minha mãe agora tem um 38

Quando eu era apenas um garoto, minha mãe era uma mulher enérgica. Dessas que distribuem broncas e que colocam os filhos na linha. Era nervosa, mas também carinhosa. Sempre teve um senso de justiça e de compromisso muito evidentes, e tinha uma preocupação quase maníaca de passar aos filhos um valor: a honestidade. Parecia não se conformar que esses atributos não fossem herdados geneticamente.

Passados tantos anos, me parece cristalino que ela tenha conseguido tudo o que desejou. Com alguma ajuda de meu pai, criou quatro meninos e os encaminhou para suas próprias vidas.

Hoje, está bem mais serena, e nem é sombra da ira santa que destilava antes. É uma outra mulher, e o irônico é que só agora ela tem o seu primeiro 38. Não me refiro a um par de sapatos nem a uma arma de fogo. É que hoje o seu primogênito cumpre anos, e o que ele vai dizer a ela num telefonema daqui a poucos minutos é que todos os acertos foram delas, e os erros são obras do filho desobediente e teimoso.

38 não é nenhum número especial. Nem a data em si, hoje, é. Mas faz pensar…

Noel Rosa durou só 27 anos e ajudou a mudar a música brasileira. Glauber Rocha não chegou a completar 42, mas fez algo parecido com o nosso cinema. Pelé encerrou a carreira com 37, e já tinha marcado 1284 gols. Madonna, aos 38, já era a rainha do pop, tinha gravado seis álbuns e estava prestes a ganhar a primeira filha.

Bruce Lee e Cazuza morreram com 32 anos. Jesus Cristo com 33. Charlie Parker, 34. Renato Russo interrompeu a carreira aos 36, e Elis Regina com quase 37. Definitivamente, furaram a fila.

Mas 38 faz pensar. Aos 38, Gandhi já era preso por causa de sua desobediência civil pacífica. Com a mesma idade, Hitler respondia pela ideologia e pelas políticas internas do partido nazista, e Gretchen já tinha vinte anos de rebolado.

Aos 38, Carlos Drummond de Andrade publicava Sentimento do Mundo, mas depois ainda viria Claro Enigma, A Rosa do Povo e tantos mais. O poeta estava verde ainda. Aos 38, Freddy Mercury nem imaginava que faria um show como o que fez no Brasil em 1985 no Rock in Rio, meses depois, regendo multidões. Aos 38, Clint Eastwood começava a ser o famoso cauboi dos filmes de Don Siegel, e era só o início. Machado de Assis só publicaria Quincas Borba e Memórias Póstumas de Brás Cubas aos 40 anos. Aliás, os melhores filmes de Fellini só viriam mesmo depois dessa idade. A tal da idade da razão.

Chegar, então, a este degrau pode ser apenas alcançar um certo patamar na escada. António Lobo Antunes começou sua carreira de escritor aos 37, por exemplo. Guimarães Rosa só viria a escrever sua obra-prima, Grande Sertão: Veredas, aos 48 anos. E Leonardo Da Vinci só começou a pintar a sua Santa Ceia aos 43. O grande Cartola gravou o primeiro disco aos 66, e a doce Cora Coralina só publicou o primeiro livro aos 75.

Tudo bem que George Clooney já era George Clooney aos 38, mas só passou a ganhar prêmios importantes e ser respeitado depois dos 40. Por essas e outras é que 38 pode ser uma boa marca, um bom momento, um jeito de começar coisas, de rever caminhos e se refazer por inteiro. Afinal, o mundo não é pequeno, e a vida não é um fato consumado.

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    • rogério christofoletti

      Caríssimo, 32 é uma ótima idade! Quando eu tinha essa idade, lá pelos idos dos anos 60, eu… hahahahahaha!!
      Parabéns! abração!

  1. Larissa Tietjen

    Rogério, você tem algum problema pessoal com o Geoge Clooney? Hahah! Parabéns, muita saúde e serenidade para seguir em frente.

    • rogério christofoletti

      Claro que não tenho. Afora ele ter me roubado milhares de mulheres no mundo todo, com aquele charme irritante… claro que não tenho nada contra o George. Aliás, o desgraçado me ligou hoje cedo também pra parabenizar… ele não perde a chance… afffff!

      PS – Obrigado pelos votos. Principalmente de saúde… nessa idade já viu… a serenidade vem junto com a senilidade…

    • rogério christofoletti

      Querida, obrigado, e um antecipado “cumpleanõs para usted”.
      Mas a idade pesa para todos. Até mesmo para os homens. A sorte é que o governo quebrou a patente do azulzinho…êeeeeeee!!!

  2. Demétrio de Azeredo Soster

    E que esse número (ou calibre?) se repita no mínimo uma vez mais ainda; e que seja, o/os que está/estão por vir, tão bons quanto; sobretudo vivos. E com jazz ao fundo, se não for desejar demais. O resto é bobagem. Grande abraço, meu amigo. E muitas felicidades.

    • rogério christofoletti

      Obrigado, meu filho. Obrigado. Pode pegar meu remédio do coração aí do lado da cama? Deus te ajude…

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