Sobre máquinas e afetos

Coisas incríveis acontecem com humanos!

Escutei ontem mais um episódio do podcast 451MHz e nele o escritor Daniel Galera comentava o novo livro de Ian McEwan, “Máquinas como eu”. O livro me despertou muito a curiosidade porque trata de inteligência artificial e os desafios que nos levam à ela, e eu logo anotei mentalmente: Preciso desse livro a-go-ra!

Não é que o dia segue e no final dele, após uma aula empolgante – pelo menos eu estava bem empolgado! -, um querido orientando e amigo me diz misterioso: Preciso falar contigo. E não é que ele abre a mochila e me estende justamente o livro de McEwan me dando de presente um objeto que foi rapidamente encantado pelo meu desejo?!

Máquinas não fazem isso. Afetos assim, só com os muito humanos. Obrigado, Dairan!

A vida, essa teimosa

Chegam notícias de que uma amiga retirou um tumor enorme da cabeça. A quilômetros dali, outra amiga se recupera de dois AVCs. E mais longe ainda, chegam notícias do México, onde um amigo avisa que o terrível terremoto fez ruir diversos prédios. Felizmente, todos passam bem.

A vida insistentemente resiste.

Desprestígio

Fugimos dos sentidos de algumas palavras. Às vezes, até fazemos um leve esforço para fingir que esquecemos aqueles significados, como se pudéssemos engavetar tudo.

É o que se passa com “desprestígio”.

Quase nunca usamos, não é? Gostamos mais do antônimo. É nome de chocolate, é algo que nos enaltece, uma forma de capital, que ajuda a nos destacar dos demais.

Desprestígio, não. Revela que – por mais que façamos, por mais que provemos o nosso valor -, de nada valeu. Não somos reconhecidos como esperávamos. Não somos tidos como queríamos. Não somos especiais em nada. Mãos e bolsos estão vazios.

Não se trata de paparico, de ter vantagem adicional sobre os demais, de afagos no ego. O desprestígio só mostra que a tabela pela qual fomos valorizados está zerada, e nesse cálculo de si, o resultado é mais que negativo.

O desprestígio exibe um pouco de nós. Mas também mostra quem nos cerca: o quanto nos querem bem, o quanto nos conhecem, o quanto estão conosco.

A Nobel tem mão quentinha

20160705_104225Eu tinha certeza de que iria me encontrar com Svetlana Aleksiévitch na Flip. Não havíamos combinado nada (quem dera!), mas eu tinha certeza. Por isso, onde quer que eu fosse, carregava comigo o exemplar de Vozes de Tchernóbil que me marejou os olhos tantas vezes.

No meio de um mar de gente que zanzava pelas ruelas de calçamento ancestral, avistei a jornalista que se notabilizou por contar histórias tristíssimas como a da tragédia nuclear de 1986 na Bielorússia. Svetlana andava com passos miúdos e olhar perdido nas fachadas das casinhas coloniais. Estava acompanhada por sua agente literária na Europa e por uma tradutora. Bendita tradutora!

Abordei Svetlana em inglês e ela me olhou desarvorada. Este idiota esqueceu de décadas de Guerra Fria! A gentil tradutora veio ao nosso socorro e construiu uma simpática ponte entre o Brasil e a Ucrânia, já que eu não sei dizer nem obrigado em russo…

Agradeci Svetlana por ter contado as histórias dos anônimos em Vozes de Tchernóbil. Suas sobrancelhas formaram um triângulo surpreso. Mencionei meu episódio favorito no livro, aquele do homem que deixa tudo na cidade evacuada, mas volta para levar consigo a porta de casa. Sobre ela velou o pai e nela marcou ao longo dos anos as fases de crescimento dos próprios filhos. A escritora sorriu e passou a falar com voz clara e olhos animados.

Eu disse que era professor de jornalismo e que desejava que meus alunos a lessem. Afetuosa, Svetlana disse algumas amabilidades. Apesar de se queixar de uma dor no trigêmeo – o incômodo nervo da face -, sorria e balançava a cabeça.

“Você não tem um livro para ela autografar?”, perguntou a tradutora. Saquei meu exemplar e tirei fotos com ela. Svetlana fez uma dedicatória, apertou minha mão e se foi com as amigas. Tinha a mão quentinha, e o cumprimento foi forte. Como a sua escrita.

Miles Davis faz 90 e continua milhas à frente

queremos milesParece piada, mas foi verdade.

Miles Davis estava num jantar na Casa Branca e uma socialite igualmente branca se aproximou dele e tentou se enturmar: “Quem é o senhor e o que está fazendo aqui?”. Miles falou com sua voz de lagarto: “Vim a convite do presidente porque mudei o panorama da música umas três ou quatro vezes”.

As palavras podem não ter sido exatamente as mesmas, mas Miles não exagerou.

No dia em que ele completaria 90 anos – hoje, 26/05/2016! -, basta olhar ao redor, apurar bem os ouvidos e perceber como não apenas foi instrumentista excelente, band leader temperamental, mas acima de tudo um inquieto renovador da música.

Para celebrar o dia do aniversário, alguns presentes:

Lá se foi o Chris Scheiner…

eva - 6
Criador e criatura: Chris e Sandra Meyer na pré-produção de E.V.A.

Existia um cara que mais parecia uma criança.

Existia um cara que embora parecesse criança escrevia as coisas mais adultas que se podia ouvir.

Existia um cara que embora parecesse criança escrevia as coisas mais adultas que se podia ouvir e que era doce como nenhum de nós.

O mesmo cara doce era corrosivo e surpreendente. Desde muito jovem, escrevia como poucos, e encantava na mesma medida que nos fazia pensar e tremer. Esse cara era o Christiano Scheiner.

Convivi com ele poucos anos, no começo da década passada, na Persona Cia de Teatro. Chris assinou o excelente E.V.A., espetáculo com Sandra Meyer Nunes e Igor Lima, com direção de Jefferson Bittencourt. Chris, ele não sabe, me assombrava. Era brilhante e verdadeiro. Infantil e senil.

Uma vez, repetimos entre nós a piada de que “autor bom é autor morto!”, e que diretores sempre preferem esses. Gargalhamos e Chris me olhou com aquele sorriso demoníaco, tremendo as sobrancelhas. Era um convite ou mais uma espetada dele?

Há anos não o via e hoje soube que correu para trás das cortinas. Eu não esperava ser atingido assim novamente pelo Chris. Mas ele sempre foi o mais ousado dessa fauna escassa que chamamos de dramaturgos catarinenses. Touché!

Paulino Júnior, confesso operário da palavra

Mercadoria
Ilustração de Ubirajara Gonçalves Filho

Às vezes, encaramos certas tarefas como dívidas morais, que contraímos por aí. E eu tenho muitas, é verdade.

Uma delas é com Paulino Júnior, desde que me presenteou com o seu Todo Maldito Santo Dia há alguns meses. As muitas demandas profissionais e uma pilha interminável de livros foram afastando a coletânea de contos, e isso me agoniava demais, toda vez que o encontrava. Claro que Paulino nunca cobrava: Leu? O que achou? Mas claro que eu respondia mudo (pra mim mesmo): Tem que terminar e dar um retorno pro cara…

Outro dia, durante o lançamento de livro de outro amigo, deixei escapar algumas impressões, daquilo que eu tinha percorrido. Era pouco, e o autor agradeceu os comentários. Elegante.

Ocorre que hoje encontrei o ponto final de Todo Maldito Santo Dia, e me sinto mais preparado para recomendar a leitura. Ler  os amigos é um tanto delicado. Elogio em demasia compromete a credibilidade. Franqueza em demasia costuma trincar a amizade. Mas Paulino é amigo novo e o livro é muito bom. Respiro duas vezes.

Repito o que disse a ele recentemente. Paulino Júnior ronda um tema premente para nossos dias: o mundo do trabalho. Não sei dizer se se trata de uma escrita programática ou de uma fase, mas pouco importa. Paulino se dedica à galáxia do trabalho, o que torna a sua voz muito distinta na produção literária catarinense atual. É concreto e é áspero, constrói cenas desconcertantes que mobilizam nossas memórias envergonhadas. O homem que fede ao trabalho, a mulher que é mais mecânica que a esteira do seu balcão, o sujeito que vai da prateleira à vitrine… Sim, já assistimos àquilo e nada fizemos. Daí que Paulino mobiliza personagens que estavam lá, atolados na lama do cotidiano. São os nossos íntimos invisíveis. Por isso, o próprio autor avisa que Todo Maldito Santo Dia “não deve ser lido depois de um dia de labuta”.

Precariedades, insalubridades e desnecessidades funcionais desfilam por suas páginas. O homem e a mulher são quase sempre associados às suas condições de trabalhadores, de peças de engrenagens complexas e torturantes. Os contos de Paulino nos lembram que a maioria de nós passa mais tempo no local de trabalho do que em casa ou em qualquer outro lugar. Nos fazem recordar de nossa subalternidade eterna, da maquinização que sofremos, do embrutecimento afetivo que verte das muitas repetições laborais. Se somos sujeitos, somos por conta do trabalho, e neste sentido: sujeitos assujeitados, encalacrados em nossas rotinas e agendas.

Não são histórias felizes, é verdade. Mas não se trata de pessimismo. É a espessura crua da realidade que caleja as mãos, que desgasta a vista, que provoca tendinites em nossas relações sociais. Lesões por absoluto esforço repetitivo! Isto é: os contos de Paulino Júnior não nos põem pra dormir. Nos põem a pensar. É o dia-a-dia de quem “vive colocando a vida em sacolas”, de quem carrega os odores do seu santo trabalho, de quem elabora uma “equação do merecimento” para amortecer a consciência e as dores nas juntas.

Como disse antes, Paulino Júnior tem voz própria. Alheio aos modismos literários, abraça a causa do mundo do trabalho pra falar da condição humana. Bem fora de moda. Algum leitor aí deve ter balbuciado alguma coisa com Karl Marx. Quem se importa? Não foi o velho Marx quem inventou a luta de classes, ele apenas a atirou em nossas caras. Nem sei se Paulino é marxista ou masoquista. Sei que ele mastiga as palavras e as sopra com rudeza, como quem martela o cravo na ferradura. Se fossem os anos 60 e 70, Paulino Júnior teria lugar garantido em qualquer grande antologia, e bateria ponto com Plínio Marcos e João Antonio, por exemplo.

Nos dias de hoje, há quem escamoteie os sentidos, fazendo do eufemismo a sua ferramenta principal. Empregados não são mais funcionários, mas “colaboradores”. O cidadão não é mais despedido, é “desligado”. Ele não encontra emprego, mas “se recoloca no mercado”. Paulino Júnior não faz gênero. Castiga as teclas do computador na mesma tradição de quem usa picareta e britadeira, caneta e enxada, músculos e suor.

Depois de Todo Maldito Santo Dia, não me sinto aliviado da dívida que mencionei no primeiro parágrafo. Meus comentários aqui e as palavras que dirijo ao autor não cobrem o que ele me ofereceu. Ainda estou no vermelho.

Mankell na 1ª página

Quando José Saramago morreu em junho de 2010, os principais jornais do mundo lhe renderam homenagens em suas capas. Hoje, na Suécia, acontece o mesmo com Henning Mankell. A história se repete quando morre um grande.

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Expressen: “A última vontade de Mankell: não mais livros com Wallander”
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Dagens Nyheter: “Ele se tornou um ícone tanto na Suécia quanto em outras partes”
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Kvälls Posten: “O último desejo de Mankell para Wallander”
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Aftonbladet: “O mestre colocou o ponto final”.