520 páginas e uma década de quadrinhos

Não são muitos os títulos nas livrarias brasileiras sobre quadrinhos. Me refiro a livros, já que – cada vez mais e ainda bem! – as livrarias têm destinado algum espaço para as HQs nos últimos anos. De uns tempos pra cá, publicações em capa dura, em formatos diversos, para distintos bolsos têm cavado espaço nas estantes, mostrando que quadrinhos são produtos rentáveis para várias faixas de público… mas eu dizia que o mercado editorial nacional tem poucos livros sobre quadrinhos… Se você acompanha a área, deve se lembrar de Alvaro de Moya, Moacy Cirne, Goida ou Gonçalo Jr, cujos trabalhos ajudam a compreender a história das HQs. São referenciais indispensáveis, mas que voltam as cabeças ora para outras geografias, ora para décadas remotas…

E se você quer algo com maior frescor, calma, seus problemas acabaram! A Devir lançou neste ano “Revolução do Gibi”, livro que promete (e cumpre) escanear a primeira década deste século, período que ajudou a definir uma nova cara para o mercado de quadrinhos no país. Quem assina o livro é o jornalista Paulo Ramos, titular do Blog dos Quadrinhos e um dos principais nomes na cobertura especializada.

O livro é, na verdade, uma coletânea de textos e posts já publicados que, juntos, compõem um completo e complexo mosaico do que aconteceu de mais importante na área por aqui. Por si só, a compilação já teria valor na medida em que recupera fatos e permite uma visão linearmente histórica. Mas Paulo Ramos “atualiza” os posts com comentários, quase sempre complementando informações ou desfazendo mal entendidos.

Dividido em vinte seções, “Revolução do Gibi” organiza os conteúdos em temas como as produções na internet, o uso das HQs na escola, as adaptações literárias, a febre das graphic novels, o circuito independente, os mangás, as tirinhas, as polêmicas, além de episódios que realçam velhos mestres (Mauricio de Sousa, Laerte, Angeli, Glauco…) e talentos mais atuais (Fábio Moon, Gabriel Bá, Rafael Coutinho, Grampá, João Montanaro…). Tem de tudo, de tudo mesmo. Se você ficou fora do ar nos últimos dez anos, taí uma ótima chance de zerar a fatura.

Bem escrito e muito informativo, o livro só tem dois defeitinhos na minha opinião. O primeiro é o título, que é muito alegórico e não faz jus ao que ali vai se encontrar. O segundo está nas margens do livro, muitíssimo estreitas, o que dificulta a leitura da extrema direita nas páginas pares, muito coladas à costura, e oferece um bloco muito largo de texto, fácil de a gente cair de uma linha para outra… É muito possível que os editores da Devir tenham optado por margens tão estreitas para um maior aproveitamento da espessura da página, evitando que o livro ficasse muito grosso. Vã ilusão! Mesmo assim, a “Revolução do Gibi” chega aos leitores com 520 páginas. É um tijolaço, mas que se devora fácil-fácil…

por que queremos uma copa?

Estamos a menos de dois anos de sediar uma copa do mundo no Brasil. Se fosse na Sumatra ou no Azerbaijão, a coisa teria menos importância. Por aqui é diferente. Mexe com sentimentos, com tradições que insistimos em cultivar e com paixões. Mexe também com muito dinheiro, política e a agenda do país. Mas há vantagem em ter uma copa no país? O que fica de legado depois que os vencedores levantam a taça e os estádios se esvaziam?

Carolina Dantas e Gian Kojikovski são estudantes de jornalismo na UFSC e tentam responder a essas questões no trabalho de conclusão de curso que estão produzindo. Talentosos e inteligentes, esses meninos são também persistentes e corajosos. Por isso, foram buscar respostas na África do Sul, a última sede da Copa da Fifa. Atravessaram o oceano, embrenharam-se pelas vielas de Cape Town, conversaram com deus e o mundo, e voltaram para Florianópolis com mais de cinquenta horas gravadas em vídeo para editar. O documentário “Depois do apito final” está em fase conclusiva de produção, e parte do processo dos jovens jornalistas pode ser conferido num blog. A orientação é da professora Cárlida Emerim.

Tive o prazer de acompanhar parte da formação de Carolina e Gian, como alunos, bolsistas, repórteres. Sei o quanto são autoexigentes. Tenho curiosidade para conferir o resultado dessa jornada. Eles vão longe! Se para fazer um trabalho escolar atravessaram o Atlântico, imagine quando mergulharem pra valer no mundo da reportagem…

acabou…

 

A última primeira página do Jornal da Tarde…

a eleição municipal em são paulo

Frank Maia, que é o carioca mais manezinho que eu conheço, faz a síntese perfeita que nenhum paulistano fez da eleição para prefeito…

nasi não é wolverine

Em três dias agitados, devorei “A ira de Nasi”, ótima biografia de Nasi Valadão, escrita pelos jornalistas Mauro Beting e Alexandre Petillo. Com informações bem apuradas, recheado de boas histórias e com um texto bem cuidado, o livro apresenta um personagem necessário para se compreender a cena pop brasileira dos últimos trinta anos. Nasi é um desses bad boys que o mundo rock produz cada vez menos. Isso mesmo! Anti-herois verdadeiros, confusos, conturbados, contraditórios e genuínos. O que mais se tem visto por aí são bad boys de meia tigela, e não é o caso do cantor que se notabilizou por mais de vinte anos como o vocalista do Ira!

Os ingredientes da vida de Nasi são os mesmos que se vê nos principais caras do show business: carreira com altos e baixos, encrencas diversas, mulheres escapando pelo ladrão, montanhas de dinheiro queimadas com drogas, montanhas de droga queimando o filme do cara… Mas tem mais: o enredo de Nasi traz traições, choque de egos, brigas familiares, redenção pessoal e busca religiosa.

Frequentemente comparado ao Wolverine, Nasi não é o mutante-com-garras-retráteis, embora a fama de mau lhe caia muito bem, ele mesmo admite. Existem semelhanças entre os dois sim, mas uma frase na biografia define melhor o cantor. Uma frase dita entre o deboche e a confissão: “Nasci pra ser o Johnny Cash da macumba!”

concierto de aranjuez: chet baker, ron carter, jim hall…

Era uma vez um violonista espanhol chamado Joaquín Rodrigo. Era uma vez os jardins do Palacio Real de Aranjuez, tão inspiradores que provocaram o tal Rodrigo a escrever um concerto para eles… Era uma vez, então, uns músicos brilhantes… um na guitarra, outro no contrabaixo, outro no trompete e outros mais, todos juntos e… bem, chega de história… assista você mesmo!

Concierto de Aranjuez

no dia dos professores, prefiro…

Foto de T Mughal/EPA

No dia dos professores, ao invés de lembrar grandes mestres que tive, de reverenciar mentes iluminosas que me guiaram, prefiro render homenagem a uma aluna: Malala Yusufzai. Nas últimas semanas, ninguém chamou tanto a atenção para a importância da educação.

se eu fosse gravar uma fita…

I’ll make you mixtape that’s a blueprint of my soul
It may sound grand but babe it’s all you need to know
I’ll make you a mixtape that will charm you into bed
It details everything that’s runnung round my head

enquanto a chuva não para…

… que também não pare a música!

Jamie Cullum destroi o piano…

almost blue: 2 takes

Com Diana Krall, a esposa do criador da obra-prima, Elvis Costello

Com Chet Baker e ela:

 

as entrevistas de assange em português

O jornalista e blogueiro Dauro Veras, em parceria com a Agência Pública, está publicando em seu DVeras em Rede a série O Mundo Amanhã, de 12 entrevistas em vídeo realizadas pelo fundador do WikiLeaks, Julian Assange. A série traz entrevistas com grandes nomes da política, cultura e pensamento para o canal de televisão russo RT. Cada capítulo tem cerca de meia hora de duração e será publicado pela primeira vez no Brasil com legendas em português no blog do Dauro às 18h das quartas-feiras. Aliás, começou ontem com o líder do Hezbollah, Sayyed Hassan Nasrallah.

Vá conferir!

rearranjos musicais…

Scarlett Johansson não é Brigitte Bardot, nem precisa ser. Pete Yorn não é Serge Gainsbourg, nem quer ser. Mas as performances lembram muito a pegada dos franceses há cinquenta anos atrás… meigo, sensual, sensorial…

Compare…

essa eu esperava desde pequenino…

Eu não tinha mais que onze anos quando descobri o traço de Milo Manara, que escancarou as portas de minhas percepções de pré-adolescente diante do universo dos quadrinhos. Sim, eu já folheava gibis desde os cinco, mas eram super-heróis, monstros, bichinhos… Manara me mostrou com quantas curvas se faz uma mulher, ao menos dentro dos requadros… Delicadeza, sensualidade, cores bem dosadas, volumes nos corpos. O desenho de Manara tem tudo isso, e um capítulo à parte é o tratamento que ele dá aos cabelos das suas musas. Tudo parece acontecer em câmera lenta, com música de fundo romântica e levemente picante…

(Eu iria cair de quatro mesmo com Paolo Eleuteri Serpieri e sua Druuna, mas isso é outra história)

O fato é que eu sempre desejei ver o encontro de Milo Manara e os quadrinhos de heróis, épicos e cheios de uma ação com alta voltagem. Isso já aconteceu, mas tem algo melhor vindo aí. Manara vai assinar a capa de um alardeado lançamento da Marvel no inverno norte-americano. Já pensou a Feiticeira Escarlate, toda esvoaçante sob a caneta de Milo Manara? Não pense, veja! Tá aí!

(dica do HQRock)

batman está de volta…

Oficialmente, ele chega amanhã, mas já dá pra se divertir, vendo trailers oficiais e alternativos, como esses de Lego…

amy winehouse, e lá se foi um ano

Muita coisa aconteceu desde que encontraram o corpo de Amy em sua casa, já sem vida.
Apesar disso, não se encontrou ninguém como ela desde então…
Ela era a esquina entre o jazz e o rock. Atitude de jazz singer e vida de rock star…

notas de férias (1)

Tirei uns diazinhos de férias. Fui obrigado. Caso contrário, as perderia.
Diante disso, o que posso fazer? Go-zar.

1. O que mais me chamou a atenção em “O Espetacular Homem-Aranha” não foi o vilão reptiliano e escabroso, nem os sempre-incríveis efeitos especiais, nem a trama aracnídea. Foi Andrew Garfield. É, eu pensava que Tobey Maguire era o Peter Parker definitivo no cinema e que o magrelinho escalado para fazer o super-heroi iria cair das alturas. Besteira. Garfield mergulha no personagem sem rede de proteção, e faz um Parker no mais autêntico estilo adolescente: confuso, dramático, hiperbólico, atrapalhado. E seu Homem-Aranha é elástico, histriônico e acrobático, como o de Todd McFarlane.

2. A Praia da Armação ainda está ao deus-dará. A obra de contenção do mar foi mal feita, o comércio sentiu o baque da queda do turismo e a comunidade está abandonada. O mar continua a ser o mais lindo dessa parte da Ilha. As gaivotas reinam soberanas num céu sem limites. Como são sem limites as cagadas humanas.

3. Garcia-Roza voltou com tudo. Em “Fantasma”, ele traz mais uma vez o delegado Espinosa em um intrigante romance policial, sempre ambientado em Copacabana (ou arredores) e com personagens com contornos pouco nítidos e camadas e mais camadas de complexidade. Houve quem rosnasse com o lançamento. Gostei. Trama bem costurada, mistérios e segredos na medida. Aos 52 anos, Espinosa está melhor do que antes…

4. Tropecei em “Bourbon Street – Os fantasmas de Cornelius”, uma luxuosa HQ dos franceses Phillipe Charlot e Alexis Chabert, que mescla jazz, nostalgia, esperança e aparições de Louis Armistrong. Junte uma pitada de Buena Vista Social Club, uma arte vigorosa e bem detalhada, e um roteiro delicado, et voila! Vale a leitura, mas aviso: é apenas a primeira parte da história. A segunda só sai no Brasil no ano que vem…

5. E já que estamos falando (quase que só) de fantasmas, fuja de “Motoqueiro Fantasma – Espírito da Vingança”. É uma bomba

6. Dias ensolarados sepultam listas de compromissos chatos, atrasados e incontornáveis.

7. “Para Roma com Amor” é delicioso. Woody Allen está hilário: na frente e atrás das câmeras. Três ou quatro diálogos e ele chuta Roberto Benigni pro canto.

8. É bom acordar e se espreguiçar. É bom poder prestar atenção na própria respiração (mesmo que isso acarrete olhar pra pança indo e voltando). É bom fugir no meio da tarde para pegar um cinema. É bom estar vivo.

running

Clima de final de semestre. Clima de final de semana atribulada.
(Eliane Elias, a talentosa pianista de jazz brasileira que martela suas teclas nos Estados Unidos, dá uma amostra desse clima)

stan lee segue as pegadas de hitchcock

Alfred Hitchcok foi um dos cineastas mais influentes do mundo, um renovador de linguagens, um realizador sem igual. Afora isso tudo, foi um sujeito de um humor bem peculiar. Algumas das piadas mais conhecidas do velho estavam em seus filmes, nas aparições-relâmpagos do diretor em situações cotidianas e irônicas. Passatempo de muita gente é assistir aos filmes e “pescar” as suas passagens.

Stan Lee, o cara mais importante da indústria dos quadrinhos nos últimos 50 anos, também é muitíssimo bem-humorado e recorreu ao mesmo expediente para “estrelar” os principais lançamentos cinematográficos envolvendo super-herois dos quadrinhso da Marvel. Veja um mix e se divirta!

sete anos é um ciclo

Este blog completou sete anos de publicação no último dia 20. Eu ia escrever que são sete anos de publicação ininterrupta, mas se você passa por aqui com alguma frequência sabe que os posts têm ficado mais raros. A desculpa é a de sempre: absoluta falta de tempo. Desde que assumi uma montanha de compromissos profissionais – entre os quais a coordenação do Mestrado em Jornalismo na UFSC -, tem sido mais difícil levar esta second life de blogueiro. Já me queixei também se falta de motivação, mas o grande impedimento mesmo é a duração do dia. Ele curto demais.

De qualquer maneira, fica o registro. E pra não perder a mão, ofereço aos meus poucos (fiéis e insistentes) leitores um novo layout. Mais uma vez, fica o meu agradecimento pelo privilégio da sua visita.

continua o inferno astral de assange

A Suprema Corte Britânica aprovou hoje cedo a extradição de Julian Assange para a Suécia, onde deve responder por acusações de crimes sexuais. O rosto mais conhecido do WikiLeaks vem enfrentando meio mundo desde que o site virou de pernas para o ar a diplomacia norte-americana e contrariou os interesses de outras grandes nações. Assange está em prisão domiciliar há mais de 500 dias e vem produzindo uma série de entrevistas televisivas com pensadores, políticos e ativistas. Os programas estão disponíveis na internet, inclusive com versões em espanhol, árabe e russo.

Num dos episódios, Assange conversa com o presidente do Equador, Rafael Correa, e lá pelos 10 minutos da entrevista, é citado o livro WikiMediaLeaks, dos amigos Martín Becerra e Sebastián Lacunza, pesquisador e jornalista argentinos que participaram do nosso Bapijor em 2011. Quando você é citado por um presidente da república numa entrevista transmitida mundialmente, não há como negar que seu trabalho esteja sendo reconhecido…

ninguém mais faz backup?

Fiquei muito surpreso com o que aconteceu com o Art Spiegelman ontem! O cartunista teve o seu notebook furtado momentos antes de palestrar num encontro de jornalismo cultural em São Paulo. Para quem não liga o nome à pessoa, Spiegelman é o único cara a ganhar um Pulitzer com uma obra em quadrinhos, o mítico Maus, onde representa de forma irônica o embate entre judeus e nazistas na forma de gatos e ratos. Pois o cidadão vem ao Brasil como atração e passam a mão nele!

Outro dia, outro cartunista também teve o mesmo destino. Levaram o notebook do Laerte, e na máquina havia um acervo de anos e anos de trabalhos gráficos. O azar se repetiu, pois o computador de Spiegelman também continha um tesouro visual armazenado. Perdido para sempre? Talvez…

Fiquei pensando: será que esses caras não fazem cópias de segurança de seus desenhos e ilustrações? Se a maré tá assim, meu amigo Frank Maia, que se cuide… Faz um backup aí, Frank!

parabéns, miles!

Se não estivesse em concerto no céu, Miles Davis completaria 86 anos hoje.

Muito jazz nesta vida!

homens que eu amo: clint eastwood

Não espere sorrisos em abundância, simpatia gratuita ou demonstrações explícitas de extroversão. Clint é caladão, taciturno, na dele. É assim nos filmes, onde encarna quase sempre a figura do solitário-vingador, e na vida real, conforme conta Marc Eliot na biografia “Clint Eastwood – Nada censurado”. Mas Clint não se limita a esse clichê, como se pode imaginar.

Os muitos percalços na carreira, a pouca certeza sobre seu talento como ator, os muitos casos extraconjugais, os filhos fora do casamento e o amadurecimento como homem e como artista são a base do livro. O retrato composto não é autorizado nem complacente. Também não é denunciador ou polemista. Clint é mostrado clinicamente, quase sem emoções ou arroubos de deslumbramento. Ele desfila calmo e determinado pelas páginas. Vemos Clint figurar em 56 filmes, dirigir 22 deles, receber oito indicações ao Oscar, levar outros cinco. Vemos Clint casar duas vezes, ter sete filhos, virar prefeito, virar diretor e produtor… Vemos Clint matar facínoras, vingar prostitutas, varrer cidades de mal feitores, trocar socos nas ruas, contracenar com orangotangos, apaixonar-se por mulheres…

Ao fim da leitura, não se pode dizer que haja uma redenção de Clint. Ele continua contestado pela crítica por suas limitações de atuação; permanece à espera de um Oscar de Melhor Ator, mesmo tendo batido na trave por mais de uma vez. Por outro lado, o leitor para e pensa: putz! A década mais interessante da vida desse homem é a que começa depois dos 70 anos. Depois disso, quando ele já poderia se aposentar e ficar mais tempo jogando golfe em seu clube em Carmel, Clint engata uma quinta marcha e produz como nunca, de forma inquieta, como se estivesse buscando algo. É dessa época Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, Gran Torino, A conquista da honra, Cartas de Iwo Jima, Invictus, Além da Vida, A troca…

Você pode nem ir muito com a cara dele, mas Clint é extraordinário. Não acha?

esperei trinta anos pra ver esse filme

Levei meu filho de sete anos para assistir a Os Vingadores. Na verdade, teria ido sem ele mesmo, já que há trinta anos espero para ver a reunião de alguns dos maiores super-herois dos quadrinhos. Isso mesmo! Desde a década de 80 eu me perguntava quando seria possível ver no cinema a magia que eu conferia naquelas páginas…

Àquele tempo era mesmo impossível ter um resultado como o de hoje, quando os efeitos especiais são tão sofisticados! A computação gráfica engatinhava e a qualidade do som era questionável; os roteiros eram imbecilizantes e o enredeo dava lugar mais o humor e ao escracho do que à ação…

Àquele tempo, Nick Fury era branco, tinha cabelos grisalhos e não parava de mascar um charuto velho; as histórias publicadas nos Estados Unidos desembarcavam no Brasil quatro ou cinco anos depois, criando um abismo na cronologia e uma esquizofrenia no universo de Marvel e DC. Naquela época, Thor era louro e usava elmo, e as revistas tinham títulos duvidosos como “Grandes Aventuras Marvel” e “Herois da TV”… Mesmo assim, o planeta corria o risco de se tornar uma colônia de alienígenas quando não fosse devorado por alguma entidade cósmica.

Uma vida inteira depois, o filme deslumbra e esnoba. São vertiginosas as cenas do combate entre Hulk, Thor, Homem de Ferro, Capitão América, Gavião Arqueiro e Viúva Negra contra Loki e um exército alien. Os diálogos são bem escritos, encaixando bons respiros de humor e sarcasmo. Algumas atuações – como as de Robert Downey Jr e Mark Ruffalo – moldam boas personalidades, e a trilha sonora atinge contornos épicos. O filme é mais longo do que deveria, tem algumas barrigas, mas nada que comprometa. O balanço é, de longe, positivo e não decepciona nem fãs antigos nem os de última hora.

A estratégia da Marvel foi bem executada desde o início: produziu filmes de cada um dos principais personagens, como a preparar o terreno para o grande ataque, a ofensiva coletiva. Se os dois títulos de Hulk foram oscilantes, os dois do Homem de Ferro mantiveram um nível alto e envolvente. Os de Thor e Capitão América não chegaram a abalar as estruturas, mas exibiram alguma dignidade. Meu receio era que Os Vingadores naufragasse como a franquia de X-Men… Felizmente, não! Menos mal para os realizadores. Afinal, Hulk não perdoaria…