Paulino Júnior, confesso operário da palavra

Mercadoria

Ilustração de Ubirajara Gonçalves Filho

Às vezes, encaramos certas tarefas como dívidas morais, que contraímos por aí. E eu tenho muitas, é verdade.

Uma delas é com Paulino Júnior, desde que me presenteou com o seu Todo Maldito Santo Dia há alguns meses. As muitas demandas profissionais e uma pilha interminável de livros foram afastando a coletânea de contos, e isso me agoniava demais, toda vez que o encontrava. Claro que Paulino nunca cobrava: Leu? O que achou? Mas claro que eu respondia mudo (pra mim mesmo): Tem que terminar e dar um retorno pro cara…

Outro dia, durante o lançamento de livro de outro amigo, deixei escapar algumas impressões, daquilo que eu tinha percorrido. Era pouco, e o autor agradeceu os comentários. Elegante.

Ocorre que hoje encontrei o ponto final de Todo Maldito Santo Dia, e me sinto mais preparado para recomendar a leitura. Ler  os amigos é um tanto delicado. Elogio em demasia compromete a credibilidade. Franqueza em demasia costuma trincar a amizade. Mas Paulino é amigo novo e o livro é muito bom. Respiro duas vezes.

Repito o que disse a ele recentemente. Paulino Júnior ronda um tema premente para nossos dias: o mundo do trabalho. Não sei dizer se se trata de uma escrita programática ou de uma fase, mas pouco importa. Paulino se dedica à galáxia do trabalho, o que torna a sua voz muito distinta na produção literária catarinense atual. É concreto e é áspero, constrói cenas desconcertantes que mobilizam nossas memórias envergonhadas. O homem que fede ao trabalho, a mulher que é mais mecânica que a esteira do seu balcão, o sujeito que vai da prateleira à vitrine… Sim, já assistimos àquilo e nada fizemos. Daí que Paulino mobiliza personagens que estavam lá, atolados na lama do cotidiano. São os nossos íntimos invisíveis. Por isso, o próprio autor avisa que Todo Maldito Santo Dia “não deve ser lido depois de um dia de labuta”.

Precariedades, insalubridades e desnecessidades funcionais desfilam por suas páginas. O homem e a mulher são quase sempre associados às suas condições de trabalhadores, de peças de engrenagens complexas e torturantes. Os contos de Paulino nos lembram que a maioria de nós passa mais tempo no local de trabalho do que em casa ou em qualquer outro lugar. Nos fazem recordar de nossa subalternidade eterna, da maquinização que sofremos, do embrutecimento afetivo que verte das muitas repetições laborais. Se somos sujeitos, somos por conta do trabalho, e neste sentido: sujeitos assujeitados, encalacrados em nossas rotinas e agendas.

Não são histórias felizes, é verdade. Mas não se trata de pessimismo. É a espessura crua da realidade que caleja as mãos, que desgasta a vista, que provoca tendinites em nossas relações sociais. Lesões por absoluto esforço repetitivo! Isto é: os contos de Paulino Júnior não nos põem pra dormir. Nos põem a pensar. É o dia-a-dia de quem “vive colocando a vida em sacolas”, de quem carrega os odores do seu santo trabalho, de quem elabora uma “equação do merecimento” para amortecer a consciência e as dores nas juntas.

Como disse antes, Paulino Júnior tem voz própria. Alheio aos modismos literários, abraça a causa do mundo do trabalho pra falar da condição humana. Bem fora de moda. Algum leitor aí deve ter balbuciado alguma coisa com Karl Marx. Quem se importa? Não foi o velho Marx quem inventou a luta de classes, ele apenas a atirou em nossas caras. Nem sei se Paulino é marxista ou masoquista. Sei que ele mastiga as palavras e as sopra com rudeza, como quem martela o cravo na ferradura. Se fossem os anos 60 e 70, Paulino Júnior teria lugar garantido em qualquer grande antologia, e bateria ponto com Plínio Marcos e João Antonio, por exemplo.

Nos dias de hoje, há quem escamoteie os sentidos, fazendo do eufemismo a sua ferramenta principal. Empregados não são mais funcionários, mas “colaboradores”. O cidadão não é mais despedido, é “desligado”. Ele não encontra emprego, mas “se recoloca no mercado”. Paulino Júnior não faz gênero. Castiga as teclas do computador na mesma tradição de quem usa picareta e britadeira, caneta e enxada, músculos e suor.

Depois de Todo Maldito Santo Dia, não me sinto aliviado da dívida que mencionei no primeiro parágrafo. Meus comentários aqui e as palavras que dirijo ao autor não cobrem o que ele me ofereceu. Ainda estou no vermelho.

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