A escrita e a potência de ser outro

22165971É uma ideia recorrente aquela que vê no ator um afortunado por sua capacidade de viver mais vidas que a própria. É comum também esquecermos que outros podem ir além dos contornos de suas existências. De um modo geral, a arte permite isso; de uma forma específica, a literatura também. Não consegui desgrudar dessa sensação após ler “Cavala”, de Sérgio Tavares.

Despretensioso, o livro venceu o Prêmio Sesc de Literatura em 2009 na categoria contos e nos oferece alguns motivos para reafirmar essa potência do ato de escrever. Consciente disso ou não, Sérgio não perdeu a chance e se desdobrou numa modelo bulímica com TOC, numa descuidada ninfomaníaca, num frágil limpador de banheiros e num adolescente que acredita trazer seu cão no bolso de trás. Gente tão distante do pai de família que se divide entre o trabalho, a vida doméstica e a lida literária nas madrugadas insones. Gente esquisitamente diferente de nós, e tão próxima nas suas ansiedades… Como Sérgio pode saber tanto da vida dessas pessoas? Alguém pode responder: Ora, foi ele quem as criou. Mas não basta porque reconhecemos ali personagens de NOSSAS vidas! Mesmo que você evite concordar, mesmo que deseje não se perceber ali…

O fato é que Sérgio afunda tanto nos labirintos mentais, nas fragilidades daqueles corpos que promove um apagamento de si absolutamente necessário para o efeito que quer causar: nos fazer acreditar nas personagens, nos dramas e nas ilusões que as sustentam.

Somos tão convencidos daquilo que vasculhamos o bolso da calça, contamos os passos do cômodo que ocupamos, passamos a mão pela virilha (para acalmar ou despertar algo)… Sérgio engana, transforma, metamorfoseia. Modula sua voz conforme a conveniência, traveste-se, monta-se. Sem medo aparente. Mas não é assim que tem que ser a literatura: convincente, verdadeira, bem feita? Sim, esperamos algo desse jeito. Mas você há de convir comigo que não é toda hora que esbarramos com uma literatura que nos tira do centro e do sério. “Cavala” faz isso. Dá um coice no leitor, desestabiliza, causa vertigem.

Temos ali 92 páginas de energia bruta, vazada por pensamentos fugidios e desejos pulsantes (ora contidos, ora não). Os protagonistas são solitários e quebradiços, errantes em suas miseráveis rotinas. São como nós, tentam sobreviver, lutam contra si mesmos e contra as adversidades. São humanos demasiadamente humanos e, talvez por isso, sequestram nossa simpatia até mesmo quando cometem ações reprováveis… Te desafio: tente condená-los após fechar o livro!

A potência literária de Sérgio está nesse descortinar de personas que o homem Sérgio pode ser só diante do teclado. Mas sua força vai além. Lá de Niterói – seja pela ponte ou pelas barcas -, Sérgio Tavares emite uma voz própria que ecoa na produção literária brasileira contemporânea. Não é barítono nem tenor. Mas tem timbre único, registro próprio. Não é pouco, pois isso não é para muitos.

Lá se foi o Chris Scheiner…

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Criador e criatura: Chris e Sandra Meyer na pré-produção de E.V.A.

Existia um cara que mais parecia uma criança.

Existia um cara que embora parecesse criança escrevia as coisas mais adultas que se podia ouvir.

Existia um cara que embora parecesse criança escrevia as coisas mais adultas que se podia ouvir e que era doce como nenhum de nós.

O mesmo cara doce era corrosivo e surpreendente. Desde muito jovem, escrevia como poucos, e encantava na mesma medida que nos fazia pensar e tremer. Esse cara era o Christiano Scheiner.

Convivi com ele poucos anos, no começo da década passada, na Persona Cia de Teatro. Chris assinou o excelente E.V.A., espetáculo com Sandra Meyer Nunes e Igor Lima, com direção de Jefferson Bittencourt. Chris, ele não sabe, me assombrava. Era brilhante e verdadeiro. Infantil e senil.

Uma vez, repetimos entre nós a piada de que “autor bom é autor morto!”, e que diretores sempre preferem esses. Gargalhamos e Chris me olhou com aquele sorriso demoníaco, tremendo as sobrancelhas. Era um convite ou mais uma espetada dele?

Há anos não o via e hoje soube que correu para trás das cortinas. Eu não esperava ser atingido assim novamente pelo Chris. Mas ele sempre foi o mais ousado dessa fauna escassa que chamamos de dramaturgos catarinenses. Touché!

Paulino Júnior, confesso operário da palavra

Mercadoria
Ilustração de Ubirajara Gonçalves Filho

Às vezes, encaramos certas tarefas como dívidas morais, que contraímos por aí. E eu tenho muitas, é verdade.

Uma delas é com Paulino Júnior, desde que me presenteou com o seu Todo Maldito Santo Dia há alguns meses. As muitas demandas profissionais e uma pilha interminável de livros foram afastando a coletânea de contos, e isso me agoniava demais, toda vez que o encontrava. Claro que Paulino nunca cobrava: Leu? O que achou? Mas claro que eu respondia mudo (pra mim mesmo): Tem que terminar e dar um retorno pro cara…

Outro dia, durante o lançamento de livro de outro amigo, deixei escapar algumas impressões, daquilo que eu tinha percorrido. Era pouco, e o autor agradeceu os comentários. Elegante.

Ocorre que hoje encontrei o ponto final de Todo Maldito Santo Dia, e me sinto mais preparado para recomendar a leitura. Ler  os amigos é um tanto delicado. Elogio em demasia compromete a credibilidade. Franqueza em demasia costuma trincar a amizade. Mas Paulino é amigo novo e o livro é muito bom. Respiro duas vezes.

Repito o que disse a ele recentemente. Paulino Júnior ronda um tema premente para nossos dias: o mundo do trabalho. Não sei dizer se se trata de uma escrita programática ou de uma fase, mas pouco importa. Paulino se dedica à galáxia do trabalho, o que torna a sua voz muito distinta na produção literária catarinense atual. É concreto e é áspero, constrói cenas desconcertantes que mobilizam nossas memórias envergonhadas. O homem que fede ao trabalho, a mulher que é mais mecânica que a esteira do seu balcão, o sujeito que vai da prateleira à vitrine… Sim, já assistimos àquilo e nada fizemos. Daí que Paulino mobiliza personagens que estavam lá, atolados na lama do cotidiano. São os nossos íntimos invisíveis. Por isso, o próprio autor avisa que Todo Maldito Santo Dia “não deve ser lido depois de um dia de labuta”.

Precariedades, insalubridades e desnecessidades funcionais desfilam por suas páginas. O homem e a mulher são quase sempre associados às suas condições de trabalhadores, de peças de engrenagens complexas e torturantes. Os contos de Paulino nos lembram que a maioria de nós passa mais tempo no local de trabalho do que em casa ou em qualquer outro lugar. Nos fazem recordar de nossa subalternidade eterna, da maquinização que sofremos, do embrutecimento afetivo que verte das muitas repetições laborais. Se somos sujeitos, somos por conta do trabalho, e neste sentido: sujeitos assujeitados, encalacrados em nossas rotinas e agendas.

Não são histórias felizes, é verdade. Mas não se trata de pessimismo. É a espessura crua da realidade que caleja as mãos, que desgasta a vista, que provoca tendinites em nossas relações sociais. Lesões por absoluto esforço repetitivo! Isto é: os contos de Paulino Júnior não nos põem pra dormir. Nos põem a pensar. É o dia-a-dia de quem “vive colocando a vida em sacolas”, de quem carrega os odores do seu santo trabalho, de quem elabora uma “equação do merecimento” para amortecer a consciência e as dores nas juntas.

Como disse antes, Paulino Júnior tem voz própria. Alheio aos modismos literários, abraça a causa do mundo do trabalho pra falar da condição humana. Bem fora de moda. Algum leitor aí deve ter balbuciado alguma coisa com Karl Marx. Quem se importa? Não foi o velho Marx quem inventou a luta de classes, ele apenas a atirou em nossas caras. Nem sei se Paulino é marxista ou masoquista. Sei que ele mastiga as palavras e as sopra com rudeza, como quem martela o cravo na ferradura. Se fossem os anos 60 e 70, Paulino Júnior teria lugar garantido em qualquer grande antologia, e bateria ponto com Plínio Marcos e João Antonio, por exemplo.

Nos dias de hoje, há quem escamoteie os sentidos, fazendo do eufemismo a sua ferramenta principal. Empregados não são mais funcionários, mas “colaboradores”. O cidadão não é mais despedido, é “desligado”. Ele não encontra emprego, mas “se recoloca no mercado”. Paulino Júnior não faz gênero. Castiga as teclas do computador na mesma tradição de quem usa picareta e britadeira, caneta e enxada, músculos e suor.

Depois de Todo Maldito Santo Dia, não me sinto aliviado da dívida que mencionei no primeiro parágrafo. Meus comentários aqui e as palavras que dirijo ao autor não cobrem o que ele me ofereceu. Ainda estou no vermelho.

Mankell na 1ª página

Quando José Saramago morreu em junho de 2010, os principais jornais do mundo lhe renderam homenagens em suas capas. Hoje, na Suécia, acontece o mesmo com Henning Mankell. A história se repete quando morre um grande.

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Expressen: “A última vontade de Mankell: não mais livros com Wallander”
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Dagens Nyheter: “Ele se tornou um ícone tanto na Suécia quanto em outras partes”
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Kvälls Posten: “O último desejo de Mankell para Wallander”
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Aftonbladet: “O mestre colocou o ponto final”.

A chuva contada por Schroeder

544931_historia-da-chuva-702678_Z1Eu esperava outra coisa de “História da Chuva”.

Quando Carlos Henrique Schroeder deixou escapar o título do livro que preparava, me deslumbrei com o achado. Por que não pensei nisso antes? Algo tão ancestral, quase mítico. Tipo “A história do fogo”, como no filme. Um rótulo amplo, capaz de reunir todos os fluxos do tempo e ainda conservar lirismo. Era maio e estávamos em pleno Festival Nacional do Conto. O autor confidenciou ainda que se tratava de um romance sobre a enchente de 2008 no Vale do Itajaí, e vibrei secretamente com aquilo. Também sobrevivi a ela e foi uma das minhas experiências mais aterradoras. Alguém precisava contar aquilo. Aquele mar de tristezas e horror não poderia escorrer pelos ralos da memória…

Então, eu esperava outra coisa de “História da Chuva”, e por isso, saí no meio da tempestade com uma sede infinita, engolindo sofregamente as páginas. Fui tragado por outros redemoinhos, como aqueles que a gente vê num rio caudaloso e que dá dentadas nos barrancos e nas pontes, como já escreveu Schroeder. Os redemoinhos sinalizam os sumidouros, onde pessoas, animais e coisas são tragadas, desaparecendo na água turva.

Fui arrastado então para outros lugares. A partir de um corpo que boia na água marrom, mergulhamos na busca de um narrador por sua própria história e natureza. O cadáver é de um artista de teatro de animação e o narrador estranhamente se chama Carlos Henrique Schroeder, mora em Jaraguá do Sul, é escritor e modesto editor. Tal qual o homem que assina o livro e que iluminou a noite com um título como aquele. O narrador tenta reconstituir o passado do morto, enquanto tenta manter longe a ex-namorada perigosamente ciumenta às vésperas de seu casamento. Como é de se esperar, sua jornada é também a busca de si mesmo, a tentativa de preencher as lacunas que justificariam sua existência.

Menos poético que “As fantasias eletivas”, este “História da Chuva” é um romance muito mais complexo e ambicioso. Schroeder, o autor, espalha mais personagens na mesa e constroi sua trama a partir de várias camadas, alternadas com muita destreza. Me fez lembrar daqueles artistas de circo que equilibram pratos giratórios nas mãos, pés, nariz e queixo. O malabarismo não está apenas em manter os pratos em movimento, mas em mover as varas que os sustentam numa dancinha caótica. Schroeder faz autoficção e ensaísmo sobre o teatro de animação, e reflete sobre o que é sobreviver em meio às agruras de ser artista periférico. Não satisfeito, oferece mais: prende a respiração e afunda no turbilhão da alma de quem se dedica a escrever e a criar. Como foi tudo rápido e sem aviso, há pouco oxigênio para aquilo e o leitor pode acabar como o corpo que boia: com os pulmões cheios de água.

Eu esperava outra coisa de “História da Chuva”. Talvez a redenção a partir da enchente, talvez um punhado de explicações para o mistério que faz da água tanto trazer quanto tirar vidas. Talvez, talvez, talvez. Faz poucos minutos que fechei o livro, depois de reler seis ou sete vezes o final. O impacto permanece. Não pelas surpresas que me trouxe, mas pelo inevitável desconforto de quem passa o dia com as meias e os pés encharcados.

gente estranha, nomes esquisitos

Esta semana, passei a colaborar para o site Almanaque da Literatura Policial.

No debut, fiz uma lista de nomes estranhíssimos do gênero… Leia um trechinho:

A literatura policial é um universo frequentado por quem não é muito bom da cabeça. Tem os assassinos em série, os obcecados por pistas, os acumuladores de casos insolúveis. Encontramos também os que ficam paranóicos com a pilha de corpos, os que desenvolvem explicações conspiratórias e aqueles que sofrem com a abstinência por não ter nenhum mistério para resolver. O mundo dos crimes é paradoxal: tem gente que não bate bem, mas para sobreviver nele é preciso ter raciocínio lógico, inteligência e outras habilidades mentais. Mas nessas páginas não basta ser um sujeito estranho. Veja como ter um nome esquisito também ajuda…

Ficou curioso? Leia a íntegra aqui.