maluco é aquele com a bandeira da UJS? Ei, Fifa! Paga minha tarifa! Ei, Fifa! Paga minha tarifa! Ouviram do Ipiranga à margens plácidas… Brasil, vamo acordar! Um professor vale mais do que o Neymar! Sem partido! Sem partido! Sem partido! Quem não pula, quer tarifa! Quem não pula, quer tarifa! Quem não pula, quer tarifa! Quem não pula, quer tarifa! Ei, mas que vegonha! Essa tarifa tá mais cara que a maconha! Meu, não aguento mais comer lentilha! Quero é feijão! Oi, pode tirar uma foto da nossa galera aqui? Isso! Galera, junta mais pra sair a Hercílio Luz atrás!!! AÊEEEEEEEEE!!! O povo unido, jamais será vencido! O povo unido, jamais será vencido! Fechamos as duas! Fechamos as duas!!! Que helicóptero é aquele paradão? Da RBS! Ah, então, aquele do canhão de luz é de quem? Dos milico! O gigante acordou! Anda, galera, que o gigante tá com fome! Caminhando e cantando, seguindo a canção… Sentiu a ponte balançar??? Senti, mas achei que era a minha labirintite… Oça, oça, oça! Vamo tudo pra Palhoça! Sem partido! Sem partido! Sem partido! Quem não pula, quer tarifa! Quem não pula, quer tarifa! Depois da ponte, vamo pra onde? Ah, o movimento, eu não sei, eu quero é comer um xis… Meu, as ponte tão lotada! Tira uma foto pro Face! Olha só, disseram que tá tendo protesto em Brasília e no Rio tem mais de 200 mil pessoas!!! EEEEEEEEEE!!!! Um, dois, três! Quatro, cinco, mil! Ou para a roubalheira, ou paramos o Brasil! Galera, fecharam a ponte ali, não dá pra passar! Agora, tem que voltar! Volta! Passinho pra frente, faz favor! Passinho… Vamos voltar!!! Brasil, vamos acordar! O professor vale mais que o Neymar! Vem pra rua! Vem pra rua! Vem pra rua! Oi, mãe, tá tudo bem aqui! Encontrei com um monte de gente do colégio! Mãe, sai da frente da novela e vem pra rua! Pô! A passeata tá melhor que o CarnaFacul! É, tem mais muié! Adoro as indignadas! Galera, travô, travô! Teve um cara que caiu ali na frente! Quem? Caiu da ponte na grama! Já tem gente atendendo? Tem sim… Credo! Ó, sai do parapeito aí! Sai, velho! Vamo pessoal! O povo unido, jamais será vencido! Vem pra rua! Vem pra rua! Vem pra rua! Travô de novo. Tá devagar sair da ponte! Tem muita polícia ali na frente? Nada, tão só olhando!!! Vamo, galera! Anda! Quem não anda, quer tarifa! Quem não anda, quer tarifa! Quem não anda, quer tarifa!

o que fica de um mestre?

Escrevo este post sob a frieza de uma notícia triste: morreu em Penápolis, no interior de São Paulo, o professor José Fulanetti de Nadai. Fulanetti foi professor dos cursos de Comunicação na Unesp, em Bauru, no início da década de 1990, e tive o privilégio de ser seu aluno.

Apesar de não ter tido nenhuma intimidade com ele, não erro em dizer que ele era admirável. Dele me vêm à memória três momentos, três partículas do que ele era, ao menos para mim. Um homem sincero, simples e inspirador.

Uma vez, ele dava aulas numa daquelas imensas salas do campus que mais pareciam auditórios. Ele estava numa espécie de tablado de concreto, próximo à lousa. Eu na primeira fila, à direita. Ele fumava sem parar, separando as frases bem pesadas entre as tragadas. Com impressionante propriedade, flanava entre Walter Benjamin e os funcionalistas. Eu, na altura dos 19 anos, sabedor de meus direitos e doutor em boas maneiras, exibi para ele uma página de caderno com uma mensagem escrita a caneta: “por favor, não fume”. Mesmo na fila do gargarejo, eu estava a uns três metros dele e as baforadas se esvaneciam completamente antes de chegar até mim. Mesmo assim, insisti na picuinha. Ele parou de falar, perguntou se eu tinha alergia ou qualquer coisa do tipo. Respondi com essa empáfia que a gente tem na adolescência: “Não, é que eu preferia que o senhor não fumasse”. Ele sorriu e disse: “Eu gostaria de fumar, você não. Temos um problema aqui”. Sorriu de novo, tragou e apagou o cigarro para não mais fumar naquela turma. À época, senti idiotamente uma nesga de orgulho pela minha “atitude”. Só depois fui entender que quem me ensinou com aquilo tudo foi ele, me mostrando um respeito ao pensamento diferente que pouco se vê por aí.

Noutra vez, ele dava aulas de reposição por conta das constantes greves da Unesp naqueles tempos. Era sábado de manhã, havia sol e a turma estava simplesmente hipnotizada com a sua verve, com a facilidade com que pulava de um assunto a outro, todos muito eruditos para nós. De repente, ele para de falar, e um lindo passarinho amarelo pousa na entrada da sala. O bichinho volta a cabeça ao Fulanetti e solta um pio, como se o cumprimentasse. Ele sorri, todos ficam estupefatos, e continua a falar. O passarinho assistiu mais um pouquinho da aula e logo foi embora. Fulanetti era mesmo encantador.

Pouco depois, ele deixou os cursos de Comunicação da Unesp para voltar a lecionar no ensino médio e fundamental em outra cidade. Simples assim. Deixou os píncaros da glória do ensino superior para ensinar na base, onde as pessoas estão sendo inicialmente formadas. O Fulanetti era assim: desprendido e jamais vaidoso.

Câncer no pulmão, enfisema e outras complicações tiraram o Fulanetti das salas de aula. Eu nunca tive a oportunidade de dizer a ele o quanto o admirava e o quanto ele serve de modelo para alguns dos meus gestos. A vida é curta demais e nem sempre a gente diz tudo o que sente. Sou professor há catorze anos e devo ficar nesse negócio por mais uns tempos. Um dia quero ser como o Fulanetti. Um dia quero poder espalhar essas sementes que ele tão bem guardava no bolsa da camisa, junto ao maço de cigarros.