Ameaças ao jornalismo: um seminário em Valência

Participo nesta semana do Seminario Internacional “Periodismo: ¿una actividad de riesgo? Amenazas, desinformación y autorregulación en el panorama internacional”, promovido pelo Observatorio de Gobernanza, Transparencia y RSC da Universidad CEU Cardenal Herrera, em Valência.

O evento faz parte do projeto “Ética y Autorregulación de la Comunicación Social”, liderado pelo professor Hugo Aznar. O seminário acontece em duas partes. Na primeira, o profesor Manuel Chávez, da Michigan University, apresenta condições de exercício do jornalismo nos Estados Unidos. No segundo dia do evento, abordo condições de trabalho dos jornalistas no Brasil, acesso à informação, violência, precariedade e autorregulação ética no país.

O seminário é aberto, limitado apenas à capacidade dos ambientes onde vai acontecer, mas ele é direcionado a alunos da graduação em Jornalismo.

Mais informações aqui.

Primeiras páginas: Bolsonaro denunciado por golpe

O procurador geral da República, Paulo Gonet, apresentou denúncia contra o ex-presidente e mais 33 pessoas – 23 militares! – por tentativa de golpe de Estado e mais outros crimes relacionados.

As primeiras páginas dos jornais de hoje são históricas. Guarde!

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Escola de Verão da Alaic com inscrições abertas

A Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación (ALAIC) abriu inscrições para a 11ª edição de sua Escola de Verão, evento que reúne estudantes de pós-graduação, professores e pesquisadores para discutir metodologias e desenvolvimento de pesquisas na área da comunicação. Neste ano, o tema é “Comunicação, cultura e feminismos na América Latina e no Caribe”, com lugar na Costa Rica e data entre 28 de julho e 1º de agosto.

Todas as informações para participar estão na Circular 1, com link para o formulário de inscrição. A data-limite é 15 de março!

Jornalismo (ainda) faz pouco para ser confiável

Todo o mundo diz que as instituições estão perdendo a confiança pública nos últimos anos, e a imprensa não estaria a salvo disso. Confiança é um tema delicado e difícil de ser compreendido. Há pelo menos três anos estou pesquisando o assunto com uma equipe incrível. Neste curto artigo para The Conversation explico algumas razões para afirmar que o jornalismo brasileiro tem feito menos do que pode para se mostrar mais confiável.

Se você ainda não sabe, as partes mais importantes dessa pesquisa sobre credibilidade estão documentadas neste site.

As decisões da Meta são incompatíveis com a democracia

A Meta anunciou que não terá mais moderação de conteúdo nos Estados Unidos, e que vai deixar para a “comunidade” decidir o que pode e o que não pode em suas redes sociais.

Depois disso, os barões do Vale do Silício vestiram seus ternos impecáveis para beijar o anel de Donald Trump em sua posse em Washington.

Veremos muito mais danças e contradanças entre o poder financeiro e tecnológico e o poder político nos próximos tempos.

Dei uma entrevista para o jornal da Apufsc para comentar esses temas todos e como eles não combinam com a democracia como construímos nos últimos séculos.

A reportagem pode ser lida na íntegra aqui.

O caso Bocardi e a ética jornalística

O Nexo Jornal fez uma reportagem repercutindo a demissão do jornalista Rodrigo Bocardi pela TV Globo, após infringir “normas éticas”, conforme divulgou o setor de compliance. Lucas Zacari me entrevistou sobre o caso e abordei a importância das organizações de notícia não apenas terem departamentos que cuidem da correção interna, mas também da necessidade de estabelecer regras, divulgá-las amplamente e orientarem seus funcionários. Tratei também de um dos temas mais importantes da ética jornalística que é o conflito de interesses.

A reportagem pode ser lida aqui (na íntegra, apenas para assinantes).

Ética e autorregulação do jornalismo: um livro

Lançado em 2022, Jornalismo e Qualidade no Mundo de Expressão Portuguesa é um objeto raro porque junta olhares diversos para um objeto convergente: o jornalismo praticado em língua portuguesa.

O livro reúne diagnósticos de como a profissão se organiza em nove territórios da lusofonia. Estão lá Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, e Timor Leste, descritos por especialistas e estudiosos da ética jornalística.

Editado pela University of Saint Joseph Press, de Macau (China), o livro foi organizado por Carlos Camponez, José Manuel Simões e eu, e agora está disponível para download gratuito. Sirva-se!

Um panorama global do populismo de extrema-direita

Acaba de ser publicado The Palgrave Handbook on Right-Wing Populism and Otherness in Global Perspective, livro organizado por mim e Rui Alexandre Novais (Univ. Católica Portuguesa) para a coleção Global Political Sociology da Palgrave-Macmillan.

Com 489 páginas, o livro traz 23 capítulos abordando o fenômeno do populismo de extrema-direita nos Estados Unidos, Alemanha, México, Hungria, Polônia, Bielorrússia, Turquia, Itália, Espanha, Portugal e Brasil.

Na coletânea, ressaltamos que – apesar da geografia – existe uma característica fundamental para a recente ascensão de políticos populistas de direita e extrema direita em todo o mundo: eles se apoiam em conflitos excludentes e divisões morais, reforçando uma alteridade nociva, do tipo nós contra eles. Organizamos os capítulos em duas partes: alteridade ascendente e descendente.

Na primeira, os populistas de extrema-direita se colocam contra um estamento mais alto, tendo como alvo as elites estabelecidas e seus aliados. No outro extremo, a alteridade descendente funciona quando os populistas rebaixam setores da sociedade, transformando-os em outsiders ou bodes expiatórios.

Reunimos 36 autores que pesquisam o tema, o que deu ao livro uma abordagem abrangente e multidisciplinar das expressões desse fenômeno que interessa, seduz e assusta a todos nós.

Para saber saber mais, baixar capítulos de amostra e comprar o livro, clique aqui.

Deixei o Twitter mais uma vez

A política está em toda a parte. Mesmo quando ela aparentemente não está.

O anúncio da Meta de abandonar seu esquema de checagem de fatos é política.

O abandono de regras de moderação em qualquer rede social é política.

A alteração de algoritmos para impulsionar conteúdos virais (mas discriminatórios, inflamantes, racistas e misóginos) é política.

A decisão dos maiores magnatas do Vale do Silício de ir à posse de Trump para bajulá-lo é política.

Mas todo poder tem um contrapoder. Quer dizer, também tenho a minha política.

Porque o Twitter se tornou um pântano de ódio e porque seu dono não escondeu suas preferências nazistas, não quero estar mais lá. Quero estar mais neste blog – que em maio faz 20 anos – e no Bluesky. E pretendo buscar alternativas fora das big techs dos Estados Unidos porque está mais do que na hora de mudar os pesos na balança.

MediaEthics 2025: mande seu resumo

Já está aberta a temporada de envio de resumos para a Media Ethics Conference 2025, que acontecerá em junho em Valência. O tema central é Comunicação e Saúde Mental, e há outros eixos temáticos paralelos.

Acesse o site para mais informações: https://mediaethicsconference.com/

2025 terá 13 meses

O ano novo já começou pra mim e, diferente de todos os outros anos, ele será um pouco mais longo, com 13 meses. Será um período sabático para um segundo pós-doutorado, desta vez na Universidad de Valencia.

Desembarquei ontem na Espanha com muitas agendas e planos. Estou muito animado com as perspectivas. Devo dar sequência a um projeto internacional sobre sistemas de ética jornalística envolvendo seis países em três continentes e ainda preciso arrancar com dois novos projetos de cooperação, um reunindo cientistas brasileiros que atuam no exterior, e outro com colegas brasileiros e alemães. Isso sem contar na conclusão de meus dois projetos envolvendo credibilidade jornalística, que envolvem equipes brasileiras incríveis.

Como dá pra ver, serão treze meses alucinantes. CNPq e Capes financiam essas iniciativas e sem eles, nada seria possível.

Como dizem por aqui: Ya está!

Desinformação e crise de confiança

Participo amanhã do programa CIDAD Convida para falar sobre desinformação e crise de confiança. Este é um projeto de extensão da Udesc e da Biblioteca Universitária da UFSC que aborda aspectos da confiabilidade informacional. Terá transmissão ao vivo pelo YouTube e até certificados para quem assistir.

É amanhã, 19, às 19 horas.

Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=eBcLdLyydto 

 

Baixe o livro Credibilidade Jornalística

O Projeto ICJOR está lançando o livro Credibilidade Jornalística e você pode ter o seu exemplar de graça!

Ética e integridade na pesquisa para além da regulamentação

É hoje, mas se você não puder ver ao vivo, assista aqui depois!

objETHOS faz 15 anos

O Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) está completando 15 anos de pesquisas, formação de mestres e doutores e publicações ininterruptas. É um projeto da Universidade Federal de Santa Catarina que criei com Francisco José Karam para ajudar a fortalecer os debates sobre a conduta de profissionais, a qualidade de coberturas jornalísticas e a responsabilidade de empresas do setor. Pelo objETHOS passaram muitas pessoas incríveis e o projeto se consolidou como um laboratório para se pensar o jornalismo e se exercer a crítica de mídia. Desde 2013 ele é coordenado pelo professor Samuel Pantoja Lima e por duas doutorandas, Kalianny Bezerra e Natália Huf. Amanhã tem um seminário para marcar esta data e mirar no futuro próximo do projeto e do jornalismo. Haverá transmissão ao vivo pela TV UFSC.

Viva o objETHOS!

Estou no Bluesky agora!

Meu trabalho prejudica muito minha performance nas redes sociais.

Nos últimos tempos, eu mantinha perfil apenas no Twitter. Com a suspensão (temporária?!) dele, arrumei as malas e me instalei no BlueSky.

Me encontre lá como christofoletti

Mas não se engane: continuo aqui também. Aliás, tô desde 2005.

Screenshot

Diretrizes éticas na pesquisa em humanidades: live de lançamento

Imperdível! Quem vamos?

As Diretrizes podem ser baixadas aqui.

A live pode ser assistida aqui.

Debates sobre populismo, credibilidade e desinformação

A Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi) está com chamada aberta para atrair comunicações para duas mesas de debate para o 21º Encontro da SBPJOR, que acontecerá em novembro, em Brasília. Gilson Porto e Zulmira Nóbrega, que coordenam a Renoi, explicam que não é necessário ser vinculado à rede de pesquisa para submeter trabalhos, desde que as propostas de comunicação se relacionem às temáticas das mesas.

Conheça as ementas:

Jornalismo, populismos e poder

Esta Mesa coordenada proposta pela RENOI tem por objetivo promover o debate sobre as relações entre jornalismo, populismos e poder na contemporaneidade, abrindo espaço para trabalhos que se dediquem a analisar o lugar do jornalismo nas democracias disruptivas, a refletir criticamente sobre o papel do jornalismo no crescimento do fenômeno do populismo – especialmente os de viés autoritário – no chamado “ Zeitgeist populista” (Mudde, 2004; 2019) e as possibilidades de resistência democrática da profissão frente às afinidades entre a lógica midiática e a lógica populista, tais como uso do conflito, personalização e uso de apelos emocionais (Diehl, 2017).Também interessa observar o poder do jornalismo diante de práticas que ultrapassam os limites do seu legítimo poder de informar e se colocam como instrumento para outros propósitos. Nos últimos anos, tem se ampliado o número de estudos sobre as relações entre jornalismo e os novos populismos, especialmente aqueles ligados a lideranças populistas de ultra ou direita radical. Várias pesquisas têm apontado o papel do jornalismo na normalização das agendas ideológicas de atores políticos populistas radicais (especialmente em relação à temática de gênero, ao negacionismo científico e ambiental) (Ekstrom, Patrona e Thornborrow, 2020), e a contribuição das coberturas jornalísticas de denúncias que se utilizam de elementos do mediapopulismo, como o sentimento antiestablishment e a visão de mundo maniqueísta, para a emergência de populistas autoritários (Guazina, Gagliardi e Araujo, 2023). Por outro lado, as tensões politicas derivadas do exercício do poder por lideranças populistas tem levado à reflexão acadêmica e profissional sobre as transformações possíveis do jornalismo, a renovação de seu compromisso com a democracia e a reconfiguração das práticas do jornalismo político em vários países.

Credibilidade Jornalística e Combate à Desinformação
As transformações culturais no consumo de notícias têm sido motivadas nas últimas décadas pela expansão global das mídias sociais e pela emergência de modos alternativos de acesso a informações, como serviços instantâneos de mensagens. Essas mudanças são estruturais e se apresentam na forma de perda gradativa da primazia e do prestígio do jornalismo como meio outrora privilegiado no processo de comunicação (BAKIR; BARLOW, 2007; HAWLEY, 2012). Encolhimento de receitas financeiras e disputa muitas vezes desleal pela atenção de usuários e consumidores ajudam a completar um quadro repleto de más notícias para o jornalismo em escala global (VALLIER, 2021; BLÖBAUM, 2016; 2021). Na academia e no setor produtivo, é crescente o temor de que aumenta a desconfiança no jornalismo como um sistema capaz em nossos tempos para abastecer as sociedades com informação útil, credível e de qualidade (DANILLER et al, 2017; MASULLO et al, 2019). Nas redações e círculos preocupados, é cada vez mais forte o consenso de que jornalistas e meios precisam resgatar parte da credibilidade perdida recentemente (WARDLE; DERAKHSHAN, 2017; PROCHAZKA; SCHWEIGER, 2018; UNESCO, 2019). Além disso, os avanços da inteligência artificial quanto à produção de textos gera um temor quando a possibilidade futura de reconfiguração da profissão. Há uma crise de credibilidade no jornalismo? O espalhamento de pólos de difusão de desinformação agrava essa vulnerabilidade ou esse fenômeno representa uma oportunidade histórica de reafirmação e distinção do jornalismo em relação às redes e às plataformas? Soluções práticas e de ampla instalação podem ser engendradas para combater a desinformação e ampliar as taxas de confiança pública no jornalismo? Como são realizadas as pesquisas atuais para detecção de prestígio e reputação da profissão e quão corretos estão seus diagnósticos? A Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (RENOI) tem um histórico de preocupações sobre o tema (CHRISTOFOLETTI, MOTTA, 2008; CERQUEIRA, 2010; CHRISTOFOLETTI, 2010a e 2010b; GUERRA, 2010; ROTHBERG, 2010; GUERRA, ROTHBERG, MARTINS, 2016) em pesquisas sobre métodos de accountability e avaliação de qualidade que impactam diretamente na confiança da instituição jornalística. Esta mesa coordenada, “Credibilidade Jornalística e Combate à Desinformação”, pretende reunir trabalhos que aprofundem a compreensão do problema a partir de relatos de pesquisa, reflexões teóricas, propostas conceituais e metodológicas a fim de avançar na elaboração de diagnósticos e na busca de soluções para a elevar a credibilidade no jornalismo.

DATAS IMPORTANTES
Submissão de trabalhos: 15 de julho a 14 de agosto
Divulgação dos trabalhos selecionados: 18 de setembro
Data limite do pagamento da inscrição: 2 de outubro
Divulgação da programação detalhada do evento: 9 de outubro
Realização do Encontro da SBPJor: 8 a 10 de novembro de 2023.

Os trabalhos devem ser submetidos de forma completa, formatados nos templates do Congresso.
Para submeter seu trabalho – Submeta aqui

Bolsonaro inelegível nos jornais

O Supremo Tribunal Federal decidiu que ele está fora das eleições até 2030. As primeiras páginas dos jornais de hoje são históricas. Guarde.

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Guia literário para entender as redes sociais (e avaliar a permanência nelas)

Um dos assuntos mais efervescentes sobre tecnologia no momento é a regulação das plataformas digitais. Em linhas gerais, sociedades e governos têm sinalizado que as empresas que estão cada vez mais onipresentes em nossas vidas precisam de limites. Como elas devem ser responsabilizadas pelos efeitos que geram? Quem deve fiscalizar isso? Como podemos fazer isso sem prejudicar direitos, liberdades, criatividade e inovação?

O parlamento brasileiro está prestes a votar o projeto de Lei sobre Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet (PL 2630), também chamado de PL das Fake News. Se sua cabeça está confusa com o tema, um bom atalho é este aqui e aqui tem outro. E se você quiser saber mais sobre a coisa, eu preparei um pequeno manual de sobrevivência no assunto com 30 sugestões de livros. Vou chamar de Guia Literário para Entender as Redes Sociais (e Avaliar a Permanência Nelas). É uma lista pessoal, composta apenas por livros que li e recomendo. A maior parte deles está disponível em português (links de compra nos títulos), e a lista não segue uma ordem de importância de leitura. Aliás, a lista pode ser atualizada frequentemente e sem qualquer aviso. Fique à vontade para sugerir outros títulos…

A máquina do caos – Max Fischer
Excelente esforço de reportagem que mostra como as grandes empresas do Vale do Silício se tornaram as gigantes atuais e como pequenas e grandes decisões comerciais, políticas e de engenharia transformaram as redes sociais numa indústria que alimenta o ódio e o extremismo, destroçando reputações pessoais e esgarçando o tecido social. Texto ágil, bem escrito e com muita documentação de casos. A leitura do capítulo 11 – A ditadura da curtida – dá muitos calafrios porque coloca uma lupa sobre a ascensão da extrema-direita no Brasil e todo o chorume que nos cerca. Compre aqui

Big Tech: ascensão dos dados e a morte da política – Evgeny Morozov
Se você tem um problema, deve haver um app que solucione isso. Mais do que um chamamento deslumbrado do capitalismo, essa frase ajuda a fortalecer a ideia de que a tecnologia pode resolver tudo. Este livro mostra que não e coloca as coisas nos devidos lugares: certas questões precisam ser enfrentadas de outra maneira e fora das grandes corporações de tecnologia.

O filtro invisível – Eli Pariser
O livro foi publicado por aqui há mais de dez anos, e tem uma permanência absurda porque apresenta uma ideia bastante central no tema das redes sociais: os filtro-bolha. Aquela coisa de que as redes sociais acabam nos colocando em bolhas de interesses comuns, nos isolando de pontos de vista diferentes, por exemplo. Isso é feito porque essas redes são projetadas para serem ambientes acolhedores, agradáveis e que nos motivem a ficar cada vez mais imersos neles. Ler este livro hoje e perceber como as coisas se mantêm cada vez piores é assustador.

Colonialismo de dados – João Francisco Cassino e outros
Acabou o tempo em que países eram invadidos, anexados e dominados por outros. Agora, estão todos livres. Peralá! O neoliberalismo é astuto e se transmuta rapidamente. Por que não exercer poder avassalador numa época em que é possível extrair dinheiro e poder dos dados que as pessoas oferecem espontaneamente? Esta coletânea ajuda a pensar assuntos como soberania digital, opacidade de algoritmos, exploração e resistência.

O círculo – Dave Eggers
As maiores empresas do mundo não se contentam mais em dizer o que devemos consumir, em como nos comportar e o que é mais relevante na vida social. Agora, elas querem também substituir outras instituições humanas, como o poder político. Diferente dos outros, este livro é uma obra de ficção. Será?!

A máquina do ódio – Patricia Campos Melo
A premiada jornalista brasileira mescla experiência pessoal e reportagem para mostrar como as redes sociais funcionam como ambiente tóxico de perseguição, agressão e misoginia. Sobram por aqui discursos de ódio, ultra-polarização política e ausência de controle sobre empresas transnacionais que manipulam consciências, instigam sentimentos e manejam comportamentos.

Os engenheiros do caos – Giuliano Da Empoli
Sabe aquele youtuber idiota que se torna o deputado federal mais votado? Sabe a influenciadora digital que, do dia pra noite, se transforma na líder de um movimento social barulhento e influente? Pois é, esta obra ajuda a compreender como funciona o fenômeno de políticos criados e hipertrofiados na internet. Se você pensa que o populismo digital é um problema só nosso e dos EUA, precisa ver o que já aconteceu na Europa…

Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais – Jaron Lanier
Este é um livro escrito por quem tem nojo e pavor da tecnologia, certo? Errado. O autor é uma das maiores referências da realidade virtual e sabe muito bem como funciona a mentalidade de empreendedores, engenheiros, hackers e outros elementos da fauna do Vale do Silício. Ele está lá, no intestino do monstro. De forma clara e com exemplos muito intuitivos, Lanier nos mostra por A + B que precisamos escapar dessas armadilhas. Aproveite e escolha o animal que você prefere ser na internet….

A era do capitalismo de vigilância – Shoshana Zuboff
Livro acadêmico, com farta documentação científica, e que se dedica a elaborar o conceito que dá nome à obra. Para além de explorar dividendos a partir de formas variadas de consumo, os grandes players do mercado exercem uma função de controle social e vigilância constante. Não é uma leitura para iniciantes, mas que pode ser enfrentada por qualquer pessoa que esteja genuinamente interessada em como tecnologia, economia e política caminham juntas e se cruzam.

Eterna vigilância – Edward Snowden
Se o seu barato não é livro acadêmico, vá por essa eletrizante narrativa pessoal do sujeito que contou ao mundo parte do poder monstruoso exercido pelas big techs em conluio com governos politicamente interessados no caos geopolítico. Tá tudo lá: vigilância tecnológica, sistemas e doutrinas de choque…

Tudo sobre tod@s – Sergio Amadeu da Silveira
Há mais de cinco anos, este autor já explicava tim-tim por tim-tim como as redes digitais extraem e processam nossos dados pessoais e como geram perfis de consumo, hábitos culturais, predisposições ideológicas. Se já era assim antes, imagine agora. Leitura fácil e didática.

Manipulados – Brittany Kaiser
Um dos escândalos mais lembrados do abuso de poder das grandes plataformas é o caso da Cambridge Analytica no Facebook. O episódio é contado – não totalmente, sejamos honestos – por uma das pessoas que mais têm autoridade para fazer, afinal, ela estava lá…

A morte da verdade – Michiko Kakutani
O foco da autora é a emergência dessa maluquice que tem muitos nomes: pós-verdade, negacionismo, império dos fatos alternativos e o escambau. Ela se debruça sobre o começo do governo Trump, e todos sabemos que esse sujeito laranja só se tornou presidente por impulso das redes sociais. Ao ler o livro, faça um experimento: substitua a palavra “Trump” por “Bolsonaro” e veja o que acontece.

Algoritmos para viver – Brian Christian e Tom Griffiths
Numa prosa atraente, esses dois cientistas mostram como podemos aprender bastante do comportamento humano a partir da matemática e da programação de computadores. Problemas banais como quando escolher o melhor lugar para estacionar ajudam a pensar em previsibilidade, agendamento e construção coletiva.

Ética para máquinas – José Ignacio Latorre
O livro ainda não foi traduzido do espanhol, e quando for, merecerá diversas notas e apêndices para atualizar a discussão, que não para de crescer nos últimos meses. O que tem a ver com regulação das plataformas? Ora, grande parte do funcionamento dos sistemas delas está apoiada em aprendizagem de máquina, algoritmos preditivos, inteligência artificial e outras temas que este livro trata. Achei que ele demora um pouco para fazer a tal discussão ética que está no título, mas vale conhecer.

Quando o Google encontrou o WikiLeaks  – Julian Assange
O livro tem quase dez anos e quanto mais o tempo passa, mais ficam claras as distâncias entre uma internet que poderia mais aberta, universal e emancipatória e outra, com jardins murados, ideologia californiana, apetite insaciável por startups, extração de dados e abusos econômicos. Assange segue preso e Eric Schmidt, Peter Thiel, Zuckerberg, Musk e outros continuam soltos…

Cypherpunks: liberdade e futuro da internet – Julian Assange e outros
Aliás, já que olhamos um pouco para o retrovisor, vamos voltar algumas casas. Este livro da década passada traz diálogos ainda muito inspiradores sobre como podemos moldar a internet nos terrenos do conhecimento, da informação, da participação política, da vivência das liberdades, da economia e dos direitos…

Algoritmos de destruição em massa – Cathy O’Neil
Se você pensa que os algoritmos são apenas aquelas linhas de comando no computador que te convencem a comprar um produto ou outro, abra sua cabeça. A autora – que é matemática e especialista em métricas – mostra casos reais em que sistemas – alimentados por algoritmos – fazem de tudo para excluir pessoas, segregar camadas da sociedade e aumentar ainda mais a desigualdade. Quando li, era coordenador de um programa de pós-graduação e fiquei semanas noiado pensando em como contribuímos para modelos de produção científica que funcionam como moedores de carne…

Sociedade vigiada – Ladislau Dowbor (org.)
Coletânea de textos que discute como as grandes corporações tecnológicos se aproveitam de engenharia social, brechas tecnológicas, atalhos psicológicos e ausência de leis para invadir a nossa privacidade, atropelar direitos digitais e corroer a democracia. Easter egg: o nome do organizador está errado na capa da edição que tenho aqui. Apesar disso, dois ou três capítulos valem muito.

Datanomics – Paloma Llaneza
Uma visão europeia, e principalmente espanhola, sobre o tema do recolhimento e tratamento de dados pessoais pelas plataformas. Uma visão sobre como o direito de lá olha para a privacidade em toda a parte. O livro também não foi traduzido para o português ainda.

A superindústria do imaginário – Eugenio Bucci
Uma discussão sobre o poder das big techs não apenas pelo viés da comunicação, da política, da hegemonia e da tecnologia, mas também com pinceladas fortes de psicanálise. Sedução, desejo, narcisismo e outras parafernálias libinais nos atravessam quando nos conectamos às redes, ensina o Bucci.

Fake news: como as plataformas enfrentam a desinformação  – Intervozes
Que tal um olhar brasileiro e rigoroso sobre como as gigantes da tecnologia estão combatendo as mentiras, os boatos e as teorias de conspiração? Facebook, Instagram, YouTube, Twitter e WhatsApp são estudados em detalhes e a notícia final não é nada boa. Aliás, você pode baixar o livro de graça aqui.

O mundo do avesso: verdade e política na era digital – Letícia Cesarino
Com todos os olhos da antropologia e todos os pés na cibernética, a autora mergulha nos devaneios que só foram possíveis nos devastadores anos daquele governo, talquei? Obra acadêmica, com camadas profundas de discussão sobre aspectos cognitivos e impactos da política algorítmica no Brasil. O festival de bizarrices que colhemos deveria ser suficiente para frear tudo e regular as plataformas já!

A liberdade de expressão e as novas mídias – José Eduardo Faria (organizador)
Coletânea acadêmica com forte ênfase no direito e que nos permite ter um debate sério sobre fake news, discurso de ódio, direito ao esquecimento e a utopia que as plataformas tentam nos convencer de que existe. Alguns textos envelheceram rapidamente, mas ainda iluminam áreas nubladas da discussão no Brasil.

Algoritmos da opressão – Safiya Umoja Noble
Dizer que o Google ganha dinheiro com racismo pode parecer forte, né? Te desafio a ler o livro e continuar a pensar que se trata de radicalismo.

Racismo algorítmico – Tarcísio Silva
Se a leitura anterior ainda não te convenceu da necessidade de regular as plataformas e exigir delas transparência sobre seus algoritmos e controle rígido sobre os vieses discriminatórios, este livro com olhar genuinamente brasileiro vai cuidar disso.

Liberdade e resistência na economia da atenção – James Williams
Avalie seu comportamento quando estiver conectado em suas redes sociais. Perceba seus hábitos e as oscilações do seu humor. E perceba como o foco, a concentração e atenção são drenadas. Mais um efeito perverso das big techs que não pode ser ignorado.

Para além das máquinas de adorável graça – Rafael Evangelista
Houve um tempo em que o Vale do Silício se guiava também por uma cultura e uma ética hacker. Ler este livro nos leva a pensar como a internet estaria hoje se a ganância, a arrogância e o tecno-solucionismo não tivessem contaminado o DNA do ecossistema de tecnologia mais poderoso da história.

Privacidade é poder – Carissa Véliz
Uma indisfarçável visão otimista sobre como podemos lançar mão da própria privacidade para retomar nossos direitos em tempos de redes sociais. Um desses livros que chegam a ser inspiradores e motivacionais em meio aos escombros em que vivemos.

A ideologia californiana – Richard Barbrook e Andy Cameron
Gente esperta, descolada, poderosa e muito endinheirada. Gente que decide os rumos da humanidade na política, entretenimento e economia. Gente com menos de 30 anos e que desafia a etiqueta usando moletons surrados e cabelos desgrenhados. Não se deixe enganar pelas aparências, é tudo ilusão e faz parte de uma ideologia que vem redefinindo o que chamamos de sucesso, necessidade e relevância no mundo atual. Para fechar esta lista, um texto que é uma patada no livre mercado que alicerça o Vale do Silício. Para desgosto das big techs, baixe de graça aqui.

Um estudo brasileiro sobre remuneração do jornalismo

O Comitê Gestor da Internet no Brasil acaba de lançar uma publicação que pode ajudar muito no debate sobre regulação das plataformas digitais e reconhecimento da dívida que elas têm com o jornalismo. Por encomenda da Câmara de Conteúdos e Bens Culturais do CGI, a socióloga e cientista política Marisa Von Bülow elaborou o estudo Remuneração do Jornalismo pelas Plataformas Digitais, listando os modelos internacionais em vigor, revisando a literatura recente da área e entrevistando mais de uma dezena de especialistas e envolvidos na discussão. A pesquisa é bastante esclarecedora, consistente e útil.

A publicação tem 97 páginas, está em PDF e pode ser baixada aqui.

Diretrizes éticas para a pesquisa: uma live

clique aqui para acessar a transmissão

O hotel de Lula e a retratação da Band

Pra variar, parte da mainstream media teve chiliques com os vestidos de Janja e com o hotel em que Lula se hospedou em Londres em sua recente viagem à Inglaterra. É ótimo quando o jornalismo fiscaliza os poderes, mas também é muito bom quando se retrata e reconhece seus erros, como fez a Band… Clique na imagem para assistir

UOL erra feio com Nath Finanças

Nesta semana, o UOL publicou chamada em suas redes sociais sobre alguns membros do Conselhão de Lula, e no caso de Nath Finanças, reduziu uma das maiores influenciadoras financeiras do país a “ficante de BBB”… A reação veio forte e o portal precisou se retratar.
A história é contada em detalhes por Rafael Capanema no Núcleo.

 

Cobertura jornalística de massacres em escolas precisa melhorar

O programa Além da Notícia, da TV ALMG, debateu a necessidade de ajustes nas coberturas jornalísticas sobre massacres e ataques a escolas e creches. Participei junto com a professora Lola Aronovich, da UFC, uma referência nacional em discurso de ódio machista nas redes. O programa é apresentado pelo jornalista Alexandre Campello. Clique na imagem para assistir:

 

PL das Fake News: uma entrevista

Semana trepidante em Brasília e nas redes sociais com a urgência de tramitação do PL 2630 na Câmara dos Deputados, o PL das Fake News. Dei meus dois centavos sobre o tema para a Agência Radioweb. Ouça.

A tentativa de golpe nos jornais

Hordas de bolsonaristas invadiram ontem, 8, os principais prédios públicos da república. Os palácios mais importantes dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário foram também vandalizados e saqueados em atos de terrorismo à luz do dia. Os principais jornais do Brasil e do mundo estampam hoje, 9, a vergonha inesquecível.

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A saga de um leitor por um livro

O leitor acorda com uma obsessão: ler aquele livro antes daquela viagem.

Ele sabe que não tem o volume em sua coleção. Do autor, o leitor só tem um título, que descobre que deu de presente para a esposa há 15 anos. É a dedicatória quem lembra, e mais: com espírito romântico, chega a prometer a tal viagem, menos por convicção e mais para embelezar o recadinho de dedicação.

Satisfazer a obsessão será fácil, pensa o leitor. Basta acessar a Amazon e comprar uma cópia eletrônica do livro, mas a ilusão termina em menos de um minuto. Por razões misteriosas, o único título do autor indisponível em ebook é justamente o que ele procura. Pensa em encomendar um exemplar físico, mas a entrega pode demorar mais do que ele poderia suportar.

O leitor, então, aciona o modo furtivo e recorre a sites de download clandestino de livros. Nada. Realmente, o objeto da sua obsessão não está acessível em bits. Vai até a Estante Virtual e até encontra a preços módicos, mas a entrega prevista é daqui a um século!

Cabe então uma busca peripatética por livrarias e sebos da cidade. O obcecado arruma uma desculpa qualquer para ir ao centro, convence o filho a escoltá-lo, e eles varrem os sebos campeões em ácaros e rinite, e… nada! Encontram outros títulos do autor, mas nada próximo daquela santa perseguição.

Num dos capítulos finais, ele acelera o carro para chegar a tempo de encontrar um sebo de bairro aberto. Não! Inexplicavelmente fechado antes das seis da tarde… com a tromba arrastando, o leitor volta para casa, quase derrotado. À noite, emaranhado em pensamentos, tem uma ideia que vai salvá-lo de todo o mal: a biblioteca da universidade!

O sistema eletrônico de busca arranca um sorriso do rosto do leitor. Ele só precisa atravessar uma noite de sono até resgatar o volume naquele deserto das férias escolares. Os corredores estão mal iluminados e o obcecado teme pelo fracasso quando se depara com um setor de estantes isoladas por fita e lonas. As chuvas do mês passado interditaram uma parte do acervo, muito próximo da numeração que ele buscava. Muitos livros foram atingidos pelas malditas goteiras e estão indisponíveis. Precisam se recuperar. Com passos miúdos e o coração apertado, o leitor contorna o espaço proibido e chega à estante; percorre com os dedos as prateleiras e alcança a lombada mais procurada do mundo.

De várias maneiras, aquele fanático tentou comprar o livro, e não conseguiu. Foi uma biblioteca pública que pacificou seu coração. Foi essa invenção perigosa – juntar milhares de livros e permitir que as pessoas os leiam gratuitamente! – que salvou seu dia. Foi essa criação antiga – bibliotecas públicas -, a encarnação do espírito do bem comum, que permitiu ao leitor segurar aquele surrado volume.

Lula eleito nas capas dos jornais

Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente de República ontem, 30, com mais de 60 milhões de votos. É a terceira vez que vestirá a faixa presidencial, um feito inédito, pois nem mesmo Getúlio Vargas foi eleito três vezes para o Palácio da Guanabara. As primeiras páginas dos jornais hoje são históricas.

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A leitura da carta pela democracia nas capas dos jornais

Atos cívicos em todo o país marcaram o 11 de agosto de 2022 com leituras da Carta às Brasileiras e aos Brasileiros, iniciativa ecumênica para alertar sobre os riscos de golpe à democracia nacional.

Os principais jornais do país dedicaram espaços generosos em suas primeiras páginas no dia seguinte. Chamo a atenção para a Gazeta do Povo, que preferiu destacar a pífia redução do preço do diesel, que aconteceu coincidentemente ontem…

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