Como jornalistas podem reagir aos ataques de Bolsonaro?

(publicado originalmente no objETHOS)

Ele já te constrangeu publicamente, disse que você só espalha mentiras. Já te ofendeu, falou da sua mãe e “deu uma banana” para o seu trabalho. Constantemente, não respeita o que você faz, e te xinga porque você é mulher ou porque trabalha para esse jornal ou aquele. Seus subordinados já te impediram de participar de entrevistas coletivas, e tentaram convencer empresas a não anunciar mais nos veículos em que você trabalha. Milícias virtuais te perseguem nas redes sociais, muitas vezes instigadas pelo desprezo que ele tem por você. Não é novidade nenhuma que Jair Bolsonaro – o presidente da república – odeia o jornalismo e os jornalistas, e faz de tudo para atacá-los. A questão é: como reagir a isso?

Vamos admitir, ele não está sozinho nessa. Ministros, deputados e governadores também apontam o dedo acusador para a imprensa, diante de perguntas incômodas (mas necessárias) e questionamentos firmes (e legítimos). Empresários, pseudo-celebridades, bots e valentões de redes sociais também babam de raiva contra repórteres. Bolsonaro não está sozinho e sua postura encoraja outros a atacarem o jornalismo. Se o presidente faz, é porque está liberado fazer! Mas a verdade é que ele não pode alimentar e espalhar esse ódio contra os jornalistas. E não pode usar a posição que ocupa para atacar pessoas ou organizações, apenas porque elas o desagradam. É covarde, antidemocrático e, em algumas situações, ilegal.

Nesta semana, tivemos mais um caso de ataque coordenado para descredibilizar a imprensa: um depoente na CPI das Fake News mentiu ao dizer que uma repórter se insinuou sexualmente para obter informações. O ataque não partiu do terceiro andar do Palácio do Planalto, mas foi endossado por um dos filhos do presidente e ganhou corpo nos esgotos das redes sociais. Como reagir a isso?

Um grupo corajoso e expressivo de mulheres jornalistas mostrou como: coletivamente. Produziu um manifesto contra a agressão misógina, levando organizações e pessoas a se posicionarem publicamente sobre isso. Os céticos poderão dizer que abaixo-assinados não resolvem os problemas do mundo, e eles estão certos. Mas a resposta aos ataques de Bolsonaro e companhia passa necessariamente pela ação coletiva e pela organização dos jornalistas.

Se os super-ricos se reúnem em Davos, se os grandes industriais almoçam juntos na Fiesp, se os patrões incham os cofres das suas associações classistas, por que o jornalista – que é bem mais fraco – deve enfrentar esses ataques sozinho? Repórteres, redatores, editores, produtores de conteúdo precisam buscar seus sindicatos e associações jornalísticas, pois são ambientes que podem protegê-los e que podem organizar reações.

Organização e ação

É suicídio tentar reagir sozinho às provocações dos poderosos de plantão, já que, muitas vezes, o jornalista não encontra amparo ou apoio na empresa que em trabalha. O departamento jurídico não dá respaldo, os superiores não fornecem orientações ou equipamentos de segurança. O profissional se vê solitário, cercado por quem o odeia, sem muita chance para responder.

É preciso reagir coletivamente à agenda anti-jornalística que querem impor ao país. Jornalistas não podem ser ofendidos quando estão fazendo o seu trabalho. Não podem ser perseguidos por autoridades, constrangidos publicamente, e linchados nas redes sociais apenas porque investigam, apuram informações ou fazem as perguntas certas nos momentos incertos.

Os sindicatos, os coletivos profissionais e as associações são os lugares certos para reorganizar a categoria porque são ambientes legítimos, representativos e construídos coletivamente. Você pode até não concordar com os rumos que o seu sindicato está tomando, mas como associado pode criticar, cobrar e disputar posição. Você pode até não acreditar no sindicato como instituição de luta, mas vai se organizar onde e de que forma? Você pode achar que não vale a pena agir coletivamente porque abomina toda forma de corporativismo, mas vai apanhar sozinho enquanto seus algozes agem em bandos? Não precisamos inventar a roda de novo! Se essas entidades já existem, por que não encontrar nelas os meios de reagir às agressões que sofremos? Por que não discutir dentro delas as maneiras de garantir dignidade e respeito profissional?

Nos sindicatos, na Fenaj e na Abraji, podem ser implementados programas de proteção a jornalistas, e podem ser oferecidos cursos de capacitação e segurança. Nesses locais, podem ser debatidos meios jurídicos para se contrapor a ataques, e podem ser formulados projetos de lei que assegurem condições profissionais seguras. Campanhas de valorização da categoria podem ser gestadas, e formas de diálogo com outras entidades e a sociedade podem ser criados.

Enfim, há muitos caminhos a serem trilhados, mas a jornada é coletiva. Em grupo, fazemos mais barulho e somos mais numerosos. Em grupo, somos mais inteligentes, mais fortes e chegamos mais longe. A unidade, o senso coletivo e alguma disposição para cooperar podem nos tirar da imobilidade em que estamos, sendo ofendidos, oprimidos e perseguidos. Isso tem acontecido porque estamos fazendo jornalismo, e tentando garantir o direito à informação de cidadãos e cidadãs. Algumas forças se opõem a essa condição. Oferecer resistência é uma obrigação moral de cada jornalista. Precisamos de imaginação e organização para reagir, porque fortalecer o exercício profissional é fortalecer o jornalismo e a democracia.

Mais um jeito de ver o problema dos dados

O economista e professor da USP, Ricardo Abramovay, explica com nitidez cristalina mais um dos muitos problemas da economia baseada em dados pessoais. Ele diz que, no capitalismo convencional, os preços eram uma medida entre oferta e procura, e que oscilavam a partir da tensão entre essas duas forças. Forças que se moviam por diversos fatores.

Agora, com um punhado de empresas que coletam os nossos dados e sabem o que desejamos e quanto podemos pagar por nossos desejos, esse velho esquema sofreu fortes abalos. Afinal, quem oferece agora sabe com muita antecedência a demanda, e tem um controle das regras do mercado que nunca se teve!

Esse é mais um jeito de entender o tamanho do problema da captura, processamento, modulagem e tráfico de nossos dados pessoais!

Abramovay também fala de vigilância, controle social, interferência na democracia e outros temas que atravessam essa questão. Você pode ouvi-lo neste episódio do 451MHz, o podcast da revista QuatroCincoUm.

A liberdade é uma condição para o jornalismo ético

Desde a redemocratização, nunca a liberdade de imprensa correu tanto risco como agora no Brasil. Os últimos 34 anos mostraram governos de diversos matizes políticos, mas em nenhum deles o jornalismo foi tão atacado e o exercício da profissão sofreu tantas ameaças. São insultos, anúncios de cortes de verbas publicitárias, perseguições diversas, acusações mentirosas e outras estratégias para espalhar o medo nas redações.

Para ler na íntegra, vá por aqui.

Quem escolhe o que você come?

Os restaurantes a quilo são uma maravilha brasileira. Oferecem variedade de sabores, ajudam a reduzir o desperdício das sobras e têm preço aceitável. É sempre mais barato comer por este sistema em comparação com o à la carte.

Você chega salivando no estabelecimento, dá uma lavadinha marota nas mãos com o álcool-gel e vai logo pegando o final da fila. A fome e a conversa te distraem e você nem percebe que tem alguém definindo o que vai parar no seu prato. Já pensou por que todo restaurante a quilo tem salada no começo e carnes e alimentos mais gordurosos no final? Percebeu o tamanho das vasilhas de vegetais e as dos demais pratos? Já se perguntou quem definiu aquela sequência de ofertas? E no que essa pessoa se baseou?

Pois é. Existe um SEO ali, meu chapa.

SEO é a sigla para Search Engine Optimization, expressão que significa um conjunto de características para melhor posicionar um site num buscador da internet. Como existem zilhões de endereços na web, alguns macetes ajudam o Google e seus concorrentes a varrer a rede e encontrar mais rapidamente uns sites em detrimento de outros. Pesquisas mostram que os usuários são impacientes e frequentemente se detém na primeira ou segunda página de resultados de uma busca. Daí que usar técnicas de SEO ajuda um site a ser mais visível, o que lhe dá uma vantagem competitiva.

Mas o que isso tem a ver com o meu restaurante a quilo?

Quando eu digo que tem um SEO em ação, me refiro a um conjunto de ações implementadas para orientar as ações dos clientes. Essas jogadas são tão bem feitas que a gente nem percebe e aí, consome do jeitinho que o dono do produto quer.

É por isso que as saladas são oferecidas primeiro e as carnes depois. Vegetais são produtos mais baratos, e os alimentos mais elaborados não são só mais caros, como dão mais trabalho no preparo, requerendo cozinheiros, assistentes etc. Assim, você enche seu prato com algo bem volumoso e deixa menos espaço para algo que é até mais saboroso, mas também mais dispendioso. Como você sucumbe à sedução das cores vívidas e cheiros apetitosos da gordura e outros venenos maravilhosos, você nunca deixa de colocar aquele bife mal passado no cantinho do prato. E como há só 2 centímetros quadrados de área disponível, você coloca dois pedaços, e monta um em cima do outro. É a lei da compensação! Você nem ia comer dois pedaços, mas estava tão irresistível aquilo tudo, e aí, aproveita…

Você acaba fazendo um prato mais pesado, paga mais e o dono do restaurante fica feliz da vida… No outro dia, você volta e a roda gira de novo sem o cliente perceber.

Há restaurantes que argumentam que seus menus são elaborados por nutricionistas que não só garantem a qualidade e a variedade nutricional, como o equilíbrio calórico. Há ainda quem diga que são os nutricionistas que decidiram que os vegetais devem vir primeiro, pois são mais saudáveis e ajudam a preparar o estômago para a digestão… a-hãm… pode até ser, mas já tentou começar a se servir invertendo essa ordem? Talvez você não consiga pois há um sistema muito eficiente para moldar o seu comportamento: a fila. Tente furar ou tumultuar a fila e os demais clientes vão torcer o nariz e talvez até roubem aquela linguicinha do seu prato. Para não ferir suscetibilidades, você evita esses transtornos sociais e se adequa ao formato imposto. Com uma diferença: acha que tem liberdade para escolher o que quiser para comer.

Na-na-ni-na-não. Você só pode comer o que o restaurante oferecer, na sequência que ele determinar e mais ou menos na mesma quantidade, afinal, o tamanho do prato também é um elemento definidor naquele sistema. Essas ações funcionam de forma integrada e ajudam a determinar comportamentos, a orientar atitudes.

Claro que eu não estou dizendo para você evitar restaurantes a quilo. Eu adoro eles também. Mas eles me fazem pensar que não sou apenas eu quem escolhe o que vai no MEU prato…