Rosalía nos ensina a rezar diferente

“Lux”, o álbum mais recente de Rosalía, é um escândalo de coisas fortes e belas!

Tem patada irônica com La Perla, tem dramalhão com Sexo, Violencia y Llantas, e tem delicadeza com Sauvignon Blanc. Mas o melhor mesmo é quando ela mistura dores de amor terreno com amor profundo e religioso. Reliquia é minha faixa preferida, mas em La Yugular ela faz algo maravilhosamente novo: nos mostra como um amor transcendental desafia e comporta todas as outras formas de amar. Para mim, Rosalía nos ensina a rezar diferente neste trecho:

Yo quepo en el mundo (Eu caibo no mundo)Y el mundo cabe en mí (E o mundo cabe em mim)Yo ocupo el mundo (Eu ocupo o mundo)Y el mundo me ocupa a mí (E o mundo me ocupa)Yo quepo en un haiku (Eu caibo num haicai)Y un haiku ocupa un país (E um haicai ocupa um país)Un país cabe en una astilla (Um país cabe numa lasquinha)Una astilla ocupa la galaxia entera (Uma lasquinha ocupa a galáxia inteira)La galaxia entera cabe en una gota de saliva (A galáxia inteira cabe dentro de uma gota de saliva)Una gota de saliva ocupa la 5a avenida (Uma gota de saliva ocupa a Quinta Avenida)La 5a avenida cabe en un piercing (A Quinta Avenida cabe num piercing)Un piercing ocupa una pirámide (Um piercing ocupa uma pirâmide)Y una pirámide cabe en un vaso de leche (E uma pirâmide cabe num copo de leite)Y un vaso de leche ocupa un ejército (E um copo de leite ocupa um exército)Y un ejército cabe metido en una pelota de golf (E um exército cabe numa bola de golfe)Y una pelota de golf ocupa el Titanic (E uma bola de golfe ocupa o Titanic)El Titanic cabe en un pintalabios (O Titanic cabe num batom)Un pintalabios ocupa el cielo (Um batom ocupa o céu)El cielo es la espina (O céu é um espinho)Una espina ocupa un continente (O espinho ocupa um continente)Y un continente no cabe en Él (E um continente não cabe nEle)Pero Él cabe en mi pecho (Mas Ele cabe no meu peito)Y mi pecho ocupa su amor (E meu peito ocupa o Seu amor)Y en su amor me quiero perder (E no Seu amor eu quero me perder)
Que bárbaro!

Chegou o outono

Chet Baker e Paul Desmond anunciam a nova estação: Autumn Leaves

Miles Davis faz 90 e continua milhas à frente

queremos milesParece piada, mas foi verdade.

Miles Davis estava num jantar na Casa Branca e uma socialite igualmente branca se aproximou dele e tentou se enturmar: “Quem é o senhor e o que está fazendo aqui?”. Miles falou com sua voz de lagarto: “Vim a convite do presidente porque mudei o panorama da música umas três ou quatro vezes”.

As palavras podem não ter sido exatamente as mesmas, mas Miles não exagerou.

No dia em que ele completaria 90 anos – hoje, 26/05/2016! -, basta olhar ao redor, apurar bem os ouvidos e perceber como não apenas foi instrumentista excelente, band leader temperamental, mas acima de tudo um inquieto renovador da música.

Para celebrar o dia do aniversário, alguns presentes:

Billie fez 100 e nem parece

Eu poderia começar assim: “Se estivesse viva, Billie Holiday teria feito cem anos ontem…” – Mas não!

Billie está viva, sabemos todos. Então, recomeçarei dizendo que, para uma estrela, um século de existência não é nada, é a espessura de uma folha de papel sobre o Empire State Building… Estrelas giram no espaço por bilhões de anos, e Billie só está engatinhando…

Pois é, nega-véia, o tempo passou e você continua a mesma: sofrida, doída, sensual, rascante, romântica, oblíqua-e-dissimulada, única. Dissonante, inspiradora, emocionante. Tenho pena de quem nunca te ouviu. Tenho mais de quem te escutou, mas não te ouviu. Para aqueles que não cansam de te ver cantar, repetimos a cada verso: volta, vai! Como diz a inscrição famosa de cemitério, “nós que aqui estamos, por vós esperamos!”

Sabe mesmo o que eu quero?

Je Veux d’l’amour, d’la joie, de la bonne humeur…

death jazz!

Começa assim: um japonês gorducho, vestido de preto, com chapéu de aba larga e com pinta de gigolô grita por um megafone. Na verdade, anuncia o título da música que está por vir. Um segundo japonês – este careca! -, vestido com uma camisa coloridíssima, dança como uma minhoca ao mesmo tempo em que toca o seu saxofone. Ele puxa a fila, pois um terceiro japonês com óculos berrantes, cabelos encaracolados (!) e um trompete colado nos lábios, berra notas altíssimas. A luz inunda o palco e já são seis japoneses, uma brigada formada ainda por baterista, tecladista e baixista.

O conjunto da obra é bem esquisito: eles dançam freneticamente, se espalham por todos os cantos e o som atravessa as paredes. Uma sonzeira pra falar a verdade. Parece pop, parece R&B, parece qualquer coisa dançante e irresistível, mas é jazz. Death Jazz!, corrige o chefe da banda, aquele que mais parece um gigolô, e que só se ocupa de desfilar, supervisionar a performance alheia, puxar palmas da plateia e dar palavras de ordem pelo megafone.

Esquisito é pouco. Imagine uma banda japonesa de jazz que põe todo o mundo pra dançar! Até o nome é estranho: Soil & “Pimp” Sessions. Chega de palavras. Arraste os móveis na sala e ouça (em volume alto, por favor).

brandford marsalis: again never

Para a semana começar bem…

aqui, jazz!

Ainda celebrando o Jazz Day

Jamie Cullum e um jazz muito rock & roll… Mixtape:

E já que ele está de aniversário… 100 anos de Dorival Caymmi, com um jazz sinfônico de O samba da minha terra e Saudade da Bahia:

dia de jazz, bebê!

É hoje! Celebre!


Miles Davis – Cool Jazz


Dizzy Gillespie e Louis Armstrong – Umbrella Man

 

salve a sua alma

O sempre excelente Jamie Cullum canta e toca um dos melhores momentos de seu mais recente disco “Momentum”:

“Save your soul”

Ao vivo no lendário Abbey Road. Ganhe o domingo e salve a alma…

fernando, dulce e o infante

Fernando Pessoa, transbordante de uma nostalgia nunca vivida – porque não havia pisado o século 16 -, escreveu esse atroz poema. Dulce Pontes, transbordante de emoção, musicou os versos. A apresentação a seguir se deu em Istambul, que já foi Bizâncio e que já foi Constantinopla.
Senta e ouve. Pode chorar, se quiser.

dingo!

Miles Davis, Michel Legrand e uma ilusão fílmica…

feche os olhos e ouça

É segunda-feira. Então, siga Astor Piazzolla e Gerry Mulligan…

agosto começa bem…

… com Nicholas Payton: Into the blue.

feliz dia do rock

Heavy Metal, com Miles Davis

Tutu, de Miles Davis

quando baquetas viram batuta

Não são muitos os grupos de jazz que têm como bandleader um baterista. Talvez o caso mais memorável seja o de Art Blakey e seus Jazz Messengers. Mas temos um caso muito especial ultimamente. É o Jonathan Blake Quintet, que esteve recentemente no Brasil para o BMW Jazz Festival. Blake, com o porte de um urso, move suas baquetas com suavidade, autoridade e leveza. Parece um maestro e sua batuta. Parece acariciar as peles estendidas dos tambores, caixas, bumbos e chimbaus.

sim, há esperanza…

O mundo é maravilhoso. Com ela: Esperanza Spalding. Abraçada ao seu contrabaixo acústico e sussurrando ao microfone…

wild is the wind

Pra começar bem a semana…

e o amor, hein?

Outro dia, em Congonhas, na banca de revistas, passo por um rapaz com uma mochila nas costas. Percebo o zíper aberto, e reconheço o sujeito: “Criolo, sua bolsa está aberta!”. Ele se volta sorridente: “Obrigado, meu querido!”.

Eu o chamei de “Criolo”, e ele de “meu querido”. Contei o episódio à minha esposa, e ela se escandalizou com a minha forma de tratamento. Expliquei quem ele era, e tudo terminou bem. “Ele te conhecia?”, ela perguntou. Eu sorri balançando a cabeça. “Ele só foi gentil”. Alguém já falou que gentileza é um outro nome para o amor. Um tipo dele. Aliás, é o próprio Criolo quem já fez um belo apelo para mais amor… Vale!

stardust: coltrane

Depois de uma semana com asteróide raspando a Terra e de meteorito varrendo a Rússia, só mesmo fechando com poeira de estrela…

Depois de um entardecer suspirante como este, do último dia do horário de verão, depois na chuva e do arco-íris e do sol insistente… poeira de estrela…

Coltrane conta como.

o céu que nos protege

Ryuichi Sakamoto só precisa de um piano para construir um céu.

marsalis, o branford

Essa família Marsalis é talentosíssima, e um dos filhos – Wynton – é certamente o mais famoso. Mas tem Branford, que assina uma das peças mais tocantes deste filme de Spike Lee de 1990. O filme é Mo’ better blues, e a música é Again Never. Feche os olhos e abra os ouvidos…

concierto de aranjuez: chet baker, ron carter, jim hall…

Era uma vez um violonista espanhol chamado Joaquín Rodrigo. Era uma vez os jardins do Palacio Real de Aranjuez, tão inspiradores que provocaram o tal Rodrigo a escrever um concerto para eles… Era uma vez, então, uns músicos brilhantes… um na guitarra, outro no contrabaixo, outro no trompete e outros mais, todos juntos e… bem, chega de história… assista você mesmo!

Concierto de Aranjuez

se eu fosse gravar uma fita…

I’ll make you mixtape that’s a blueprint of my soul
It may sound grand but babe it’s all you need to know
I’ll make you a mixtape that will charm you into bed
It details everything that’s runnung round my head

enquanto a chuva não para…

… que também não pare a música!

Jamie Cullum destroi o piano…

almost blue: 2 takes

Com Diana Krall, a esposa do criador da obra-prima, Elvis Costello

Com Chet Baker e ela: