um estrabismo insistente estreita mais a razão

Uma confusão tem sido recorrente no debate que cerca a obrigatoriedade do diploma para jornalistas: tomar por sinônimas as expressões “liberdade de expressão” e “exercício profissional”. Entretanto, existe um abismo entre as duas coisas.

Em resposta ao meu post que criticava a ideologização da discussão, Mauricio Tuffani afirma que o que está em jogo no Supremo Tribunal Federal é

uma concepção do direito de liberdade de expressão que tem um significado muito maior que aquele insistentemente repetido por muitos sindicalistas e professores de jornalismo. Trata-se de um direito que não pertence apenas à categoria dos jornalistas, mas a toda a sociedade.

Mas é evidente que o direito à livre expressão não é e não pode ser um privilégio de jornalistas. Este direito é extensivo a todas as pessoas, na medida em que garante a elas a troca de idéias, a manifestação do pensamento, a formulação de opiniões e juízos. É um direito previsto na legislação e em protocolos consagrados internacionalmente, como a Declaração Universal dos Direitos do Homem, como já citou Tuffani. O artigo 19, em especial, merece uma leitura mais atenta que a realizada pelo autor:

Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

Note-se que o artigo não menciona “produzir” ou “elaborar” informações. Isto é, o direito vige numa esfera ampla, generalista, e não restritiva ao mundo do trabalho. Jornalistas também são cidadãos, e também gozam do direito da livre expressão. Mas em sua condição profissional, produzem, elaboram, difundem informações com o propósito de abastecer a sociedade com dados que permitam uma compreensão melhor da realidade.

Não se pode esquecer também que o conjunto das atividades jornalísticas não se resume apenas à livre expressão. Há colunistas, articulistas, editorialistas que, sim, ocupam-se da formulação de idéias e da sua disseminação em escala massiva. Mas os demais profissionais do jornalismo não se expressam em suas lidas diárias. O que fazem é tentar oferecer ao público relatos dos acontecimentos que, por ventura, foram alçados à condição de noticiáveis. Para alcançar essa situação, os fatos devem conter elementos que dialoguem com valores de noticiabilidade, elaborados no mundo do jornalismo e que, cotidianamente, ajudam a organizar essa atividade. Esses valores compõem um rol de saberes específicos da profissão, conhecimentos a que se tem acesso nas escolas de jornalismo.

Mas voltando à Declaração Universal, encontramos o inciso 2 do artigo 29 que é esclarecedor na tensão entre direito e lei.

No exercício de seus direitos e liberdades, todo ser humano estará sujeito apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.

Isto é, o direito à livre expressão se estende até a fronteira que inicia a demarcação de uma atribuição profissional, a regulamentação do exercício jornalístico, por exemplo. Note-se que não há contradição entre os artigos, mas complementaridade já que são contemplados o direito do cidadão comum a manifestar sua opinião e o direito do jornalista a exercer sua profissão (conforme o artigo 23).

Se recorrermos à Constituição Federal e ao próprio Tuffani, veremos que os dois direitos são também atendidos.

“É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” (inciso IX do artigo 5º)

 “É livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer (inciso XIII do artigo 5º)

Desta forma, insisto que não se deve tomar por idênticos o direito à livre expressão e o exercício profissional do jornalismo. Se assim o fizermos, poderíamos por extensão confundir o direito à justiça com o exercício da advocacia, ou o direito à saúde com a prática da medicina. Em todos esses casos, o direito mais geral não colide com a atribuição profissional, que depende de qualificação técnica, de habilitação legal e de competências e habilidades específicas. Misturar as coisas é fazer prevalecer um estrabismo que prejudica nossa visão e compreensão. Embaçar as fronteiras entre ambos provoca, isso sim, o estreitamento da razão.

Se o que está em discussão no STF no imbróglio sobre o diploma é a concepção de direito à liberdade de expressão, esse debate não pode desconsiderar o lugar estratégico que a mídia (seus veículos, sistemas e profissionais) ocupa na vida social atualmente. Cada vez mais central na existência contemporânea, a dimensão da comunicação social precisa dispor de profissionais altamente capacitados para fazer as mediações necessárias entre os fatos e os públicos, contribuindo para o entendimento e o desenvolvimento humano e social.

O professor Eugenio Bucci formulou uma definição de jornalismo que é, ao mesmo tempo, ampla e precisa: O jornalismo é uma atividade que existe para satisfazer um direito do cidadão comum, o direito à informação. Neste sentido, essa atividade profissional – exercida por pessoas capacitadas e habilitadas – encontra justificativa social, utilidade pública e dimensão coletiva para a sua existência.

Dito dessa forma, o estrabismo insistente se dissolve e o campo de visão de abre para uma compreensão melhor do que temos adiante.

sobre nossa precariedade e insuficiência teóricas

Fiquei particularmente satisfeito com a conferência de Jacques Mick no segundo dia do Encontro de Professores de Jornalismo do Paraná e Santa Catarina, que aconteceu em Joinville na sexta e ontem. O foco de Mick eram os novos desafios à pesquisa, ensino e extensão na perspectiva do jornalismo do futuro, e sua fala foi secundada por comentários de Maria José Baldessar (UFSC), Tomás Barreiros (Universidade Positivo) e Elaine Tavares (SJSC).

Mick centrou sua fala na crítica de que os professores de jornalismo ainda sofremos de grande insuficiência teórica para justificar a profissão e o campo que constituímos. Para o autor, avançou-se pouco no Brasil em termos de Teoria do Jornalismo desde o lançamento de O Segredo da Pirâmide, de Adelmo Genro Filho, em 1987. Nos últimos anos, o país viu se espalharem as escolas de Jornalismo e os cursos de pós-graduação em Comunicação, condições que ajudaram a formar quadros qualificados para a academia e o mercado, mas para Mick, esses esforços se traduziram muito pouco em avanços verdadeiros na teorização do campo. “Esse desenvolvimento, o desenvolvimento teórico é uma necessidade do jornalismo”.

Em tom acadêmico, mas flagrantemente provocativo, Jacques Mick apontou dois aspectos que são marcantes na academia: a) Persiste uma obediência à normatividade técnica, reforçando e reproduzindo práticas do mercado, em detrimento da inovação; b) Há pouco espaço para a produão teórica na área.

Esses aspectos, segundo Mick, acabam criando um cenário bastante complacente, permissivo até entre os autores brasileiros. É “raro o pensamento novo”; as obras são quase sempre recebidas sem muita discussão; parece prevalecer entre os acadêmicos um compadrio – este termo não é dele -, sobrando generosidade e generalidades nas resenhas de livros e artigos. Mick põe o dedo na ferida de todos nós, com muita razão (ouso dizer), alertando para o pouco enfrentamento teórico, prática que torna vulnerável a nossa produção teórica.

Para Mick, hoje – vinte anos depois de Adelmo Genro Filho -, quando dispomos de mais escolas, de mais força na academia, de mais doutores e mestres nos corpos das universidade, os desafios para o ensino-pesquisa-extensão no jornalismo são mais acadêmicos que institucionais. Isto é, a bola está no nosso pé…

Minha satisfação ao ouvir Jacques Mick não se deve ao fato de que torço contra o campo do jornalismo. Claro que não. Mas é preciso reconhecer que ainda temos muito o que fazer, muito o que amadurecer na compreensão do jornalismo e nos seus entornos. Essa insuficiência, essa carência, essa precariedade teórica vem minando nossos passos. Já disse isso com relação à discussão sobre o diploma.

Enfrentar essa realidade é olhar-se no espelho e reconhecer falhas, para depois, traçar novos rumos e passar a caminhar com mais força e vigor.

discussão sobre o diploma está muito ideologizada

As últimas semanas têm sido muito agitadas no que tange a discussão em torno da formação dos jornalistas. A Fenaj divulgou ostensivamente uma pesquisa que mostrava que a maioria da população prefere que os profissionais do jornalismo passem por cursos superiores na área. O resultado da sondagem serviu de munição para a entidade que mobiliza a categoria para o julgamento no Supremo Tribunal Federal da liminar que desobrigou a exigência de diploma universitário para jornalistas.

(Para quem não se lembra, em outubro de 2001, a juíza Carla Rister atendeu a uma ação civil pública que pedia essa desobrigatoriedade. A ação foi movida por grandes empresas jornalística e, concedida a liminar, permitiu que mais de sete mil pessoas obtivessem registros profissionais independente de diploma na área)

Dias depois, uma matéria do site Congresso Em Foco colocou mais lenha na fogueira, informando que a maioria dos magistrados que julgarão a matéria já sinalizou pela rejeição à obrigatoriedade. O próprio ministro da Educação, Fernando Haddad, chegou a sinalizar que os cursos de graduação poderiam não ser as únicas portas de entrada de profissionais no jornalismo.


Gritaria na web
Na internet e entre jornalistas, estudantes e pesquisadores da área, o assunto tem rendido discussões acaloradas. No Observatório da Imprensa, todas as semanas, artigos são publicados e versões são confrontadas. Numa lista eletrônica restrita a professores e pesquisadores da área, o professor Marcos Palácios insistiu em discutir aprofundadamente a possibilidade de mestrados profissionalizantes serem uma alternativa na formação de quadros mais qualificados para a profissão. Em poucos dias, a mensagem de Palácios foi objeto de reações as mais diversas, quase todas muito, mas muito apaixonadas, fazendo prevalecer argumentos corporativos e questionáveis.

Na blogosfera, gente influente do mercado e da academia vem se posicionando. Carlos Castilho (Código Aberto), por exemplo, ressalta o fato de que as escolas de comunicação não têm sido capazes de formar profissionais que possam enfrentar os novos desafios do jornalismo, provocados pelas novas tecnologias.

Alex Primo, por sua vez, afirma que a defesa do diploma não poder ser uma defesa do diploma per se, mas da formação de qualidade dos profissionais. Marcelo Träsel pega o gancho e envereda para o impacto que as novas tecnologias vêm provocando na atuação cotidiana desses profissionais. Já Márcia Benetti criticou violentamente a morosidade da inteligentsia brasileira, esperando uma atitude mais pró-ativa na condução e elevação do nível dos debates. Cética, ela acha que a batalha no STF está perdida e com a desregulamentação no jornalismo, não só os jornalistas perderão.


Os sofismas da liminar
Discuto a obrigatoriedade do diploma desde 2001, a partir da concessão da liminar. De 2002 a 2005, debati o tema, mesclando preocupações conceituais e corporativas, já que ocupava a vice-presidência do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina. Desde então, tenho feito uma autocrítica que me faz ver que a condução da questão não pode seguir essa orientação. Isto é, hoje, o debate está muito, mas muito ideologizado, o que é uma pena. Afinal, as questões centrais são deixadas de lado.

Primeiro, é sofismático o raciocínio que sustenta a liminar da juíza Carla Rister. Grosso modo, ela afirma que restringirmos o exercício do jornalismo àqueles que detêm diplomas universitários é um desrespeito à liberdade de expressão e a manutenção de um privilégio elitista. As premissas estão incorretas. Não se pode confundir o direito à liberdade de expressão com o exercício profissional do jornalismo. São coisas de natureza distinta. O primeiro é um direito, previsto em diversos protocolos, inclusive na Declaração Universal dos Direitos do Homem. O segundo é uma atribuição específica que depende de uma habilitação para tal. Isto é, o exercício de uma profissão exige conhecimentos técnicos, competências e habilidades para ser efetivado. No caso das profissões regulamentadas – e o jornalismo é uma delas -, há outras exigências, inclusive burocráticas para a obtenção de registro profissional. A inclusão da obrigatoridade de diploma universitário é uma maneira de contribuir para que os quadros que exerçam o jornalismo passem por uma formação mais ampla, mais específica, mais qualificada. Isso garante que essa formação aconteça? Claro que não. Mas as leis prescrevem e outros instrumentos devem garantir a efetivação das políticas previstas em lei.

Se formos confundir o direito à liberdade de expressão com o exercício profissional no jornalismo poderemos também nos exceder e misturar acesso à justiça (um direito) com a possibilidade de ser advogado (um exercício profissional regulamentado, previsto em lei e consolidado como prática social há anos)…


Cortar a cabeça do paciente
Outro sofisma na liminar é o que condena a elitização. É verdade que nem todos têm acesso aos bancos escolares universitários. É verdade também que o salário mínimo previsto na Constituição não garante o sustento pleno de uma família de quatro pessoas. Nem por isso se defende por aí o fim do salário mínimo. O que se faz é a reivindicação de seu aumento, e da sua extensão como uma remuneração mínima, referencial para o mundo do trabalho. Da mesma maneira, não se pode atribuir à regulamentação dos jornalistas um insucesso da política pública nacional de universalização do ensino superior. Se as universidades ainda são um sonho e uma realidade de poucos, deve-se trabalhar para transformar essa realidade, e não atentar contra os cursos ou as instituições.

Retirar a obrigatoriedade do diploma para jornalistas é recuar na história na medida em que reforçamos o entendimento de que não é necessário estudar, não é preciso se habilitar ou se capacitar para uma dada profissão. Com isso, antipedagogicamente, contribui-se para a idéia de que a escola não forma, não ajuda no desenvolvimento do sujeito, tem um papel sobressalente e descartável.

Pensando assim, agimos como o médico que decide cortar a cabeça do paciente que se queixa da dor. Decepar a parte doente não resolve o problema. Não se cura a dor. Pior: mata-se o paciente…

De qualquer forma, cabe pensar. Se as escolas brasileiras de comunicação são incapazes de despejar no mercado de trabalho profissionais qualificados, por que as empresas – de todos os portes e de todas as partes do país – continuam contratando esses jovens jornalistas?


Qualidade na formação
A discussão acerca do diploma para jornalistas sempre traz à tona uma suspeita sobre a capacidade das escolas de formar bons profissionais. Um argumento recorrente é o de que o mercado poderia fazer o mesmo, de forma mais barata e mais direcionada aos seus propósitos. Esse argumento é facilmente derrotado quando se lembra que o mercado não tem prerrogativa nem atribuição para formar profissionais, já que esta função é das escolas, das instituições e sistemas de ensino, que existem para isso. A idéia pode ser derrubada também pelo fato de que o mercado não tem condições de treinar e aprimorar todos os contingentes que anseiam por isso. O mercado não ensina, as empresas não têm infra-estrutura nem tempo ou prioridade para fazê-lo.

Cabe e deve caber às escolas de comunicação esse serviço: preparar profissionais para os desafios do mercado e as demandas sociais. As escolas de comunicação precisam ter (e muitas já têm) as condições necessárias para formar bons profissionais, já que reúnem quadros qualificados (e em constante aperfeiçoamento), infra-estrutura, experiência pedagógica. Há escolas ruins? Sim. Mas há boas também. USP, UFBA, Cásper Líbero, as PUCs, a UFSC, a UFRJ e a UnB não são bons exemplos de escolas de jornalismo?

Como em outras áreas do conhecimento, há exemplos e contra-exemplos. Veja o caso do Direito. Existem centenas de escolas no país que despejam milhares de novos profissionais todos os semestres no mercado. Apesar dessa quantidade, a OAB – volta e meia – se queixa que os concursos para juízes não preenchem a totalidade de suas vagas por conta da performance insuficiente dos candidatos. Nem por isso se prega o final das escolas de Direito no país… O que a OAB faz é recomendar as boas escolas, e com isso – de maneira afirmativa – sinaliza saídas positivas, esquenta a concorrência e obriga os cursos pouco recomendados a correr atrás…

As escolas de comunicação têm muito a melhorar? Sim, e precisam se preocupar com isso. Professores e pesquisadores da área precisam construir instrumentos e indicadores que afiram qualidade de ensino, eficiência na formação. Com isso em mãos, é mais fácil visualizar os resultados dos cursos, seus impactos nos mercados regionais, suas influências nas práticas e processos cotidianos, e até mesmo em procedimentos inovadores.

Nos anos 90, setores da academia que formavam a Fenaj concluíram um documento bastante importante para a qualificação do ensino na área do jornalismo. O Programa Nacional de Estímulo à Qualidade da Formação em Jornalismo é um instrumento detalhado, abrangente e aprofundado. Sabe-se que o texto de 1997 passou por avaliações e ajustes, e mesmo assim, passada mais de uma década, poucas escolas colocaram tais políticas em funcionamento. Não porque a proposta seja ruim. Pelo contrário: de tão boa, de tão comprometida, as escolas sentem dificuldade de contemplar todos os pontos, o que inviabiliza a sua implementação.

Entre outras coisas, significa que só o documento da Fenaj não basta e são necessários outros elementos para influenciar positivamente as instituições de ensino.


Debate ideologizado
O que, modestamente, venho percebendo é que a discussão em torno do diploma tem sido contaminada muito mais por elementos ideológicos do que racionais ou práticos. Isto é, a defesa do diploma fica muito circunscrita a argumentos circulares que endeusam o diploma por sua essência e não pelas qualidades ou potencialidades que pode reservar. Com isso, a defesa da formação universitária em jornalismo alcança contornos meramente corporativos.

É preciso entender que é legítima a atuação corporativista de sindicatos e da própria Fenaj, afinal, são entidades classistas e têm a função de defender os interesses da categoria. Entretanto, a questão da (boa) formação dos jornalistas transcende os interesses profissionais, já que jornalismo e comunicação são atividades de finalidade pública, de clara interferência no cotidiano e no imaginário das pessoas. Isto é, essa questão afeta a todos, produtores ou consumidores de informação. Como é o caso da Medicina ou da Engenharia, por exemplo. Imaginem se estivesse em questão a formação universitária (ou não) de médicos ou engenheiros? Isso não afeta toda a sociedade que se serve de seus serviços?

Como disse, é legítima a defesa corporativa do diploma, mas é insuficiente. A sociedade ou o STF não se comovem ou se mobilizam por isso. É necessário mostrar que o jornalismo é uma atividade de caráter social, e o seu exercício dependem de preparo técnico, de rigor ético, de comprometimento com o interesse público, entre outros fatores que incidem concretamente na vida das pessoas.

A campanha pela defesa do diploma que a Fenaj tem levado adiante tenta mostrar essa faceta mais social do jornalismo, mas não sei se vem causando os efeitos desejados. Por quê? Porque a Fenaj é parte interessada na manutenção do diploma, por uma questão de reserva de mercado, de controle da entrada dos profissionais no ramo. E porque é parte interessada, sempre será olhada como suspeita…

Por isso, hoje, não sei mais se a Fenaj deveria liderar e conduzir o debate acerca da formação dos jornalistas. Não porque seja ilegítima. Não porque não seja representativa. Não. A Fenaj é uma instituição legitimada e representa 31 sindicatos de jornalistas em todo o Brasil. Tem 60 anos de grandes contribuições à categoria e à profissão. Mas há tempos vêm sofrendo desgastes políticos internos e externos que combalem a sua imagem, e isso dificulta a sua atuação.

O discurso compreensivelmente ideológico da Fenaj em torno do diploma cumpriu um papel fundamental de colocar a questão na agenda nacional, de mobilizar setores nas redações e assessorias, nas escolas e nas instituições. A Fenaj e os sindicatos devem manter suas palavras de ordem, suas falas e seus discursos de mobilização, já que não podem (nunca) renunciar as suas funções políticas e aglutinadoras. Mas, insisto, a ideologização do debate sobre o diploma não cumpre propósitos além dos da mobilização.

Mas se não a Fenaj, quem deve liderar esse processo? O Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo? A Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo? A Associação Brasileira de Imprensa? O Conselho Nacional de Comunicação Social? A Sociedade de Estudos Interdisciplinares de Comunicação? Sinceramente, não sei que entidade conseguiria reunir legitimidade, representatividade e autoridade para tanto. Talvez nem uma nem outra. Talvez um novo coletivo, especialmente formado para isso. Não tenho essa resposta. Mas é fundamental que a academia, o mercado e outros setores da sociedade possam qualificar o debate, dando mais nível e direção às discussões. É importante que esses atores contribuam para a compreensão da questão, que pensem e proponham saídas, e que tenham no seu horizonte de trabalho um único objetivo: atender às demandas da sociedade.

Se conseguirmos mostrar que o jornalismo é algo relevante e essencial para a sociedade; se conseguirmos mostrar que o jornalismo deve ser exercido por profissionais especializados e bem formados; e se conseguirmos mostrar que o nosso sistema de ensino pode responder por essa demanda social; aí, sim, estaremos contribuindo substancialmente para uma sociedade e um jornalismo melhores.

ATUALIZAÇÃO de 20/10/2008: O professor Jacques Mick (Ielusc) também tratou de nossa insuficiência e precariedade teóricas na conferência que deu no 2º Encontro de Professores de Jornalismo de Santa Catarina e 4º do Paraná. Um resumo aqui.

ATUALIZAÇÃO de 21/10/2008: Retomo esse assunto para debater com Mauricio Tuffani aqui.

velhos jornalistas projetam o futuro do jornalismo

Dois nomes muito influentes no jornalismo norte-americano vêm vaticinando os próximos passos da indústria jornalística – a de meios impressos, em particular – diante da avalanche diária de novidades tecnológicas: Bill Kovach e Philip Meyer.

Esses velhos jornalistas tentam enxergar à frente, pontuando o que teremos a seguir. Tudo bem, eles tratam do mercado dos Estados Unidos, mas não se pode ignorar o cenário de lá para pensar soluções por aqui, não é mesmo?

Aos links, portanto:

Bill Kovach lista doze questões para o futuro do jornalismo

Philip Meyer aponta que o fim dos jornais impressos está mais próximo do que pensávamos

google nos deixa mais burros?

Joel Minusculi me falou de uma pesquisa que mostraria que a internet nos deixa mais burros. O texto saiu na Época Negócios (aqui) e, em resumo, menciona artigos de Nicholas Carr. Para ele, a internet vem modificando nossos cérebros e afetando nossa memória e resistência de leitura. Isto é, por conta do Google e Cia., não conseguimos ler textos mais longos. Ok, um prato cheio para quem quer satanizar as novas tecnologias.

Os argumentos de Carr são curiosos, interessantes, mas não me convenceram. Eu gostaria de ler a íntegra das pesquisas – cujos textos devem certamente ultrapassar dez ou quinze página – para me certificar…

(Se você, como eu, foge à regra de Carr, leia o texto dele que iniciou essa polêmica. Eu aviso: não é um texto curto)

a crise americana e nós

Ando perdendo muito dinheiro com a crise de confiança nos mercados.
Mas não vou me queixar neste blog. Vou mesmo é matar meu consultor de finanças…

Só quatro numerinhos:

1. O governo Bush quer repassar US$ 700 bilhões pro setor financeiro.

2. O rombo, na verdade, é maior, segundo comentário de Joelmir Betting, ontem na Band: US$ 1,5 trilhão.

3. O PIB brasileiro em 2007 foi de R$ 2,6 trilhões, o que convertido em dólar (câmbio de hoje) daria perto de US$ 1,4 trilhão.

Isto é, o governo Bush quer transferir meio PIB do Brasil pros bancos.
É ou não é um bom negócio ser banqueiro em qualquer parte do mundo?

“falta de educação”, danos morais, indenização, orkut e uma decisão brasileira

(Deu no UOL Educação)

A Justiça de Rondônia condenou 19 pais de estudantes a pagar indenizações a um professor de matemática de Cacoal (500 km de Porto Velho) que, somadas, resultam em R$ 15 mil.

O professor foi alvo de ofensas dos alunos no Orkut. Eles criaram, em 2006, a comunidade virtual “Vamos Comprar uma Calça para o Leitão”, ilustrada com a foto e o nome do professor Juliomar Reis Penna, 33. Na comunidade, dez alunos da oitava série, com idades de 12 a 13 anos, escreveram ofensas, piadas, questionaram notas e ameaçaram o professor.

“Eu ajudo a furar os pneus do Vectra dele […] Vamos quebrar os vidros, jogar açúcar dentro do tanque de gasolina”, foram alguns dos recados deixados pelos alunos.

Condenados em primeira instância, os pais dos alunos recorreram ao Tribunal de Justiça de Rondônia. Alegaram que o fato fora apenas uma “brincadeira infantil”. O argumento foi rejeitado pelo juiz relator da 2ª Câmara Cível do TJ-RO, Edenir da Rosa, que avaliou como “grave” o teor dos comentários publicados na internet.

No recurso, os pais disseram ser “impossível” vigiar os filhos vinte e quatro horas por dia, justificativa considerada “frágil” pelo TJ-RO.

Denunciados pelo professor ao Juizado da Infância e da Juventude, os alunos reconheceram a criação da página e a autoria dos recados. Como medida socioeducativa, oito estudantes tiveram de apresentar palestras para adolescentes sobre o uso responsável da internet.


(SE A MODA PEGA…)

mec estuda: outros profissionais poderiam exercer o jornalismo

Deu na Folha, hoje:

O MEC (Ministério da Educação) estuda autorizar profissionais que tenham formação universitária em qualquer área a exercer a profissão de jornalista. O ministro Fernando Haddad (Educação) também quer discutir as diretrizes dos cursos oferecidos na área que passarão por uma supervisão, a exemplo do que ocorreu com direito, medicina e pedagogia.

Ainda neste mês, o ministro disse que vai constituir um grupo de trabalho para apresentar, em 90 dias, uma proposta nesse sentido. “A comissão fará uma análise das diretrizes curriculares do jornalismo e, sobretudo, das perspectivas de graduados em outras áreas, mediante formação complementar, poderem fazer jus ao diploma.”

Ele disse à Folha que seu objetivo não é entrar na discussão travada no STF (Supremo Tribunal Federal) e no Ministério do Trabalho sobre a obrigatoriedade do diploma, mas tratar da formação do jornalista. Do ponto de vista prático, se o STF –que deve julgar ação neste semestre– entender que o diploma de jornalista é obrigatório, a discussão se tornará inócua.

“No mundo inteiro as pessoas se formam nessa área, mesmo onde não há obrigatoriedade. Sou favorável à boa formação. Não discuto a questão do exercício profissional.”

Para um profissional formado em outra área ser habilitado ao diploma de jornalista, ele precisaria cursar disciplinas essenciais para a formação na área, como técnica de reportagem, ética e redação, disse ele.

Para Max Monjardim, chefe da comunicação do Trabalho, a discussão poderia se dar no grupo que discute a regulamentação da profissão, do qual participa: “Seria bom se o ministro indicasse algum representante da Educação para participar do grupo que já está funcionando [no Trabalho]”.

O presidente da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), Sérgio Murillo de Andrade, considerou a proposta de Haddad “inoportuna”. Ele também participa do grupo criado pelo Trabalho. “É uma proposta feita por alguém que está distante da realidade da profissão.” A ANJ (Associação Nacional de Jornais) disse que não comentaria a idéia por ser só uma proposta e porque o assunto está sob o exame do STF.

No Supremo, o relator é Gilmar Mendes, que já autorizou profissionais da área a se registrarem sem possuir o diploma.

ganhou bolsa, se mandou, não voltou. mas vai pagar…

Vocês sabem: há muito dinheiro para pesquisa científica no Brasil. Qualquer um consegue recursos para construir seus laboratórios espaçosos-modernosos-bem-equipados. Qualquer um que entra em mestrado ou doutorado consegue bolsa antes mesmo de se matricular. E, claro, hoje, somos potências científicas à frente da Eritréia e do Turcomenistão…

Pois bem. Mesmo com essa torrente de dinheiro, tem gente que abusa.

Imagina que tem gente que consegue bolsa pra fazer doutorado fora do país, se qualifica e decide não voltar pro Brasil. Imagina que esse mesmo pessoal, ao receber o benefício, se compromete por escrito a retornar e devolver à sociedade, ao país que investiu na sua formação, o investimento feito.

E vocês imaginam que o Supremo condenou uma professora a ressarcir o CNPq em R$ 160 mil porque ela simplesmente não retornou ao país após ter passado nababesca temporada na Inglaterra?

Não acredita? Então, leia aqui a notícia completa.

controle da internet brasileira: uma entrevista

Joel Minusculi entrevistou o Sérgio Amadeu para o Monitor de Mídia. O assunto ainda é o controle que alguns “nobres parlamentares” querem impor à internet brasileira.

Ficou curioso? Vai lá ler!

o futuro dos jornais… mais uma vez

Especialmente para meus alunos de Introdução ao Jornalismo.

Rosenthal Calmon Alves, jornalista brasileiro que dirige o Knight Center for Journalism in the Americas, da Universidade do Texas, em Austin, deu uma entrevista ao Estadão sobre o futuro do jornalismo.
São quase 28 minutos de uma entrevista interessante, esclarecedora e instigante.
O áudio não está uma maravilha, mas vale ouvir.
A repórter é Marili Ribeiro e vocês podem ouvi-los aqui.

ficha suja, consciência limpa e um desajuste

O Supremo Tribunal Federal decidiu ontem por 9 votos a 2 que os candidatos que estiverem respondendo processos e que ainda não tiverem nenhuma condenação poderão disputar cargos nas eleições municipais deste ano (leia mais aqui). Claro que a sociedade já chia. Afinal, manda o senso comum que gente com ficha suja não possa assumir cargos públicos, de representação, onde se espera conduta ilibada.

Eu entendi a decisão do STF. Os togados estão preocupados com um princípios do direito: a presunção de inocência, e mais. Ninguém é culpado antes de ser julgado. Seria o caso dos candidatos com processos nas costas. Afinal, eles ainda não foram sentenciados e tal.

Sim, os togados bateram o martelo para ficar com a consciência limpa de que essa garantia será mantida, mesmo que provoque e permita a eleição de um salafrário qualquer.

Sim, é legal a decisão da maior corte do Brasil. É legal, mas não é justa. Tanto é que a sociedade se queixa, rumina e vomita dizendo que o país não tem mais jeito, já que os maiores juízes daqui deixam gente que responde processo ser prefeito ou vereador.

É legal, tá na norma. Mas colide com o que a gente entende por ser justo.

Taí uma lição que é amarga: seguir a lei nem sempre corresponde a fazer justiça.

sobre jornalismo e sobre o racha no sindicato

É incômoda a constatação, mas ela é verdadeira: a mídia não cobre a mídia, os jornalistas não se ocupam de acompanhar e registrar, e investigar e inquirir os próprios jornalistas. Salvo raras exceções.

No episódio atual do racha do sindicato (a que me referi aqui, aqui e aqui), poucos colunistas da imprensa tocaram na questão. Moacir Pereira foi lacônico ao mencionar o manifesto divulgado pelo grupo que discorda da condução da sucessão na entidade. Alessandro Bonassoli, do Notícias do Dia, escreveu algo também. Mas foi Cesar Valente, do Diário do Litoral, quem mais vem tratando do tema. Ontem mesmo voltou à carga, respondendo a comentários em seu blog, um meu e outro de Maria José Baldessar, professora da UFSC.

Cesar justifica seus comentários de que o grupo queixante estaria “morrendo de vontade de entrar na chapa”.

Ao ler o manifesto ficou-me a impressão que se tratava disso: um grupo ficou de fora da composição da chapa única e estava reclamando porque gostaria de estar na chapa. É provável que tenha entendido errado, porque dois dos signatários do manifesto dizem que não foi bem isso que quiseram dizer.

Ora, vai me desculpar, mas qual é a obrigação do jornalista? Checar os lados. Cesar conhece boa parte dos signatários do manifesto, ele mesmo disse. O colunista conhece gente da chapa em questão. Por que não ligou, não mandou email? Por que não perguntou, não foi confirmar informações? Dessa forma, evita-se uma série de atropelos e deslizes jornalísticos. É lição básica de jornalismo, checar as informações, apurar os dados, mesmo que eles sejam oficiais. Se não, a coisa fica muito mais parecida com fofoca, com comentário na esquina do Senadinho, com diz-que-diz.

A surpresa que muitos colegas jornalistas e blogueiros manifestam sobre o racha demonstra claramente o afastamento, a distância que estão mantendo do sindicato. E por várias razões, inclusive do próprio sindicato. Já fui dirigente e sei das imensas dificuldades de se atrair os colegas para as discussões, da colossal dificuldade de demolir uma cultura de crítica cega e intransigente diante de qualquer ação desta natureza. Parece que sindicato – no Brasil – é tudo igual, todos são mal intencionados, todos querem “se beneficiar”, todos são partidários.

E reafirmo: não é assim.

Pensar assim é se entregar ao senso comum, e – do ponto de vista jornalístico – errar, já que não se checou a informação, já que não foi conhecer aquele fragmento de realidade.

daniel dantas e um roteiro cinematográfico para o país

Nos anos 90, tivemos oportunidades sensacionais para acompanhar em tempo real uma saga com tons semelhantes aos maiores filmes de gângster, com pitadas de suspense, lances inesperados, crime e mortes.

O presidente estava enredado numa teia de corrupção. Até o pescoço. Seu tesoureiro de campanha, uma eminência parda no governo, era o homem de frente nos negócios escusos. O presidente foi denunciado pelo irmão, enciumado. Sim, o presidente teria avançado sobre a cunhada. O presidente foi impedido de governar, renunciou, deixou o governo. Morreu a esposa do tesoureiro. A mãe do presidente entrou em coma. O irmão-delator morreu de um câncer devastador. O presidente saiu de cena. O tesoureiro foi encontrado morto com a namorada, na cama. Sangue, corrupção, ganância…

De lá pra cá, tivemos escândalos ruidosos também, e o Mensalão trouxe o enredo mais megalomaníaco. Tinha como protagonistas um ministro influente e um deputado-falastrão. Abalou o Planalto, derrubou bastante gente, mas a República se refez.

Agora, com os acontecimentos das últimas semanas, temos um filme que parece ser um verdadeiro arrasa-quarteirão. A prisão de um banqueiro com ligações estreitíssimas com o Parlamento, com camadas do Executivo e com todos os demais focos do poder trouxe à tona um enredo não totalmente desconhecido, mas não menos surpreendente pelo teor de enxofre e uréia que exala. Foi preso e foi solto pelo STF. Foi preso novamente, e mais uma vez solto pela corte maior do país. Um jornalista contou que – na segunda vez em que estava com os federais em interrogatório -, o banqueiro ameaçou contar tudo, entregar todos. Curiosamente, o STF deu novo habeas corpus, isto é, aceitou a chantagem. Com isso, deflagrou uma crise no próprio Judiciário. Ontem, 400 – eu disse, quatrocentos – procuradores e juízes manifestaram-se publicamente contra o presidente do Supremo, dando apoio ao magistrado que pediu a prisão por duas vezes do milionário. Agora, parcelas do Judiciário no sul e sudeste do país cogitam pedir o impedimento do presidente do STF.

Na mídia, foi dito mais de uma vez que estamos assistindo a colonoscopia do Brasil, que mergulhamos nos intestinos do país. Justamente lá, onde encontramos a alma e as fezes.

Já temos um novo filme para o país. Não tão novo, é verdade. Mas o fedor é fresco, e como embrulha o estômago!

bombando a petição online contra projeto de azeredo

Em três dias, mais de 7,5 mil pessoas assinaram a petição online que pede o veto ao projeto de lei do senador Eduardo Azeredo sobre cibercrimes.

O projeto tem atrocidades que podem penalizar o compartilhamento de arquivos e a própria evolução da internet brasileira. A blogosfera está reagindo à ação. Para saber mais sobre o texto, leia a análise de Sergio Amadeu e a de Raquel Recuero.

uma petição online pede o veto ao projeto de azeredo

Gente conectada é gente articulada!

Além dos emails que lotam as caixas eletrônicas de deputados e senadores; além da blogagem coletiva condenando o projeto; além dos selos e das peças gráficas carimbando um não à proposta retrógrada e míope do senador Eduardo Azeredo, além disso tudo já há na internet uma petição online que pede o veto ao projeto que amordaça a web. Quem avisa é o Caribé!

Se você não quer que a internet brasileira contribua para o avanço do conhecimento, para o compartilhamento de idéias e para uma inteligência coletiva, ASSINE JÁ!

controle da internet e o respeitável senador

Você tem boa memória?

Deve-se lembrar que o respeitável senador Eduardo Azeredo, este que quer penalizar a web brasileira, é aquele mesmo que estava envolvido no escândalo do Mensalão em Minas, ligado ao conhecido Marcos Valério e tal…

Foi só pra lembrar…

diarinho se ferra, mas nem tanto

Deu no Consultor Jurídico, ontem:

O jornal Diário do Litoral, de Santa Catarina, terá de indenizar em R$ 10 mil por danos morais o policial militar Jéferson Schmidt, por ter relacionado o seu nome a um homicídio. A decisão é da 3ª Câmara de Direito Civil do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, que confirmou sentença da comarca de Balneário Camboriú.

A Sociedade Editora Balneense Ltda EPP e o advogado Carlos Cesário Pereira, diretor do jornal quando da publicação da notícia, deverão arcar, solidariamente, com a compensação ao policial.

Para a relatora do processo, desembargadora Maria do Rocio Luz Santa Ritta, as acusações proferidas foram precipitadas. A publicação no periódico local, segundo ela, tinha grandes chances de repercutir no meio social. “O direito de informar afigura-se condicionado à observância de outros direitos coexistentes, tais quais a honra e a vida privada, que se lhe superpõem e cujas violações acarretam dever de indenizar”, destacou. A decisão foi unânime.

Histórico

Em abril de 2000, o Diário do Litoral, conhecido como Diarinho, acusou Jefferson pelo assassinato de Luiz Gustavo de Oliveira Leitão, encontrado morto nas dependências do Ciretran (Circunscrição Regional de Trânsito) de Balneário Camboriú.

Por ser policial militar e por atuar como árbitro de futebol, Jefferson Schmidt disse que sua imagem — tanto na carreira esportiva como militar — ficou arranhada. Já a editora alegou que o texto publicado apenas transcrevera informações repassadas pelo delegado de polícia, sem a intenção de ofender a honra, imagem ou reputação do PM.

Tá, o jornal perdeu.
Mas a indenização é pequenininha perto do estrago.
10 mil não limpa a honra de ninguém!!!

chamem o ladrão!

Manchete do Jornal do Brasil de hoje: “Preso o ex-chefe da Polícia”.

Não é só isso. O cidadão em questão cumpria mandato de deputado estadual. Ontem, a Polícia Federal cumprindo mandado de prisão foi até a casa do ilustre para prendê-lo. Detalhe: o ex-governador do Rio de Janeiro, e patrão do preso, também foi arrolado no processo.

(Capa de O Dia de hoje, 30 de maio de 2008)

(Primeira página de O Globo do mesmo dia)

(O Extra também deu…)

Com manchetes como essas, com o Rio do jeito que está, só resta mesmo chamar o ladrão quando a gente precisar…

já temos a “barriga” do ano!

No Observatório da Imprensa desta semana – que acaba de chegar à rede -, há vários textos comentando o erro jornalístico mais ruidoso da imprensa nacional em 2008. Isso mesmo! A suposta queda de um avião de passageiros da Pantanal sobre um prédio em São Paulo. Na verdade, tratava-se apenas de um incêndio. Mas a blogosfera reagiu mal à pressa dos jornalistas.

Para saber mais:

Sobre as contradições do jornalismo – texto de Venício A. Lima no Observatório da Imprensa

Noticiário de telejornal derruba avião – de Gilson Caroni Filho, também no OI

Avião atinge prédio, ou loja de colchões, ou de tapetes – de Urariano Mota, no OI

Guerra dos Mundos nas chamas de MoemaMauricio Pontes, no OI

GloboNews derruba avião da PantanalManuel Muñiz, no OI

Divulga-se primeiro, para se confirmar depoisAdriano Faria, também no OI

No blog do GJOL, há três links:

UOL derruba avião da Pantanal em cima de loja de colchões

Avião que Record, Globo e UOL derrubaram chega à Espanha e Alemanha

Como se derruba um avião: efeito dominó

Que barriga!

a amazônia é de todos

Basta dar uma olhadinha na banca de jornais, uma rodadinha pelos canais de TV ou uma voltinha na web e a gente se depara com a falação do momento: os gringos estão crescendo o olho sobre a Amazônia.
A capa da revista Isto É desta semana é sintomática:

No outro canto da banca, O Estado de S.Paulo berra: A Amazônia tem dono. E na semana que passou assisti a duas vezes, ao menos, a veiculação de um editorial da Band sobre o tema, conclamando o governo a tomar pé da situação. Joel Betting e José Luiz Datena leram “a opinião da Band”.

Não sei nada de Amazônia. Nunca fui até lá. Não sei nada de direito internacional e tenho uma idéia vaga de soberania nacional. Mas de qualquer forma não custa perguntar: Não é estranho que essa gritaria toda ganhe a mídia logo após a saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente? Se eu fosse um sujeito persecutório e encanado, diria que uma parcela influente da comunidade internacional estaria pressionando o governo brasileiro pelos flancos, os flancos ambientais. Lembra daquela queda de braço do biodiesel brasuca e do biodiesel à base de milho?

Todos parecem querer falar da Amazônia, pôr as mãos nos seus recursos, tirar fotinhos com macacos e indiazinhas ribeirinhas. A Amazônia é de todos. Ao menos nos sonhos…

nelson rodrigues: 10 frases definitivas

Não conheço a Renata Correa, mas soube no Twitter que ela compilou 10 frases definitivas e memoráveis do Nelson Rodrigues.

Você pode não concordar com todas, mas não pode deixar de reconhecer que ele era um frasista espetacular. (Obrigado, GPavoni, pela dica!)

As frases, mastigadinhas:

Todo canalha é magro.

Toda família tem um momento em que começa a apodrecer. Lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão…

Toda coerência é, no mínimo, suspeita.

 Sexta-feira é o dia em que a virtude prevarica.

 Amar é ser fiel a quem nos trai.

Desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste, azeda e neurastênica.

O carioca é o único sujeito capaz de berrar confidências secretíssimas de uma calçada para outra calçada.

O brasileiro é um feriado.

O pior cego é o surdo. Tirem o som de uma paisagem e não haverá mais paisagem.

A pior forma de solidão é uma compania de um paulista.

13 de maio: negras não aparecem nos jornais

Se os negros aparecem pouco na mídia catarinense, as mulheres negras freqüentam muito menos espaço nos jornais. Esta é uma das principais conclusões de uma pesquisa desenvolvida no curso de Jornalismo da Univali, em Itajaí, e que conta com financiamento do CNPq. “Essas mulheres aparecem em apenas 2,3% das fotos publicados nos três principais jornais do Estado”, revela Roberta Watzko. A pesquisadora se debruçou sobre as páginas do Diário Catarinense, Jornal de Santa Catarina e A Notícia durante cinco meses, observando as fotos e catalogando cada imagem conforme a etnia e o gênero das pessoas retratadas.


“Foram mais de 34 mil fotos registradas entre outubro de 2007 e fevereiro de 2008”, completa o orientador da pesquisa Rogério Christofoletti. “Os resultados apontam para uma quase invisibilidade da mulher negra na imprensa. Nossos dados mostram que estatisticamente essas mulheres aparecem menos do que correspondem na população no estado”, completa. Segundo o Censo de 2000, mulheres pardas e negras somam 4,5% dos habitantes em Santa Catarina, números que hoje são mais significativos, já que a Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar (PNAD) de 2006 sinaliza um contingente bem maior dessas etnias.


De acordo com Roberta Watzko, a pesquisa ainda está em desenvolvimento. “Já concluímos a fase de levantamento estatístico da presença desses sujeitos na imprensa. Agora, voltaremos a esses dados e observaremos onde e como essas mulheres aparecem nos jornais”. A acadêmica de Jornalismo afirma que os dados da pesquisa não permitem concluir quais as razões da pouca presença das mulheres negras nas páginas da imprensa. “Sabemos que há preconceito na sociedade, e a imprensa parece reforçar esse comportamento, promovendo um certo ‘branqueamento’”.

 

Denominada “Mulheres Negras nas páginas dos jornais catarinenses”, a pesquisa é continuação de outro estudo desenvolvido em 2005 e 2006, quando foi identificada a presença dos negros nas fotos dos mesmos jornais. “Naquela época, não estávamos preocupados com a questão de gênero”, lembra Christofoletti. “Nossos resultados mostraram pouca visibilidade dos negros nas fotos, mas o que mais nos chamou a atenção foi onde eles apareceram. Quase sempre estavam nas páginas de esportes e cultura, restritos a jogadores de futebol ou músicos”. Parte dos resultados da primeira pesquisa foi apresentada em eventos científicos e publicada em uma revista portuguesa.

(Do press-release distribuído pelo Monitor de Mídia)

frank comenta o famigerado auxílio-funeral

(Por Frank Maia, de A Notícia)

um manifesto para a web e sua fauna

De tempos em tempos, palavras conseguem dar sentidos que parecem definitivos aos desejos e vontades das pessoas. Às vezes, essas palavras resultam em plataformas eleitorais; em outras, transformam-se em odes; em outras ainda, viram manifestos.

Pois recebi um link para um texto de Marco Gomes que eu já chamaria de um Manifesto para a Web, palavras de ordem para o mundo que estamos construindo com cliques, bits, sentimentos e razões as mais diversas. “Eu faço parte da revolução” lembra – com links, claro! – como a web e seus usuários produtores e compartilhadores de conteúdo têm modificado não apenas a comunicabilidade mundial, mas também as formas como nos associamos.

Vale a pena ler e guardar. Ler e voltar a ler de tempos em tempos.

wikis e dicionários: não, eu não mudei

Recebi um email que me obriga fazer um anúncio público: não! eu não mudei!
Claro que não vou dizer o santo, mas divido o milagre.
A mensagem em questão é esta:
“…quando fui tua aluna, você implicava até com o Aurélio [o dicionário] que é a nossa ‘última palavra’. Já faz tempo, tenho visto você credibilizando a wiki [pedia] que é construção coletiva…. Você está mudando mesmo, hein? Eu fui fazer citações no meu pré-projeto do trabalho de final de curso usando a wiki e já levei pau. Me falaram muitchas e a nota já desceu. Eu gosto dela, mas parece que o povo da academia nao…”
Como já disse aquele rapaz dos becos de Londres, vamos por partes:
1. Implico sim quando o aluno entrega um trabalho ou texto que começa com definição de dicionário. Quando o trabalho é do tipo monográfico ou científico, pior ainda. Pior porque geralmente o aluno usa a definição de dicionário para fechar a questão, sintetizar o que quis dizer, balizar com o pai-dos-burros. Dicionário é ponto de partida, e um trabalho científico deve trazer o diálogo entre autores, com diferentes visões. O sentido não é fechar, mas abrir para fechar. Se o dicionário resolvesse tudo, não precisaríamos dos outros milhões de livros que existem, tentando explicar as coisas…
2. Usar a wikipédia é diferente, embora muita gente faça o mesmo acima. Usa-se a wikipédia e fecha-se a questão. Enciclopédias, como dicionários, são pontos de partida. Por isso, iniciam a busca, não a finalizam. Pode-se usar dicionários ou enciclopédias, mas o que não se pode é ficar restrito a uma ou duas referências apenas. Taí o perigo.
3. Tenho falado da wikipédia porque ela é um fenômeno cada vez mais crescente e influente na web, é irreversível e incontornável. Não podemos fechar os olhos diante dela, até porque a sua própria existência tem influenciado a existência de outras enciclopédias.
4. Tenho falado da wikipédia também porque precisei estudá-la junto com minha ex-orientanda de mestrado, cujo trabalho foi defendido hoje sobre a confiabilidade (ou não) dessa enciclopédia como referência de pesquisas escolares.
5. A pesquisa em questão ouviu alunos e professores sobre o uso, a aceitação e a confiabilidade dessa fonte como referência para as pesquisas de universitários. O processo de credibilização, de reputação está em franco desenvolvimento, e por isso, é muito possível que alguns (ou muitos) professores não aceitem a wikipedia em trabalhos. Mesmo os que aceitam isso, não podem tolerar que só uma referência sirva de base de sustentação de textos e pesquisas.
Será que me fiz entender?

a batalha da tv a cabo

Se na TV aberta o barulho é sobre as adaptações que as emissoras precisam fazer para adequar suas programações conforme os fusos horários no país, na TV a cabo a gritaria é sobre o projeto 29/2007.

comentei aqui sobre a mentirosa campanha veiculada nas emissoras a cabo: aquele papo furado de que se o projeto for aprovado, o assinante não mais escolheria o que assistir. (Se fosse assim, eu mesmo quereria fazer meu mix de canais, jogando fora as emissoras que me fazem engolir com seus pacotes).

No Observatório do Direito à Comunicação, João Brant faz uma excelente análise de uma segunda versão que tramita na Câmara Federal sobre o projeto. O PT, pelo jeito, roeu um pouco a corda e aceitou algumas das pressões dos exibidores e das teles.

Veja o que Brant diz:

Acima de tudo, o novo substitutivo é resultado claro das fortes pressões empresariais. Da maneira como está, ele contempla os interesses das teles, que conseguem entrar no mercado. Para os grandes grupos que controlam a TV por assinatura, especialmente a Globo, muda pouco. Com as pressões feitas, elas conseguiram diminuir sensivelmente as cotas, o que faz com que os avanços para a produção nacional e independente sejam tímidos. De toda forma, a definição dessas cotas abre uma janela importante. Pela primeira vez uma lei brasileira determina claramente a obrigação de veiculação de produção independente na televisão”.

Para ler a ótima análise, clique aqui.

vão encolher mesmo a notícia

Deu no informativo eletrônico do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina: o Grupo RBS vai tornar o jornal A Notícia – que anexou em 2006 – em mais um tablóide.

Conforme o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina havia adiantado no dia 17 de março, o jornal A Notícia terá novo projeto gráfico no próximo mês. A informação foi confirmada pelo editor-chefe do AN, Nilson Vargas, na quinta-feira (20), quando detalhou as mudanças para a redação. O formato será tablóide (27,5 por 37,5), com o primeiro caderno (de 36 páginas, no mínimo, mais três cadernos temáticos) sendo grampeado. Haverá duas rodagens: estadual, às 22h30; e outra, às 23h30, para Joinville. O conteúdo sofrerá mudanças gráficas e editoriais: textos mais focados na cidade e região; mais cores, fotos e infográficos nas páginas. Algumas equipes já estão definidas e os jornalistas serão remanejados de acordo com as formações dos grupos nas editorias. Informou-se ainda que haverá contratações de profissionais. A jornada de trabalho tenderá a ser menor, ficando a cargo dos editores apresentarem sugestões para atingir tal objetivo. A data de circulação da primeira edição é nove de abril. O an.com deve mudar de nome e também entra em operação com nova cara já na madrugada do mesmo dia. 

Com esse novo projeto, a empresa pretende aumentar a carteira de assinantes, de anunciantes institucionais e da venda avulsa. Também está previsto um maior faturamento para o ano de 2008. Indicadores mostram que o AN, apenas no primeiro trimestre, obterá excelente receita de publicidade, incrementada com a publicação de balanços patrimoniais das empresas. Até o dia 15, a empresa já havia atingido 85% da meta do mês

Vou provocar: A partir de 9 de abril, os três maiores jornais catarinenses serão do mesmo dono, terão o mesmo tamanho, redações trabalhando em paralelo e abocanhando a maioria do bolo publicitário. Dá pra entender o otimismo.

Pena que o leitor não ganha nada com isso!