ensino de ética jornalística nos cem cursos mais antigos do país

Apresento hoje no Intercom Sul os resultados parciais de uma pesquisa que desenvolvi sobre o ensino de ética jornalística entre 2008 e 2010. Nesta fase da investigação, tomei como amostra os cem cursos de Jornalismo mais antigos do país e me detive em documentos como planos de ensino, matrizes curriculares, ementários e projetos pedagógicos.

Um resumo de minha apresentação pode ser observado abaixo:

Outros resultados da mesma pesquisa você pode ler aqui.

para americanos, blogueiro = jornalista

Um estudo recentíssimo mostra que 52% dos blogueiros norte-americanos se consideram jornalistas. O levantamento é da PR Week e da PR Newswire. Essa sensação de equivalência era menor no ano passado: um em cada três blogueiros se achavam jornalistas.

Claro que cada caso é um caso, e que a pesquisa é concentrada no complexo ambiente dos Estados Unidos. De qualquer forma, os indicativos nos permitam pensar e discutir em torno das aproximações cada vez mais inevitáveis entre jornalistas e blogueiros. O combustível para essa atração e confusão de papéis atende pelo nome de Redes Sociais. Elas têm chacoalhado as relações profissionais não apenas na Comunicação, mas também na Educação.

Nas páginas finais de meu “Ética no Jornalismo”, eu projetava movimentos convergentes de uma ética jornalística tradicional e de uma ética hacker, cada vez mais influente. Está em curso. Aperte os cintos porque não é apenas a paisagem da janela que está mudando; nosso ônibus já não é mais o mesmo…

o twitter e a demissão do jornalista

Nesta semana, uma notícia causou tremores e ranger de dentes nas redações e nas redes sociais. A Editora Abril demitiu o jornalista Felipe Milanez – até então editor da National Geographic Brasil – por postar tweets críticos à outra revista do mesmo grupo, a Veja.

É claro que o acontecido varreu a internet brasileira como um rastilho de pólvora e provocou reações as mais variadas: houve surpresa, inconformidade, críticas ao próprio jornalista e contestações. Mas a decisão da Abril é irrevogável e os danos irreversíveis, de um lado e de outro. Dentro da Abril, a estupefação de que havia amigo na trincheira; fora do colosso da marginal, queixas de perseguição à livre expressão e tal.

Mas o fato é que o episódio traz velhas e novas lições.

1. As redes sociais inspiram o compartilhamento de conteúdos, de ideias, de sentimentos, de opiniões, mas essa troca provoca consequências, e a mais evidente delas é a contrariedade. Basta criar, por exemplo, uma comunidade no Orkut manifestando a admiração de alguém que logo surgirão comunidades análogas “combatendo” esse pensamento. Basta opinarmos num blog sobre algo que rapidamente leitores deixarão comentários rebatendo nossos argumentos.

2. Nas redes sociais, parece que estamos pensando alto. Mas na web como a conhecemos agora, pensar alto é dividir. E esse compartilhamento se dá no âmbito público e não mais privado. Por isso, toda queixa, ataque ou admoestação pode sim ser rapidamente encontrada, rastreada e, claro, combatida.

3. De nada adianta que eu tenha o meu perfil pessoal numa rede social se nele faço constar também minhas atividades sociais, públicas, funcionais. Isto é, não basta que o jornalista argumente que postou críticas em sua página pessoal se nela, seu perfil afirmava sua condição de editor de tal ou qual publicação. Nas redes sociais, pessoa física e pessoa jurídica se confundem…

4. As redes sociais facilitam muitíssimo a formação de grupos, de elos sociais, mas não isentam as preocupações que temos em outras esferas, principalmente com relação à privacidade. É sim importantíssimo que reflitamos sobre a administração da própria intimidade na internet. O usuário do sistema precisa escolher o que vai mostrar em público; precisa atentar para o que quer manter sigiloso, recluso, discreto. E talvez essa seja a lição mais contundente deste episódio (e de outros também): precisamos cuidar daquilo que somos e daquilo que projetamos nas redes.

Esta é uma questão de cunho moral, não se enganem. É uma questão que envolve valores, que afeta condutas, enfim, que mexe diretamente com a relação que as pessoas estabelecem com as demais. Que o infeliz episódio que custou o emprego de Felipe Milanez nos motive a discutir e refletir mais sobre a rede que estamos tecendo todos juntos.

comentários no twitter derrubam jornalista

Alguém mais esperto que eu já disse que tuitar NÃO é pensar; é pensar alto. E pensar alto na web é compartilhar…

Veja (desculpe o trocadilho), mas veja o caso do jornalista que perdeu o emprego por detonar a Veja no seu twitter…

(matéria de Eduardo Neco, do Portal Imprensa, com colaboração de Ana Ignacio)

O jornalista Felipe Milanez, editor da revista National Geographic Brasil, licenciada pela editora Abril, foi demitido nesta terça-feira (11) por ter criticado via Twitter a maior publicação da casa, a revista Veja.

Milanez, na National desde outubro de 2008, publicou, em seu perfil no microblog, comentários a respeito da reportagem “A farsa da nação indígena”, veiculada na última edição da revista. “Veja vomita mais ranso racista x indios, agora na Bolivia. Como pode ser tão escrota depois desse seculo de holocausto? (sic)”, escreveu em post no último domingo (9).

Em mensagem no mesmo dia, Milanez complementou dizendo que ignorava a Veja, mas “racismo” da publicação fez com que se manifestasse. “Eu costumava ignorar a idiota Veja. Mas esse racismo recente tem me feito sentir mal. É como verem um filme da Guerra torcendo pros nazistas (sic)”.

Em entrevista ao Portal IMPRENSA, Milanez admitiu que fez observações contundentes sobre a publicação, mas que foi surpreendido pela demissão. “Fui bem duro, fiz comentários duros, mas como pessoa; não como jornalista. Fiquei pessoalmente ofendido [com a reportagem]. Mas estou chateado por ter saído assim. Algumas frases no Twitter acabaram com uma porrada de projetos”, lamentou o ex-editor.

A decisão de demitir o jornalista, segundo ele, teria vindo diretamente de setores da Editora Abril ligados à revista Veja e repassada aos responsáveis pela National Geographic. “Não sei quem decidiu e como”, disse.

O redator-chefe da National, Matthew Shirts, confirmou à reportagem que Milanez foi demitido pelos comentários no Twitter. “Foi demitido por comentário do Twitter com críticas pesadas à revista. A Editora Abril paga o salário dele e tomou a decisão”, disse.

Ao ser questionado se concordava com a demissão do jornalista, Shirts declarou que “fez o que tinha que fazer exercendo a função”.

quais os principais problemas do jornalismo?

Precariedades no trabalho, insegurança no emprego, predomínio dos interesses políticos e econômicos sobre os jornalísticos, falta de ética profissional e escassa consciência de responsabilidade social por parte dos jornalistas. A resposta vem dos jornalistas de Madri, que responderam a uma ampla pesquisa coordenada pelos professores Carlos Maciá Barber e Susana Herrera Damas, ambos da Universidad Carlos III.

Intitulado “Ética e Excelência Informativa”, o estudo foi publicado na edição de março passado na revista Cuadernos de Periodistas, editada pela Asociación de la Prensa de Madrid (APM). A pesquisa foi realizada entre 2006 e 2010, com base em 410 questionários respondidos por jornalistas mais 30 outras entrevistas em profundidade com profissionais da área. Um dos objetivos era justamente identificar novos dilemas éticos e principais incômodos de repórteres e editores em seus locais de trabalho. Alguns resultados:

  • Para 55,6% dos respondentes, a objetividade não existe, mas mesmo assim o jornalista deve buscá-la
  • Dirigentes esportivos são as fontes menos confiáveis para a maioria dos participantes da pesquisa
  • Em termos de manipulação digital de imagem, cortes para um melhor enquadramento são as atitudes mais aceitáveis, enquanto que usar softwares para maquiar personagens é a mais repudiada
  • Para 59,5% dos jornalistas de Madri, nunca se deve usar disfarces ou identificar-se por outra profissão para obter informações; 37,3% admitem esses recursos em casos excepcionais
  • Segundo 89,8%, nunca se deve pedir compensações financeiras de fontes. Para 9%, às vezes
  • 83,7% dos jornalistas da capital espanhola acham inaceitável receber presentes que custem mais de 200 euros de suas fontes

Resultados interessantes, não? Adoraria conhecer as respostas dos jornalistas brasileiros a essas questões…

ética no jornalismo online: um podcast

A mesa redonda dos repórteres do site CNET reuniu esta semana o editor chefe Scott Ard e a especialista em ética do Poynter Kelly McBride: o assunto é a conduta de jornalistas de sites e blogs na internet, após o que o escândalo envolvendo o Gizmodo.

Se você não está por dentro, a história é a seguinte: um dos blogs mais influentes da área de tecnologia, o Gizmodo, pagou pelo protótipo de um novo modelo de iPhone, que teria sido esquecido em algum lugar por um funcionário da Apple. Com o aparelho na redação, publicou “segredos” da novidade, “furando” a própria Apple, e alertando a concorrência. A fabricante argumenta que o protótipo não foi perdido, mas roubado. O Gizmodo se defende.

Há, portanto, aspectos legais – comprar o produto de um furto – e éticos – pagar fontes para se conseguir informações. O caso está causando tremores de média intensidade nos meios bloguísticos, mas vai provocar ondas para todas as partes da internet, e não estou exagerando…

Se você se interessou, ouça o podcast de ontem que reuniu Scott Ard e Kelly McBride…

os eticistas, o pianista e o jornalista

Uma importante conferência reuniu acadêmicos e profissionais do jornalismo para discutir novos parâmetros e novas condutas para a profissão. O evento aconteceu na semana passada – 30 de abril – na Universidade de Wisconsin-Madison (Canadá), onde funciona o já renomado Center for Journalism Ethics. Na ocasião, a conferência perguntava se é necessária uma nova ética para este novo jornalismo com o qual nos confrontamos diariamente.

Oportuna, a questão trazia consigo uma série de outras indagações que certamente não foram respondidas pelos participantes, por mais experientes e capacitados. Isso porque alguns dilemas éticos estão acabando de aflorar nesse terreno ainda fértil das novas mídias, das tecnologias de informação e do cruzamento dos meios convencionais com as redes sociais.

(Bem) acostumados a debater tais questões, os canadenses não só convocaram grandes nomes do mercado, mas de organizações não governamentais ligadas à área e acadêmicos, mas também instituíram um prêmio para o que chamam de “jornalismo ético”. Como não poderia deixar de ser – já que o evento trata de novas tecnologias -, a conferência teve uma qualificada e generosa cobertura para os meios on line. Um live blogging permite que se tenha acesso a vídeos e textos dos debates; álbuns no Flickr possibilitam captar um pouco do clima do evento; e até mesmo pelo Twitter se consegue recuperar comentários e opiniões de participantes presenciais ou não.

O material que se tem ali é particularmente instigante pra todos os que pensam o jornalismo nos dias atuais. É verdade, existem lá mais perguntas que respostas. Mas não é assim mesmo que funciona isso que chamamos de ética?

Por falar nisso, acabo de devorar “O pianista no bordel”, ótimo livro de Juan Luis Cebrián. Se não ligou o nome à pessoa, Cebrián é um dos principais homens por trás do surgimento de “El País”, na Espanha na metade da década de 1970 em meio à redemocratização do país. Por anos e ainda hoje, o jornal se tornou um símbolo da luta pela liberdade de expressão e trouxe consigo um punhado de preocupações essenciais para um jornalismo de qualidade.

O livro de Cebrián acaba de desembarcar nas livrarias brasileiras. Li uma entrevista dele para “O Estado de S.Paulo” e fiquei interessadíssimo no volume. Passando por Recife, escapei para uma livraria e vasculhei tudo atrás do livro. Quando estava para desistir, chega uma atendente com uma pilha de dez exemplares: Cebrián veio direto para a minha mão, e furou a fila na lista das leituras.

Para tratar de jornalismo, sociedade, democracia e novas tecnologias, “O Pianista no Bordel” parte de uma anedota espanhola, um ditado popular:

Não digam à minha mãe que sou jornalista. Prefiro que continue pensando que toco piano num bordel.

Com humor refinado e texto elegante – que muito me lembraram Mino Carta, outro importante publisher -, o autor se vale de dez ensaios para não apenas fazer reminiscências de sua carreira, mas também para dividir o que pensa sobre jornalismo e política. Neste sentido, Cebrián toca em aspectos delicados das coberturas – como no caso do terrorismo -, e reforça valores do jornalismo, como a credibilidade, o rigor, a independência e a liberdade de imprensa. Critica o avanço da justiça e dos governos sobre os jornalistas, e a tentativa de controle da informação; e ainda desmitifica o propalado fim dos jornais por conta da emergência de novas formas de difusão informativa. Para Cebrián, é necessário um resgate do jornalismo para algumas de suas funções. É preciso coragem para enfrentar tempos difíceis, ousadia para ir além do superficial.

Nas 166 páginas do livro, os pontos de vista do velho jornalista são sempre lúcidos e explícitos; as ideias defendidas com uma contumaz bravura espanhola, mas sem sombra de empáfia. Cebrián parece pensar alto, e quem pensa alto não mede o passo de outrem, mede apenas o próprio. As posições que adota podem não ser unânimes, mas possibilitam pensá-las como alternativas respeitáveis, de nada descartáveis. E o que vejo como muito importante: o autor enfrenta as questões do jornalismo não de uma torre de marfim, segura e cômoda. Cebrián pondera também valores que nós, jornalistas, às vezes, atiramos para baixo do tapete, como rentabilidade, solvência empresarial, a busca por lucros e o jornalismo como negócio. Logo, Cebrián não é um utópico, não se aliena das agruras de quem precisa produzir um bom jornal todos os dias para vê-lo desaparecer rapidamente das bancas.

Cebrián desenha um jornalista sobre o fio da navalha, se não veja-se o trecho a seguir:

O senso de responsabilidade dos jornalistas é continuamente solicitado pelos governantes, quando justificam suas exigências de silêncio, manipulação e censura apelando para o bem superior constituído pela segurança coletiva. (…) Seria lamentável que, de uma forma geral, os profissionais da informação dessem ouvidos a semelhantes pressões. A obrigação moral e profissional dos jornalistas é contar os fatos, não calá-los, e a única responsabilidade que se deve exigir deles é a que emana da exigência de veracidade (…) Isso não quer dizer que devam ser insensíveis ao bem geral e não devam avaliar os danos que podem se originar de suas publicações.

Complicado, não? Sim. Com Cebrián, a impressão dá lugar à certeza: o jornalismo é mesmo muito delicado, muito complexo. E o pianista do bordel só pode ser mesmo personagem de piada. O que vale mesmo aqui é o homem que martela outras teclas, as da notícia.

um dossiê de ética jornalística

A Brazilian Journalism Research, revista da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), traz um dossiê sobre ética jornalística em seu mais recente número. Além de artigos com outros assuntos, estão no sumário…

ETHICS IN OLD AND NEW JOURNALISM STRUCTURES PDF
Clóvis de Barros Filho e Sérgio Praça
THE ETHICAL CROSSROADS IN THE AGE OF THE “NEW MEDIA” PDF
Sylvia Moretzsohn
THE PARADIGM OF ANTIGONE AND GACEL SAYAH: An approach to historical and contemporary Ethical/moral dilemmas of Journalism PDF
Francisco José Castilhos Karam
COMMUNICATION, ETHICS AND ANTHROPOETHICS PDF
Luiz Martins da Silva
JOURNALISM ETHICS AND ACCEPTANCE OF GIFTS: A view from Madrid journalists PDF
Susana Herrera Damas e Carlos Maciá Baber

comunicação digital e ética: anotações

Como já mencionei aqui, um dos meus atuais interesses de pesquisa e reflexão é a zona de contato entre novas éticas oriundas dos meios digitais e a ética jornalística. Semanas atrás, dei um rápido seminário na Feevale sobre isso. Agora, divido a apresentação daquele dia…

é possível ensinar ética jornalística?

Estarei hoje em Recife para o 13º Fórum Nacional de Professores de Jornalismo. Participo do Grupo de Trabalho sobre Ensino de Ética e Teorias do Jornalismo, onde apresentarei a comunicação científica “Como se ensino ética profissional? Pedagogias, Metodologias e Tecnologias adotadas por professores de jornalismo no Brasil”. São resultados parciais de uma pesquisa de dois anos, observando atentamente como os conteúdos ético-profissionais são oferecidos nos cem cursos mais antigos do país.

Se você se interessa pelo assunto, dê uma olhadinha nas minhas anotações…

comunicação digital e ética

Estou hoje na Feevale, em Novo Hamburgo (RS), para um seminário que darei sobre Comunicação Digital e Ética. O evento dura o dia todo e é voltado aos alunos da especialização em Comunicação Digital. Do que vou tratar? Veja a ementa…

Produção de conteúdos e regimes de autoria. Direitos Autorais e internet. Plágio, violações de direito e infrações éticas. Privacidade em tempos de redes sociais. Política de privacidade de sites e códigos de conduta de usuários. Anonimato e identidade na web. Ética, moral e ciberética.

Muitos desses assuntos são objetos de minhas pesquisas. Por isso, se você também os estuda ou se tem ideias pra trocar sobre, me mande um email

pós em edição: uma segunda chance

Se você estava chateado de não ter chegado a tempo, não se preocupe. As inscrições para a especialização em Edição em Jornalismo na Unisc, em Santa Cruz do Sul (RS), FORAM PRORROGADAS! Agora, o prazo final é 23 de março!!! Então, não perca!

As aulas começam em 9 de abril.

A coordenação do curso é do Demétrio Soster, e tem entre os docentes nomes como os de Antônio Fausto Neto, Carlos Eduardo Franciscato, Marcelo Träsel, Marcia Franz Amaral, Tattiana Teixeira, Marcos Santuário… Fui convidado para dar um seminário sobre aspectos éticos na edição…

Informações no site (http://www.unisc.br/pg/2010/cursos/edicao_jornalismo.html) ou no Twitter (http://twitter.com/posedicao)

ética jornalística: uma lista com 100 livros

O Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) acaba de atualizar a sua bibliografia básica sobre ética e deontologia.

São cem títulos em diversos idiomas.

Veja aqui.

livros de ética jornalística: novidades?

Listei seis títulos sobre ética jornalística que merecem a atenção de quem se preocupa, se interessa e pesquisa sobre o assunto.

É o seu caso? Então, vá conferir no Observatório da Ética Jornalística (objETHOS)!

Tem livro inglês, norte-americano, canadense…

plágio preocupa. como lidar com ele?

Tem crescido o número de plágios por aí. É perceptível. Denúncias e notícias sobre esse tipo de apropriação tem circulado com uma velocidade e num volume maiores que anos atrás. O primeiro catalisador que nos vem à mente é a internet, que possibilita o já consagrado Control C-Control V com uma facilidade antes não encontrada. Mas se a web permite copiar e colar também permite identificar fraudes, cópias e outras violações do tipo.

Não se trata, portanto, de demonizar a internet, nem de confinar pessoas e obras. O advento de uma rede que permita fácil compartilhamento de arquivos de todos os tipos tem ajudado a desenvolvermos novos regimes de autoria. Não só a autoria coletiva e cúmplice (wiki!), mas o remix, o bricolage, a própria discussão acerca do que é obra, do que é autoria e dos limites do seu e do nosso. Isso tem forçado a juristas e a legisladores que revisem os marcos que regulam os direitos autorais. Isso tem causado confusões nas escolas, nas universidades, na mídia e na própria indústria cultural.

A autoria é um conceito relativamente recente, data lá do século XIII, mas só se consolidou mesmo no final de 1700. De lá pra cá, transportamos para o plano das ideias e das imaterialidades o regime de propriedade e paternidade que mantemos no mundo material. Posse, propriedade, detenção de direitos, possibilidade de queixa e disputa de territórios. O fato é que estamos vivendo um instante de instabilidade crescente nesse terreno. De novas demarcações de limites. Com isso, acontece de tudo. Na academia, professor plagia o colega; na escola, aluno copia o trabalho do coleguinha que mal conhece e que encontrou disponível na internet; na mídia, tem o jornalista que se apropria de trechos de textos de seus concorrentes, sem dar o devido crédito, e por aí vai… a lista é longa, cada vez mais diversificada.

Outro dia, Ramón Salaverría se queixava de ter sido plagiado por El Mundo . Nos Estados Unidos, um jornalista do New York Times foi demitido pela mesma prática. Na mesma semana, no Poynter, Kelly McBride escreveu sobre porque o plágio ainda rola tão solto por aí.

Não nos enganemos: há uma zona de atrito, uma disputa permanente quando o assunto é propriedade intelectual, ideias, conceitos. Os norte-americanos são tão preocupados com o assunto que criaram até mesmo um Centro de Integridade Acadêmica. Nas bandas de cá, o assunto ainda é tratado nas hostes de crime intelectual e de uma maneira dispersa, desorganizada e titubeante. Sei que, em muitas situações, é difícil caracterizar o plágio, identificar os infratores e puni-los. Mesmo tendo uma lei de direitos autorais e menção explícita no Código Penal .

De qualquer maneira, ainda é necessário reafirmar que plágio é um crime e que é uma prática antiética. Plágio não é um crime sem querer, mas um ato deliberado de quem acredita que não será pego e punido. Não se surrupia uma música ou um texto de alguém, apagando-se a assinatura de seus autores e registrando como de sua lavra sem querer, sem intenção. O plágio é um crime intencional, doloso, portanto. É uma atitude antiética porque desrespeita o direito de paternidade de alguém, porque atenta contra o direito moral de alguém de reivindicar sua autoria sobre algo. É uma conduta que menospreza as demais pessoas, acreditando que a verdade não virá à tona e que todos serão permanentemente enganados.

É preciso sim delatar os plágios, deplorar essas práticas, identificar os infratores e buscar suas punições. No jornalismo, na escola, na academia, no mundo das artes, em todas as esferas onde a originalidade, a primazia, a inovação e o senso criativo são realmente relevantes e definidores. O plágio precisa ser combatido e execrado. Ao menos até definirmos novas noções de autoria e de proteção de direitos aos que criam, aos que recriam e disseminam conteúdos que julgamos relevantes…

a crítica aos amadores e as mudanças que o jornalismo vem sofrendo

Tão importante quanto compreender as ideias de alguém é perceber de onde se está falando. O lugar de fala é revelador das condições de produção do discurso a ser analisado, entendido, absorvido. Isso porque não existe discurso sem sujeito que o emita e não há sujeito sem ideologia, sem inconsciente, sem posições.

Por isso, não basta ler “O culto do amador” (Ed. Zahar, 2009) e entender quais as razões que levam o seu autor a atacar de forma tão veemente as novas mídias, as redes sociais e o que se convencionou chamar de Web 2.0. É preciso ainda identificar de onde Andrew Keen desfere seus dardos, e uma leitura minimamente atenta permite isso no trecho que destaco abaixo:

“O mais grave de tudo é que as próprias instituições tradicionais que ajudaram a promover e criar nossas notícias, nossa música, nossa literatura, nossos programas de televisão e nossos filmes estão igualmente sob ataque” (p.13)

Para Keen, blogs, sites de relacionamento, twitter e youtube, entre tantos outros, estão colaborando para soterrar o que se criou de cultura de massa e de mediação nos últimos séculos. Uma turba de desordeiros hipertrofiados pela internet e por um espírito anárquico atentam contra “as nossas redes de TV”, contra “os nossos jornais”, e por aí vai. O discurso não só vai na contramão das falas que tecem uma nova Renascença quanto ilude que emissoras de televisão e jornais sejam realmente “nossos”, que realmente difundam “nossos valores” e que sejam uma reflexo da nossa cultura e idiossincrasia.

Assim, e para encurtar a história, a posição de fala do autor é a que confunde as fronteiras do meu e do seu. De repente, a mídia tradicional se converte na última linha de defesa frente aos ataques de hackers. De repente, a mídia tradicional se torna o último bastião diante dos selvagens e seus mouses ópticos.

Não se deve discordar de tudo o que Andrew Keen escreva, mas alguns argumentos são aterrorizantes, pelo menos para mim. Keen advoga o fato de que estamos recheando a web com lixo diversificado, com opiniões não balizadas, com informações não checadas, com pornografia e bizarrices. Estamos “transformando cultura em cacofonia”, e a democratização “está solapando a verdade, azedando o discurso cívico e depreciando a expertise, a experiência e o talento”. E mais: “está ameaçando o próprio futuro de nossas instituições culturais”. Afinal, “o talento é produzido pelos intermediários” – como o próprio Keen foi no início da web, quando ganhava seu rico dinheirinho por lá.

Os argumentos são conservadores, apocalípticos e, em muitas situações, sofismáticos. O alarme soa a cada virada de página, e o leitor se vê diante de exemplos que só demonstram o quão permissiva, perdulária e corrosiva é esta cultura a que bilhões de pessoas estão mergulhadas nos dias de hoje no mundo. Mas por que ler “O culto do amador” mesmo seu conteúdo sendo não totalmente verdadeiro e sua mensagem tão amedrontadora? Porque é justamente o confronto de argumentos que produz o conhecimento e o discernimento. O fato de discordar de Keen não invalida suas posições. Pode inclusive tornar as convicções do leitor mais fortes e bem sustentadas. Keen deve ser lido sim, até pela coragem que exibe. Afinal, ele dá braçadas vigorosas na contracorrente e desdenha de alguns dos mais influentes nomes da internet no momento: Chris Anderson, Dan Gillmor, Tim Berners-Lee, Tim O’Reilly, Pierre Lévy, Jimmy Wales, Brin & Page, etc…

A questão que mais incomoda não é o tratamento do tema pelo prisma moral. Pelo contrário. É isso o que mais me atraiu na leitura: discutir tecnologia por meio do comportamento e da conduta de pessoas. Sim, tecnologia é também um problema moral, um problema de dilemas éticos, para além de violações de direitos e abertura de processos judiciais. O que mais me incomodou foi a assunção de uma posição tutelar, que desacredita da maturidade, inteligência e sensibilidade das pessoas para discernir caminhos, discutir soluções e estabelecer novos padrões de conduta. Vejam o que Keen escreve lá pelas tantas:

“Minha posição é que somos facilmente seduzidos, corrompidos e desencaminhados. Em outras palavras, precisamos de regras e regulamentos para ajudar a controlar nosso comportamento online, assim como precisamos de leis de trânsito para regular o modo como dirigimos a fim de proteger a todos contra acidentes. (…) O fato é que uma regulação modesta da internet funciona” (p.183)

É aí que mora o perigo: não se acreditar no potencial humano, no debate do coletivo, na nossa capacidade de resolver os próprios problemas. Se não somos capazes, precisamos de tutela, de um poder central e superiormente hierárquico que nos bote de castigo, que nos prive de “nossos privilégios”, que decida por nós. É aí que Keen marca bem o seu território e se distancia do que pensam os que acreditam numa inteligência coletiva, num projeto coletivo de comunicação, numa equação mais colaborativa de vida.

As críticas de Andrew Keen avançam sobre o sistema de compartilhamento de arquivos, sobre a cultura do download, sobre o chamado “jornalismo cidadão”, sobre a enciclopédia virtual editada por não-especialistas, etc… Sim, a educação, a comunicação e o jornalismo vêm sofrendo profundas transformações nesses poucos anos. Os saberes já não são mais o que eram. A informação escorre pelos dedos de todos, e os intermediários precisam redefinir seus papéis. Não só os professores em salas de aula onde em muitos temas os alunos sabem mais que os mestres. Mas no ecossistema informativo, onde os jornalistas não são mais as únicas bases difusoras do noticiário. É preciso se reinventar, chacoalhar o acomodado, permitir-se a instabilidade e a incerteza. Esta é uma era calcada nas incertezas…

Keen não erra ao vestir a fantasia do arauto do apocalipse; apenas se equivoca ao dizer que tem a solução para toda a tribo. Keen não erra ao se assumir um moralista, mas derrapa feio no niilismo que vê nos usuários do sistema meros números de IP. Outras pessoas poderiam ter cometido esse deslize, mas Keen não. Ele presenciou o nascimento da internet no Vale do Silício, se beneficiou com isso, ajudou a difundir uma cultura e sabia muito bem o que estava fazendo. Xingar cada internauta que posta seu vídeo caseiro no YouTube de “amador” não é ofensivo. As fronteiras que separam amadores de profissionais, leigos de especialistas se demarcam a cada momento. Elas não foram simplesmente varridas do planeta: apenas tornaram-se móveis, elásticas e dinâmicas. A terra gira, senhor Keen. Pode-se comprovar isso não olhando pro chão, mas pro céu, onde estão os sonhos e os devires…

a confissão de um crime pela tv

Parecia coisa de cinema: um homem marcado pelo tempo, caminhando por um cemitério, com as mãos metidas nos bolsos do sobretudo, os cabelos esvoaçando no vento. Suas palavras secas dando a gravidade devida ao que ele contava: um crime. Parecia um filme, mas não era. Era a vida real, era uma pessoa notória confessando um crime cometido há alguns anos. Era o apresentador Ray Goslin, da BBC, no alto dos seus 70 anos, contando como matara seu ex-amante para ter de lhe poupar sofrimentos indizíveis por causa da Aids.

A confissão feita pela TV deve estar provocando tremores de terra na Inglaterra, além da prisão de Goslin.

Para além do carnaval midiático que se possa fazer com o episódio, me assaltam muito mais as questões éticas ali envolvidas. Não posso deixar de lembrar do caso do filósofo Louis Althusser que asfixiou a própria esposa, Helene, no quarto que dividiam e que lhe causou a pior condenação a que os franceses conhecem: a impronúncia. Em ambos os casos, temos pessoas célebres e aparentemente acima de quaisquer suspeitas ligadas a homicídios de pessoas amadas e próximas. Nos dois casos, temos ações motivadas pela compaixão à dor alheia e o cumprimento de pactos de lealdade extrema. Temos crimes sim, é verdade. Temos a violação da lei, a transgressão de valores, mas a manutenção de outros. Extermina-se a vida para pôr fim à dor, ao sofrimento. Faz-se pelo amor ao outro, para satisfazer um pedido… é a compaixão, o dó, a lealdade, o compromisso, o atendimento a uma súplica de quem se ama. Mesmo que essa resposta se traduza na morte do outro amado…

Nos dois casos, Althusser e Goslin colocam seus nomes no rol dos homicidas, dos degredados, dos imperdoáveis. Do inapelável.

Difícil é defender seus atos, fácil condená-los. Difícil é aceitar o que fizeram, mesmo que os juristas atribuam um rótulo eufêmico: o suicídio assistido. Mas é preciso entender que seus atos não foram intempestivos, irracionais ou impensados. Suas decisões de cunho prático passaram inevitavelmente por seus escrutínios morais. Goslin e Althusser colocaram seus princípios e seus sentimentos na balança de maneira a ver o que mais pesava, o que mais fazia sentido, o que mais preenchia seus corações e mentes. O filósofo e o comunicador, ambos homens vividos e experientes, devem ter consumido noites pensando antes de sufocarem suas vítimas. E talvez essa palavra – “vítimas” – não seja a mais apropriada para as situações. Naturalmente, não devem ter visto seus objetos de amor como vítimas de suas ações, mas vítimas maiores de seus sofrimentos.

O que mais distingue o caso de outro é a confissão pública de Goslin. Segundo colegas de trabalho mais próximos, o apresentador decidiu contar o que havia feito num programa de TV por uma questão de coerência, de lealdade, de fidelidade ao público. Ele preparava um programa sobre a morte e vira tantas fontes abrindo seus corações e contando suas histórias que não achara justo guardar para si a sua própria. Goslin contou. Nunca saberemos o quanto há de interpretação e de espontaneidade no curto minuto de sua fala no vídeo de sua confissão. Como antes, Goslin deve ter pensado muito antes de agir. Meditou, pesou, tomou a decisão. Seu semblante está carregado, seus cabelos dançam ao sabor do vento. Ele nos oferece cada palavra como se oferecesse seu pescoço. Abre o segredo, olha diretamente a câmera e baixa o rosto, compungido. No segundo em que se detém olhando para a frente, confessa como se nos olhasse direto nos olhos. Depois, deixa cair a cabeça e se retira do enquadramento da câmera. São segundo apenas, mas o drama está lá. O drama da escolha ética, o drama de quem tem a coragem de tomar uma decisão, estando ela certa ou errada. Pouco importa ao leitor agora se concordo ou não com a ação de Goslin. Mais relevante é ver como é preciso ter coragem para decidir, para tomar caminhos, para aceitar o vento no rosto após dar o primeiro passo.

Escolher entre matar o amante ou deixá-lo sofrer até que seja naturalmente levado é uma decisão ética. Escolher entre manter o segredo ou confessar o crime diante das câmeras para todos é uma decisão de cunho ético. A vida exige coragem, pois as escolhas precisam ser tomadas a todo o momento. Alguém já falou que a vida não tem ensaio e que se aprende a viver, vivendo. O episódio de Goslin nos confirma tudo isso e nos mostra como hoje, mais do que nunca, os segredos adormecem mas não têm um sono pesado. As câmeras são nossos olhos, são confessionários. As comunidades imaginadas são coletivos de cumplicidade. Os crimes continuam a acontecer debaixo de nossos narizes e pouco ou nada sabemos deles.

É profundamente triste o que aconteceu com Goslin e seu parceiro. Seu drama me assaltou e me impeliu a escrever essas poucas linhas sobre um assunto tão complexo. Um tema que nunca poderia se esgotar num post: esta certeza de que estamos sós em nossos momentos mais verdadeiros, onde se deve refletir e tomar decisões. Incontornavelmente. Indefinidamente.

códigos de ética de todos os cantos

Se o seu interesse passa pela ética jornalística, por discussões sobre deontologia e por reflexões sobre a conduta dos jornalistas, a dica é passar pelo Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) que acaba de retornar das férias escolares com uma lista de códigos deontológicos do mundo todo. Nesta primeira edição, são 30 documentos em português e inglês. Mas a equipe promete mais novidades nas próximas semanas…

Acesse na seção Códigos.

10 links sensacionais sobre jornalismo

  1. The New York Times Inovation Portfolio – tenha paciência para carregar a página porque vale a pena ver
  2. Consultorio de Acesso à Informação Pública e Liberdade de Expressão – ferramenta útil para jornalistas
  3. Código de Deontologia para França – proposta concluída no final de outubro e que está em plena discussão
  4. Ética para fotojornalistas – valores e orientações de conduta muitíssimo interessantes para profissionais
  5. Top 50 de blogs jornalísticos – uma amostra atualizada, mas restrita dessa fatia da blogosfera
  6. Uso de mídias sociais no jornalismo – as regras da ABC Corporation, da Austrália
  7. Hiperjornalismo – recentíssimo banco de dados das emissoras de TV brasileiras
  8. Newsmap – leia manchetes – inclusive do Brasil – da maneira mais visual possível
  9. Dossiê Universidade, Mídia e Jornalismo – nem tudo está aberto para leitura, mas há muita coisa boa neste especial do The Chronicle Review
  10. Estudando jornais numa época de mudanças – Jane B.Singer escreve para o Poynter. Texto lúcido e instigante!

ética, interesse público e direito à informação

Dois eventos internacionais acontecem neste mês e trazem luz a importantes debates sobre ética jornalística, pesquisa científica na área, interesse público e direito à informação.

São eles:

  • “7º Congreso Internacional de Ética y Derecho de la Información”, que acontece em 13 e 14 de novembro em Valência, Espanha. O tema é “A liberdade das consciências na regulação do direito à informação”. O site do evento é este aqui.
  • “Journalism Research in the Public Interest”, evento da European Communication Research and Education Association, que acontece entre 19 e 21 de novembro em Zurique, Suíça. O link é este.

uma palestra em piracicaba

Amanhã, dou uma passadinha por Piracicaba – no interior de São Paulo – para uma palestra no SESC da cidade. O evento é também uma iniciativa do curso de Jornalismo da Unimep, e começa às 20 horas. Vou falar sobre ética jornalística, notícias em tempo de novas mídias, redes sociais, e os impactos disso tudo na conduta dos jornalistas. Uma parte desses assuntos está no meu Ética no Jornalismo, que segundo a organização do evento, será lançado lá também…

Faz tempo que não volto a Piracicaba. Faz tempo que não revejo amigos da área. Para um caipira de Rio Claro como eu, será um imenso prazer voltar a falar com “meu sotaque original de fábrica”…

vem aí um novo código de ética?

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) começou a defender a existência de um código que não se restrinja a normatizar a conduta de profissionais nem fixe limites às empresas, mas que a atividade em si seja minimamente regrada, como se demarcássemos cânones. Mesmo após um longo, exaustivo e legitimador processo de rediscussão do Código de Ética do Jornalista, a Fenaj recebeu críticas pela sua quarta versão do documento, finalizado em 2007. De que adianta apontar regras de conduta que nem sempre podem ser seguidas porque o profissional não é tão livre para optar por elas?, questionou-se. Como é colocado no Código a tal cláusula de consciência se o jornalista não tem margem de ação concreta para deixar de cobrir assuntos que contrariem suas convicções?, perguntou mais alguém. Por fim, uma indagação-síntese: como um código como este pode ser implementado se não foi negociado com os patrões e com os proprietários de meios de comunicação?

Este aí é um trecho do texto que publiquei hoje no Observatório de Ética Jornalística, o objETHOS.
Ficou interessado? Dê uma chegadinha lá para ler tudo, mas pegue este atalho aqui.

5 links sobre jornalismo e jornalistas

sobre otimismo e o ceticismo jornalístico

O Rio de Janeiro acaba de ser escolhido como sede dos Jogos Olímpicos de 2016, algo inédito. Na semana que nos separou do anúncio oficial do Comitê Olímpico Internacional, o noticiário foi recheado de matérias sobre o suspense da escolha. Houve reportagens mostrando as belezas naturais da cidade, as obras previstas, as vantagens obtidas, o possível legado. Houve ainda críticas, desconfiança, temores. Gente especializada ou não se manifestou. De repente, a pergunta capital era: você é a favor ou contra a vinda das Olimpíadas para o Brasil?

É natural que isso ocorra. É até esperado. O jornalismo também vive de polêmicas, também se alimenta do confronto de opiniões, da diversidade de pontos de vista. Bem como é natural que houvesse setores da imprensa que fossem notadamente avessos à escolha do Rio. O caso mais evidente disso é a ESPNBrasil, canal da TVa cabo. Lá, nomes de peso como José Trajano e Juca Kfouri eram claros em ver problemas com o “projeto Rio 2016”, tendo em vista o legado dos Jogos Pan-Americanos passados. Não se trata de birra, de dor de cotovelo. O canal é dedicado à cobertura de esportes, faz jornalismo sério, pega no pé de dirigentes, investiga, produz programas especiais, “passando a limpo”. Diferente de outros canais, de outras emissoras de TV, que também nutrem interesses neste tipo de evento.

O jornalismo é uma atividade, cujo DNA é historicamente contaminado pela crítica, pelo ceticismo, pela dúvida. Questionar, inquirir, pressionar são comuns no cotidiano da área. Jornalistas cercam suas fontes, desconfiam de suas declarações, tentam confirmar as informações obtidas. Esse ceticismo ajuda a conferir ao jornalismo uma aura própria, com envergadura que o legitima socialmente.

Mas como é que se faz jornalismo crítico num ambiente encharcado de otimismo, ufanismo, celebração?

Não me refiro apenas à “conquista” da sede das Olimpíadas de 2016. O cenário atual é extraordinariamente positivo, carismático para o Brasil. A recessão econômica que foi apontada como a maior desde 1929 foi bem enfrentada por aqui. O país reagiu bem à retração econômica, aos tremores e temores. Depois de mais de 50 anos, o Brasil vai se tornar novamente sede de Copa do Mundo, e daqui a sete anos, de inéditas Olimpíadas. Encontramos reservas espetaculares de petróleo na camada do pré-sal, e o achamento de outros importantes poços tornaram o país autossuficiente neste tipo de matriz energética. As reservas internacionais são as maiores da história. A inflação está sob controle. O nível de emprego é um indicador equilibrado. Enfim, há muitos e muitos motivos para estar contagiado pelo otimismo.

É verdade, essas razões não são as únicas que permeiam nosso imaginário. Os problemas sociais são muitos, a cultura política e partidária nacional não orgulham a ninguém, as desigualdades fazem com que milhões de pessoas sofram em toda a parte. Mas não se pode ignorar o clima contagiante de otimismo que comanda o país nesses dias.

Em Copenhagen, o presidente Lula lembrou disso. Parece que o país amadureceu, cresceu, atingiu maturidade, deixou pra trás o complexo de “cidadão de segunda categoria”, o “complexo de vira-latas”, como dizia Nelson Rodrigues. E Lula é pessoalmente muito responsável por esse resgate de autoestima, pelo reencontro de um orgulho perdido em algum lugar da história. Houve um investimento particular nisso. Na Dinamarca, Lula repetiu o slogan da campanha vitoriosa de Barack Obama: Sim, nós podemos. E talvez Obama tenha mesmo razão: Lula é o cara! O presidente-operário conseguiu muita coisa em seu governo. Por impedimentos constitucionais, Lula não pode se reeleger em 2010. No entanto, todos sabem que ele quererá fazer seu sucessor. Seu legado para isso é extraordinário, e o capital político acumulado é um grande trunfo para seu candidato (ou candidata, como todos alardeiam).

Mas e o jornalismo?

O jornalismo terá que se fazer valer qualquer que seja o cenário. Na cobertura das eleições 2010, terá que se blindar do otimismo e equilibrar crítica e ceticismo com justiça, foco e interesse público. Não se trata de ser avesso ao que é verdadeiramente bom. Mas também não se pode deixar levar por celebrações de papel, polêmicas levianas. Afortunadamente ou não, para o jornalismo, bons tempos são sempre mais difíceis de cobrir do que tempos maus.

um novo observatório de mídia

logo_objethos_pqnoEntrou em atividade na semana passada o Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), grupo de pesquisa do Departamento de Jornalismo da UFSC. O projeto é uma iniciativa minha e do professor Francisco José Karam, e reúne ainda alunos do Mestrado e, em breve, da graduação. O objetivo é desenvolver pesquisas sobre valores e condutas no jornalismo, sobre aspectos morais e deontológicos na área e sobre as mudanças que a profissão de jornalista vem passando.

A base operacional do objETHOS é o seu blog, que traz ainda dicas de livros e filmes sobre o tema, artigos e outros materiais sobre a deontologia jornalística. Se o assunto te interessa ou se você tem sugestões e comentários sobre a ética praticada no jornalismo brasileiro, o objETHOS é o seu canal. Acesse!

escândalo ético na imprensa portuguesa

O Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) acaba de publicar uma análise sobre o mais ruidoso caso que vem estremecendo a imprensa portuguesa: um jornal revela a fonte anônima do concorrente, um enredo que envolve ainda políticos, governo e espionagem a la Watergate.

Para ler, vá por aqui.

bjr trará dossiê sobre ética jornalística

A próxima edição da Brazilian Journalism Research, revista científica da SBPJor, terá um especial sobre Ética Jornalística. A publicação é bilíngue – português e inglês – e existe desde 2005.

Se você tem pesquisas ou textos cientificos reflexivos sobre esse tema, mande seus textos – nas duas línguas – até 30 de outubro.

Com periodicidade semestral, a publicação “tem como uma das suas características principais apresentar a pesquisa empírica e teórica feita nas universidades brasileiras sobre as várias práticas jornalísticas. Com isso, contribui para fortalecer o campo do jornalismo como uma área de pesquisa relativamente autônoma de outros espaços sociais. Contribui também para dar visibilidade e maior consistência aos estudos jornalísticos no Brasil”.

Para acessar a BJR, clique aqui.

Para conhecer as normas de publicação, vá por aqui.

ética jornalística: dois textos para não perder de vista

Do professor Francisco José Karam:

Por que estudar ética jornalística?

Moral profissional e ética jornalística

evento discute ética, redes sociais e fim do diploma

associeO Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro promove de 25 a 27 de setembro a 8ª edição do Enjac, o Encontro Nacional de Jornalistas em Assessoria de Comunicação. Na pauta do evento, a decisão do STF contra a obrigatoriedade do diploma de jornalismo, a ética profissional e a possibilidade da autoregulamentação, e o uso das redes sociais no jornalismo.

Entre os debatedores confirmados estão:

  • Nelson Vasconcelos, editor do caderno Digital de O Globo
  • Daniel Onida, especialista em twitter
  • Sérgio Murillo de Andrade, presidente da Fenaj
  • Claudismar Zupirolli, advogado da Fenaj
  • Walter Monteiro, advogado do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio

Participo de uma mesa sobre ética com Washington Mello, assessor do Secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais, e com Carmen Pereira, integrante da Comissão Nacional de Ética da FenajO evento acontece em Teresópolis, e a organização prevê a participação de 150 profissionais.

Para saber mais, acesse aqui.

manifesto internet: 17 constatações de como o jornalismo funciona

Paulo Querido conta como surgiu a versão portuguesa do Manifesto Internet, elaborado por um conjunto de jornalistas alemães em reação à desastrada Declaração de Hamburgo, feita por um grupo de proprietários de meios de comunicação europeus. O Manifesto Internet reacende a discussão sobre o papel do jornalismo e de jornalistas no turbulento e visceral cenário atual ultra e pós-midiático.

As 17 constatações que alicerçam o Manifesto são:

1. A Internet é diferente.

2. A Internet é um império dos media tamanho de bolso.

3. A Internet é a nossa sociedade é a Internet.

4. A liberdade da Internet é inviolável.

5. A Internet é a vitória da informação.

6. A Internet muda melhora o jornalismo.

7. A Internet requer gestão de ligações.

8. Ligações recompensam, citações enfeitam.

9. A Internet é um novo palco para o discurso político.

10. Hoje, liberdade de imprensa significa liberdade de opinião.

11. Mais é mais – não existe algo como demasiada informação.

12. A Tradição não é um modelo de negócio.

13. Os direitos de autor tornam-se um dever cívico na Internet.

14. A Internet tem muitas moedas.

15. O que está na Net fica na Net.

16. A qualidade permanece a mais importante das qualidades.

17. Tudo para todos.

Para ler na íntegra, veja o Manifesto aqui.