Lá se foi o Chris Scheiner…

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Criador e criatura: Chris e Sandra Meyer na pré-produção de E.V.A.

Existia um cara que mais parecia uma criança.

Existia um cara que embora parecesse criança escrevia as coisas mais adultas que se podia ouvir.

Existia um cara que embora parecesse criança escrevia as coisas mais adultas que se podia ouvir e que era doce como nenhum de nós.

O mesmo cara doce era corrosivo e surpreendente. Desde muito jovem, escrevia como poucos, e encantava na mesma medida que nos fazia pensar e tremer. Esse cara era o Christiano Scheiner.

Convivi com ele poucos anos, no começo da década passada, na Persona Cia de Teatro. Chris assinou o excelente E.V.A., espetáculo com Sandra Meyer Nunes e Igor Lima, com direção de Jefferson Bittencourt. Chris, ele não sabe, me assombrava. Era brilhante e verdadeiro. Infantil e senil.

Uma vez, repetimos entre nós a piada de que “autor bom é autor morto!”, e que diretores sempre preferem esses. Gargalhamos e Chris me olhou com aquele sorriso demoníaco, tremendo as sobrancelhas. Era um convite ou mais uma espetada dele?

Há anos não o via e hoje soube que correu para trás das cortinas. Eu não esperava ser atingido assim novamente pelo Chris. Mas ele sempre foi o mais ousado dessa fauna escassa que chamamos de dramaturgos catarinenses. Touché!

Uma aula de adaptação para os quadrinhos

dois_irmaos-10-1-2Quando fechei o volume de Daytripper, pensei: Nunca li nada melhor por aqui. Sim, a minha impressão permanece, e acho que o trabalho de Gabriel Bá e Fábio Moon é a melhor HQ brasileira já produzida. Sensível, criativa, instigante, belíssima, caprichada.

E quando a gente pensa que os caras alcançaram o ápice e a tendência é ladeira abaixo, engano-engano.

A adaptação de Dois Irmãos mostra que os gêmeos mais talentosos dos quadrinhos mantêm um patamar de altíssima qualidade gráfica e narrativa. O premiado romance de Milton Hatoum conta décadas da vida de outros dois gêmeos descendentes de libaneses numa Manaus mansa e chacoalhada. A história é linda, triste, sofrida e absolutamente cativante. Hatoum revisita uma fábula ancestral – a dos irmãos que se digladiam -, atualiza os mitos de Esaú e Jacó (Machado de Assis) e desvela como amores fraternais podem ser frios e bestiais.

DoisIrmaosA obra de Bá e Moon é uma aula de como adaptar um romance para os quadrinhos. Sim, eles sabem o que fazem. Já até ganharam um Jabuti por O Alienista. Há o respeito à obra original e a oferta generosa de outra obra, única, autônoma, efetiva. Mas em Dois Irmãos, vejo muito mais. Há os traços angulosos e esquálidos que contornam os personagens, aparentemente fortes, mas que fraquejam em suas paixões. Há os estudos da cidade, o porto, as ruas, o casario, o bairro flutuante, cenários que hipnotizam em preto e branco. Está tudo ali. A prosa contida, as palavras bem escolhidas, a caligrafia tortuosa, as onomatopeias econômicas. A casa que envelhece, os amores confusos, as ilusões difusas, os segredos familiares, a ambição convertida em coragem, a preguiça ocultando a pequenez, a sensualidade de orientais e barés, a violência, a vida e a morte.

Longa vida aos irmãos Omar e Yaqub, Gabriel e Fábio.

O futuro dura muito tempo

A Editora da UFSC, o Departamento de Jornalismo e o Laboratório da Tele da UFSC têm um projeto bem bacana chamado “O livro da sua vida”. Nele, em um minutinho, leitores falam de títulos que foram importantes em algum momento de suas existências…

Como hoje é feriado, que tal perder ganhar um tempinho conhecendo a iniciativa?

(Até eu me arrisquei a indicar um livro…)

Uma entrevista com Patrícia Melo

O site literaturapolicial.com publicou hoje uma entrevista que fiz com Patrícia Melo, a maior escritora policial brasileira. Na conversa de pouco mais de meia hora, ela falou sobre o recém-lançado “Fogo Fátuo”, seu décimo livro, sobre o cotidiano da escrita e sobre o panorama atual do noir nacional…

Ficou curioso? Confira aqui!

As solidões de Carlos Henrique Schroeder

schroederConfesso que cheguei meio acabrunhado na livraria. Arrastado por minha esposa, eu ia a um lançamento de dois livros de jovens autores brasileiros que eu desconhecia. Para ser mais exato: já tinha ouvido falar muito deles, cheguei a trombar com alguns de seus títulos, mas eu nunca tinha lido Santiago Nazarian ou Carlos Henrique Schroeder. E eles estavam ali, a duas fileiras de cadeira, falando de suas novidades, e eu só balançando o queixo, no maior estilo sabe-tudo…

Confesso também que fui capturado pela simplicidade e pelo jeito gente-boa de Schroeder, e dias depois, fui “conhecer” o sujeito por meio de seu As Fantasias Eletivas. Nele, uma voz atual e um timbre claro nos conta a história de Renê, sujeito pacato, com passado tumultuado, que trabalha como recepcionista de hotel à noite em plena baixa temporada. Estamos em Balneário Camboriú, que no verão é a Babilônia, e fora dele, o Saara.

Acompanhamos Renê e o hall vazio, o silêncio da madrugada, as ruas desertas, as habitações ermas, a excêntrica fauna noturna, tudo isso e mais ajudam a compor uma atmosfera de absoluta solidão. Mais que solidão, abandono.

Se o romance só nos apresentasse o cotidiano de Renê, teríamos elementos de sobra para permanecer com o nariz colado naquelas páginas. Mas Schroeder – que já foi um Renê na vida – nos apresenta Copi, um travesti divertidíssimo que rouba a cena e que nos tira de nós mesmos. Fadado a mexer com os quadris e a capturar cenas com sua câmera, Copi captura pessoas e coisas que se cercam de solidão. Numa pasta surrada, coleciona os flagrantes da vida e destila pequenos textos que transbordam lirismo e inteligência.

É o que Copi chamou de A Solidão das Coisas, e aí a gente se depara com preciosidades que me fizeram lembrar de Borges nos seus delírios eruditos, em mundos inventados, nas obras e autores que sonhou… Ponteiros de relógio são solitários, marcadores de página são solitários, corredores de hotel são solitários, placas, sombras e notas de rodapé são solitários… Passamos por eles todos os dias, esbarramos em suas superfícies – como as dos rejuntes do piso – e nada. Nem percebemos suas condições singulares e, portanto, sozinhas.

Schroeder, Renê e eu ficamos só olhando o que Copi nos mostra. E é tanto que queremos mais Copi nas páginas que virão. Seria exagero dizer que “agora, sim!, conheço Schroeder”. É pouco ainda. Quero ler mais, e tenho certeza de que não estou sozinho nesse desejo.