Qual o limite para jornalistas correrem riscos?

Na Espanha, a fiscalização do trabalho impôs uma multa de 50 mil euros a uma rede de televisão pública por expor seus repórteres a riscos durante a cobertura do gravíssimo desastre socioambiental que matou mais de 200 pessoas em Valência, em outubro de 2024.

A denúncia de abuso partiu dos próprios trabalhadores através de seus sindicatos e a cadeia À Punt foi penalizada, conforme conta El Diario.es.

Para cobrir as fortes chuvas e enchentes, repórteres cinematográficos saíram às ruas sem os necessários equipamentos de segurança, e repórteres ficaram expostos a riscos inéditos até então. Outros episódios escancararam a precariedade das condições de trabalho dos jornalistas locais.

De maneira cínica, a emissora de TV argumenta que ninguém pediu para os profissionais se arriscassem, mas o debate lembra que ninguém também impediu ou zelou pela segurança dos empregados. Falaram mais alto as imagens de impacto, o alarma social, a exploração exaustiva de uma tragédia coletiva. O caso ressuscita velhas perguntas que rondam as redações: que notícia vale uma vida? Até onde se pode arriscar para conseguir imagens e informações exclusivas? Quem é responsável pela segurança dos jornalistas?

Comunicação e democracia: no Brasil e na Alemanha

Acaba de ser lançado pelo selo Cultura Acadêmica, da Editora da Unesp, o livro “Communication and Democracy in Brazil and Germany”, que reúne capítulos de pesquisadores dos dois países abordando temas do momento como responsabilização da mídia, sistema público de comunicação, direito à informação, acesso à internet, proteção de dados, transparência pública, educação midiática, liberdade de expressão, desinformação, sustentabilidade, credibilidade jornalística e gamificação informativa.

A obra é resultado de um projeto de pesquisa financiado pela Capes e DAAD com cientistas da UFSC, UnB, Unesp e TU Dortmund University, que – durante quatro anos – permitiu estudos comparativos e a mobilidade acadêmica desses profissionais. Editada em inglês e organizada por Danilo Rothberg, Fernando Oliveira Paulino, Rogério Christofoletti e Susanne Fengler, o livro tem 306 páginas e pode ser baixado gratuitamente neste link.

10 coisas que aprendi numa viagem a Angola

Passei uma semana em Luanda e região, e como informação nunca é demais quando se vai para um destino desconhecido, lá vão alguns conselhos que ninguém pediu, mas que podem ser úteis…

  1. Abandone a ideia de encontrar algum guia de viagem: varri livrarias, bibliotecas públicas e lojas online e não encontrei um título sequer sobre Angola. Fiquei meses procurando e nada. Um absurdo já que existem editoras internacionais especializadas nesse tipo de livro e que Angola é um importante país no sul da África. É sempre muito bom levar um guia numa viagem porque facilita a vida, mas desta vez, fiquei sem. Esse vácuo pode desencorajar o viajante, mas insisto: vá a Angola! Conheça o país e faça também o seu manual de sobrevivência a partir disso…
  2. Não se assuste com as filas da imigração: elas são longas e você vai conhecê-las logo que sair do avião, pois o serviço de imigração está ao lado da pista do aeroporto. Mas calma. Os agentes costumam ser rápidos, e se você tem passaporte brasileiro, nem precisa de visto.
  3. Não esqueça da vacina e dos remedinhos anti-malária: brasileiro não precisa de visto para entrar em Angola, mas tem que apresentar comprovação de que tomou vacina de febre amarela, e é muito recomendável que – antes de viajar – comece a tomar remédio para evitar malária. Ninguém quer ficar doente fora do país, certo? Então, também não facilite. Procure o serviço médico ou posto de saúde para cuidar dessas providências antes de fazer as malas.
  4. Resolva câmbio e internet já na chegada: há várias operadoras de telecomunicações no país e a oferta de internet tem sinal estável e funcional. Você pode comprar um chip no aeroporto e pode fazer recarga de créditos, conforme o uso e o período em que ficará por lá. Aproveite e faça troca de moeda, pois é importante ter dinheiro em espécie pois nem sempre se aceita cartão de crédito. Quando estive em Luanda – em meados de maio de 2025 -, 1 dólar equivalia a mil kwanzas. Prepare-se para carregar maços de dinheiro, a depender do seu padrão de gastos.
  5. Esqueça o busão: na região metropolitana da capital angolana, não se pode dizer que haja um sistema convencional de ônibus, como se encontra em outras cidades pelo mundo. Também não tem metrô. Então, você tem algumas opções: a) aventurar-se nas milhares e nem sempre seguras vans brancas e azuis (os candongueiros); b) apelar para o transporte local por aplicativo (que nem sempre aceita sua corrida); c) contratar um taxista para te atender por alguns dias. Optei por este último e foi ótimo: o motorista conhece todos os caminhos e atalhos, dirige com segurança no trânsito peculiar, te dá dicas locais e pode ser uma boa companhia para quem viaja sozinho.
  6. Abuse do filtro solar: Pedro Bial nunca esteve tão certo. Use filtro solar sem economia, mesmo nos dias nublados, e opte por fator 50 ou mais alto. Se encontrar opções com repelente de insetos, melhor ainda.
  7. Preste atenção no trânsito: esta dica vale para todos os lugares do planeta, mas Luanda tem suas particularidades. Quando estive por lá, não vi semáforos funcionando, e nem guardas orientando o fluxo. É bom guardar fôlego para atravessar as ruas e olhar muitas vezes antes disso. Filas duplas e triplas são comuns nas avenidas mais largas, e a sensação de que se está num caos é permanente. Se você for dirigir, deus te ajude. Se não for, aproveite para observar dois fatores muito interessantes: a cidade é a mais democrática do mundo quando o assunto é preferencial. Todas as pessoas e veículos parecem ter direito a preferencial e eles fazem uso desse direito. É um milagre que o tráfego funcione. Mas ele funciona. Segunda coisa interessante: em uma semana de observação, não vi nenhum acidente de trânsito e nenhuma briga. Os angolanos usam pouco a buzina – se comparados aos brasileiros – e nunca parecem se estressar com a demora, com os fura-filas e com gente que esquece de dar a seta. É uma experiência antropológica de civilidade em meio a um aparente inferno…
  8. Esteja preparado para o número 2: Por mais que a gente evite comer coisas suspeitas de fornecedores desconhecidos, é possível que seu organismo estranhe algum alimento ou bebida. O calor é implacável e ele atua sobre nós… Cuidar de higiene e limpeza é necessário até mesmo nos mais sofisticados destinos turísticos. Mas não se admire se o chamado da natureza se impuser e ameaçar a tranquilidade da sua viagem. Carregue consigo água mineral e álcool em gel, e sempre leve um pouco de papel higiênico ou toalhinhas umedecidas. Não encontrei banheiros públicos em Luanda, mas mesmo banheiros em restaurantes e bares podem não estar preparados para te receber, se é que você me entende…
  9. Guarde dinheiro para os achaques no aeroporto: não é incomum que pessoas te abordem oferecendo para carregar malas, facilitar entradas em locais ou atendimentos personalizados. Essas pessoas geralmente parecem funcionárias do aeroporto ou de serviços turísticos. Às vezes, até são, e vão te pedir para “deixar um cafezinho” ou “um agrado”, depois de tanta cortesia. Vi, pelo menos, quatro abordagens do tipo em poucas horas antes de retornar.  Esteja preparado para deixar alguns kwanzas pelo caminho.
  10. Prepare-se para um banho de simpatia: de maneira geral, os angolanos são simpáticos e bem humorados, afáveis e corteses, prestativos e muito respeitosos. São também acolhedores. Brasileiros costumam se sentir em casa no país por se identificarem com personalidades tão humanas e cordiais. Conversar com os locais e escutá-los com genuína curiosidade são as melhores experiências que se pode trazer de uma viagem por lá. Há muito o que aprender com eles…

Um congresso sobre ética e IA

Começa hoje em Sevilla e na internet o IA Ethics, primeira edição do congresso internacional sobre ética e regulação da inteligência artificial. O evento vai até sexta, 30, e reúne pesquisadores de diversas partes do mundo preocupados com regramento de sistemas, legislação, códigos de boas práticas, desenvolvimento tecnológico humanizado e toda a galáxia que ronda esse advento tão disruptivo.

Participo do evento apresentando a comunicação “IA e responsabilidade jornalística: apontamentos para a regulação no Brasil”.

Informações gerais sobre o evento podem ser encontradas aqui.

Este blog faz 20 anos hoje

Vinte anos é muito ou pouco?

A resposta a esta pergunta não importa muito quando se trata da idade de um blog. Isso mesmo. Este espaço aqui completa vinte anos hoje e foi uma vida e um piscar de olhos. No dia em que surgiu, blogs eram a grande novidade na internet a tal ponto de alimentar a ideia de que blogueiros substituiriam jornalistas. Isso não aconteceu por completo, e os blogs foram paulatinamente dando lugar às redes sociais, que se mostraram mais aconchegantes, interessantes e viciantes.

Hoje em dia é fora de moda manter um blog, mas eu não ligo. De diversas maneiras, isso me manteve por aqui. Às vezes, o post era um desabafo, noutras uma forma de guardar impressões, e em outras ainda uma forma de registrar coisas que eu fazia ou faria. O fato é que o blog está aí, menos ativo que antes – é verdade! -, mas não totalmente abandonado.

Sem querer, este blog acabou se tornando um misto de site profissional e diário pessoal, funcionando como a página em branco de um pouco do que vivi. Eu posso dizer sem exagerar que os últimos vinte anos foram os mais felizes da minha vida: formei uma família, me realizei profissionalmente, ganhei o mundo, conheci muita gente boa e passei por momentos que são inesquecíveis também porque deixei escrito em alguma parte por aqui.

Se isso servir para mais alguém além de mim, já será algo…

O que os jornalistas brasileiros pensam sobre credibilidade?

A Brazilian Journalism Research (BJR), revista da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJOR), acaba de publicar o artigo “Credibilidade no cotidiano profissional: percepções de jornalistas brasileiros”, que assino com Denise Becker. O texto está disponível em português e inglês e é um dos resultados do projeto “Índice de Credibilidade Jornalística: formulação de indicadores de fortalecimento do jornalismo para o combate aos ecossistemas de desinformação (ICJOR)”. O artigo deu um trabalhão pois colhemos 446 respostas de jornalistas das cinco regiões brasileiras tentando mapear o que eles pensam e sentem sobre credibilidade e confiança na mídia.

O jornalismo espanhol e o apagão

fazia imaginar que alguma coisa terrível estava acontecendo na Europa: ciberataque dos russos para sinalizar para as fragilidades da UE, atos terroristas pulverizados pelo continente e o início da Terceira Guerra Mundial… felizmente, nada disso.

Mas eu fiquei particularmente curioso para ver como o jornalismo espanhol lidaria com um evento tão impactante como esse. Resumo o que percebi em quatro tópicos rápidos:

  • Como na pandemia e em outras crises, o radinho de pilha “salvou” muita gente. Soube que em Portugal, o item esgotou rapidinho nas lojas de Lisboa, Porto, Coimbra e até Aveiro. Na Espanha, 62% da população recorreram ao aparelho para se manter informada, revelou pesquisa do Centro de Investigaciones Sociales (CIS) ontem. As rádios públicas foram muito elogiadas;
  • Assim que a energia foi religada, as emissoras de TV montaram programas com comentaristas discutindo o assunto até ninguém mais aguentar. Isso não é bem uma novidade por aqui porque os espanhóis adoram uma tertúlia, e fazem esses programas de debates sobre tudo (da alta do preço do azeite ao fim do contrato do governo para comprar balas de Israel). Depois de dias, as mesas redondas esbarraram na grande interrogação do evento: o que aconteceu, afinal? Os especialistas estavam exaustos e os jornalistas não sabiam mais como fazer as mesmas perguntas.
  • Passada uma semana ainda não foram divulgadas as razões do apagão. O governo cobra a resposta das empresas energéticas, o parlamento cobra do governo, a imprensa e os cidadãos cobram de todo o mundo e ainda nada. A pauta não vai esfriar tão rápido…
  • Fazer a edição do dia seguinte ao apagão foi um desafio inédito para muitos jornais. Soledad Alcaide, a ombudsman de El País, contou em sua coluna os malabarismos que a equipe fez para dar conta do problema: repórteres se deslocaram a pé – pois o trânsito nas maiores cidades estava caótico sem os semáforos; todos priorizaram o uso dos telefones fixos, que ainda estavam em operação; colunistas entregaram seus textos diretamente na sede do jornal; para manter a atividade no prédio foram acionados geradores de energia movidos a gasolina; para economizar a pouca energia dos geradores, foram desligadas lâmpadas e aparelhos de ar condicionado; as impressoras só rodaram porque ainda tinha combustível nos geradores; e diferente da pandemia – quando foi priorizado o home office -, a equipe optou pelo trabalho presencial, o que mostra como redações ainda são importantes e funcionam como bunkers de resistência do jornalismo. A ombudsman avaliou que o jornal reagiu bem à crise porque acionou o seu Plano Meteorito, um protocolo interno para continuar a produção, mesmo em condições muito adversas. O plano tem esse nome porque o nível mais grave de cenários é justamente a queda de um objeto espacial na sede em Madri e sua total destruição. Achei bacana. Mas me diga aí: você conhece quantos meios de comunicação que têm um planejamento desse tipo?

Guardar para publicar depois: questões éticas

Jornalistas não publicam tudo o que sabem. Pode parecer chocante, mas é verdade, e nem sempre isso é um problema.

Como tem acesso a muitas informações, o repórter precisa escolher, filtrar, selecionar o que precisa ser comunicado, deixando coisas de fora. Como tem acesso a muitas fontes de informação e nem todas querem ser identificadas, o repórter precisa adicionar algumas camadas de camuflagem para manter o anonimato dessas pessoas, inclusive por questões de segurança. Deixar de publicar também é um ato jornalístico, pois faz parte da profissão.

Mas e quando o jornalista guarda uma informação para publicar quando é da sua conveniência? Uma repórter que cobre os bastidores da política pode separar casos, versões, revelações para escrever um livro depois, reservando para si furos de reportagem?

As respostas não são fáceis, e Sophia Scolman trata disso nesse artigo para o Center for Journalism Ethics da Universidade de Wisconsin-Madison. Vale a leitura e não custa pensar sobre.

Quando descobrem seu diário pessoal

Sem mais nem menos, meu filho descobriu este blog. E também sem qualquer motivo decidiu mergulhar nas postagens dos últimos vinte anos. Sim, esse espaço vai completar vinte anos em maio, e isso é uma vida. Quase a vida toda do meu filho que está fuçando por aqui em busca de coisas novas e velhas.

Deve ser muito intrigante para pessoas da geração dele saber que alguém mantém um museu pessoal por tanto tempo. Pra falar a verdade, eu nunca pensei também que isso fosse tão longe. Quando ele foi criado, ter um blog era a grande novidade da internet. Aliás, naquela época se perguntava se blogueiro era jornalista e quais eram seus limites e dilemas éticos.

Houve até uma era de ouro dos blogs, e ela se tornou tão distante quanto a mesozoica. As redes sociais ajudaram a sepultar muitos blogs e alguns ainda podem ser encontrados por aí como túmulos esquecidos com flores apodrecidas. Tento manter isso para armazenar registros, guardar memórias e ser gozado pelo meu filho quando ele encontra algo que envelheceu rápido, um erro de avaliação ou uma besteira qualquer. Ainda estou aqui. Não sei até quando. Mas quem é que sabe?

9ª MediaEthics Conference prorrogada

Atendendo a pedidos, os organizadores da Media Ethics Conference decidiram estender um pouco mais o prazo para recebimento de trabalhos. A nova data final é 15 de maio!

O evento acontece de forma híbrida: no dia 25 de junho de forma remota, e em 26 e 27 de junho, presencialmente, em Valência, na Espanha. Tudo o que você precisa saber do encontro está aqui: https://mediaethicsconference.com/

Indicadores de credibilidade jornalística: uma live

Na próxima quarta-feira, 26, às 19 horas (horário de Brasília), participo do primeiro Café Intercom do ano. Junto com os professores Danilo Rothberg, Josenildo Guerra, Rafiza Varão e Ana Prado, vamos abordar indicadores de credibilidade jornalística que formulamos nos últimos três anos na pesquisa do Projeto ICJOR.

A live é gratuita e pode gerar certificado de participação a quem acompanhar.

Será por aqui: https://www.youtube.com/live/HFOlVG2MsDI

Covid-19, 5 anos depois

No final da tarde, fechei a porta da sala com a esperança de que voltaria ao trabalho na semana seguinte. Tanto é que deixei um vaso de flores que havia ganhado de presente. Eu nunca mais resgataria o vaso porque as plantas morreram em poucas semanas e eu só voltaria à sala muitos meses depois.

Hoje faz exatamente cinco anos que isso aconteceu, e a pandemia atravessou as nossas vidas de uma maneira única. Como muita gente, perdi pessoas queridas, adoeci, vivi confinado e me emocionei quando tomei a primeira dose de vacina. Como pouca gente, mantive o emprego, nunca deixei de receber salário, pude conviver com minha mulher e filho numa casa segura e ampla, e nada me faltou. Esses privilégios me ajudaram a seguir adiante, e eu me afundei no trabalho. Todas as manhãs, de segunda a sexta, despachava com o secretário e a subcoordenadora da pós-graduação que eu dirigia. Fazia turnos de 12 horas para dar conta das aulas a distância, da gestão, de orientações de teses, de pesquisas que me recusei a paralisar. Também me preocupava com colegas de trabalho e com alunos, e ligava para um ou outro para tentar amenizar algo que eu não tinha a menor ideia de como lidar.

E me afundei no trabalho não porque era contra um lockdown ou porque era um louco produtivista. Me refugiei no trabalho como se pudesse cancelar a pandemia, anular as inaceitáveis mortes e soterrar todo desespero. Baixei a cabeça e segui olhando os próprios passos como se pudesse ignorar a tempestade. Não deu, sabemos todos, mas foi minha maneira de viver. Isso não evitou que eu fizesse como você que me lê agora: chorei escondido, temi pelo pior e fiquei com a boca seca, sem palavras de alento.

Armazenei minhas emoções em potes e guardei num porão qualquer. Confesso que deixei poucas memórias desse tempo à mostra . E por anos resolvi não mais pensar na pandemia e no que ela fez de nós. Penso mais agora. Desço de vez em quando no porão para abrir um pote ou outro. De alguma forma, sobrevivi e sou muito afortunado por isso. Vivi ligeiramente diferente nos últimos cinco anos, e talvez libertar as memórias e emoções me possa mudar mais ainda. Foi autodefesa e algum egoísmo, mas eu não tinha um plano quando o vírus se espalhou. Quem tinha?

Não tenho medo de uma nova pandemia, e é estatisticamente muito provável que novas aconteçam nas próximas décadas. Tenho medo é que eu não tenha aprendido pouco com a Covid-19, e que o tempo faça dissolver tudo o que passamos. Essas linhas são para me lembrar e não me deixar esquecer. Que possamos ser dignos de viver esse tempo extra.

Vagas para mestrado e doutorado em jornalismo

O Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGJOR) está com inscrições abertas para a sua seleção de estudantes. São 11 vagas para mestrado e 6 para doutorado. Os cursos são gratuitos, presenciais e acontecem no campus de Florianópolis, inclusive com boas perspectivas de bolsas de estudo!

As inscrições são gratuitas e vão até 25 de março. O processo de seleção é online, e isso facilita a participação de interessados de qualquer parte. O PPGJOR é também o mais inclusivo do país, com 50% de suas vagas destinadas a pessoas negras (pretas e pardas), quilombolas, indígenas, pessoas com deficiência, pessoas trans e refugiadas.

A UFSC é um centro de excelência em estudos de jornalismo, com mais 45 anos de graduação e 18 de pós-graduação na área. Conheça o edital e se inscreva aqui.

Abri duas vagas: uma para mestrado e outra para doutorado. Quem sabe a gente não trabalha juntos?

Hoje

Se você está no Brasil ou se foi feliz nos últimos quatro dias, hoje é o dia mundial disso aqui…

MediaEthics 2025: prorrogado!

Os organizadores da nona edição da Media Ethics Conference decidiram estender um pouco mais o prazo para recebimento de trabalhos. Agora o deadline é 31 de março!

O evento acontece em modo híbrido: no dia 25 de junho de forma remota, e em 26 e 27 de junho, presencialmente, em Valência, na Espanha. Tudo o que você precisa saber do encontro está aqui: https://mediaethicsconference.com/

Marx merecia uma série na Netflix

Pense num personagem.

Um homem que conspirou contra governos, que clandestinamente espalhava os germes da revolução e que polemizava como ninguém nos jornais da sua época. Um homem que frequentava tabernas, sindicatos e bibliotecas. Um homem que fugiu, se exilou, foi expulso e perseguido em pelo menos quatro países. Um sujeito que conviveu com Bakunin, Stuart Mill e Proudhon, e que morava na mesma cidade que Darwin. Um sujeito que escreveu um manifesto com seu parceiro que se tornou o maior chamamento político do Ocidente. Um cara que descreveu as engrenagens da sociedade, que explicou os intestinos do capitalismo, que formulou e teorizou ideias que modificaram a compreensão do mundo sobre trabalho, exploração, valor, dinheiro e riqueza. Um cara que teve (pelo menos) seis filhos, que mantinha uma profética barba, que sofria de furúnculos pelo corpo, que brigava com os amigos mais próximos e se derretia de amores com as filhas e os netos. Um sujeito que teve uma vida de merda na miséria e que também teve uma vida extraordinária.

Qualquer personagem que tivesse a metade desse enredo já teria atraído a atenção dos principais estúdios de cinema do mundo. Apesar de tudo isso, não há quase nenhum filme sobre Karl Marx. Isso porque, quase 150 anos depois de sua morte, o velho conspirador continua perigoso, e as suas ideias seguem sendo inflamáveis. Nos dias de hoje e se não fosse ele, a Netflix estaria salivando para fazer uma série de streaming com diversas temporadas. Mas este não é qualquer personagem, e o capitalismo – embora tenha uma grande capacidade de fagocitar tudo – ainda não ousa contar a história de Karl Marx.

Ameaças ao jornalismo: um seminário em Valência

Participo nesta semana do Seminario Internacional “Periodismo: ¿una actividad de riesgo? Amenazas, desinformación y autorregulación en el panorama internacional”, promovido pelo Observatorio de Gobernanza, Transparencia y RSC da Universidad CEU Cardenal Herrera, em Valência.

O evento faz parte do projeto “Ética y Autorregulación de la Comunicación Social”, liderado pelo professor Hugo Aznar. O seminário acontece em duas partes. Na primeira, o profesor Manuel Chávez, da Michigan University, apresenta condições de exercício do jornalismo nos Estados Unidos. No segundo dia do evento, abordo condições de trabalho dos jornalistas no Brasil, acesso à informação, violência, precariedade e autorregulação ética no país.

O seminário é aberto, limitado apenas à capacidade dos ambientes onde vai acontecer, mas ele é direcionado a alunos da graduação em Jornalismo.

Mais informações aqui.

Primeiras páginas: Bolsonaro denunciado por golpe

O procurador geral da República, Paulo Gonet, apresentou denúncia contra o ex-presidente e mais 33 pessoas – 23 militares! – por tentativa de golpe de Estado e mais outros crimes relacionados.

As primeiras páginas dos jornais de hoje são históricas. Guarde!

Este slideshow necessita de JavaScript.

Escola de Verão da Alaic com inscrições abertas

A Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación (ALAIC) abriu inscrições para a 11ª edição de sua Escola de Verão, evento que reúne estudantes de pós-graduação, professores e pesquisadores para discutir metodologias e desenvolvimento de pesquisas na área da comunicação. Neste ano, o tema é “Comunicação, cultura e feminismos na América Latina e no Caribe”, com lugar na Costa Rica e data entre 28 de julho e 1º de agosto.

Todas as informações para participar estão na Circular 1, com link para o formulário de inscrição. A data-limite é 15 de março!

Jornalismo (ainda) faz pouco para ser confiável

Todo o mundo diz que as instituições estão perdendo a confiança pública nos últimos anos, e a imprensa não estaria a salvo disso. Confiança é um tema delicado e difícil de ser compreendido. Há pelo menos três anos estou pesquisando o assunto com uma equipe incrível. Neste curto artigo para The Conversation explico algumas razões para afirmar que o jornalismo brasileiro tem feito menos do que pode para se mostrar mais confiável.

Se você ainda não sabe, as partes mais importantes dessa pesquisa sobre credibilidade estão documentadas neste site.

As decisões da Meta são incompatíveis com a democracia

A Meta anunciou que não terá mais moderação de conteúdo nos Estados Unidos, e que vai deixar para a “comunidade” decidir o que pode e o que não pode em suas redes sociais.

Depois disso, os barões do Vale do Silício vestiram seus ternos impecáveis para beijar o anel de Donald Trump em sua posse em Washington.

Veremos muito mais danças e contradanças entre o poder financeiro e tecnológico e o poder político nos próximos tempos.

Dei uma entrevista para o jornal da Apufsc para comentar esses temas todos e como eles não combinam com a democracia como construímos nos últimos séculos.

A reportagem pode ser lida na íntegra aqui.

O caso Bocardi e a ética jornalística

O Nexo Jornal fez uma reportagem repercutindo a demissão do jornalista Rodrigo Bocardi pela TV Globo, após infringir “normas éticas”, conforme divulgou o setor de compliance. Lucas Zacari me entrevistou sobre o caso e abordei a importância das organizações de notícia não apenas terem departamentos que cuidem da correção interna, mas também da necessidade de estabelecer regras, divulgá-las amplamente e orientarem seus funcionários. Tratei também de um dos temas mais importantes da ética jornalística que é o conflito de interesses.

A reportagem pode ser lida aqui (na íntegra, apenas para assinantes).

Ética e autorregulação do jornalismo: um livro

Lançado em 2022, Jornalismo e Qualidade no Mundo de Expressão Portuguesa é um objeto raro porque junta olhares diversos para um objeto convergente: o jornalismo praticado em língua portuguesa.

O livro reúne diagnósticos de como a profissão se organiza em nove territórios da lusofonia. Estão lá Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, e Timor Leste, descritos por especialistas e estudiosos da ética jornalística.

Editado pela University of Saint Joseph Press, de Macau (China), o livro foi organizado por Carlos Camponez, José Manuel Simões e eu, e agora está disponível para download gratuito. Sirva-se!

Um panorama global do populismo de extrema-direita

Acaba de ser publicado The Palgrave Handbook on Right-Wing Populism and Otherness in Global Perspective, livro organizado por mim e Rui Alexandre Novais (Univ. Católica Portuguesa) para a coleção Global Political Sociology da Palgrave-Macmillan.

Com 489 páginas, o livro traz 23 capítulos abordando o fenômeno do populismo de extrema-direita nos Estados Unidos, Alemanha, México, Hungria, Polônia, Bielorrússia, Turquia, Itália, Espanha, Portugal e Brasil.

Na coletânea, ressaltamos que – apesar da geografia – existe uma característica fundamental para a recente ascensão de políticos populistas de direita e extrema direita em todo o mundo: eles se apoiam em conflitos excludentes e divisões morais, reforçando uma alteridade nociva, do tipo nós contra eles. Organizamos os capítulos em duas partes: alteridade ascendente e descendente.

Na primeira, os populistas de extrema-direita se colocam contra um estamento mais alto, tendo como alvo as elites estabelecidas e seus aliados. No outro extremo, a alteridade descendente funciona quando os populistas rebaixam setores da sociedade, transformando-os em outsiders ou bodes expiatórios.

Reunimos 36 autores que pesquisam o tema, o que deu ao livro uma abordagem abrangente e multidisciplinar das expressões desse fenômeno que interessa, seduz e assusta a todos nós.

Para saber saber mais, baixar capítulos de amostra e comprar o livro, clique aqui.

Deixei o Twitter mais uma vez

A política está em toda a parte. Mesmo quando ela aparentemente não está.

O anúncio da Meta de abandonar seu esquema de checagem de fatos é política.

O abandono de regras de moderação em qualquer rede social é política.

A alteração de algoritmos para impulsionar conteúdos virais (mas discriminatórios, inflamantes, racistas e misóginos) é política.

A decisão dos maiores magnatas do Vale do Silício de ir à posse de Trump para bajulá-lo é política.

Mas todo poder tem um contrapoder. Quer dizer, também tenho a minha política.

Porque o Twitter se tornou um pântano de ódio e porque seu dono não escondeu suas preferências nazistas, não quero estar mais lá. Quero estar mais neste blog – que em maio faz 20 anos – e no Bluesky. E pretendo buscar alternativas fora das big techs dos Estados Unidos porque está mais do que na hora de mudar os pesos na balança.

MediaEthics 2025: mande seu resumo

Já está aberta a temporada de envio de resumos para a Media Ethics Conference 2025, que acontecerá em junho em Valência. O tema central é Comunicação e Saúde Mental, e há outros eixos temáticos paralelos.

Acesse o site para mais informações: https://mediaethicsconference.com/

2025 terá 13 meses

O ano novo já começou pra mim e, diferente de todos os outros anos, ele será um pouco mais longo, com 13 meses. Será um período sabático para um segundo pós-doutorado, desta vez na Universidad de Valencia.

Desembarquei ontem na Espanha com muitas agendas e planos. Estou muito animado com as perspectivas. Devo dar sequência a um projeto internacional sobre sistemas de ética jornalística envolvendo seis países em três continentes e ainda preciso arrancar com dois novos projetos de cooperação, um reunindo cientistas brasileiros que atuam no exterior, e outro com colegas brasileiros e alemães. Isso sem contar na conclusão de meus dois projetos envolvendo credibilidade jornalística, que envolvem equipes brasileiras incríveis.

Como dá pra ver, serão treze meses alucinantes. CNPq e Capes financiam essas iniciativas e sem eles, nada seria possível.

Como dizem por aqui: Ya está!

Desinformação e crise de confiança

Participo amanhã do programa CIDAD Convida para falar sobre desinformação e crise de confiança. Este é um projeto de extensão da Udesc e da Biblioteca Universitária da UFSC que aborda aspectos da confiabilidade informacional. Terá transmissão ao vivo pelo YouTube e até certificados para quem assistir.

É amanhã, 19, às 19 horas.

Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=eBcLdLyydto 

 

Baixe o livro Credibilidade Jornalística

O Projeto ICJOR está lançando o livro Credibilidade Jornalística e você pode ter o seu exemplar de graça!

Ética e integridade na pesquisa para além da regulamentação

É hoje, mas se você não puder ver ao vivo, assista aqui depois!