O assunto é sério.
Tenho analisado as estatísticas deste blog pelo WordPress e uma coisa me chamou a atenção: a grande procura e leitura por meu post “sobre fotos de acidentes e crimes”. A gente nunca sabe ao certo como se espalham as coisas pela internet e menos ainda na blogosfera. Um link aqui dado num site mais influente despeja leitores os mais diversos no blog do ilustre desconhecido.
Mas neste caso em particular, penso que a situação se explica também pela curiosidade mórbida de alguns que chegam a este espaço via motores de busca. OK. Cada um busca na grande rede aquilo que mais lhe interessa, mas algumas coisas vão além da excentricidade e da bizarrice. Recebi um comentário, não apenas contestando minha posição – de que não podemos concordar com a exploração da dor alheia, com a falta de respeito aos mortos, etc. -, mas fazendo apologia de um certo site que vive disso.
Não, você não leu errado. O site – que não vou linkar aqui – traz fotos de acidentes de trânsito, autópsias, suicídios, tragédias e até “mortes por doença” e “lixamentos” (sic). O menu avisa que há vídeos, mas muitos links estão quebrados. Seu autor defende assim as suas idéias:
“Sr. Rogério christofoletti. Eu tenho um site que mostra tudo isso que você falou. Mas discordo do comentário acima citado. Meu portal tem sim fotos chocantes de tragédia , acidentes e muito mais , mas meu intuito é orientar pessoas com fotos dramáticas. e não aproveitar da dor alheia . Meu portal é utilizado aqui na cidade onde moro , nas palestras de cfc e nas aulas de novos motorista afim de orienta los que a vida levada de forma indevida pode levar a caminhos trágicos e que transito não é brincadeira . A respeito de outras fotos postada que o conteúdo não se enquadra em vitima de acidente de transito podem também ter seu conteúdo como educativo. As fotos são todas trabalhadas afim de preservar a privacidade do indevido , mesmo morto tem familiares e amigos. Já recebi vários relatos que indicam que Motoristas , Jovens e outros que visitarão o site ficão com medo e come são agir de maneira mais cuidadosa seja no transito ou em outras situações da vida. Mas enfim , existem 1000 e 1 maneira de se educar e está foi a que eu escolhi. Carlos A C Souza”
Retirei hoje o comentário deste senhor de meu blog.
Por diversas razões:
1. Não vou dar links ou divulgar esse tipo de iniciativa.
2. Não acredito que educação se faça assim. Educação pelo medo, não!
3. O site traz uma advertência em sua home de que a iniciativa atende ao Código Nacional de Trânsito (Lei nº 9503/97). O autor quer enganar os incautos dando a impressão de que o site é de caráter educativo. Educativo uma ova!!! Basta ler o Capítulo VI da mesma lei e perceber a diferença entre as coisas.
4. O site tem a cara de pau de – após oferecer cadávares e mais cadáveres em situação calamitosa que não apenas choca, mas desrespeita a perda e a dor dos familiares – trazer no seu rodapé um banner de solidariedade a familiares e amigos das vítimas do acidente da TAM, do mês passado.
5. O site é desrespeitoso, rancoroso, moralista, sensacionalista – basta ver o layout com cores quentes berrantes e gifs animados – e de extremo mau gosto. Sem contar as chamadas do tipo “Só mortos”. O site comemora que mostra o que a TV não mostra.
6. Duvido que o dono do site tenha declarações de cessão de imagem de todas as fotos em que aparecem pessoas vitimizadas. E se ele não possui tais documentos está conflitando frontalmente a Constituição Federal e o direito de imagem, entre outras convenções inclusive internacionais. As vítimas clicadas não podem reclamar seu direito à inviolabilidade da imagem, não podem reivindicar anonimato, preservação de imagem.
Nojento! Chocante!
Este site não está sozinho, há outros por aí, claro. Mas este em particular chega a revoltar de tanto desrespeito com a vida humana, de tanta chacota com a dor dos outros, de tanta ignorância sobre o que seja educar pelas imagens.
Num ambiente exasperante como esse fica até absurdo falar em “responsabilidade”, em “ética na web”, em “auto-regulação de conteúdos”, em “conduta civilizada”…
Um nojo!