Marcado: afetos

Desprestígio

Fugimos dos sentidos de algumas palavras. Às vezes, até fazemos um leve esforço para fingir que esquecemos aqueles significados, como se pudéssemos engavetar tudo.

É o que se passa com “desprestígio”.

Quase nunca usamos, não é? Gostamos mais do antônimo. É nome de chocolate, é algo que nos enaltece, uma forma de capital, que ajuda a nos destacar dos demais.

Desprestígio, não. Revela que – por mais que façamos, por mais que provemos o nosso valor -, de nada valeu. Não somos reconhecidos como esperávamos. Não somos tidos como queríamos. Não somos especiais em nada. Mãos e bolsos estão vazios.

Não se trata de paparico, de ter vantagem adicional sobre os demais, de afagos no ego. O desprestígio só mostra que a tabela pela qual fomos valorizados está zerada, e nesse cálculo de si, o resultado é mais que negativo.

O desprestígio exibe um pouco de nós. Mas também mostra quem nos cerca: o quanto nos querem bem, o quanto nos conhecem, o quanto estão conosco.

A Nobel tem mão quentinha

20160705_104225Eu tinha certeza de que iria me encontrar com Svetlana Aleksiévitch na Flip. Não havíamos combinado nada (quem dera!), mas eu tinha certeza. Por isso, onde quer que eu fosse, carregava comigo o exemplar de Vozes de Tchernóbil que me marejou os olhos tantas vezes.

No meio de um mar de gente que zanzava pelas ruelas de calçamento ancestral, avistei a jornalista que se notabilizou por contar histórias tristíssimas como a da tragédia nuclear de 1986 na Bielorússia. Svetlana andava com passos miúdos e olhar perdido nas fachadas das casinhas coloniais. Estava acompanhada por sua agente literária na Europa e por uma tradutora. Bendita tradutora!

Abordei Svetlana em inglês e ela me olhou desarvorada. Este idiota esqueceu de décadas de Guerra Fria! A gentil tradutora veio ao nosso socorro e construiu uma simpática ponte entre o Brasil e a Ucrânia, já que eu não sei dizer nem obrigado em russo…

Agradeci Svetlana por ter contado as histórias dos anônimos em Vozes de Tchernóbil. Suas sobrancelhas formaram um triângulo surpreso. Mencionei meu episódio favorito no livro, aquele do homem que deixa tudo na cidade evacuada, mas volta para levar consigo a porta de casa. Sobre ela velou o pai e nela marcou ao longo dos anos as fases de crescimento dos próprios filhos. A escritora sorriu e passou a falar com voz clara e olhos animados.

Eu disse que era professor de jornalismo e que desejava que meus alunos a lessem. Afetuosa, Svetlana disse algumas amabilidades. Apesar de se queixar de uma dor no trigêmeo – o incômodo nervo da face -, sorria e balançava a cabeça.

“Você não tem um livro para ela autografar?”, perguntou a tradutora. Saquei meu exemplar e tirei fotos com ela. Svetlana fez uma dedicatória, apertou minha mão e se foi com as amigas. Tinha a mão quentinha, e o cumprimento foi forte. Como a sua escrita.

Miles Davis faz 90 e continua milhas à frente

queremos milesParece piada, mas foi verdade.

Miles Davis estava num jantar na Casa Branca e uma socialite igualmente branca se aproximou dele e tentou se enturmar: “Quem é o senhor e o que está fazendo aqui?”. Miles falou com sua voz de lagarto: “Vim a convite do presidente porque mudei o panorama da música umas três ou quatro vezes”.

As palavras podem não ter sido exatamente as mesmas, mas Miles não exagerou.

No dia em que ele completaria 90 anos – hoje, 26/05/2016! -, basta olhar ao redor, apurar bem os ouvidos e perceber como não apenas foi instrumentista excelente, band leader temperamental, mas acima de tudo um inquieto renovador da música.

Para celebrar o dia do aniversário, alguns presentes:

Cony, 90

conyEle me fez rir sem jeito com Pilatos.

Ele me fez sentir mais saudades com Quase Memória.

Ele me faz amar mais com Romance Sem Palavras, A Tarde da Sua Ausência, e Antes, o Verão.

Feliz aniversário, velho. Amo suas páginas.

Lá se foi o Chris Scheiner…

eva - 6

Criador e criatura: Chris e Sandra Meyer na pré-produção de E.V.A.

Existia um cara que mais parecia uma criança.

Existia um cara que embora parecesse criança escrevia as coisas mais adultas que se podia ouvir.

Existia um cara que embora parecesse criança escrevia as coisas mais adultas que se podia ouvir e que era doce como nenhum de nós.

O mesmo cara doce era corrosivo e surpreendente. Desde muito jovem, escrevia como poucos, e encantava na mesma medida que nos fazia pensar e tremer. Esse cara era o Christiano Scheiner.

Convivi com ele poucos anos, no começo da década passada, na Persona Cia de Teatro. Chris assinou o excelente E.V.A., espetáculo com Sandra Meyer Nunes e Igor Lima, com direção de Jefferson Bittencourt. Chris, ele não sabe, me assombrava. Era brilhante e verdadeiro. Infantil e senil.

Uma vez, repetimos entre nós a piada de que “autor bom é autor morto!”, e que diretores sempre preferem esses. Gargalhamos e Chris me olhou com aquele sorriso demoníaco, tremendo as sobrancelhas. Era um convite ou mais uma espetada dele?

Há anos não o via e hoje soube que correu para trás das cortinas. Eu não esperava ser atingido assim novamente pelo Chris. Mas ele sempre foi o mais ousado dessa fauna escassa que chamamos de dramaturgos catarinenses. Touché!

Paulino Júnior, confesso operário da palavra

Mercadoria

Ilustração de Ubirajara Gonçalves Filho

Às vezes, encaramos certas tarefas como dívidas morais, que contraímos por aí. E eu tenho muitas, é verdade.

Uma delas é com Paulino Júnior, desde que me presenteou com o seu Todo Maldito Santo Dia há alguns meses. As muitas demandas profissionais e uma pilha interminável de livros foram afastando a coletânea de contos, e isso me agoniava demais, toda vez que o encontrava. Claro que Paulino nunca cobrava: Leu? O que achou? Mas claro que eu respondia mudo (pra mim mesmo): Tem que terminar e dar um retorno pro cara…

Outro dia, durante o lançamento de livro de outro amigo, deixei escapar algumas impressões, daquilo que eu tinha percorrido. Era pouco, e o autor agradeceu os comentários. Elegante.

Ocorre que hoje encontrei o ponto final de Todo Maldito Santo Dia, e me sinto mais preparado para recomendar a leitura. Ler  os amigos é um tanto delicado. Elogio em demasia compromete a credibilidade. Franqueza em demasia costuma trincar a amizade. Mas Paulino é amigo novo e o livro é muito bom. Respiro duas vezes.

Repito o que disse a ele recentemente. Paulino Júnior ronda um tema premente para nossos dias: o mundo do trabalho. Não sei dizer se se trata de uma escrita programática ou de uma fase, mas pouco importa. Paulino se dedica à galáxia do trabalho, o que torna a sua voz muito distinta na produção literária catarinense atual. É concreto e é áspero, constrói cenas desconcertantes que mobilizam nossas memórias envergonhadas. O homem que fede ao trabalho, a mulher que é mais mecânica que a esteira do seu balcão, o sujeito que vai da prateleira à vitrine… Sim, já assistimos àquilo e nada fizemos. Daí que Paulino mobiliza personagens que estavam lá, atolados na lama do cotidiano. São os nossos íntimos invisíveis. Por isso, o próprio autor avisa que Todo Maldito Santo Dia “não deve ser lido depois de um dia de labuta”.

Precariedades, insalubridades e desnecessidades funcionais desfilam por suas páginas. O homem e a mulher são quase sempre associados às suas condições de trabalhadores, de peças de engrenagens complexas e torturantes. Os contos de Paulino nos lembram que a maioria de nós passa mais tempo no local de trabalho do que em casa ou em qualquer outro lugar. Nos fazem recordar de nossa subalternidade eterna, da maquinização que sofremos, do embrutecimento afetivo que verte das muitas repetições laborais. Se somos sujeitos, somos por conta do trabalho, e neste sentido: sujeitos assujeitados, encalacrados em nossas rotinas e agendas.

Não são histórias felizes, é verdade. Mas não se trata de pessimismo. É a espessura crua da realidade que caleja as mãos, que desgasta a vista, que provoca tendinites em nossas relações sociais. Lesões por absoluto esforço repetitivo! Isto é: os contos de Paulino Júnior não nos põem pra dormir. Nos põem a pensar. É o dia-a-dia de quem “vive colocando a vida em sacolas”, de quem carrega os odores do seu santo trabalho, de quem elabora uma “equação do merecimento” para amortecer a consciência e as dores nas juntas.

Como disse antes, Paulino Júnior tem voz própria. Alheio aos modismos literários, abraça a causa do mundo do trabalho pra falar da condição humana. Bem fora de moda. Algum leitor aí deve ter balbuciado alguma coisa com Karl Marx. Quem se importa? Não foi o velho Marx quem inventou a luta de classes, ele apenas a atirou em nossas caras. Nem sei se Paulino é marxista ou masoquista. Sei que ele mastiga as palavras e as sopra com rudeza, como quem martela o cravo na ferradura. Se fossem os anos 60 e 70, Paulino Júnior teria lugar garantido em qualquer grande antologia, e bateria ponto com Plínio Marcos e João Antonio, por exemplo.

Nos dias de hoje, há quem escamoteie os sentidos, fazendo do eufemismo a sua ferramenta principal. Empregados não são mais funcionários, mas “colaboradores”. O cidadão não é mais despedido, é “desligado”. Ele não encontra emprego, mas “se recoloca no mercado”. Paulino Júnior não faz gênero. Castiga as teclas do computador na mesma tradição de quem usa picareta e britadeira, caneta e enxada, músculos e suor.

Depois de Todo Maldito Santo Dia, não me sinto aliviado da dívida que mencionei no primeiro parágrafo. Meus comentários aqui e as palavras que dirijo ao autor não cobrem o que ele me ofereceu. Ainda estou no vermelho.

Mankell na 1ª página

Quando José Saramago morreu em junho de 2010, os principais jornais do mundo lhe renderam homenagens em suas capas. Hoje, na Suécia, acontece o mesmo com Henning Mankell. A história se repete quando morre um grande.

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Expressen: “A última vontade de Mankell: não mais livros com Wallander”

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Dagens Nyheter: “Ele se tornou um ícone tanto na Suécia quanto em outras partes”

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Kvälls Posten: “O último desejo de Mankell para Wallander”

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Aftonbladet: “O mestre colocou o ponto final”.

A chuva contada por Schroeder

544931_historia-da-chuva-702678_Z1Eu esperava outra coisa de “História da Chuva”.

Quando Carlos Henrique Schroeder deixou escapar o título do livro que preparava, me deslumbrei com o achado. Por que não pensei nisso antes? Algo tão ancestral, quase mítico. Tipo “A história do fogo”, como no filme. Um rótulo amplo, capaz de reunir todos os fluxos do tempo e ainda conservar lirismo. Era maio e estávamos em pleno Festival Nacional do Conto. O autor confidenciou ainda que se tratava de um romance sobre a enchente de 2008 no Vale do Itajaí, e vibrei secretamente com aquilo. Também sobrevivi a ela e foi uma das minhas experiências mais aterradoras. Alguém precisava contar aquilo. Aquele mar de tristezas e horror não poderia escorrer pelos ralos da memória…

Então, eu esperava outra coisa de “História da Chuva”, e por isso, saí no meio da tempestade com uma sede infinita, engolindo sofregamente as páginas. Fui tragado por outros redemoinhos, como aqueles que a gente vê num rio caudaloso e que dá dentadas nos barrancos e nas pontes, como já escreveu Schroeder. Os redemoinhos sinalizam os sumidouros, onde pessoas, animais e coisas são tragadas, desaparecendo na água turva.

Fui arrastado então para outros lugares. A partir de um corpo que boia na água marrom, mergulhamos na busca de um narrador por sua própria história e natureza. O cadáver é de um artista de teatro de animação e o narrador estranhamente se chama Carlos Henrique Schroeder, mora em Jaraguá do Sul, é escritor e modesto editor. Tal qual o homem que assina o livro e que iluminou a noite com um título como aquele. O narrador tenta reconstituir o passado do morto, enquanto tenta manter longe a ex-namorada perigosamente ciumenta às vésperas de seu casamento. Como é de se esperar, sua jornada é também a busca de si mesmo, a tentativa de preencher as lacunas que justificariam sua existência.

Menos poético que “As fantasias eletivas”, este “História da Chuva” é um romance muito mais complexo e ambicioso. Schroeder, o autor, espalha mais personagens na mesa e constroi sua trama a partir de várias camadas, alternadas com muita destreza. Me fez lembrar daqueles artistas de circo que equilibram pratos giratórios nas mãos, pés, nariz e queixo. O malabarismo não está apenas em manter os pratos em movimento, mas em mover as varas que os sustentam numa dancinha caótica. Schroeder faz autoficção e ensaísmo sobre o teatro de animação, e reflete sobre o que é sobreviver em meio às agruras de ser artista periférico. Não satisfeito, oferece mais: prende a respiração e afunda no turbilhão da alma de quem se dedica a escrever e a criar. Como foi tudo rápido e sem aviso, há pouco oxigênio para aquilo e o leitor pode acabar como o corpo que boia: com os pulmões cheios de água.

Eu esperava outra coisa de “História da Chuva”. Talvez a redenção a partir da enchente, talvez um punhado de explicações para o mistério que faz da água tanto trazer quanto tirar vidas. Talvez, talvez, talvez. Faz poucos minutos que fechei o livro, depois de reler seis ou sete vezes o final. O impacto permanece. Não pelas surpresas que me trouxe, mas pelo inevitável desconforto de quem passa o dia com as meias e os pés encharcados.

Uma aula de adaptação para os quadrinhos

dois_irmaos-10-1-2Quando fechei o volume de Daytripper, pensei: Nunca li nada melhor por aqui. Sim, a minha impressão permanece, e acho que o trabalho de Gabriel Bá e Fábio Moon é a melhor HQ brasileira já produzida. Sensível, criativa, instigante, belíssima, caprichada.

E quando a gente pensa que os caras alcançaram o ápice e a tendência é ladeira abaixo, engano-engano.

A adaptação de Dois Irmãos mostra que os gêmeos mais talentosos dos quadrinhos mantêm um patamar de altíssima qualidade gráfica e narrativa. O premiado romance de Milton Hatoum conta décadas da vida de outros dois gêmeos descendentes de libaneses numa Manaus mansa e chacoalhada. A história é linda, triste, sofrida e absolutamente cativante. Hatoum revisita uma fábula ancestral – a dos irmãos que se digladiam -, atualiza os mitos de Esaú e Jacó (Machado de Assis) e desvela como amores fraternais podem ser frios e bestiais.

DoisIrmaosA obra de Bá e Moon é uma aula de como adaptar um romance para os quadrinhos. Sim, eles sabem o que fazem. Já até ganharam um Jabuti por O Alienista. Há o respeito à obra original e a oferta generosa de outra obra, única, autônoma, efetiva. Mas em Dois Irmãos, vejo muito mais. Há os traços angulosos e esquálidos que contornam os personagens, aparentemente fortes, mas que fraquejam em suas paixões. Há os estudos da cidade, o porto, as ruas, o casario, o bairro flutuante, cenários que hipnotizam em preto e branco. Está tudo ali. A prosa contida, as palavras bem escolhidas, a caligrafia tortuosa, as onomatopeias econômicas. A casa que envelhece, os amores confusos, as ilusões difusas, os segredos familiares, a ambição convertida em coragem, a preguiça ocultando a pequenez, a sensualidade de orientais e barés, a violência, a vida e a morte.

Longa vida aos irmãos Omar e Yaqub, Gabriel e Fábio.

“Número Zero” desestabiliza

imagesUmberto Eco é um intelectual com uma dose cavalar de coragem.

Quando eruditos e escrachados se agrediam com cotoveladas, ele veio e colocou os devidos pingos nos is falando de apocalípticos e integrados. Analisou quadrinhos com rigor, método e paixão. Assombrou-nos com seu conhecimento enciclopédico sobre a Idade Média e nos deu um belo romance policial com O Nome da Rosa. Nos ensinou e nos envolveu com O Pêndulo de Foucault e outros tantos. Agora, bagunça o coreto com Número Zero.

Tenho uma simpatia enorme pelo professor-bonachão e corri para ler Número Zero. Não só por isso, mas também pelo fuzuê dos comentários sobre o livro. Se você não sabe do que se trata, não é um livro cheio de rococós e empreendimentos rebuscados como os anteriores, mas um volume curto, pouco mais de 200 páginas, e que aborda temas atuais… Um grupo de jornalistas é recrutado para produzir doze edições de teste para um novo jornal em Milão. Não é jornal qualquer, mas será O jornal, algo que vai abalar as estruturas da sociedade local e do próprio jornalismo.

Em tempos difíceis para o jornalismo, claro que o livro me chamou a atenção. Com inteligência, humor refinado, ironia delicada, Eco me fez rir em diversas passagens que bem poderiam passar por anedotas, mas que são reconhecíveis nos meios de comunicação atuais. Estratégias para ocultar a verdade, formas de como atrair o interesse do público para banalidades, esquemas para separar o joio do trigo e publicar o joio estão em todas as partes. A gente ri amarelo em muitas delas, com vergonha alheia. A gente se entristece com os rumos que seguem os veículos e os profissionais.

É um alerta de Eco? Talvez. Mas o fato de ambientar sua trama em 1992 me faz pensar que o sinal vermelho esteja soando atrasado, bem atrasado. Pessoalmente, eu não esperava nenhuma saída milagrosa dele no romance, mas talvez algum alento, alguma esperança. Não, nada disso.

A trama me decepcionou também. Quase nada acontece, e aqueles personagens se colocam em cena como caricaturas, clichês desgastados. O desfecho é incerto e hesitante. E foi assim que fiquei ao final do livro. Não entendi o que levou um homem daquela estatura e volume a cometer aquelas páginas. Tal como as edições produzidas pelos personagens, talvez Número Zero nem devesse ter deixado o prelo…

Este blog fez 10 anos!

Quando comecei este blog, em maio de 2005, o mundo era bem diferente do que é hoje.

George W. Bush não só mandava nos Estados Unidos, como estava no segundo mandato! Por aqui, Lula era o presidente e uma tal de Dilma Rousseff estava às vésperas de assumir a Casa Civil. O Fórum Social Mundial ainda acontecia em Porto Alegre e a Microsoft preparava o lançamento de uma novidade, o XBox 360. João Paulo 2º nem tinha esfriado ainda e Bento 16 dava o sermão na Praça São Pedro. Quem diria? O YouTube estava surgindo! O Orkut era o rei das redes sociais – apesar do Facebook já existir – e o Twitter só apareceria no ano seguinte, em 2006. Eu tinha um bebê em casa, muito mais cabelo e esperança, e muito menos barriga e mau humor.

Em dez anos, o mundo não parou de girar uma única vez. Por isso, mudamos tanto. Um passo à frente e você não está no mesmo lugar. Não foi assim que Chico Science ensinou?

Não entendo também como conseguimos chegar até aqui. Deveria ter desistido. Tive chance pra isso. Faltou coragem, faltou tempo, sei lá.

Registramos mais de 450 mil visitas, mais de 3,3 mil comentários e infinitas horas despejando coisas que colecionei por aí. Valeu a pena? Sim, valeu. Afinal, não são muitas as coisas na nossa vida que duram dez anos.

Obrigado pela visita, por algum comentário, por lincar este blog. De alguma forma, ele também foi seu. E eu me senti menos patético e sozinho enquanto remexia essas memórias.

2007: o endereço ainda era monitorando.zip.net

2007: o endereço ainda era monitorando.zip.net

2007: primeiro layout no wordpress

2007: primeiro layout no wordpress

2008: era demais ter um blog nessa época!

2008: era demais ter um blog nessa época!

2009: blogar era publicar para não perecer

2009: blogar era publicar para não perecer

2010: o blog se tornava cada vez mais um diário de bordo

2010: o blog se tornava cada vez mais um diário de bordo

2010: a cada mudança de humor, uma alteração no layout

2010: a cada mudança de humor, uma alteração no layout

2011: a integração com o Twitter ajudava a

2011: a integração com o Twitter ajudava a “espalhar” melhor

2012: começa a bater o cansaço. Os blogs já não são mais os mesmos

2012: começa a bater o cansaço. Os blogs já não são mais os mesmos

2013: posts ficam cada vez mais enxutos

2013: posts ficam cada vez mais enxutos

2014: as postagens ficam mais escassas

2014: as postagens ficam mais escassas

2015: o blog é

2015: o blog é “engolido” pelo site, mas sobrevive

Cremilda Medina em casa

UnknownFazia algum tempo que eu não a via pessoalmente. Mas na semana passada, ela passou pela cidade para uma conferência num evento, e foi a oportunidade de nos revermos rapidamente. Afetuosa como sempre, me deu um abraço daqueles, fez questão de me olhar nos olhos e me escaneou a alma. Acho que passei… Me trouxe também um presente: Você tem o meu livro de memórias? Sem jeito, fui sincero. Não. E ela sacou um exemplar com dedicatória e tudo o mais.

Acariciei a capa, sentindo a leveza do papel e deixei as páginas ventilarem meu rosto. Duas noites depois, abri o livro querendo um tantinho mais. E quem disse que consegui deixar de lado?

Me dei conta de que conheço Cremilda Medina há quase 15 anos. Ela me orientou no doutorado e convivemos um tempinho, pouco diante do que eu poderia aprender.

Em “Casas da Viagem”, Cremilda não apenas oferece uma autobiografia, mas porções generosas de diversos encontros que teve na vida nas últimas sete décadas. De maneira original, ela toma o mote das casas que habitamos ao longo da existência para contar o que viu, sentiu e viveu. As casas são as contas de um colar, e cada um tem o seu… Desprendida, a autora narra suas origens em Portugal, os tempos de imigração, a passagem pelo Rio Grande do Sul, a longa estada em São Paulo e as muitas viagens pelo mundo, como jornalista, pesquisadora e professora. Franca, a autora lembra de momentos bons e ruins, dá os nomes certos aos acertos e aos erros, e deixa escapar parte de sua coragem e ímpeto.

Aquelas páginas nos contam da relação de Cremilda com escritores e artistas, do convívio com intelectuais e cientistas, da vida difícil em tempos difíceis, da certeza de que a vida deve ser celebrada. Ao final, somos apresentados às casas da viagem, em fotos vívidas dos imóveis que a autora já habitou, como um filme rápido que desfila pelas nossas retinas.

Autobiografias há aos milhões. Toda vida merece ser contada e registrada. Este livro de memórias de Cremilda Medina não é um acerto de contas, não é um balanço de trajetória, não é uma ostentação de ditos e feitos. Para mim, as “Casas da Viagem” é um volume que cerca uma personagem que está à procura de si mesma. Alguém que sabe saborear bons e maus momentos, e que enxerga na vida uma grande aventura, um risco do qual não se pode fugir.

O futuro dura muito tempo

A Editora da UFSC, o Departamento de Jornalismo e o Laboratório da Tele da UFSC têm um projeto bem bacana chamado “O livro da sua vida”. Nele, em um minutinho, leitores falam de títulos que foram importantes em algum momento de suas existências…

Como hoje é feriado, que tal perder ganhar um tempinho conhecendo a iniciativa?

(Até eu me arrisquei a indicar um livro…)

A memória está nos poros

Aconteceu num dia de Natal, e não foi especial apenas por isso. Mas é claro que em datas como essas a gente fica mais sensível, propenso a tornar tudo mais simbólico, quase milagroso…

Era o finalzinho da tarde, quando não havia mais presentes para abrir e a preguiça nos alcançava de uma forma inescapável. A luz sumindo lá fora, a cortina do quarto fechada, o abajur aceso tingindo as paredes de um amarelo mole. A família ainda se espremia inteira na cama, quando esbarramos num CD caseiro antigo, repleto de canções que a mãe reunira para uma festinha de aniversário do filho. As musiquinhas infantis pertenciam a um passado longínquo do garoto agora com dez anos. Quase uma eternidade para ele…

Apertei o play para que a família embarcasse naquela viagem, e o rapazinho pulou me dando um abraço, o que me fez segurá-lo numa posição de aconchego. Grudado, se aninhou ali, com o queixo colado no meu ombro, as pernas e os braços, sobrando às costas. Começamos a dançar as aberturas dos desenhos animados, as cantigas de roda e as músicas da Turma do Cococoricó… Há quase uma década, quando o rapazinho era só um cisco de gente, eu fazia o mesmo. A mãe – exausta do dia – aproveitava para descansar e eu colocava o bebê para dormir, ao som daquelas canções.

Agora, dançávamos mais uma vez, e os braços sentiam quase trinta quilos a mais. A mãe assistia com um sorriso que unia as duas orelhas… E, de repente, eu notei o ombro encharcar. Em silêncio, o rapazinho me abraçava com força, com uma disposição de nunca mais largar. Disfarcei, mas também deixei escapar algumas lágrimas. Continuamos dançando por outra eternidade. A mãe quis saber o que acontecia, e o rapazinho disse que estava com saudades dos tempos de ninar…

Mas como poderia lembrar se nem gente quase era?

Naquele dia de Natal, percebi que a memória não está na cabeça nem no coração. Ela está em toda a parte, na pele, no corpo, nos poros. Qualquer coisa pode interromper seu sono latente, e fazê-la vibrar feito asas de beija-flor. A música infantil, o calor do colo e o chacoalhar da dança, tudo isso mexeu com a gente, e nos fez voltar um tempo de delicadeza. Foi meu melhor presente no Natal que passou…

Billie fez 100 e nem parece

Eu poderia começar assim: “Se estivesse viva, Billie Holiday teria feito cem anos ontem…” – Mas não!

Billie está viva, sabemos todos. Então, recomeçarei dizendo que, para uma estrela, um século de existência não é nada, é a espessura de uma folha de papel sobre o Empire State Building… Estrelas giram no espaço por bilhões de anos, e Billie só está engatinhando…

Pois é, nega-véia, o tempo passou e você continua a mesma: sofrida, doída, sensual, rascante, romântica, oblíqua-e-dissimulada, única. Dissonante, inspiradora, emocionante. Tenho pena de quem nunca te ouviu. Tenho mais de quem te escutou, mas não te ouviu. Para aqueles que não cansam de te ver cantar, repetimos a cada verso: volta, vai! Como diz a inscrição famosa de cemitério, “nós que aqui estamos, por vós esperamos!”

Uma entrevista com Patrícia Melo

O site literaturapolicial.com publicou hoje uma entrevista que fiz com Patrícia Melo, a maior escritora policial brasileira. Na conversa de pouco mais de meia hora, ela falou sobre o recém-lançado “Fogo Fátuo”, seu décimo livro, sobre o cotidiano da escrita e sobre o panorama atual do noir nacional…

Ficou curioso? Confira aqui!

Cadê meu Atari?

Eu sei, o vídeo não é novo, mas é muito divertido.

Se você gosta de Heath Ledger como Curinga, se você se amarra num Batman nervosinho, tem que assistir a essa redublagem do célebre interrogatório de O Cavaleiro das Trevas. O Palhaço do Crime tem que responder a um importante questionamento do Cruzado Encapuzado…

Da arte de destruir coisas do teatro

A sensação que fica depois de terminar “Teatro”, de David Mamet, é de quase terra arrasada.

Num estilo direto, o autor desfere bordoadas em atores, dramaturgos, diretores, realizadores, farsantes, teóricos, professores, preparadores-de-elenco e outros animais do palco. Sobra pra todo o mundo, e quase não sobra nada.

Na verdade, sobra. Resta o palco, resta um teatro baseado em coisas simples e verdadeiras, resta o público, a quem ele manifesta um colossal respeito.

Para Mamet, o teatro precisa entreter, o dramaturgo deve se preocupar com o enredo (e não com suas ideias, mesmo que elas sejam geniais), os atores precisam mostrar sua verdade no palco, e o diretor não deve atrapalhar.

Com quatro décadas de carreira, Mamet é aclamado por suas peças e roteiros de cinema. Sabe contar uma história, sabe prender a nossa atenção. Em “Teatro”, ele esfrega na nossa cara suas antipatias, manias, maneirismos, dogmas e frescuras.

As solidões de Carlos Henrique Schroeder

schroederConfesso que cheguei meio acabrunhado na livraria. Arrastado por minha esposa, eu ia a um lançamento de dois livros de jovens autores brasileiros que eu desconhecia. Para ser mais exato: já tinha ouvido falar muito deles, cheguei a trombar com alguns de seus títulos, mas eu nunca tinha lido Santiago Nazarian ou Carlos Henrique Schroeder. E eles estavam ali, a duas fileiras de cadeira, falando de suas novidades, e eu só balançando o queixo, no maior estilo sabe-tudo…

Confesso também que fui capturado pela simplicidade e pelo jeito gente-boa de Schroeder, e dias depois, fui “conhecer” o sujeito por meio de seu As Fantasias Eletivas. Nele, uma voz atual e um timbre claro nos conta a história de Renê, sujeito pacato, com passado tumultuado, que trabalha como recepcionista de hotel à noite em plena baixa temporada. Estamos em Balneário Camboriú, que no verão é a Babilônia, e fora dele, o Saara.

Acompanhamos Renê e o hall vazio, o silêncio da madrugada, as ruas desertas, as habitações ermas, a excêntrica fauna noturna, tudo isso e mais ajudam a compor uma atmosfera de absoluta solidão. Mais que solidão, abandono.

Se o romance só nos apresentasse o cotidiano de Renê, teríamos elementos de sobra para permanecer com o nariz colado naquelas páginas. Mas Schroeder – que já foi um Renê na vida – nos apresenta Copi, um travesti divertidíssimo que rouba a cena e que nos tira de nós mesmos. Fadado a mexer com os quadris e a capturar cenas com sua câmera, Copi captura pessoas e coisas que se cercam de solidão. Numa pasta surrada, coleciona os flagrantes da vida e destila pequenos textos que transbordam lirismo e inteligência.

É o que Copi chamou de A Solidão das Coisas, e aí a gente se depara com preciosidades que me fizeram lembrar de Borges nos seus delírios eruditos, em mundos inventados, nas obras e autores que sonhou… Ponteiros de relógio são solitários, marcadores de página são solitários, corredores de hotel são solitários, placas, sombras e notas de rodapé são solitários… Passamos por eles todos os dias, esbarramos em suas superfícies – como as dos rejuntes do piso – e nada. Nem percebemos suas condições singulares e, portanto, sozinhas.

Schroeder, Renê e eu ficamos só olhando o que Copi nos mostra. E é tanto que queremos mais Copi nas páginas que virão. Seria exagero dizer que “agora, sim!, conheço Schroeder”. É pouco ainda. Quero ler mais, e tenho certeza de que não estou sozinho nesse desejo.

Frank Maia é o maior, e vou dizer porque

Screenshot 2014-11-05 10.01.58Imagine a cena: você entra na sala meio acabrunhado, nem senta e eles te dizem na lata. Você está fora! De-mi-ti-do.

Diante isso, a maioria das pessoas junta os cacos e sai de fininho. Uma minoria, em vez de juntar, espalha os cacos, jogando tudo no ventilador. Mas tem uns outros, que vão além… Meu amigo Frank Maia é desse time.

Soube hoje que ele foi desligado de A Notícia, e – chateado – fui buscar razões para a notícia ruim. Justo o Frank, um chargista criativo, com um traço personalíssimo, uma usina de piadas ambulante!

Pensei em ligar pra ele, deixar um abraço. Desisti. Vai que o cara emenda uma piada e acabamos gargalhando dessa história toda. Deixei meia linha de comentário no Facebook. Daí, deslizei a tela e vi outro post, que me deixou muito impactado. Nele, o Frank faz troça da própria condição. Faz uma charge homenageando justamente o cara que vai substituí-lo em A Notícia. Isso mesmo. Frank não é só o melhor chargista de Santa Catarina há anos – na época de Bonson, ele já era, mas não admitia frente ao mestre. Frank Maia não é só o melhor chargista do Estado como é um cara extraordinário, um ser humano capaz de deixar a prancheta reluzente para seu sucessor.

Frank, eu te amo, cara!

a universidade é…

… o local onde alunos e professores se cumprimentam e se tratam com extrema cordialidade;

… o período da vida em que alunos se dedicam ao máximo para vencer limites;

… a oportunidade de professores se esforçarem para lecionar com qualidade, e de contribuírem para o crescimento de outras pessoas;

… o ambiente onde todos respeitam o pensamento alheio, principalmente se ele for bem diferente do seu;

… o lugar onde orientandos demonstram reconhecimento pela parceria com seus orientadores;

… o local onde professores emprestam livros e outros materiais, e esses sempre são devolvidos e sempre com pelo menos um bilhete de agradecimento;

… o ambiente onde orientandos convidam seus orientadores para sua formatura;

… o encontro da inteligência com a sensibilidade, do trabalho com o talento, e onde “educação” é uma palavra sem limites, quase como o ar que respiramos;

Enfim, a universidade é o lugar dos meus sonhos… talvez ela só exista em meus sonhos…

death jazz!

Começa assim: um japonês gorducho, vestido de preto, com chapéu de aba larga e com pinta de gigolô grita por um megafone. Na verdade, anuncia o título da música que está por vir. Um segundo japonês – este careca! -, vestido com uma camisa coloridíssima, dança como uma minhoca ao mesmo tempo em que toca o seu saxofone. Ele puxa a fila, pois um terceiro japonês com óculos berrantes, cabelos encaracolados (!) e um trompete colado nos lábios, berra notas altíssimas. A luz inunda o palco e já são seis japoneses, uma brigada formada ainda por baterista, tecladista e baixista.

O conjunto da obra é bem esquisito: eles dançam freneticamente, se espalham por todos os cantos e o som atravessa as paredes. Uma sonzeira pra falar a verdade. Parece pop, parece R&B, parece qualquer coisa dançante e irresistível, mas é jazz. Death Jazz!, corrige o chefe da banda, aquele que mais parece um gigolô, e que só se ocupa de desfilar, supervisionar a performance alheia, puxar palmas da plateia e dar palavras de ordem pelo megafone.

Esquisito é pouco. Imagine uma banda japonesa de jazz que põe todo o mundo pra dançar! Até o nome é estranho: Soil & “Pimp” Sessions. Chega de palavras. Arraste os móveis na sala e ouça (em volume alto, por favor).

qual é o seu signo, detetive?

A literatura policial é dessas artes que permitem muitas extrapolações. Volta e meia, estudiosos propõem classificações por ciclos históricos, pela nacionalidade dos autores e até por modalidades de crimes. Rótulos são criados (noir, hardboiled…), períodos são determinados (era de ouro, etc…) e um cânone vai se formando. Mas poderíamos ir muito além. Quem sabe elaborar listas de detetives fumantes, de mulheres que investigam, de serial-killers com traumas de infância, de mortes esquisitas e de vítimas excêntricas?
Como a literatura policial é dessas artes que permitem extrapolações, vou propor uma nova classificação, a zodiacal.

(leia a íntegra de Sob o Signo do Crime que publiquei no Almanaque da Literatura Policial)

gente estranha, nomes esquisitos

Esta semana, passei a colaborar para o site Almanaque da Literatura Policial.

No debut, fiz uma lista de nomes estranhíssimos do gênero… Leia um trechinho:

A literatura policial é um universo frequentado por quem não é muito bom da cabeça. Tem os assassinos em série, os obcecados por pistas, os acumuladores de casos insolúveis. Encontramos também os que ficam paranóicos com a pilha de corpos, os que desenvolvem explicações conspiratórias e aqueles que sofrem com a abstinência por não ter nenhum mistério para resolver. O mundo dos crimes é paradoxal: tem gente que não bate bem, mas para sobreviver nele é preciso ter raciocínio lógico, inteligência e outras habilidades mentais. Mas nessas páginas não basta ser um sujeito estranho. Veja como ter um nome esquisito também ajuda…

Ficou curioso? Leia a íntegra aqui.

que ano trágico estamos tendo!

Dois terços de 2014 já se foram e com eles muita gente.

Difícil não pensar diante de tanto pesar.

Entre gente importante e celebridades, a lista é imensa: os escritores Ariano Suassuna, Nadine Gordimer, Rubem Alves, João Ubaldo Ribeiro e Ivan Junqueira;  a atriz Lauren Bacall; os atores Robin Williams, José Wilker, Bob Hoskins, Philip Seymour Hoffmann e James Garner; o político Eduardo Campos; os futebolistas Bellini, Marinho Chagas, Fernandão e Eusébio; o humorista Canarinho; o furacão Rubin Carter; o cineasta Eduardo Coutinho; os narradores Luciano do Valle e Maurício Torres; o cantor Jair Rodrigues; o músico Paco de Lucia; os intelectuais Stuart Hall e Jacques Le Goff… entre tantos outros.

Tristeza não tem fim…

lá vem bellini!

Não, não. Não é o capitão da seleção que avança pela lateral com o coração na boca e a bola na ponta da chuteira…

É o detetive Remo Bellini, criatura de Tony Bellotto numa série de livros policiais com a cara, a fauna e a paisagem paulistana. Distante das prateleiras desde 2005, o personagem prepara o seu retorno, conforme conta Ana Laux na entrevista exclusiva que fez com o escritor. Aqui, no Almanaque da Literatura Policial.

kucinski lança alice

alice de kucinskiBernardo Kucinski não para. Depois de estrear na ficção com “K”, chamar a atenção da crítica e do público, ser traduzido no exterior, mudar de editora, lançar um título de contos (“Você vai voltar pra mim…”), ele apronta mais uma. Chega às livrarias “Alice”, sua primeira novela policial, uma incursão que ele já ensaiava há algum tempo.

Aqui em casa, recebemos um exemplar do autor, o que nos deixou muito felizes. Minha mulher foi uma das leitoras dos originais. Ela se assombrou com a história de crime acontecida em plena USP. Eu me assombro com a capacidade de reinvenção do Bernardo…

feira de arte no campeche

Não sei se todos sabem, mas me arrisco um pouco escrevendo peças para o teatro.
Neste ano, o Círculo Artístico Teodora está montando meu texto mais recente – Shakespiradas – um delírio cômico em homenagem aos 450 anos de William Shakespeare.
Como forma de captação de recursos para o espetáculo, o Círculo está promovendo no Campeche uma Feira de Amostras no próximo sábado, dia 26, com música, exposição de arte e de fotos, exibição de curtas catarinenses, e outras atrações. A feira começa às 15 horas e se estende ao longo do dia.

feira no CAT

o futebol que fez chorar

Jornal da Tarde - 06.07.1986Eu tinha dez anos quando a Itália de Paolo Rossi derrotou a seleção de Zico, Sócrates e Falcão.

Diante daquele inacreditável 3 a 2, engoli o choro e só vi uma maneira de enfrentar aquilo: junto com outros meninos da rua, desci até o campinho da esquina e lá “vingamos” a seleção. Jogamos até murchar, e a derrota em Sarriá nunca mais foi esquecida.

Meu filho tem dez anos e, ontem, ele assistiu ao devastador 7 a 1 para a Alemanha. Vestido de verde amarelo, o pequeno não conseguiu segurar, e o dique cedeu em lágrimas que me molharam os ombros.

O que se diz nessas horas?

Eu só pude contar a minha história, e de como – doze anos depois! – assisti ao Tetra. Ele esboçou um sorriso, enxugou o rosto envergonhado, e respirou fundo. Mas a dor da derrota estava lá no fundindo daqueles olhos…

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para quem gosta de sangue e mistério…

Se você não consegue ir pra cama antes de devorar as últimas páginas do livro e descobrir a identidade do assassino… se você se amarra em séries sobre investigação… se você é íntimo de Sam Spade, Poirot, Maigret, Sherlock Holmes, Kay Scarpeta  e tantos outros… se você tem espírito de detetive e adora literatura policial… não pode deixar de conhecer, navegar e voltar sempre preciso a esses endereços:

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menos dois blogs…

A blogosfera de Florianópolis sofreu dois solavancos fortes hoje (23/05): dois influentes e tradicionais blogueiros baixaram as portas de seus endereços virtuais. Isso mesmo! Num único dia, o Coluna Extra e o De Olho na Capital encerraram suas atividades. O primeiro – do jornalista Alexandre Gonçalves – parou justamente na data de aniversário de dez anos. O segundo – do também jornalista Cesar Valente – segue uma tendência de mortandade bloguística – veja aqui – e de diáspora para o Facebook.

Pena. Farão falta nesse canto cada vez mais empoeirado da web que chamamos de blogosfera…

A morte dos blogs parece ser uma consequência natural, como foi o êxodo do Orkut para o feudo de Zuckerberg. Poucos têm resistido. Não se sabe até quando. Me assusta essa migração total para um único endereço. Desculpem a sinceridade, mas – para mim – isso não soa como a internet plural e diversa com que sempre sonhei.

lá se foi o myltainho

DSC_0151Ele me apareceu de mangas de camisa, chinelos de vovô e uma improvável calça hippie colorida. Era uma manhã de ar frio, mas havia sol. Me viu pelas grades do portão e escancarou um sorriso como se eu fosse um velho amigo. Que coisa! Eu só tinha conversado com Myltainho outras duas vezes. Uma por telefone, para convidá-lo para um evento na universidade, e outra, no próprio evento.

Desta vez, eu estava na frente de sua casa, no Ribeirão da Ilha – ao sul do sul da ilha – para entregar uns exemplares de um livro que eu organizara com Samuel Lima. Era um dos resultados do tal evento de que ele participou, e cuja fala se transformara num saboroso capítulo. O título já mostrava as armas de Myltainho: humor, mordacidade, inteligência e uma incorrigível provocação – “Oncotô? Doncovim? Proncovô?”. Ele explicava na sequência de que se tratava de uma “parlenda mineira sobre o crucial problema filosófico: onde estamos? de onde viemos? para onde vamos?”

Myltainho abriu o portão, recusou receber o pacote naquele momento e me fez segui-lo até o seu escritório. Atravessei a cozinha, passei por uma aconchegante sala de mobiliário simples, desviei de dois cachorros esparramados no chão e cheguei a um cômodo que quase me fez perder o fôlego: não tinha paredes externas, mas grandes janelas de vidro que mostravam a mata soberana avançando sobre a casa. No interior, uma longa bancada sustentava toneladas de livros, revistas, pastas, anotações, o diabo… Um velho computador estava ligado, livros abertos ao lado, discos se equilibravam em pilhas. Myltainho estava trabalhando concentrado e eu estava ali atrapalhando o velho. Aquele era o centro nervoso de seus textos, dos livros que escrevia, dos petardos que disparava. Naqueles metros quadrados, o controle da missão…

Naquela manhã, ele estava sozinho em casa: ele, a natureza, os cachorros, as ideias e os muitos projetos que tocava. Estiquei o pacote de livros para ele, que abriu como se fosse uma criança desembrulhando o brinquedo. Sorriu, inclinando os óculos que milagrosamente não despencavam do nariz, e agradeceu. Eu também agradeci e convidei para o lançamento que faríamos. Ele justificou a ausência: iria viajar para uma formatura ou homenagem, nem me lembro mais… Conversamos por quase uma hora e foi tudo. Não o encontrei mais, apesar de morarmos na mesma cidade e região. Soube há pouco por minha mulher da sua morte. Senti. Como se o conhecesse há mais tempo e ele fizesse parte de meu círculo de amigos. Vai entender: eu falara só três vezes com ele. E Myltainho me recebera tão bem!

Jornalista inquieto, trabalhador incansável, provocador incorrigível, não parava. Aos 74 anos, decidiu fazer uma reportagem investigativa em lugares insondáveis. Foi atrás daquelas três perguntas essenciais…

nem tudo tem um link

desplugadoEm tempos de conectividade total, uma história me divertiu semana passada. Quem contou foi o jornalista Ariel Palacios, correspondente de O Estado de S.Paulo e da GloboNews na Argentina. Ele estava em um local público e “pescou” uma rápida discussão entre pai e filho, que discordavam sobre algo. O pequeno teimava, argumentando que sabia do que estava dizendo, afinal tinha visto aquilo na internet. O pai não hesitou e mandou uma frase certeira:

Filho, nem tudo na vida tem um link!