o jornalismo para além de sua indústria

O clichê mais desgastado do jornalismo é que ele está mudando muito e rapidamente.

Enquanto quase todo o mundo repete o mantra, alguns alongam a vista e lançam opiniões, previsões e análises. Tem de tudo! Há quem preveja dia, mês, ano e horário em que os jornais pararão de circular; há os que se apeguem às rotativas e às broadcasting com todo o fervor; e há ainda os que culpam as redes sociais pelo colapso da cultura, da civilização e de toda a humanidade.

No mar dos profetas, volta e meia, aparece quem tenha algo robusto e interessante a dizer. Foi assim no ano passado quando C.W. Anderson, Emily Bell e Clay Shirky produziram um alentado relatório sobre o tema para o Tow Center for Digital Journalism da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia, uma das mais prestigiadas do mundo. Sob o título “Jornalismo Pós-Industrial”, o documento é o que os autores chamaram de um ensaio para tentar entender o que se passa no mundo do jornalista, entre os profissionais e organizações a que se dedicam a isso, e ao entorno (o que é mais impressionante!).

O documento tem 60 páginas em média e pode ser acessado na íntegra (em PDF e em inglês aqui ou em espanhol aqui). Uma versão para o português foi especialmente traduzida por Ada Félix para a Revista de Jornalismo ESPM. O Observatório da Imprensa reproduziu essa versão em capítulos, que você pode acessar aqui: Introdução (Adaptação aos novos tempos), capítulo 1 (Os jornalistas), capítulo 2 (As instituições), capítulo 3 (O ecossistema) e conclusão (Movimentos Tectônicos).

O jornalista Carlos Castilho, colunista do Observatório, publicou em seu blog dois posts que oferecem um bom resumo do documento (aqui e aqui), mas se você é jornalista, pesquisador, estudante da área ou apenas um interessado no assunto, NÃO DEIXE DE LER o trabalho de cabo a rabo. Claro, faça os devidos descontos: foi elaborado a partir de referências e especialistas norte-americanos e reflete o estado da coisa por lá; é composto por análises, mas também por uma boa dose de futurologia; não tece considerações a longo prazo (sabiamente!); não tem caráter científico, embora se apoie em alguma metodologia… Particularmente, senti falta também de ponderações mais amplas e aprofundadas sobre aspectos éticos na profissão e para os usuários em geral, mas isso é uma cisma minha…

De qualquer maneira, “Jornalismo Pós-Industrial” é hoje uma leitura obrigatória para a área. Não chega a ser um mapa que nos guie para fora da alardeada crise. Não chega também a ser uma bíblia cuja leitura esconjure as muitas ameaças que nos rondam. Mas é um esforço sistematizado, equilibrado e atualizado não apenas dos tremores que nos assustam, mas das muitas oportunidades que se descortinam. Só por isso já vale a pena conferir…

7 questões éticas para o jornalismo digital

Andrés Azocar, diretor de Meios Digitais do grupo midiático chileno Copesa, perguntou no Webinário de hoje à tarde na Red Ética Segura de Fundación de Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI):

  • Os critérios éticos do jornalismo convencional servem para a web?
  • Deve-se aceitar o erro como forma de evolução?
  • De quem são os cliques: dos meios ou dos agregadores?
  • O que é melhor: opinar ou informar?
  • O que fazer: ser o primeiro ou ser o melhor?
  • Editar ou censurar os comentários?
  • Qual a ética da tecnologia?

Questões muito, muito importantes…

a internet do mundo e a máquina de moer carne dos eua

Responda rápido: o que há de comum entre Aaron Swartz, Bradley Manning, Julian Assange e Edward Snowden?

Muitas coisas ligam esses nomes, a começar pelo fato de que usam a internet para revelar informações e fatos que muitos tentam ocultar. Mas não só isso. Nenhum deles tem mais de 45 anos, e todos pertencem a gerações diretamente afetadas pelas novas tecnologias de informação e comunicação. Todos desafiaram agências de inteligência e o governo norte-americano trazendo à luz iniciativas mesquinhas, neuróticas e moralmente questionáveis.

Bradley Manning é o ex-oficial acusado de ter vazado centenas de milhares de dados sigilosos dos Estados Unidos e que municiaram o WikiLeaks no maior escândalo da história da diplomacia mundial. Foi caçado, preso e está sendo julgado por diversos “crimes”, entre os quais “traição”. Ele tem 25 anos e exibiu uma face simplesmente abjeta do Império. Pode pegar prisão perpétua.

Por falar em WikiLeaks, seu líder, o australiano Julian Assange, também encarou o Monstro. Foi perseguido por norte-americanos, suecos e ingleses e ficou detido em prisão domiciliar. Para além dos vazamentos que constrangeram diplomatas e poderosos, mostrou como helicópteros Apache metralharam civis e jornalistas em suas ações “táticas”. Refugiou-se na Embaixada do Equador em Londres. Precisa viver clandestino para sobreviver. Nada nem ninguém podem garantir isso.

Aaron Swartz era um prodígio da web e tinha colaborado diretamente com algumas das soluções mais inteligentes e solidárias para compartilhamento de informação e conhecimento. Foi perseguido pela justiça norte-americana por ter “roubado” milhões de artigos científicos em bases de dados por assinatura. Detalhe: a maioria das pesquisas relatadas naqueles artigos havia sido financiada por recursos públicos, mas mesmo assim as tentaculares empresas do ramo cobram pelo acesso a esses textos, e os seus autores nada ganham com isso… Aaron foi perseguido, preso, acusado por diversos “crimes” e ameaçado a pegar 35 anos de prisão mais multa milionária. Tinha 26 anos e não suportou a pressão, e se suicidou em janeiro deste ano.

Edward Snowden é a bola da vez. O ex-assistente técnico da CIA denunciou os sistemas de vigilância interna dos Estados Unidos a telefones e emails. Jogou um facho de luz sobre o rosto do Big Brother. Republicanos e democratas se alternam nas condenações ao ato antipatriótico do rapaz, que precisou sumir. Nada nem ninguém pode garantir sua integridade física diante da caçada que se anuncia.

As campanhas difamatórias aos quatro sujeitos acima aconteceram nos últimos cinco anos. As perseguições não foram perpretadas por George W.Bush ou Ronald Reagan, mas por Barack Obama, o democrata, sedutor, liberal e popular presidente da era das redes sociais. A instauração do terror virtual, a truculência e o abuso de poder vêm de um governo supostamente mais conciliador que o isolacionista anterior. Vem de um presidente jovem, com uma biografia admirável, que já ganhou o Nobel da Paz e que sinalizava uma transformação real no panorama das relações globais.

Não, isso não é um filme de ficção. A neutralidade da rede está em perigo, a internet como arena global corre riscos reais, e os usuários do sistema estão sendo monitorados, quando não criminalizados, oprimidos e eliminados. A inocência é uma palavra amarelada no dicionário, mas a política é um instrumento movido a ideias, palavras e ações. A política se faz nas ruas e diante dos teclados. Como a ética, a lei e a guerra, a política é uma invenção humana para buscar o equilíbrio. Arregace as mangas, então!

chyperpunks, criptojornalismo e assange

capa-cypherpunks-provisc3b3riaCoincidências, ah, as coincidências… Bem na semana em que começo a ler “Cypherpunks – liberdade e futuro da internet”, o novo livro de Julian Assange, tropeço em “Cryptoperiodismo – manual ilustrado para periodistas”, de nelson fernandes (assim mesmo, sem iniciais maiúsculas) e Pablo Mancini. O primeiro traz quase 170 páginas de diálogo do rosto à frente do Wikileaks com três importantes ativistas e programadores sobre quebra de privacidade na web, segurança, vigilância e outros temas relacionados. Jacob Appelbaum, Andy Müller-Maguhn e Jérémie Zimmermann dividem com Assange preocupações sobre a nossa convivência online no presente e além. De quebra, fortalecem o movimento dos chyperpunks, os criptopunks, que defendem privacidade para as pessoas comuns e transparência para os poderosos. Polêmico, instigante, atual.

“Cryptoperiodismo” não mergulha tanto, mas vai na mesma trilha: a necessidade de os jornalistas se resguardarem em ambientes virtuais, preservando identidade, fontes e informações. É um guia, em espanhol, e disponível no site do livro.

Se você é jornalista ou não, pouco importa. Mas se eu fosse você, não desviaria dos alertas que esses dois livros trazem. Na pior das hipóteses, fazem a gente pensar.

jornalismo após wikileaks e news of the world

O World Press Freedom Committee e a Unesco promovem hoje e amanhã o seminário “A mídia mundial após o WikiLeaks e o News of the World”, evento que vai reunir jornalistas e experts de diversas partes do mundo para debaterem novos cenários para o jornalismo nos próximos anos. O seminário acontece nas dependências da Unesco em Paris, e é motivado pelos rebuliços provocados pelas ações do WikiLeaks e pelas escutas clandestinas que precipitaram o fechamento de um dos jornais mais tradicionais do Reino Unido.

Veja parte da programação:

Hoje, quinta, 16:
Painel 1 – Como os profissionais de mídia tratam o ambiente digital
Painel 2 – Profissionalismo e ética no ambiente de novas mídias depois do WikiLeaks e do News of the World
Painel 3 – Legislação internacional após WikiLeaks
Painel 4 – Relações entre governo e mídia depois do WikiLeaks

Amanhã, sexta, 17:
Painel 5 – Liberdade na internet após o WikiLeaks
Painel 6 – Jornalismo profissional e jornalismo cidadão trabalhando juntos após o WikiLeaks

Mais informações: http://www.unesco.org/new/en/communication-and-information/

Aaaahhhh!
Se você se interessa pelo tema, veja um livro sobre o WikiLeaks, um dossiê sobre o assunto e uma entrevista.

chamada de artigos na ciberlegenda

A equipe editorial da revista Ciberlegenda, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF), informa que recebe até 2 de abril artigos para a edição de julho de 2012.

Esse número terá como tema “Colisões entre o público e o privado em esfera midiática”, e a ementa é:

Os  embates entre as esferas pública e privada e a gradativa diluição de suas fronteiras, catalisados pela emergência das novas tecnologias de informação e comunicação. Os aspectos sociais, culturais, políticos, econômicos, tecnológicos e legais relativos às novas formas de construção de subjetividade, à exposição da intimidade e à “invasão” da privacidade. Utilização não autorizada de dados privados por agentes públicos ou empresas. Novas interfaces de construção e exposição de si no ciberespaço. Os processos de publicização e de tornar público o espaço privado. A visibilidade como reivindicação e como “armadilha”, nas diversas esferas midiáticas. Estratégias documentais e ficcionais que dialogam com os embates entre o público e o privado, em que tais colisões se manifestam como mediações entre a obra e os seus realizadores.

Mais informações em http://www.proppi.uff.br/ciberlegenda

vida digital, um estudo global

Foram apresentados publicamente os resultados de um amplo estudo sobre hábitos e apropriações de usuários digitais em 60 países, incluindo o Brasil. “Digital Life” é uma pesquisa que traz dados de 2011 a partir de entrevistas a 72 mil usuários de 16 a 65 anos, uma amostra de 93% da população mundial conectada. A pesquisa foi feita pela TNS, multinacional de pesquisa de mercado.

Alguns dados que chamam a atenção:

  • Dos 2,1 bilhões de internautas, 84% estão nas redes sociais e 33% elegem marcas como “amigas”
  • 80% deles usam o meio digital para conseguir informação e 78% levam em consideração comentários sobre marcas, produtos e serviços
  • No planeta, a média é que se destine 18 horas semanais à internet, quase um quinto disso nas redes sociais
  • O tempo conectado por dispositivos móveis vem crescendo e já ocupa 11% do total global
  • Esses dispositivos impulsionam o crescimento das redes sociais e dos comentários, e em países emergentes acaba sendo uma das únicas formas de estar conectado
  • Em junho de 2011, contava-se 200 milhões de tweets ao dia
  • 64% de quem posta comentários sobre uma marca, o faz para oferecer conselhos ou compartilhar uma experiência; 53% para criticar

O estudo interessa a empresas do setor de tecnologia e mídia, mas também a pesquisadores da área e a usuários comuns, que podem ter uma compreensão maior dos fenômenos atuais da comunicação.

Saiba mais sobre o estudo aqui

Veja a apresentação dos resultados dirigida à mídia!
(em formato PDF, em espanhol, 65 páginas e arquivo com 1,6 Mb)

um especial multimídia sobre o cérebro

La Información começou a publicar um caprichadíssimo especial multimídia sobre o cérebro humano. A primeira parte trata dos “cérebros reparados”, com implante de eletrodos biônicos, por exemplo, e já está online. A segunda parte – “En busca de la memória” – cai na web a partir do próximo dia 26.

É bonito, bem construído, muito informativo e útil.

Se você tem o cérebro lesado, como eu, fica a dica!

hackerismo e jornalismo

A revista Comunicação & Sociedade acaba de lançar nova edição, onde publica uma resenha minha sobre “Hackear el periodismo”, livro do jornalista argentino Pablo Mancini.

A obra é instigante, cheia de insights e marcadamente preocupada com a busca de novos papeis para o jornalismo. Vale a leitura.

Reproduzo a resenha, mas a edição completa da revista pode ser acessada aqui.

Hackerismo e Jornalismo

Os meios de comunicação ajudam a cristalizar um equívoco quando usam o termo “hacker” para designar vândalos cibernéticos e criminosos digitais que violam sistemas, roubam dados, picham sites. Até veículos especializados cometem esse deslize, e isso ficou evidente mais uma vez com a onda de ataques a páginas eletrônicas do governo brasileiro em junho passado: as invasões foram atribuídas a “hackers”.

Teria sido uma derrapada não fosse o fato de que há quase três décadas um livro reposicionava os hackers como protagonistas na história da informática. Em 1984, Steven Levy já os chamava de “herois da revolução na computação”. Compreender esses personagens significa não apenas evitar jogá-los na vala comum dos marginais, mas entender aspectos importantes da lógica que orientou a busca pela excelência tecnológica e a emergência de uma cultura de colaboração no trabalho e de compartilhamento de arquivos e conhecimentos.

Em “Hackear el periodismo: manual de laboratório”, o jornalista argentino Pablo Mancini se vale do conceito por trás desses personagens para discutir os limites atuais para o jornalismo numa nova ecologia comunicacional. Gerente de Serviços Digitais do Clarín Global, Mancini está atento aos movimentos do setor para buscar a sustentabilidade de projetos midiáticos e o redesenho das práticas informativas. As ilustrações a que recorre são exemplares, e o livro é recentíssimo – chegou ao público em abril de 2011.

Evocando Levy (1984) e Himanen (2002), Mancini se apressa a aliviar a carga semântica negativa sobre o termo. Com os autores que sistematizaram uma ética hacker, lembra que existem hackers em todas as profissões e não apenas na computação, e o que os define é uma predisposição de buscar a excelência com métodos pouco ortodoxos, inexplorados e inovadores. São personagens que se apoiam em valores como paixão, liberdade, consciência social, verdade e integridade; e se orientam para o livre acesso à informação e ao conhecimento. Portanto, compartilham o que sabem, buscam soluções para sua comunidade, facilitam o acesso e contornam dificuldades. Hackers são naturalmente curiosos e criativos, e perseguem o aperfeiçoamento de práticas, procedimentos e sistemas. É neste aspecto que Pablo Mancini aproxima hackerismo de jornalismo. Essa indústria está atravessando um período intenso de transformações que ensejam soluções, reconfigurações e reprogramações. Daí que necessita de “profissionais com uma visão estratégica que estejam à altura do mercado: hackers que se apropriem dos desafios e possam desenhar as soluções que os meios e a profissão precisam para se reinventar” (2011: p.16).

Para Mancini, hackear o jornalismo é trabalhar para aperfeiçoá-lo tecnicamente, é conjugar esforços para apontar saídas para sua manutenção como negócio viável, é operar para melhorá-lo como prática socialmente útil.

O autor propõe quatro portas para se entrar no núcleo funcional e hackear o jornalismo: tempo, audiência, valor e organização. Mancini despe-se de pretensões totalizantes, advertindo que não se trata de lei ou teoria, mas de uma proposta de análise e ação. Para ele, esses quatro aspectos são chaves das mudanças nas fábricas de notícias. Podem ser analisados separadamente, mas articulá-los em pares ou em quadratura auxilia uma visão mais ampla das transformações sem precedentes sofridas por essa indústria.

O diagnóstico não parece exagerado, afinal, como descreve o autor o tempo de consumo das informações já não é mais o mesmo; a audiência tem novas práticas junto aos meios; o valor das informações é também agregado de fora das redações; e os fluxos corporativos estão sendo reformulados. Com isso, se todas as coordenadas foram alteradas, o jornalismo também precisa de um novo endereço.

Com uma superoferta de informações, os meios de comunicação acabaram dilatando o período de consumo de seus produtos. Se antes a audiência se encaixava em janelas de tempo – o horário nobre da televisão, as horas da manhã para a leitura dos jornais… -, agora, o público não fica mais confinado nesses intervalos. A audiência não está mais em nenhum lugar porque ela flui, atravessa os meios, é turista dos suportes. Aliás, Mancini critica a obsessão das empresas pelos suportes, o que as estaria arruinando. “Se o conteúdo é transmídia, os meios serão pós-suporte” (op.cit.: p.34). Por isso que “o tempo da audiência está hackeando a incapacidade e a resistência à mudança que reina e governa a maioria das organizações jornalísticas” (op.cit.: p.24). A saída, segundo Mancini, é produzir brevidades, informações em pílulas, sob o mantra do “menos é mais”, de forma a capturar as fluídas audiências.

Aliás, os públicos vêm dotados de outras potencialidades. Em tempos como os nossos, as audiências são agentes também da distribuição dos conteúdos dos meios, algo que antes era prerrogativa exclusiva dos jornalistas e veículos. Os amadores2 tomam a Bastilha, geram material, intrometem-se no processo produtivo dos meios de comunicação, clamam por mais espaço de participação/interação. Para Mancini, não se trata de falar de prosumers, de jornalismo cidadão ou seus arredores. Está nascendo um novo animal midiático, capaz de “mudar a cadeia alimentar de uma ecologia até então endogâmica e autorreferencial” (op.cit.: p.41). A audiência tem o controle do tempo agora, é “a medula e o motor da distribuição de conteúdos”, o que causa tremores nas redações. Sistemas de reputação e recomendação online e audiências desdobradas em algoritmos assumem papeis cada vez mais determinantes na equação comunicativa.

Se a audiência não é mais um rebanho, compara Mancini, os meios também não podem se comportar como cardumes. Buscar se destacar das muitas opções é essencial para sobreviver. A homogeneidade gera a invisibilidade. A superabundância das informações acaba esvaziando parte do valor das próprias informações, seguindo uma lei econômica. O valor não vem mais apenas dela mesma, mas de outras fontes. Está em outra parte. Outro fator problematizador é que os produtos e serviços jornalísticos não são mais apenas lidos, vistos ou ouvidos. São também utilizados, pontua Mancini, trazendo à tona uma dimensão ainda pouco avaliada no setor: o valor de uso da informação.

Se o tempo, a audiência e o valor já não são mais os mesmos, a empresa jornalística também não pode se manter como está, sentencia o autor. É preciso reorganizar-se, o que não se traduz em reposicionar o mobiliário nas redações. Estão em jogo a eficiência das equipes e o valor do que elas produzem. No debate sobre integração de redações, planejamento versus experimentação, ganham mais força os movimentos para a inovação e o redesenho do jornalismo. “Nunca esteve tão claro que o capital dos meios são sua marca e seus recursos humanos (…) O desafio é extremo: depois de décadas otimizando modelos de negócios, agora temos que pensar os modelos produtivos” (op.cit.: p. 109). Mancini se pergunta se é possível produzir novos produtos em velhas fábricas. A saída não é única, e os caminhos apontados pelo autor vão desde a curadoria de conteúdos ao modus operandi da indústria dos games, da prática do remix – ao estilo dos Djs – à combinação bem equilibrada de habilidades e atitudes individuais e coletivas. Interessa é rearranjar a maneira de trabalhar o jornalismo, atuar para romper com modelos engessantes.

À guisa de conclusão, Mancini cita três iniciativas que estão hackeando o jornalismo: o WikiLeaks – site de vazamentos informacionais de governos e corporações -, o Huffington Post – portal onde a audiência é crucial para a criação do valor da informação – e o Newser – que oferece um redesenho da notícia, tendo a brevidade como valor agregado sobre o conteúdo. O que têm em comum esses exemplos? Têm funcionalidades disruptivas, rompem padrões e ajudam a reprogramar o jornalismo. Seu DNA está contaminado por fluidez, flexibilidade e originalidade, elementos raros na espécie.

Então, Pablo Mancini tem todas as respostas? Claro que não. Aliás, seu “Hackear el periodismo” pode frustrar o leitor ao final, já que deixa uma grande quantidade de perguntas sem respostas. As lacunas podem ser atribuídas à despretensão, à impotência ou à impossibilidade de resolvê-las agora. Mancini não oferece um necrológio da crise do jornalismo, mas um manual de laboratório. Parece pouco, mas propor que se mexa os braços é um bom começo para não afundar.

Referências bibliográficas

HIMANEN, Pekka. La ética del hacker y el espíritu de la era da la información. Barcelona: Destino, 2002

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2008

KEEN, Andrew. O culto ao amador. Rio de Janeiro: Zahar, 2009

LEVY, Steven. Hackers, heroes of the computer revolution. New York: Delta, 1984

MANCINI, Pablo. Hackear el periodismo. Buenos Aires: La Crujía/Futuribles, 2011