E a ética jornalística na pandemia?

Participo amanhã, dia 28, de um debate com a Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, e com o Mauri König, da Uninter, sobre reflexos da pandemia na ética jornalística. É às 19 horas, ao vivo pela página do Facebook do Sindijor-PR, com acesso público para perguntas e comentários.

A jornalista e professora Lenise Klenk, presidenta da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do Paraná, será a mediadora. Aliás, o evento é uma realização da Comissão Estadual de Ética.

Minha prima astronauta e as coisas importantes da vida

Em janeiro de 2017, estávamos num café em Roma quando uma notícia no Corriere Della Sera me chamou a atenção. Era sobre os astronautas norte-americanos Mark e Scott Kelly, irmãos gêmeos, os únicos da história. Mas não foi esta curiosidade que gritou das páginas do jornal. Foi a abertura da matéria que era mais ou menos assim: Dizem que viajar muda as pessoas e, no caso de Scott Kelly, isso não é um exagero. Aí, a matéria dizia que Scott ficou quase um ano no espaço e seu irmão ficou na Terra, e estavam comparando os DNAs dos dois para ver mudanças cósmicas em suas constituições físicas. E perceberam várias…

Achei saborosa a história e isso ficou arquivado na minha mente em algum cubículo.

Quatro anos depois, por alguma razão insondável, li Endurance: Um Ano no Espaço, livro em que Scott Kelly narra sua aventura de 340 dias na Estação Espacial Internacional. É um relato delicioso, cheio de informações interessantes e de grande interesse humano e científico. Entre as muitas coisas que Scott conta está o fato de ter convivido uns três meses com a primeira astronauta italiana, Samatha Cristoforetti.

Isso mesmo! Samantha não sabe, mas é minha prima, embora nossos sobrenomes não sejam exatamente os mesmos. Nossos descendentes vêm da mesma região da Itália e ela sequer imagina que seja minha parente, mas isso pouco importa.

O que importa mesmo é que Samantha foi a primeira italiana a ir para o espaço, é uma recordista de tempo nas estrelas, e é muitíssimo respeitada na sua profissão e em outras áreas. Para se ter uma ideia, ela lançou um livro de memórias  recentemente – Diary of an Apprentice Astronaut – e todo o dinheiro das vendas vai para a Unicef, onde ela é um tipo de embaixadora. (Aliás, Scott Kelly tuitou outro dia que estava lendo o livro)

Não bastasse todas essas credenciais, Samantha foi o primeiro ser humano a fazer o primeiro café espresso no espaço, o que já reserva a ela um lugar destacado em nossos corações. É, sem dúvida, a pessoa na família que foi mais longe, não é mesmo?

Eu quis ler as memórias do astronauta Scott Kelly justamente no momento em que notícias davam conta de uma segunda onda de mortes por Covid-19 na Itália e novas altas aqui no Brasil e nos Estados Unidos. Quem sabe um sujeito que ficou confinado um ano no espaço não tem algo a me ensinar?, pensei.

Tem. Muita coisa. Diferente do esperado herói americano, ele se mostra um narrador gentil, humilde e empático. Um sujeito que valoriza as pequenas coisas que importam, como a amizade, a chuva, um bom livro, e tomar um café numa xícara. Com a gravidade da Terra, claro.

Os Beatles e os Reis Magos

No tempo em que morei na Espanha, nunca me perguntaram quem era o meu Beatle preferido. Mas Sevilha é uma cidade muito católica e uma colega quis saber quem era o meu Rei Mago favorito!

Vocês sabem, alguns países comemoram mesmo o Natal no dia 6 de janeiro, data em que teriam chegado Baltasar, Melquior e Gaspar ao estábulo do deus-menino. Os reis magos trouxeram presentes para Jesus e isso inaugurou a tradição que temos até hoje. Em Sevilha, as pessoas fazem jantares no dia 24 de dezembro, mas o melhor está reservado para o Dia de Reis, quando se abrem os pacotes coloridos.

Na véspera, costuma acontecer uma coisa sensacional, a Cavalgada dos Reis, que é um desfile de carros alegóricos e montarias, lotados de crianças e adultos, distribuindo balas nas ruas. É um carnaval. Todos ficam nas calçadas e quem desfila, vestido como reis magos, atira punhados de balas como se fossem confetes ou serpentinas. Todos retornam as suas casas com sacolas lotadas de doçuras e as ruas ficam pegajosas com as toneladas de caramelos que são repartidos…

A coisa é tão séria que celebridades vestem-se como os monarcas viajantes e chegam à cidade, representando um novo ano, novas esperanças e renovando a fé das pessoas. Te lembrou as representações teatrais da Paixão de Cristo no interior do Brasil? Pois é igual na comoção…

Neste ano, a pandemia adiou a Cabalgata de Los Reyes. Para evitar aglomerações. Mas os sevilhanos não ficarão sem ver os Reis Magos chegarem. A prefeitura vai colocá-los em balões que atravessarão a cidade a 300 metros de altura, e bastará que as pessoas fiquem nos seus quintais, terraços ou sacadas de prédio e olhem para o céu. Não é lá um Submarino Amarelo, mas não deixa de ser um belo transporte “para la ilusión”…

Melhores leituras de 2020

O tempo de confinamento deste ano me levou a mergulhar em leituras. Nunca li tanto e eu me deparei com tanta coisa boa!

Para além de teses, dissertações, livros e artigos – que são material de trabalho, e às vezes até prazeroso -, passei por ficção científica, terror, suspense, quadrinhos, política, direito e um ou outro clássico. Viver numa casa grande, lotada de livros, foi um privilégio infinito, e muitas vezes, imaginei estar dentro de um bunker. Com centenas de CDs e HQs e dezenas de DVDs, eu teria diversão e conhecimento para umas duas vidas…

Para este leitor, 2020 foi um ano bom, e os meus cinco melhores momentos neste tempo foram:

O escultor – Scott McCloud
Sabe quando você compra um livro e esquece ele na estante? Aí, redescobre anos depois, lê e inebria? Foi assim com essa graphic novel de Scott McCloud, que não só explora a linguagem dos quadrinhos como poucos como também aquece seu coração com uma sensível discussão sobre vida, morte e arte. É profundo e impecável esteticamente, e acredite: o artista faz isso com uma econômica paleta de azuis…

A resistência – Julian Fuks
Estava muito curioso para conhecer a literatura dele, mas confesso que uma suposta autoficção de um autor branco, classe média, hétero, na casa dos 30/40, me fazia torcer o nariz. Não vá por aí. Fuks tem um timbre de voz envolvente neste drama familiar que trata de exílios geográficos e afetivos. É um olhar distinto sobre a fraternidade, sobre o amor que se herda dos pais aos irmãos, e dos silêncios que preenchem as distâncias que nos separamos deles. Gostei tanto que engatei a leitura de A Ocupação, que também é muito bom, mas levemente disperso nas três histórias que ele entrelaça…

Falso Espelho – Jia Tolentino
De vez em quando me assombro com alguns autores, e foi assim com ela, uma colunista norte-americana jovem e com um olhar potente e distinto. Mesclando experiências pessoais de quem viveu os hypes internéticos e de celebridades, Jia faz uma crítica social moderna, pulsante, certeira, sem as longas e sonolentas citações que muitos usam como muletas. O leitor atravessa os ensaios do livro e fica, ao final, com uma grande vontade de encontrar com a autora num café descompromissado de esquina. Apenas para ouvir suas impressões sobre as manchetes dos portais, as cenas da cidade e a fauna que nos cerca.

A hora da estrela – Clarice Lispector
Esta moça que fez 100 anos este ano não me é uma completa estranha, mas não é que toda vez ela me dá uma rasteira? Com elegância dissimulada, Clarice provoca em mim um efeito muito necessário sempre: ela congela o tempo e o ansioso aqui passa a olhar as coisas com mais cuidado e atenção. Como ela retira tanto literatura de um nada? Como ela torna alguém tão insípida uma personagem tão interessante e hipnotizante? Eu já conheci algumas Macabéas nesta vida, mas nenhuma Clarice…

O fim da infância – Arthur C. Clarke
No meio da pandemia, eu quis morar nesta história em que fazemos contatos com seres alienígenas. Era uma história do passado – anos 50? -, mas era uma história de futuro também, dessas que a gente quer e não quer realizar. Depois de Asimov e de Bradbury, reservo pouco espaço no meu lobo cerebral dedicado aos futuros, pois desconheço quem tão bem os esculpa. Mas O fim da infância cavou uma cratera aqui, minha gente…

Outubro cheio!

Este post deveria ser escrito em setembro, e vê-lo agora, na segunda metade do mês seguinte, já mostra como estão as coisas por aqui. Sim, aceleradas. Mas nem vou me queixar, eu quero é mesmo celebrar porque o mês está recheado de coisas boas. Pelo menos pra mim.

No dia 13, participei junto com Letícia Cesarino, Ronaldo Teodoro, Rafael Azize e Mariana Possas de um debate do ciclo Jornalismo e Direitos Humanos em Debate, na UFBA. O projeto é uma websérie de 10 episódios semanais tratando de problemas, derivações e consequências da loucura que é se comunicar hoje no mundo, e falar de direitos humanos. Nosso debate tratou bastante de crise de autoridade nas mediações do jornalismo e erosão de autoridade. Aliás, dá pra conferir aqui: https://youtu.be/tk9tXVn8ZIo

No dia 21, participo de uma aula dos professores Rafael Bellan e Rafael Paes Henriques no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Territorialidades, da UFES. A disciplina se chama Questões em Jornalismo e pretendo tratar de um par de ideias que estão no meu livrinho A crise do jornalismo tem solução? (ATUALIZAÇÃO: um vídeo com esta participação está aqui)

No dia 23, estarei no seminário Desinformação e Pandemia, que Ronaldo Henn e os colegas da Unisinos estão promovendo. Participo de um eixo que vai discutir Dimensões éticas implicadas nas fake news e interfaces com sistema jornalístico com Felipe Moura de Oliveira.

No dia 27, converso com os alunos do curso de jornalismo da UFMT-Araguaia, liderados pelo professor Edson Spenthoff. O tema é as fake news, nas novas e as velhas formas de desinformação.

No dia 28, a convite de Vitor Blotta e Ben-Hur Demeneck, dialogo com os pesquisadores do grupo Jornalismo, Direito e Liberdade da ECA/USP sobre jornalismo e poderes das liberdades de comunicação.

Se não houvesse essa maldita pandemia, eu teria passado por cinco estados diferentes (BA, ES, RS, MT, SP), encontrado gente querida e dialogado de perto com elas. Com o vírus, tudo será mediado por telas… Estou muito grato por esses convites e pela oportunidade de trocar ideias e aprender com todos esses amigos queridos. Isso a pandemia não me tira!

Alcancei meu pai

De partida para o espaço sideral, Cooper dá um relógio para a filha Murphy, de 10 anos, e sincroniza com o que está em seu pulso. Para onde eu vou, o tempo passa muito devagar. Quando eu voltar, talvez a gente tenha a mesma idade, ele diz.

Muitos anos depois, Murphy manda uma mensagem para a nave do pai. Agora eu já tenho a sua idade, e talvez seja o momento de você voltar, diz aos prantos.

As cenas são de Interestelar, filme de 2014, dirigido por Christopher Nolan. Elas exploram elementos de física teórica sobre a relatividade do tempo em situações singulares. É um filme sci-fi de grande carga emotiva e dramática, e gosto de vê-lo com meu filho.

Meu pai morreu aos 48 anos, e eu cheguei a essa mesma idade na semana passada. Há um ano atrás, fiquei aflito de não conseguir alcançá-lo. Fiz exames, mudei hábitos, sempre com a esperança de que isso garantisse encontrá-lo em uma esquina do tempo. As mudanças ajudaram, claro, mas sabemos que não asseguram por completo. A vida é misteriosa e cheguei até aqui por mil outros motivos.

Meu pai morreu com 48 anos e 17 dias. O plano agora é ultrapassá-lo. Falta pouco, mas nunca se sabe.

De repente, me lembrei de Valter Hugo Mãe que oferece ao próprio pai o seu A máquina de fazer espanhóis. Ele dedica o livro àquele que “não viveu a terceira idade”.

Sem o relógio de Murphy, fico aqui pensando: Quantas idades vou completar?

Tenho um blog e ele faz 15 anos hoje!

Talvez você já nem lembre mais o que é um blog. Eles estão fora da moda, eu sei.

Mas eu ainda mantenho um, sabe? Aliás, hoje, ele faz 15 anos. Foi em 20 de maio de 2005 que decidi abrir um bloco de notas onde pudesse opinar, compartilhar coisas que eu gostava e me colocar no mundo digital. Era isso o que a gente tinha naquela época e o tempo se encarregou de oferecer substitutos mais atraentes e ágeis dos blogs: redes sociais!

É, já tive contas em algumas delas. No orkut, no Facebook, no Twitter, no Facebook de novo, e hoje no Twitter mais uma vez.

Quem me conhece mais de perto sabe que ando beeeeeeeemmmm descontente com as redes sociais. Há razões de sobra para deletar as nossas presenças por lá, né, Jaron Lanier? Trabalhamos de graça para essas redes, alimentamos monstros nelas, azedamos algumas de nossas relações nesses ambientes, nos domesticamos, inflamos nosso ego e auto-importância, torramos nosso tempo diante dos teclados, fortalecemos gigantes oligopólios exploradores de mão-de-obra em todo o mundo… ah, tanta coisa!

Por outro lado, cada vez mais, valorizo esse espacinho aqui. Ele não substitui as redes sociais, nem quer. É um obsoleto blog, um terreno ocupado, embora não totalmente meu, pois o wordpress e outros intermediários me lembram disso de quando em vez. Mas aqui eu me sinto bem, como a pessoa que adora dormir no sofá velho de casa, com o estofado rasgado, mas com o cheiro familiar daquilo que já embalou seus sonhos.

Nesses 15 anos, deixei muita coisa por aqui. Até resisto a olhar o arquivo para não me arrepender. Afinal, até as cotidianas besteiras fazem parte de nós!

Nesses 15 anos, envelheci e vivi muita coisa. Sou diferente do que era, e é pra ser assim mesmo.

Quantos anos ainda tenho para mim? Quantos posts vou publicar por aqui? Não sei.

Na verdade, não perco tempo pensando nisso. Em algum momento, sem aviso ou cerimônia, os posts ficarão mais raros, o tempo para a escrita pessoal vai se tornar menos importante e, aí sim, esse blog – como registro de uma pessoa qualquer num tempo qualquer – terá cumprido sua função.

Julgamento moral de whistleblowers

Assisti ao documentário Privacidade Hackeada e fiquei intrigado com Brittany Kaiser, a ex-funcionária da Cambridge Analytica que decidiu jogar farofa no ventilador. Estou devorando o livro dela, Manipulados, e as diversas reticências que eu tinha sobre ela ainda se mantêm.

Isso me fez pensar que esse deve ser um comportamento bem comum quando estamos diante de whistleblowers. Isto é, é frequente que esses denunciantes não sejam levados muito a sério em seus propósitos e objetivos. Alguma pulga atrás da orelha fica cochichando que eles podem não ser confiáveis, que suas motivações são combustível de vingança, bla-bla-blá.

 

Quando Julian Assange apareceu para o mundo e despejou sobre nós montanhas de segredos das guerras do Iraque e Afeganistão, e quando nos inundou com oceanos de dados sobre a diplomacia dos EUA, confesso que não duvidei dele. Ele não era um insider como Brittany ou mesmo Edward Snowden. Assange era esquisitão, misterioso, talvez bem intencionado (talvez não), mas não estava diretamente implicado naquilo até o pescoço. Era diferente.

Ah, mas por que não acreditou tão piamente em Brittany? Por que ela é jovem? Por que é mulher?

Não. Também não.

Tive a mesma sensação quando li Vigilância Eterna, do Snowden. Pensei antes: quanto de verdade ele ainda pode nos contar e quanto dessa verdade pode prejudicá-lo? Embora ele tivesse contado parte importante do seu passado e tivesse argumentado sobre as razões que o fizeram mudar de lado, não posso dizer que fui totalmente convencido sobre sua conversão. O mesmo se dá com Brittany e com todos os delatores da Lava-Jato, por exemplo. Eu sei, eles não são propriamente whistleblowers, mas têm alguns pontos de contato com essas figuras: estavam dentro do monstro quando o monstro agia e, por alguma razão, decidiram abrir a boca. No caso da Operação Lava-Jato, a razão não é nenhum bom mocismo: chama-se delação premiada. Quem abrir o bico pode reduzir a pena e ficar menos tempo na prisão…

Mas o que ganham Snowden e Brittany? Suas consciências tranquilas, alguém pode responder. E acho que é um grande ganho sim, mas o que mais me importa pensar agora é: será possível considerar os conteúdos divulgados por eles sem considerar suas condições morais? Por que devemos acreditar no que dizem agora? Apenas por que se mostraram arrependidos? O arrependimento de alguém é um salvo-conduto moral, uma redenção do caráter? Se ainda mantivermos desconfiança sobre o que falam, não estaremos nós sendo injustos com eles?

Não sei responder essas perguntas, e elas ainda me assombram. E eles não deveriam interessar apenas a quem se preocupa com ética, moral e essas coisas fora de moda. Deveriam interessar a jornalistas – que se ocupam de ouvir e entrevistar esses personagens – e deveriam interessar a todos os cidadãos – que são afetados por tais revelações.

A vida mandou um recado

Ontem, um colorido passarinho nos visitou. Ele ficava cantando no alto de um dos muros do quintal, depois descia até uma das bicicletas estacionadas, e depois descia um pouco mais. Parecia estar sacaneando os nossos gatos, com aquela curiosa coreografia. Isso chamou a atenção da esposa que fez o vídeo abaixo:

Hoje cedo, o passarinho voltou a fazer os mesmos movimentos, o que nos intrigou. Cheguei perto do muro e percebi outro canto, além do primeiro. Percebemos que um segundo passarinho estava ali, no vão entre o muro de madeira e o de tijolos. Rapidamente, percebemos que ele havia caído ali. Por sorte, as tábuas são parafusadas, e em minutos, conseguimos soltar a mais baixa, o que permitiu o resgate do passarinho.

Pensávamos que era o filhote ou a companhia amorosa do passarinho colorido, mas… surpresa! Era um bicho mais jovem e de outra espécie. Fraco, dava pequenos voos, mas não conseguia subir até o muro ou ganhar liberdade total. O passarinho colorido, que tinha desaparecido, voltou e os dois trocaram bicadinhas, como se estivessem se cumprimentando. Achamos aquilo maravilhoso: eram amigos, e o colorido estava nos alertando há um dia do cativeiro involuntário do jovem passarinho.

A esposa conseguiu apanhar o resgatado, e o colocou na grelha da churrasqueira, onde estava protegido do vento, poderia beber água, comer migalhas de pão, se comunicar com o amigo colorido, enfim…

Achamos maravilhoso o ato de amizade. Mas foi além: achamos simbólico começar o dia com um resgate daqueles. Quais as chances de um pequeno passarinho cair no estreito vão entre dois muros, ter um amigo leal que nos avisasse daquilo, e ser resgatado com vida? Quais as chances de haver gente em casa e sermos capazes de salvá-lo? Aliás, quem mais poderia salvar aquela vidinha?

Demos um sentido àquilo tudo: era a vida nos dando a chance de entender que, em certos momentos, só a gente pode ajudar alguém, e quando isso acontece, precisamos ajudar.

ATUALIZAÇÃO, das 16h38: O leitor Mauro Demarchi informa que o passarinho colorido é um canário da terra e que, muito provavelmente, o segundo é seu filhote. O detalhe muda um pouco a história acima, mas não reduz em nada o amor nela embutido, não é mesmo? Na verdade, só amplia.