Saramago está morto. Saramago está vivo.
No final dos anos 90, o escritor veio ao Brasil – como tantas outras vezes – para lançar livros e receber homenagens. Eu fazia Mestrado em Linguística na Universidade Federal de Santa Catarina, e o Conselho Universitário aprovou a concessão do título de doutor honoris causa à eminente figura. Saramago veio a Florianópolis, e a honraria seria acompanhada por uma conferência sua.
O auditório da Reitoria estava lotado de autoridades – leitoras ou não do velho escritor. O hall da Reitoria também estava apinhado de gente, todos ávidos para ouvir aquela voz calma. Foi necessário colocar telão para que as pessoas que transbordaram o prédio acompanhassem a cerimônia. Saramago esbanjou elegância, humildade, lucidez. Foi emocionante ouvi-lo, mesmo envolto àquela pompa toda e eu tendo que me acotovelar para poder ver os melhores momentos.
Com Saramago, aprendi que a glória é irmã da discrição.
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Nos mesmos dias, um amigo próximo participou de uma atividade que envolvia o escritor. Em sua estada na cidade, alunos e professores do curso de Letras encontraram uma brecha na agenda do homenageado para um encontro numa sala, pretexto para debates e troca de ideias. Eu não estava lá, mas confio no que me foi contado.
A sessão – que deveria ser informal – insinuou-se para lá de circunstanciosa. Teve abertura e tudo. Saramago, todo sem graça. O que é que estou a fazer aqui, murmurou, passando a mão pelos longos cabelos na nuca. Alguém fez uma pergunta ordinária, e o escritor emendou com resposta igualmente comum. A plateia, digo os convivas, aplaudiram entusiasticamente. Saramago perdeu a paciência, conta o meu amigo que aquilo testemunhou. Se vamos começar assim, melhor que terminemos. Todos ficaram estupefatos, baixaram suas bolas e a sessão passou a ser mais palatável.
Com Saramago, aprende-se que a pompa é uma falsa sombra do reconhecimento.